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CAPÍTULO I: O PENSAMENTO RELIGIOSO DE PAINE – A IDADE DA RAZÃO

3. C THE AGE OF REASON E O PAINE PANFLETÁRIO

Para o bem ou para o mal, quase todos os autores rememoram a importância da linguagem empregada por Paine. Segundo Foner, em Paine

uma das chaves para a mudança social é uma mudança na própria natureza da linguagem, seja com a emergência de novas palavras, seja com velhas palavras tomando novos sentidos (...) Seu estilo literário, sua rejeição da deferência e o seu republicanismo político eram todos interdependentes: para Paine, o meio e a mensagem era uma coisa só (...) Somente Paine tinha saído da mesma audiência de massa que devorou suas obras dos dois lados do Atlântico.462

Bailyn notou os seguintes traços no panfleto Common Sense:

A superfície verbal do panfleto é inflamada e queimava na consciência dos contemporâneos porque por debaixo dela estava a ardente convicção que toda a organização da sociedade e do governo era estúpida e cruel e que sobrevivia apenas porque as atrocidades que sistematicamente impunha à humanidade estavam vestidas com a veneração da mitologia e da superstição.463

Para Bertrand Russel, “a importância de Paine para a História consiste no fato de que ele transformou a pregação da democracia em algo democrático”.464 No caso específico da linguagem empregada em The Age of Reason, o ataque à moral e à teologia cristã é direto e forte, de maneira que “não é difícil entender porque os leitores cristãos de Paine ficaram ofendidos com algumas formulações, senão com a obra inteira. (...) Ser direto, e não diplomático, sempre foi a força de Paine”.465 Numa dura crítica, Horace Walpole, aristocrata inglês do século XVIII, afirmou que a linguagem dos textos de Paine “é tão grosseira que faz pensar que ele pretende degradá-la tanto quanto pretende degradar o governo”. Para o poeta e

462 FONER, Eric. Tom Paine and the Revolutionary America. New York: Oxford University Press, 1976, pp.

15 e 85-86.

463 BAILYN, Bernard. Fundamental Testaments of the American Revolution. Washington: Library of

Congress, 1973, pp. 20-22.

464 RUSSEL, Bertrand. Por que não sou Cristão?, cit., p. 91.

filósofo Brooke Boothy, Paine “escreve desconfiado da gramática, como se a sintaxe fosse uma invenção democrática”.466

Mas o que era, no final do século XVIII, um panfleto, e qual a sua importância para o contexto da Era das Revoluções, notadamente nos Estados Unidos e na França? No século XVIII, os panfletos eram livretos que consistiam em algumas folhas de impressão, dobrados de vários modos de forma a produzir vários tamanhos e números de páginas. George Orwell definiu os definiu da seguinte forma:

O panfleto é uma manifestação única. A pessoa tem completa liberdade de expressão, incluindo, se a pessoa escolher, a liberdade de ser obscena, abusiva e sediciosa; ou, por outro lado, ser mais detalhada, séria e ‘metida a intelectual’ do que seria possível num jornal ou periódico. Uma vez que o panfleto é sempre curto e não encadernado, pode ser produzido muito mais rapidamente do que um livro, e, em princípio, de qualquer maneira, pode atingir um público maior. Sobretudo, o panfleto não tem de seguir qualquer padrão prescrito. Pode ser em prosa ou em verso, pode consistir amplamente de mapas ou estatística ou citações, pode tomar a forma de uma história, uma fábula, uma carta, um ensaio, um diálogo ou uma reportagem. Tudo que se exige dele é que seja tópico, polêmico e curto.467

Exigindo menor tempo e recursos para sua publicação, os panfletos foram fundamentais na Era das Revoluções. A leitura no século XVIII, importante frisar, não era uma atividade estritamente individual – Robert Darnton468, ao analisar a repercussão de La nouvelle Héloise de Rousseau, mostrou que ela era uma experiência intensa, uma vez que os

homens de posse viviam para o lazer e os outros meios de comunicação ainda não competiam com os livros. Os leitores de Rousseau buscaram utilizar os ensinamentos de seu mestre para casar, amar, criar seus filhos e tornarem-se pessoas mais virtuosas. No século XVIII, mesmo as características físicas dos livros eram importantes: o leitor prestava atenção no peso e transparência do papel.

No século XVIII, aliás, o debate acerca da linguagem estava na ordem do dia, e uma renovação no campo do discurso já estava em curso. Por exemplo, autores fundamentais – como Etienne Bonnot de Condillac, em Ensaio sobre a Origem dos Conhecimentos Humanos (1746), Adam Smith, em A Teoria dos Sentimentos Morais e as Dissertações sobre a Origem

da Linguagem (1759), e, sobretudo, J. J. Rousseau, no Ensaio sobre a Origem das Línguas

466 Todas as citações acima referidas foram retiradas de FLORENZANO, Modesto. Começar o mundo de novo:

Thomas Paine e outros estudos, cit.

467 ORWELL, George e REYNOLDS, Reginald. British Pamphleteers. London: Allam Wingate, 1948-1951, p.

15.

(datado, provavelmente, de 1759) – fizeram as reflexões mais contundentes do iluminismo acerca da linguagem.

Rousseau foi um dos autores mais influentes para a geração de Paine. Considerando que "a princípio só se falou pela poesia"469, no Ensaio sobre a Origem das Línguas, Rousseau – vinculando a origem da língua à sociabilidade - mostra como o avanço da civilização castrou a paixão e a energia original das linguagens:

À medida que a língua se aperfeiçoou, a melodia, impondo-se a si mesma novas regras, insensivelmente perdeu algo de sua antiga energia e substituiu o cálculo dos intervalos pela delicadeza das inflexões (...). Tendo o estudo da filosofia e o progresso do raciocínio aperfeiçoado a gramática, excluíram também da língua aquele tom vivo e apaixonado.470

No mundo greco-romano, no qual um discurso poderia ser ouvido com facilidade na praça pública por um dia inteiro, a linguagem estava vinculada a certa musicalidade: "assim, a melodia, começando a não permanecer tão intimamente ligada ao discurso, insensivelmente tomou uma existência à parte e a música se tornou mais independente das palavras (...) Eis como o canto aos poucos se tornou uma arte inteiramente separada da palavra".471

A derrocada dessa linguagem viva e melodiosa, para Rousseau, está associada à derrocada da liberdade: "a Europa, inundada de bárbaros e ignorantes, perdeu ao mesmo tempo suas ciências, suas artes e o instrumento universal tanto de umas quanto de outras, isto é, a língua harmoniosa e aperfeiçoada".472 A crescente identificação entre a escrita e fala também contribuiria para essa derrocada: "para rapidamente tornar uma língua fria e monótona, basta estabelecer academias no seio do povo que a fala".473

Rousseau, assim, associa linguagem e liberdade: "Heródoto lia sua história aos povos da Grécia reunidos ao ar livre e tudo ressoava com aplausos. Hoje, o acadêmico que, num dia de assembleia pública, lê uma memória, é ouvido com dificuldade no fundo da sala".474 O mundo livre é o mundo das assembleias, dos grandes oradores; o mundo escravo é o mundo dos sermões: "afirmo ser uma língua escravizada toda aquela com a qual não se consegue ser ouvido pelo povo reunido”.475 (...) "alguém, por saber ler um pouco de árabe, sorri ao folhear

469 ROUSSEAU, J. J. Ensaio Sobre a Origem das Línguas. São Paulo: Abril Nova Cultural, Coleção Os

Pensadores, 1973, p. 164. 470 Ibid., p. 196. 471 Ibid., pp. 196 e 198. 472 Ibid., p. 197. 473 Ibid., p. 173. 474 Ibid., p. 199. 475 Ibid., p. 199.

o Alcorão, mas, se tiver ouvido Maomé a proclamá-lo (...) prostrar-se-ia ao solo".476 Aos governos tirânicos, portanto, é interessante a escravização da linguagem.

Associando linguagem e liberdade, assim, Rousseau clama para que a linguagem opere em outro princípio, assumindo uma qualidade, por assim dizer, mais imagética, pictórica. Tal seria a palavra conveniente aos povos livres.

Pode-se dizer que Paine filia-se à proposta de Rousseau? Parcialmente. Por um lado, a obra de Paine, "por seu conteúdo e pathos, tem a grandeza de um discurso de Péricles aos atenienses, e, por sua linguagem despojada e coloquial, o encanto poético de uma letra de Bob Dylan".477

Por outro lado, Paine, entretanto, distancia-se de Rousseau ao rejeitar o grego e o latim, como se viu. O pensador inglês via o estudo das línguas antigas como algo antiquado, anticientífico e um tanto aristocrático; um tempo perdido que, no fundo, representava um entrave ao estudo das ciências. Paine em toda sua atividade filosófica adotou essa posição, por assim dizer, anti-intelectual e anti-acadêmica, que rejeitava sistematicamente a citação de outros autores ou a filiação a correntes filosóficas específicas. Eis o fosso que os separa: se Rousseau, erudito, embora antiacadêmico, utiliza padrões e convenções retóricos de sua época para implodi-los, Paine, panfletário e antiacadêmico rejeita-os por completo.

No contexto da Revolução Norte-Americana, quando Paine projetou-se como penasador, os panfletos estavam no centro do debate político. Bailyn, principal estudioso dos panfletos da Revolução Norte-Americana, lembra como

[os panfletários] foram, com frequência, em sua própria época e depois, subestimados como mero divulgadores. Se seus conceitos chave – direitos naturais, a base contratual da sociedade e do governo, a singularidade da constituição mista e preservadora da liberdade da Inglaterra – eram lugares- comuns do pensamento liberal da época, a ênfase neles colocada e o seu uso não o eram.478

Esse desprezo com a obra de Paine e dos panfletários, em parte, se deve à persistência do que Ginzburg chamou de “concepção aristocrática de cultura”479, segundo a qual ideias

476 ROUSSEAU, J. J. Ensaio Sobre a Origem das Línguas, cit., p. 186.

477 FLORENZANO, Modesto. Começar o mundo de novo: Thomas Paine e outros estudos, cit. 478 BAILYN, Bernard. As origens ideológicas da Revolução Americana, cit., p. 24.

479 GINZBURG, Carlos. O queijo e os vermes. São Paulo: Cia das Letras, 1987, p. 17. Opondo-se a essa

concepção aristocrática de cultura, o estudo de Carlo Ginzuburg, por exemplo, mostrou como o humilde moleiro Menoccchio, ao invés de apenas receber informações passivamente, fez leituras diversas e construiu uma visão original, não cristã, do mundo ao redor. O estudo de Ginzburg é uma prova, justamente, de que é errôneo pensar a difusão de ideias iluministas como uma mera vulgarização; ocorre, muito mais, uma ressignificação de ideias a

originais são consideradas, por definição, produto das classes superiores, enquanto sua difusão entre as classes subalternas é encarada meramente um fato mecânico, a “deterioração”, “deformação” e “vulgarização” das ideias originais.

Bailyn, portanto, analisa os panfletos da Revolução Norte-Americana sob outra chave. Ele lembra como mesmo os maiores panfletos raramente eram enfadonhos, e, qualquer que fosse a gravidade e amplitude de seus temas, deveriam ser sempre essencialmente polêmicos. As apóstrofes, as hipérboles, as personificações vívidas, as metáforas, a sátira, a fina ironia, a grossa paródia, a alegoria extensa, o vitupério direto, o sarcasmo eram algumas das armas intensamente utilizadas pelos panfletários contra seus inimigos.480

Junto a Thomas Paine, John Trenchard, Robert Molesworth, Thomas Gordon, ligados a uma tradição republicana inglesa dos séculos XVII e XVIII, herdeira do humanismo cívico florentino, seriam os principais panfletários do período. Nesse sentido, não sem certo exagero, Bailyn diz que Paine foi, depois de Marx, o mais influente panfletário de todos os tempos.481 Com sua convicta oposição ao establishment intelectual482, Paine tinha uma preocupação consciente e quase obsessiva com a universalização do saber até atingir todos os homens: “é meu intento fazer com que aqueles que só podem ler compreendam, por isso quero evitar todo ornamento literário e me expressar em linguagem simples como o alfabeto”.483

Se, na Revolução Norte-Americana, a linguagem revolucionou-se junto à política, o mesmo pode-se dizer sobre a Revolução Francesa. Durante a Revolução Francesa, a linguagem – tanto nos panfletos, quanto nas assembleias – teve uma importância fundamental, tornando-se ela própria revolucionária. O político e panfletário Brissot já apontava a imprensa como forma de “ensinar a verdade no mesmo momento para milhões de pessoas”.484

Dessa maneira, pode-se verificar na Revolução Francesa, por um lado, uma tentativa de retomar a passionalidade dos discursos, tal como proposto por Rousseau, e, por outro, uma força implacável dos panfletos, tal como ocorrera na Revolução Norte-Americana. Aliás, em quinhentos catálogos de bibliotecas particulares, na região de Paris, entre 1750 e 1780, Daniel Mornet, encontrou apenas um exemplar Du Contrat Social.485 Por isso, ele chegou à

partir de um outro contexto (social, cultural, etc), dentro do qual, como mostrou Ginzburg, criam-se visões e noções originais de mundo.

480 BAILYN, Bernard. As origens ideológicas da Revolução Americana, cit., p. 25. 481 Ibid., p. 260.

482 FLORENZANO, Modesto. Começar o mundo de novo: Thomas Paine e outros estudos, cit. 483 KEANE, John. Tom Paine: a Political Life, cit., p. 10.

484 BRISSOT, J. P. Mémoire aux Etats-Gfénéraux. Paris: 1789, p. 10. Apud ROCHE, Daniel e DARNTON

Roche. Revolução Impressa. São Paulo: Edusp, 1989, p. 199.

485 MORNET, Daniel. Les enseignements des bibliothèques privées 1750-1780. Apud DARNTON, Robert. Boemia Literária e Revolução. São Paulo: Cia das Letras, 1989, p. 168.

conclusão de que as obras hoje consideradas “clássicas” talvez não tenham sido tão influentes quanto se possa imaginar (pelo menos no que diz respeito às camadas populares), ao passo que muitos escritores absolutamente influentes tiveram seus nomes apagados da história.

Foi partindo desse problema que o historiador Robert Darnton propôs, em Boemia

Literária e Revolução, uma nova forma de encarar o Iluminismo: vê-lo, como tanto foi feito

com outros temas, de baix486: “a cultura literária do Antigo Regime não pode ser concebida exclusivamente em termos de seus grandes livros”.487

O autor demonstrou que, para entender o Iluminismo e a “Era das Revoluções”, é preciso investigar como as ideias se movimentam no tecido da sociedade. Darnton, assim, utilizou o conceito de Iluminismo underground, no qual se encontrariam ideias fundamentais para a Era das Revoluções: “as origens intelectuais da Revolução Francesa e o caráter de sua política podem ser mais bem compreendidos se descermos da Encyclopédie ao underground, lá onde homens como Brissot produziam jornais e panfletos, cartazes e caricaturas, canções, boatos e libelles”.488 Numa época em que o público de leitores era cada vez maior, jovens panfletários liam Voltaire e ardiam de ambição em ser um philosophe. Por exemplo, o livro

Les Fastes de Louis XV, um relato escabroso da vida sexual do rei, figurava entre os mais

vendidos na época. O papel desse iluminismo underground na Era das Revoluções foi exprimir o ódio pelo Ancien Régime, dessacralizar símbolos e destruir mitos, "o panfletarismo rude dos subliteratos foi revolucionário enquanto sentimento e enquanto mensagem".489

Por essa análise da Revolução Francesa e Norte-Americana, nota-se, portanto, o papel central dos panfletos, meio fundamental de difusão das luzes no tecido social (não obstante, claro, a diferença evidente entre os dois mundos, tendo o primeiro maior espaço para os grupos libertinos, ao passo que o segundo ainda é profundamente religioso).

Não se pode dizer, de maneira alguma, que Thomas Paine era um panfletário

undeground; entretanto, pode-se dizer que havia, na Era das Luzes, alguns elementos

compunham um vocabulário político amplamente difundido no período, do qual Paine é tributário.

Entretanto, não é apenas dentro dos panfletos que a linguagem da Era das Revoluções torna-se revolucionária. No decorrer da Revolução Francesa, falar e escrever estiveram na ordem do dia. As palavras, impregnadas de grande arrebatamento, estavam investidas de um forte significado emocional. Palavras associadas ao Antigo Regime, como aristocracia ou

486 DARNTON, Robert. Boemia Literária e Revolução, cit., pp. 13-14.

487 DARNTON, Robert. O Beijo de Lamourete. São Paulo: Cia das Letras, 1990, p. 223. 488 DARNTON, Robert. Boemia Literária e Revolução, cit., p. 76.

privilégio, foram estigmatizadas. Novas designações revolucionárias substituíam nomes identificados com o Antigo Regime. “Procuradores” e “advogados” – profissionais do Antigo Regime – tornaram-se “homens da lei”, ao passo que os “impostos” tornaram-se “contribuições”. Certas palavras eram carregadas de encantamento: pátria, constituição, lei, nação, regeneração, virtude e vigilância são alguns exemplos.

Lynn Hunt mostra como “na oratória da Convenção, em especial, o verbo frémir (tremer, vibrar, sacudir) aparecia vezes sem conta; os oradores falavam direto ao coração dos ouvintes (embora raramente de improviso!)”.490 O próprio uso do termo “Antigo Regime” é altamente persuasivo, pois associa o regime absoluto a algo carcomido, a que não se pode mais dar crédito: a sociedade francesa era retoricamente dividida entre algo antigo e algo novo trazido pela Revolução.

A retórica revolucionária, dessa forma, era um instrumento de transformação política e social: enquanto os franceses buscavam criar uma comunidade completamente nova e romper com um passado nacional, sua linguagem também deveria romper com esse passado, sem apoiar-se, como os norte-americanos e os ingleses, em qualquer “passado mítico” – por isso, estão ausentes nos discursos franceses os tão utilizados argumentos de autoridade por referência a origens históricas. Não havia uma época de ouro religiosa ou histórica que eles quisessem reviver: apenas um futuro imprevisível e um presente instável. O passado, com suas práticas absurdas, tinha poucas diretrizes a oferecer. Analogias familiares com o poder, tão comuns no Antigo Regime, também eram eliminadas: os revolucionários “pareciam estar retoricamente matando o rei, seu pai, muito antes de a Convenção votar de fato pela sentença de morte”.491 Lyyn Hunt chega a comparar os discursos do período jacobino a um enredo de romance, no qual a revolução parecia uma grande luta de heróis gloriosos contra uma série de forças demoníacas da contrarrevolução.492

Thomas Paine, revolucionário de dois mundos, não está totalmente amente ligado a essa caracterização, mas não escapa dela inteiramente. Paine, por exemplo, também se vale do uso de palavras impactantes ao referir-se ao Antigo Regime – como, por exemplo, dizer que a Igreja visa “aterrorizar e escravizar a humanidade”493, associa o cristianismo ao Antigo Regime, e representa a batalha do deísmo contra a superstição como uma luta da verdade contra a ignorância. Daí, em certa medida, a linguagem de Paine estar associada ao que Lyyn Hunt chamou “romance": nada mais romanesco que a luta da Luz contra as Trevas, metáfora

490 DARNTON, Robert. Boemia Literária e Revolução, cit., p. 68.

491 HUNT, Lynn. Política, Cultura e Classe na Revolução Francesa, cit., p. 54. 492 Ibid., p. 58.

consagrada da Ilustração: “a teoria Cristã é pouco mais que a idolatria dos antigos mitologistas, acomodado aos propósitos de poder e dinheiro; e agora pertence à razão e à filosofia a tarefa de abolir essa fraude anfíbia".494

Lynn Hunt mostra ainda como as tão utilizadas analogias bíblicas – utilizadas nos discursos da independência dos EUA – eram drasticamente excluídas da linguagem revolucionária francesa. Paine corrobora argumento da historiadora: embora, em O Senso

Comum, no contexto de Revolução Norte-Americana, o autor utilize diversas analogias

bíblicas, tal artifício é excluído de The Age of Reason. Nada aparentemente mais contraditório com os princípios de The Age of Reason do que certas passagens de Paine em Senso Comum:

O governo dos reis foi introduzido pelos pagãos, dos quais os filhos de Israel copiaram o costume. (...) Passaram-se quase três mil anos depois da criação da terra, de acordo com o relato de Moisés, até os judeus, abalados por uma decepção nacional, exigirem um rei. Até então, a sua forma de governo fora uma espécie de república.495

As analogias bíblicas do Senso Comum, longe de representar uma “hipocrisia” de Paine, ou de mostrar que esse pensador era religioso anteriormente, representam um artifício retórico muito comum. Como se viu, tudo indica que Paine já era simpatizante do deísmo nos tempos norte-americano.

Portanto, assim, como, do ponto de vista do conteúdo, The Age of Reason defende uma relação direta entre Deus e homem, do ponto de vista da forma, o texto busca ser igualmente direto, sem os "tumores" (como chamou Agostinho)496 que poderiam obstruir o caminho entre Deus e o Homem. Aliás, "na maior parte do livro, as referências e as alusões bíblicas do autor são imediatamente reconhecíveis pelo leitor pouco entendido da Bíblia e da tradição cristã".497

O efeito dessa escrita simples e grandiosa é fazer as palavras ecoarem na mente dos leitores, suscitando reflexões e exaltando ânimos. Assim, durante a leitura de The Age Of

Reason, por diversas vezes o leitor deixa o texto de lado para repetir consigo frases grandiosas

como "Minha consciência é minha única Igreja"498 ou "a mais formidável arma contra erros de todas as espécies é a Razão".499

494 The Age of Reason, p. 467. 495 Common Sense, p. 10.

496 MAMMI, Lorenzo. Santo Agostinho: O Tempo e a Música. Doutorado em Filosofia, Universidade de São

Paulo, 1998, pp. 112-115.

497 PHILP, Mark. Paine, cit., p. 102. 498 The Age of Reason, p. 464. 499 Ibid., p. 463.

O uso constante de interrogações retóricas por Paine revela seu didatismo e um estilo de escrita direto e cadenciado: "Queremos contemplar o Seu poder? Nós o vemos na