3 REVISÃO DE LITERATURA
3.1 Câncer de Próstata: fatores de risco e rastreamento
Os fatores que determinam o risco de um indivíduo desenvolver o CP não são totalmente conhecidos, embora três fatores de risco encontrem-se bem estabelecidos e são não modificáveis: aumento da idade, hereditariedade e etnia32-34.
Segundo o Centers for Disease Control and Prevention (CDC)35, quanto mais velho é
um homem, maior é o risco de desenvolver CP. Em cada 10 diagnósticos de CP, seis são em homens com mais de 65 anos. Ademais, homens que têm pai, irmão ou filho que tiveram CP são duas a três vezes mais propensos a desenvolver a mesma doença, e aqueles cujos parentes tiveram o diagnóstico com menos de 60 anos, apresentam maior risco de desenvolver também a enfermidade36. Além disso, o CP é
mais comum nos homens de raça negra. Ele tende a começar em idades mais jovens e crescer mais rápido do que em outros grupos raciais ou étnicos35.
As alterações genéticas também parecem aumentar o risco da doença, mas elas provavelmente representam apenas uma pequena porcentagem dos casos em geral. Mutações herdadas dos genes BRCA1 ou BRCA2 aumentam o risco de câncer de mama e de ovário em algumas famílias e podem também aumentar o risco de CP em alguns homens36.
Leitzmann, Rohrmann33, em 2012, realizaram uma revisão da literatura que revela que
a alta ingestão de produtos lácteos e carne vermelha podem aumentar o risco do CP. Ademais, fatores como obesidade e tabagismo foram relacionados, ainda que de maneira fraca, ao desenvolvimento dessa neoplasia. Como fatores protetivos para o CP, a revisão apresenta: a prática habitual de atividades físicas, o consumo frequente de produtos que contêm licopeno (tomate, goiaba, melancia), vegetais crucíferos (brócolis, couve, repolho, rúcula, rabanete, etc.) e alimentos à base de soja.
Quanto ao rastreamento do CP, seu objetivo é identificar o CP localizado de alto risco que pode ser tratado, prevenindo assim a morbidade e a mortalidade associadas ao CP avançado ou metastático34.
Há organizações de saúde que defendem o rastreamento afirmando que existem evidências de que tal prática é responsável pela redução da mortalidade por CP37,38.
Há outras que se posicionam contra o rastreio argumentando que não há evidências conclusivas de que detectar e tratar precocemente tenha influência na taxa global de mortalidade especifica por CP39. Alegam ainda que pacientes rastreados estão
sujeitos às complicações de um possível tratamento desnecessário, como: disfunções urinárias e sexuais40.
A seguir são apresentadas as últimas recomendações de algumas entidades de saúde:
A U.S Preventive Services Task Force (USPSTF) - entidade americana que regula ações de saúde nos Estados Unidos da América: em 2012, desaconselhava o rastreio do CP a todos os homens, alegando que, embora existissem potenciais benefícios do rastreio para o CP, esses benefícios não superavam os danos e por isso não recomendavam a triagem de rotina. Em 2018, a USPSTF apresentou uma mudança; aconselha aos homens com idades entre 55 e 69 anos de que a decisão de se submeter ao rastreio deve ser individual e que os possíveis benefícios e danos da triagem devem ser discutidos com o médico. Essa recomendação se aplica também aos homens com risco aumentado de CP por causa da raça/ etnia e histórico familiar da neoplasia prostática. A mudança no grau de recomendação baseia-se, em parte, em evidências que subsidiaram a certeza da USPSTF sobre reduções no risco de morte por CP e risco de morte pela doença metastática. Quanto aos homens com 70 ou mais anos, a USPSTF recomenda contra o rastreamento baseado em PSA para CP34;
A American Urological Association (AUA) não recomenda o rastreio do CP através do PSA em homens com idade inferior a 40 anos, também não aconselha o rastreio de rotina em homens com idade entre 40-54 que não tenham fatores de risco bem estabelecidos. Assim como a USPSTF, a AAU aconselha a tomada de decisão compartilhada para homens entre 55-69 anos de idade e não recomenda o rastreio em homens com mais de 70 anos de idade com uma expectativa de vida menor que 10 a 15 anos. Aos homens que
decidirem pelo rastreamento, a AAU propõe um intervalo de rastreio igual ou maior que dois anos41;
A European Association of Urology (EAU) e Associação Espanhola de Urologia (AEU) são favoráveis ao rastreamento: recomendam o rastreio do CP através da determinação do nível de PSA a homens com risco elevado: (1) homens com mais de 50 anos, (2) homens com mais de 45 anos que tenham antecedentes familiares com CP, (3) afro americanos com mais de 45 anos, (4) homens com um nível de PSA maior que 1 ng/ml aos 40 anos e (5) homens com um nível de PSA maior que 2 ng/ml aos 60 anos. Quanto ao intervalo entre um rastreio e outro, a AEU sugere de 2 a 8 anos, a depender do risco que o paciente apresente e do nível de PSA inicial. O rastreio deve ser descontinuado em indivíduos que tem expectativa de vida menor que 15 anos37,38;
A Sociedade Espanhola de Médicos da Atenção Primária recomenda o rastreamento aos homens: (1) que com 40-45 anos ou mais tenham antecedentes familiares de primeiro grau com CP, sobretudo se a enfermidade do familiar surgiu antes dos 60-65 anos de idade, (2) afro-americanos a partir dos 45 anos, (3) assintomáticos que tenham idade entre 55 e 69 anos, caso o paciente solicite e desde que sejam analisados os prós e contras do rastreamento para cada situação particular e (4) com expectativa de vida maior que 10 a 15 anos42;
O Instituto Nacional de Câncer no Brasil: recomenda que não se organizem programas de rastreamento para o CP e que homens que buscam espontaneamente a realização de exames de rastreamento sejam informados por seus médicos sobre os riscos e benefícios associados a essa prática39;
A Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) recomenda que homens a partir de 50 anos procurem um médico urologista, para avaliação individualizada. Aqueles de raça negra ou com parentes de primeiro grau com CP devem começar o rastreamento aos 45 anos. A SBU salienta que o rastreamento deverá ser realizado após ampla discussão de riscos e potenciais benefícios. Após os 75 anos deve ser realizado apenas para aqueles com expectativa de vida maior que 10 anos43.