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Bullying e Relacionamento Professor-Aluno

3. BULLYING E RELACIONAMENTO PROFESSOR-ALUNO

3.1 Bullying e dinâmica escolar

Considerando a grande ocorrência de situações de bullying na escola, é importante analisar estudos que apontam dados referentes a aspectos pertinentes à dinâmica escolar, envolvendo especificidades da prática de

bullying no contexto escolar, a relação com o desempenho dos alunos, como

também o papel do professor.

Estudo desenvolvido por Woods & Wolke (2004) investigou a associação entre envolvimento em situação de bullying e desempenho escolar com crianças entre 6 e 9 anos. Os resultados não apóiam a suspeita de que baixo desempenho e frustração na escola levem a envolvimento em situações de

bullying. De modo contrário, verificou-se que agressores que atuam em relacional bullying, que envolve prejuízo aos relacionamentos levando a

exclusão social, com freqüência tem desempenho escolar na média ou até acima da média.

Estudo realizado na Nigéria (Egbochuku, 2007) abordou diversos aspectos sobre incidentes de bullying, como freqüência, local, idade, gênero, tipos de bullying e comparou os resultados em escolas públicas e privadas. Um aspecto a ser destacado, é que é mais comum o incidente de bullying ocorrer na sala de aula nas escolas públicas do que nas escolas privadas, onde os alunos revelam ser o pátio ou outros espaços da escola (diferentes da sala de aula) o local mais vulnerável a esta prática. Este estudo abordou ainda quem é o agressor, sendo revelado que para grande maioria (74%) o agressor é mais

velho – aluno de séries mais avançadas. Interessante, este dado, pois explica porque comumente a sala de aula não aparece com tanto destaque na ocorrência de bullying.

Estudo realizado no Brasil, explanado por Lopes Neto (2005) também indicou que aqui os estudantes identificam a sala de aula como o local de maior incidência desse tipo de violência.

Um outro estudo (Zindi, 1994) citado por Egbochuku (2007), realizado em colégios internos (residências), o dormitório foi o local mais apontado para situações de bullying, e a sala de aula tido como o espaço de menor ocorrência.

Na Nova Zelândia, os estudantes afirmam que bullying ocorre em locais onde não há professor, ocorrendo na sala de apenas na sua ausência (Carroll- Lind e Kearney, 2004).

Para Mascarenhas (2006), a gestão sistemática do bullying e da indisciplina em ambientes educativos, como uma atividade prioritária e de rotina institucional sob a co-responsabilidade de toda a equipe educativa e lideranças estudantis, pode afetar positivamente e determinar a melhoria na qualidade do bem-estar psicossocial de docentes e discentes e de sua saúde emocional. Quanto à saúde emocional e o bem-estar de alunos e professores, Palácios e Rego (2006) analisaram a literatura, apontando a importância de ser considerar a relação entre professores e alunos no bullying.

Situações de bullying são consideradas pelos educadores, erroneamente, e por que não irresponsavelmente, como natural da idade, ou como uma brincadeira. E assim, são ignorados, colaborando para a

Neto (2005) destaca que a maioria – 51,8% - dos alunos autores de bullying afirmaram que nunca receberam nenhum tipo de orientação ou advertência quanto à incorreção de seus atos.

A escola se preocupa demasiadamente com as situações de indisciplina, enquanto as situações de violência tão frequente entre os pares, o bullying, não tem recebido dos educadores a mesma atenção. Talvez, por conceberem que os problemas das crianças não são tão relevantes (Tognetta, 2010).

Martins (2005) explorou as percepções dos adolescentes sobre as atitudes de alunos e de professores diante de situações de bullying e aspectos referentes ao relacionamento dos adolescentes com colegas e com professores. Quanto aos relacionamentos com colegas e professores, os agressores são os que se sentem pior com a aprendizagem e com os professores. A maioria dos adolescentes considera que os professores se preocupam com a prática de bullying, mas que nem sempre sabem como agir.

Estudo de Chang (2003) investiga a relação entre as crenças e comportamentos dos professores e o comportamento agressivo, retraído e de liderança nos estudantes. Os resultados apontam que o comportamento do professor desaprovando comportamentos agressivos dos alunos e apoiando crianças com comportamentos retraídos ao mesmo tempo em que influencia a auto avaliação destes alunos provoca rejeição em relação às crianças agressivas, mas não em relação às crianças retraídas. Comportamentos de lideranças não tiveram impacto do comportamento de entusiasmo do professor. Em estudo desenvolvido por Tognetta e Vinha (2010), com alunos de escolas públicas e particulares brasileiras, além de diagnosticar o bullying como um problema sério que atinge crianças e adolescentes, as autoras

apresentam como resultado que os alunos referiram-se a situações que também foram humilhados, ameaçados, zombados por seus professores.

A partir do exposto, o presente estudo visa a ampliar o conhecimento do fenômeno bullying, destacando a inclusão da relação professor/aluno como eixo de análise da questão levantada. Se a sala de aula é cenário propício para a ocorrência de bullying, é fundamental focalizar nas relações existentes na sala de aula, de forma a ampliarmos a compreensão dos fatores que são responsáveis pela sua ocorrência.

A sala de aula, diferentemente do recreio, é cenário de intensas relações que permeiam o processo de aprendizagem. O espaço destinado às aulas, a sala, promove outros tantos fenômenos, marcados por questões afetivas, que são ignorados e, infelizmente, desvalorizados, entre eles a relação professor/aluno. O que esta relação pode descortinar sobre os conflitos escolares? Como o aluno percebe o comportamento do professor e seu envolvimento nestes conflitos? Como o professor contribui sem perceber para o fenômeno bullying? “A violência é tão velada que não pensamos que as formas de atuação de um professor também podem levar as crianças a serem alvos e autores de bullying, ainda que indiretamente” (Tognetta, 2010 p. 93).

Estas questões colocadas se apóiam na suspeita do intenso poder do professor a partir do momento que este souber valorizar e respeitar as relações interpessoais na escola, abrindo espaço para a afetividade como elemento da ação docente que não se esgota nos conteúdos.

3.2. Justificativa e Objetivos

O bullying é um fenômeno que tem se agravado nos últimos anos afetando os relacionamentos entre alunos nas instituições de ensino. Apesar de um grande número de investigações sobre sua ocorrência e conseqüências, o papel do relacionamento entre professor e aluno ainda é pouco conhecido em relação à prática de bullying. Conhecer como os alunos de ensino fundamental percebem suas relações com professores e investigar se estas estão relacionadas à prática de bullying na escola representa um problema de investigação com repercussões sociais e educacionais.

A relação professor-aluno é um dos aspectos mais importantes no mundo da escola. Desta forma, o objetivo deste estudo foi investigar possíveis interseções entre o relacionamento professor-aluno e o envolvimento em situações de bullying.

O objetivo geral foi investigar o papel da relação professor-aluno na ocorrência de situações de violência entre alunos. Como objetivos específicos, esta pesquisa buscou: (a) investigar se os estudantes associam a prática de

bullying como aspecto relevante no cenário da violência escolar; (b) investigar

se há o envolvimento dos participantes em situações de bullying e de que forma se dá este envolvimento: como alvo/vítimas, autores/agressores ou espectadores/testemunhas; (c) identificar características da relação professor- aluno; (d) identificar possíveis correlações entre diferentes aspectos do relacionamento professor-aluno e o envolvimento em bullying.