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Cabe pois ver se, em Maio de 2006 – data em que o antecessor do R

5. Fundamentação de direito

5.4. Vejamos, então, se a referida ordem de transferência foi legal, como defende a recorrente, à luz do regime jurídico da transferência do local de

5.4.2. Cabe pois ver se, em Maio de 2006 – data em que o antecessor do R

determinou a transferência de local de trabalho do A. através do escrito documentado a fls. 94 – se verificavam os pressupostos legais para o empregador determinar a transferência do A. ora recorrido para local de trabalho distinto daquele que anteriormente ocupava e foi judicialmente reconhecido.

O artigo 315º do Código do Trabalho prevê as duas situações em que é admitida a mudança definitiva de local de trabalho por determinação da entidade patronal ao dispor nos seguintes termos:

«Mobilidade geográfica

1 — O empregador pode, quando o interesse da empresa o exija, transferir o trabalhador para outro local de trabalho se essa transferência não implicar prejuízo sério para o trabalhador.

2 — O empregador pode transferir o trabalhador para outro local de trabalho se a alteração resultar da mudança, total ou parcial, do estabelecimento onde aquele presta serviço.

3 — Por estipulação contratual as partes podem alargar ou restringir a faculdade conferida nos números anteriores.

4 — No caso previsto no nº 2, o trabalhador pode resolver o contrato se

houver prejuízo sério, tendo nesse caso direito à indemnização prevista no nº 1 do artigo 443º.

5 — O empregador deve custear as despesas do trabalhador impostas pela transferência decorrentes do acréscimo dos custos de deslocação e

resultantes da mudança de residência.»

No n.º 1 do preceito prevê-se a chamada transferência individual, que pressupõe a simples mudança de um posto de trabalho, permanecendo imutável o complexo físico da organização empresarial. O conceito

indeterminado de “prejuízo sério”, tal como sucedia no regime previsto no antecedente art.º 24º da LCT aprovada pelo Decreto-Lei n.º 49 408, de 24 de Novembro de 1969, continua a desempenhar uma função central no

tratamento normativo desta matéria. A existência de um “prejuízo sério”

habilita o trabalhador, nesta modalidade de transferência, a optar por: (i) permanecer no seu local de trabalho, desobedecendo à ordem patronal (ius resistentiae); ou (ii) resolver de imediato o vínculo, com o consequente direito a indemnização. No que concerne ao critério de repartição do ónus da prova,

as alterações ao regime da transferência do trabalhador introduzidas pelo Código do Trabalho, apesar de serem claras quanto à atribuição do ónus da prova ao trabalhador no caso de transferência colectiva, não eliminaram as divergências doutrinárias e jurisprudenciais no caso de transferência

individual.

Por seu turno, o n.º 2 do citado art.º 315º dispõe sobre os casos da denominada transferência colectiva. Ao contrário do que sucede na transferência individual, o único meio de resistência consentido aqui ao trabalhador, reconduz-se à resolução do vínculo, necessariamente

acompanhada da respectiva indemnização, desde que a transferência seja susceptível de lhe causar “prejuízo sério”. No domínio probatório desse

prejuízo, o regime actual estabelece uma relevante diferença relativamente ao regime anterior: enquanto o mencionado art.º 24º da L.C.T. reconhecia ao trabalhador, nesta modalidade de transferência, a faculdade de romper o vínculo, salvo se a entidade patronal provar que da mudança não resulta prejuízo sério para o trabalhador (parte final do n.º 2), o regime vigente eliminou essa presunção e o consequente ónus infirmativo a cargo do

empregador. Neste caso de transferência colectiva, a existência de “prejuízo sério” perfila-se como pressuposto constitutivo do direito do trabalhador a resolver o contrato com indemnização, a este cabendo o ónus da sua prova [10].

Em ambos os casos a transferência só é admissível se o “interesse da

empresa” o exigir. Ou seja, em qualquer caso, deve tratar-se de uma decisão que possa explicar-se em termos de racionalidade de gestão e não uma

decisão tomada de ânimo leve, sendo que no caso da transferência colectiva é conferida uma protecção absoluta ao interesse organizativo e gestionário do empregador.

Assim, se a empresa quiser transferir singularmente um seu trabalhador, cabe-lhe alegar e provar que o faz por exigência organizativa objectivamente relevante, sem o que essa pretensão não deixará, desde logo e sem mais, de se assumir como ilegítima[11].

Só depois de reconhecer o interesse da empresa é que cabe ao tribunal avaliar os eventuais prejuízos do trabalhador que legitimam a oposição à

transferência, o que não deixará, apesar disso, de exigir um confronto entre esses dois interesses conflituantes: o interesse do trabalhador na “estabilidade geográfica” da prestação e o interesse empresarial.

A legalidade da ordem de transferência não se basta com estes requisitos substanciais. A par deles, exige-se também que o empregador observe os requisitos plasmados no art. 317.º do Código do Trabalho, tornando-se imperioso, em suma, que o empregador cumpra o prazo legal e indique, por

escrito, o fundamento que o leva a implementar a transferência.

No presente recurso não estão em causa os requisitos procedimentais, mas os requisitos substanciais enunciados (a exigência do interesse da empresa e a inexistência de prejuízo sério para o trabalhador).

E, de entre eles, perfila-se em primeiro lugar a análise do invocado “interesse da empresa”.

Na transferência individual (definitiva ou temporária), o juízo do tribunal

sobre a legitimidade da ordem pressupõe que se demonstre que o interesse da empresa exige a transferência (ao invés do que sucede na transferência

colectiva em que a lei presume “juris et de jure”um interesse funcional da empresa), devendo a justificação objectiva de gestão que está na base da

transferência do trabalhador constar da ordem de transferência nos termos do artigo 317.º do Código do Trabalho e sendo a partir desta que se vai sindicar se o interesse da empresa ali invocado justifica a anunciada alteração

contratual.

Segundo Albino Mendes Baptista, o interesse da empresa corresponde a razões organizativas, produtivas ou técnicas que constituam “um motivo de gestão empresarial objectivamente avaliável”[12].

Maria do Rosário Palma Ramalho, a propósito deste pressuposto, salienta que

“só um fundamento objectivo de gestão pode, efectivamente, justificar a ultrapassagem do acordo das partes por um acto unilateral do empregador, em projecção do princípio da prevalência dos interesses de gestão”[13].

Pedro Madeira de Brito, também a este propósito, escreve que “face à necessidade de sindicabilidade judicial deste pressuposto, cabe ao juiz

verificar se existe uma alteração na organização que justifique a utilização da faculdade (…).”[14]

Tendo presente este enquadramento normativo e doutrinário, relembremos o teor da comunicação da R. ao A. de 3 de Maio de 2006:

“Exmo. Sr. Dr.

Venho comunicar a V. Exa. que a partir desta data passará a desempenhar funções de Responsável directo da Unidade Operacional da Póvoa de Varzim/

Vila do Conde (anteriormente designada Delegação da Póvoa de Varzim/Vila do Conde).

Esta decisão justifica-se pela circunstância de aquela Unidade Operacional se encontrar sem Responsável directo, encontrando-se a de Matosinhos a ser efectivamente dirigida pela Senhora Directora Regional do Norte. Assim, e por motivos de organização dos serviços deste Centro de Gestão Participada,

deverá assumir aquelas funções a partir desta data (…)».

Deve precisar-se, antes de mais, que a transferência determinada nesta comunicação entregue ao recorrido em 3 de Maio de 2006 (facto 21.) deve

qualificar-se como uma transferência definitiva, pois que a ordem escrita emitida não contém qualquer indício de que se revestisse de carácter

temporalmente limitado o exercício funcional que ali era determinado ao A., a desenvolver na Unidade da Póvoa do Varzim/Vila do Conde. Aliás, a tratar-se de transferência temporária, da ordem deveria constar o tempo previsível da alteração que, salvo condições especiais, não pode exceder seis meses (artigo 316.º, n.º 3 do Código do Trabalho).

No que diz respeito aos motivos invocados na comunicação para fundamentar a ordem de transferência, da análise do seu texto e dos demais factos que ficaram provados na sentença – e de outros não nos podemos socorrer, vg. dos factos que ex novo o recorrente vem alegar no recurso – cremos não poder retirar-se que, no desenvolvimento da actividade empresarial sobreveio um facto que tenha alterado a dinâmica organizacional que se verificava antes de Maio de 2006 e que justifique haver, nesta ocasião, um interesse empresarial da recorrente em usar da faculdade de alterar o local de trabalho do

recorrido.

Com efeito, a primeira razão invocada – encontrar-se a Unidade da Póvoa do Varzim/Vila do Conde sem responsável directo – verificava-se à data da

prolação da já referida sentença da 1.ª instância de 10 de Dezembro de 1999 e, também, dos Acórdãos da Relação e do Supremo Tribunal de Justiça

ulteriormente proferidos, pois que se verificava já desde há cerca de 8 anos relativamente a Maio de 2006 (facto 22.).

Assim, sem qualquer outra explicitação no texto da comunicação que denote haver um interesse objectivo em alterar em Maio de 2006 um status quo sedimentado há tão longo tempo e, particularmente, um status quo que se verificava por ocasião do reconhecimento judicial ao recorrido do seu direito de desempenhar as funções de Coordenador naquele local de trabalho (na Unidade de Matosinhos), entendemos que este motivo não é atendível para justificar a transferência.

Quanto à segunda razão invocada – de que a Unidade de Matosinhos estava a ser efectivamente dirigida pela Senhora Directora Regional do Norte –, cabe ponderar que o Director Regional tinha como conteúdo funcional a gestão de duas ou mais Unidades Operacionais (facto 15.)[15], mas pressupunha a existência de Responsáveis de Unidade Operacional (os que passaram a exercer as funções inerentes à categoria profissional de Coordenador), que a si reportavam (facto 16.), pelo que, sem que o empregador tenha adiantado no texto em que determinou a transferência qualquer elemento demonstrativo de que a Directora Regional estava a desempenhar concomitantemente as

funções que em abstracto caberiam ao Responsável de Unidade Operacional, torna insubsistente em termos objectivos essa razão. Se, como emerge dos

factos provados (factos 13. a 15.), as Unidades têm Responsáveis de Unidade Operacional que têm a seu cargo a gestão corrente de uma Unidade (com excepção da gestão financeira, desde 1998) e reportam a um Director

Regional que gere duas ou mais Unidades, o facto de o Director Regional estar a dirigir Matosinhos, por si só, e sem qualquer outra explicação demonstrativa da desnecessidade em tal Unidade de um Responsável de Unidade

Operacional que procedesse à sua gestão corrente, não justifica

objectivamente haver um interesse empresarial do empregador em transferir o trabalhador do seu local de trabalho na Unidade de Matosinhos para a Unidade da Póvoa do Varzim/Vila do Conde.

Não têm qualquer respaldo nos factos provados (nem constam do texto da transferência) as afirmações da recorrente constantes das alegações de recurso de que a Directora Regional trabalhava “como Coordenadora” na Unidade de Matosinhos, que cumulava essa actividade com a de Directora Regional e exercia ambas as actividade de forma paralela em 2006

(conclusões W a JJ), não se inferindo dos mesmos factos que a recorrente tivesse o “objectivo de evitar que uma única unidade operacional tivesse dois responsáveis, com a mesma categoria e funções” (conclusão SS), nem tal objectivo foi enunciado no texto da transferência.

Deve aliás dizer-se que a afirmação que a recorrente fez constar na conclusão Y da apelação – afirmação também indemonstrada – de que Directora Regional foi “convidada pelo então Conselho de Administração do C… a assumir as referidas funções de coordenação, no seguimento de processo de exoneração do recorrido, em 1998”, milita em sentido inverso ao da sua pretensão de demonstrar um interesse objectivo e sério da empresa na transferência do recorrido, na medida em que na identificada acção judicial n.º 41/99 foi julgada ilícita a aludida exoneração do ora recorrido das suas funções de Coordenador na Delegação de Matosinhos do R.. É manifesto que não pode a recorrente invocar um acto ilícito seu para fundar a decisão que tomou de alterar o local de trabalho do recorrido, transferindo-o para a Delegação de Póvoa do Varzim/Vila do Conde, quando tal decisão, nos termos da lei, deve ter na sua base apenas interesses empresariais de natureza objectiva e

organizacional.

Assim, porque entendemos que os motivos invocados não demonstram a existência de interesses empresariais do empregador objectivamente

avaliáveis e justificativos da sua decisão de transferência do local de trabalho do recorrido, é de concluir que a decisão tomada em Maio de 2006 de

transferir o recorrido da Unidade de Matosinhos para a Unidade da Póvoa do Varzim/Vila do Conde representou uma violação da sua garantia legal da não modificação do local de trabalho.

Quanto à questão do eventual “prejuízo sério” que eventualmente pudesse resultar para o A. da efectivação da ordem de transferência, não se coloca a necessidade da apreciação do mesmo, na medida em que a afirmação da inexistência do interesse da empresa é de “per si” suficiente para afirmar a ilegalidade da ordem de transferência, o que torna esta questão prejudicada (artigo 608.º, n.º 2 do Código de Processo Civil).

Aliás, é de notar que nem o A., nem o R. alegaram nos articulados da acção o que quer que fosse susceptível de fundamentar a existência ou inexistência de tal prejuízo, o que afasta a possibilidade de fundar a ilegitimidade da ordem de transferência na verificação de um prejuízo sério.

5.4.3. Em suma, por não estar demonstrado que a transferência do local de

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