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CÓDIGO DA PROPRIEDADE INDUSTRIAL

No documento Patentes de programas de computador (páginas 81-85)

4. DOUTRINA

7.2 CÓDIGO DA PROPRIEDADE INDUSTRIAL

No direito português o Código da Propriedade Industrial (CPI) é a principal ferramenta legislativa que regula os meios ao dispor dos inventores para proteger as suas criações. A legislação no âmbito dos direitos de propriedade industrial já existia desde o século XIX, tendo sido definitivamente compilada em 1940; todavia a evolução do ramo, influenciada pela adesão à Comunidade Económica Europeia e pela negociação do Acordo TRIPS, obrigou à revisão por via do Decreto-Lei n.º 16/95, de 24 de Janeiro, segundo as considerações iniciais do diploma, criando a versão de 1995. Todavia, a actual versão foi compilada em 2003 e sucessivamente revista desde então. Esta revisão geral, somente oito anos após a que foi exigida pela evolução tecnológica e legislativa a nível mundial, mostra quão revolucionado foi o regime dos direitos de propriedade industrial, forçando as alterações para “clarificar, corrigir, simplificar e

ao Código de Propriedade Industrial de 2008”, 3.º Volume, Pedro Ferreira Editor, Lisboa 2011, p. 523-530. PEREIRA, ALEXANDRE

DIAS, “Patentes de Software...”, ob. cit., p. 413, e VENÂNCIO, PEDRO DIAS, “A Tutela...”, ob. cit., p. 70-71.

273 VIEIRA, JOSÉ ALBERTO, ob. cit., p. 85.

aperfeiçoar o aprovado pelo Decreto-Lei n.º 16/95, de 24 de Janeiro, em muitos aspectos desactualizado”275.

O artigo 51.º276 do actual CPI estipula o regime das patentes, sendo certo que o

art. 52.º277 enumera as excepções respectivas. O respectivo n.º 1 d) estabelece uma limitação que lança algumas dúvidas na discussão da patenteabilidade de programas de computador. “Exceptuam-se do disposto no artigo anterior: d) Os projectos, os

princípios e os métodos do exercício de actividades intelectuais em matéria de jogo ou no domínio das actividades económicas, assim como os programas de computadores, como tais, sem qualquer contributo” (sublinhado nosso). Efectivamente, a definição do

conceito de programa de computador, como vimos supra278, não será a mais consensual, nem a nível legislativo nem a nível doutrinal, embora a opção tenha sido a delimitação negativa do conceito. Os programas de computador não são puras criações literárias, pois não têm teor artístico; mas também não são meras ideias, processos ou métodos internacionais279. Este artigo é em tudo similar ao 52.º nº 2 da Convenção da Patente Europeia.

A expressão “sem qualquer contributo” terá sido acrescentada em 2003, no que difere do artigo da CPE280. A nosso ver tal conceito não impede futuramente a orientação seguida na União Europeia quanto à patenteabilidade de invenções implementadas por computador, e reforça o nº 3 do artigo 52.º - “só exclui a

patenteabilidade quando o objecto para que é solicitada a patente se limite aos elementos nele mencionados”. Isto evidencia a necessidade de um programa de

computador ter um contributo técnico para que possa efectivamente ser patenteado, algo que a lei previu mas não definiu com clareza. O conceito de contributo técnico está ainda dependente do devido preenchimento pela doutrina, o que é problemático, dado que um programa de computador terá sempre uma função específica, portanto estará a

priori preenchido o requisito. Assim, o conceito de técnica ou contributo técnico deve

275 Conforme previsto nas considerações iniciais do DL 35/2003 de 5 de Março, que aprovou o CPI de 2003.

276 O artigo em questão deixa bastante claro que a falta de contributo técnico é fundamento para a recusa da patente, quer esteja em

causa um produto ou um processo. Assim, embora a lei não conceda uma definição do que é o “efeito técnico”, a sua inexistência, avaliada no caso concreto, tem justificado a recusa da patente, em especial no caso das invenções implementadas por computador. Vide CAMPINOS, ANTÓNIO, GONÇALVES, LUÍS COUTO E OUTROS, “Código da Propriedade Industrial Anotado”, 2ª Edição Revista e Actualizada, Almedina, 2015, p. 166-167.

277 A exclusão da patenteabilidade dá-se se a invenção, globalmente considerada, não tiver contributo técnico – isto é importante,

porque a análise é independente do estudo das reivindicações ponto por ponto. Assim, no caso dos programas de computador, o efeito técnico deverá ser um resultado que ultrapasse a simples interacção entre a máquina e as instruções para ela definidas. Vide CAMPINOS, ANTÓNIO, GONÇALVES, LUÍS COUTO E OUTROS, ob. cit., p. 171-172.

278 Reveja-se o ponto 1.1 da presente dissertação, no qual o conceito de programa de computador foi estudado. 279 PEREIRA, ALEXANDRE DIAS, “Patentes de Software...”, ob. cit., p. 411.

ser visto enquanto conhecimento e controlo dos meios conhecidos para o exercício de uma tarefa ou actividade predeterminada, de forma a obter um resultado previsível281.

No entanto, se existia previamente esta alínea, qual a necessidade de reforçar a falta de contributo? A nosso ver, a expressão “sem qualquer contributo” previne a evolução da realidade no sentido de permitir a patente de programas de computador que possam ter per si contributo técnico, sem se incluírem numa invenção com mais elementos, à semelhança do que acontece nos Estados Unidos282. Desse modo, a lei não barra a possibilidade futura de patentear simples programas de computador, salvaguardando em simultâneo os limites impostos à patente de meros algoritmos ou simples ideias. Certo é que os programas de computador nunca serão patenteáveis se as reivindicações se reduzirem a tal283; se for invocado carácter técnico na invenção, e se globalmente considerada a mesma tiver contributo técnico, a patente não será negada pelo simples facto de a invenção englobar um programa de computador284.

Precisamente neste aspecto reside um dos pontos mais conflituantes relativamente à patenteabilidade dos programas de computador – os defensores da patente no caso dos algoritmos. Por norma a sua protecção via patente é excluída por causa da equiparação dos algoritmos a simples métodos matemáticos285. Com efeito, o algoritmo combina elementos matemáticos – mas na prática termina por ser o cerne do programa de computador, e por ser o responsável pela produção do efeito técnico que em muitos casos é o motivo para se confirmar o pedido de patente. É o exemplo trazido pelo Diamond vs Diehr acima analisado286, e que motivou futuras patentes de programas de computador que integravam invenções e que tinham um papel relevante na produção do efeito técnico exigido para que a patenteabilidade seja reconhecida287. Entre nós, o INPI defende que o código em si não pode ser patenteado, mas as

281 GONÇALVES, LUÍS COUTO, “A Patente de Invenção e a Noção de Técnica”, Estudos Comemorativos dos 10 Anos da

Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa Vol II, Julho de 2008, Almedina, p. 289-292.

282 Neste país, o mero recurso a um computador justifica e preenche muitas vezes o aludido requisito técnico essencial para a

patenteabilidade. Este facto demonstra a artificialidade do programa de computador concebido como obra literária, e a influência dos aspectos económicos e concorrenciais nas normas aprovadas. Da pressão inicial para a protecção via direitos de autor – menos burocrática e mais favorável à comercialização – o mundo assistiu a uma escolha de um novo rumo no sentido radicalmente oposto, algo a que não será alheio a pressão das grandes empresas, com elevada capacidade económica e facilidade em litigar. Vide GONÇALVES, LUÍS COUTO, “A Patente...”, ob. cit.,, p. 315-317.

283 Um programa de computador sem contributo técnico terá uma mera função de tratamento de dados, que se subsume à função

primordial de um computador. Vide GONÇALVES, LUÍS COUTO, idem, p. 319.

284 MAIA, JOSÉ MOTA, “Propriedade Industrial Vol II...”, ob. cit., p. 145.

285 Relembramos aqui o supra analisado caso Gottschalk vs Benson, de 1972, no qual o pedido de patente foi indeferido, na medida

em que incidiria somente sob métodos matemáticos. Esta decisão foi fundamental para impedir o bloqueio da utilização de elementos que são ferramentas de trabalho para diversos inventores. Decisão acessível em http://caselaw.findlaw.com/us-supreme-

court/409/63.html.

286 O caso em apreço foi estudado no ponto 3.2.3 do presente trabalho.

funcionalidades que o mesmo implementa poderão por seu turno ser patenteadas. Um código-fonte, enquanto simples abstracção, equação matemática ou instrução definida para um programa de computador, não poderá ser patenteado, pelo que as reivindicações apresentadas para análise devem focar as funcionalidades das quais o mesmo se encarrega288.

Uma questão paralela que tem sido alvo de discussão na doutrina prende-se com a tutela de obras ou elementos, por norma criados por humanos e alvo de direitos de autor, que podem ser gerados autonomamente pelo programa de computador, carecendo de um regime específico289. Tal constitui um desafio aos direitos de autor que futuramente se poderá tornar cada vez mais complexo, à medida que evoluir a inteligência artificial290. Se o programa consegue gerar obras que na prática não têm interferência humana, não deve existir tutela moral de direitos de autor, mas pode haver valor comercial associado291. Existe uma posição que nos parece a mais correcta292 – uma obra gerada por computador, para que possa ter tutela legal no âmbito dos direitos de autor, deverá ter sido criada por intermédio do esforço de uma pessoa, que se servirá do programa como mero instrumento.

288 GOMES, R

UI e outros, ob. cit., p.3-4.

289 A título de reflexão, invoque-se o exemplo do supercomputador Watson, desenvolvido pela IBM. Os investigadores forneceram

ao programa diversos exemplos de trailers de filmes, de modo a instruir o computador quanto aos métodos correctos para construir um trailer com recurso a elementos como o som, a imagem e o suspense necessários. Posteriormente, foi processado no computador o filme Morgan, do estúdio Twentieth Century Fox – e pela primeira vez, a inteligência artificial foi capaz de desenvolver um trailer para um filme sem qualquer interferência ou corte da responsabilidade de humanos (disponível em

https://www.youtube.com/watch?v=gJEzuYynaiw). Este avanço mostra como o debate sobre direitos de autor de obras geradas por

programas de computador não é um assunto que pertença exclusivamente ao futuro. Mais em http://www.wired.co.uk/article/ibm-

watson-ai-film-trailer. Outro exemplo desconcertante é o que nos é trazido pela SONY CSL Research Lab, criadora do sistema

FlowMachines, capaz de compor música a partir dos elementos introduzidos na sua base de dados. É o sistema que compõe as canções – neste caso, com o auxílio do compositor Benoît Carré, obtendo-se resultados como “Daddy Song” em

https://www.youtube.com/watch?v=LSHZ_b05W7o. Notícia em http://revistagalileu.globo.com/Tecnologia/noticia/2016/09/ouca-

primeira-musica-pop-composta-por-inteligencia-artificial.html.

290 PEREIRA, ALEXANDRE DIAS, “Música e Electrónica: «Sound Sampling», Obras de Computador e Direitos de Autor na

Internet”, Direito da Sociedade da Informação, Associação Portuguesa do Direito Intelectual, Separata do Volume V, Coimbra Editora 2004, p. 332.

291 Para salvaguardar o valor comercial destas criações, a lei inglesa consagrou direitos de copyright sobre as mesmas, que

pertenceriam a quem predispôs o programa no sentido da produção da obra. Claramente tal só seria admissível num regime onde os direitos de autor têm índole essencialmente patrimonial, pelo que a solução inglesa acabou por não ter repercussão em outros regimes legais. Vide ASCENSÃO, JOSÉDE OLIVEIRA, "Estudos...”, ob. cit., p. 13.

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