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A literatura exerce um importante papel no mercado de entretenimento contemporâneo. Em um cenário de ampla estetização e alteração das funções do artista (LIPOVETSKY; SERROY, 2015), a comercialização do livro impresso há séculos tem ganhado força com as aproximações graduais feitas entre valores e crenças capitalistas e a arte.

Ao se referir à literatura como um produto cultural, tem-se como intuito frisar o fato de atualmente a obra literária ser produto de ampla comercialização e difusão no mercado do entretenimento. Considerando os dados sobre o mercado da literatura no Brasil, aponta-se para a venda de 44,4 milhões de exemplares no ano de 2018 (O GLOBO, 2019), o que representa um crescimento de aproximadamente 4,6% na comercialização de livros. Em comparação com anos anteriores, nos quais os resultados apresentavam sinais de queda no consumo de literatura com a crise no setor das livrarias, os dados de 2018 demonstram um cenário mais favorável

para que a indústria da publicação e venda da obras literárias possa prosseguir existindo.

O mercado editorial como uma das forças de comercialização de produtos culturais em massa na indústria cultural, atualmente exerce uma importante influência nos modos de produção e consumo de livros, e-books e outros modos de publicação de obras literárias de modo geral. É a partir das editoras, entendidas como instrumentos de uma indústria massiva (LEMOS; LÉVY, 2010), que a obra literária chega hoje até vários públicos e espaços; livros que hoje chegam às prateleiras das livrarias, preenchem as bibliotecas e até mesmo retornam a outros consumidores por meio dos sebos, tudo isso após processos minuciosos de editoração, edição, revisão e publicação.

Nesse contexto, consideram-se ainda os estudos realizados para a publicação de uma obra, que avaliam as chances de sucesso de um produto, a rentabilidade da produção e comercialização do livro e também a viabilidade de se levar a obra ao mercado. A realização dessas pesquisas está bastante relacionada ao público-alvo de cada publicação (HORKHEIMER; ADORNO, 2011).

Esclarece-se também que a adoção do termo mercado editorial, recorrente na elaboração do trabalho, não está pautada na ideia de remeter ou induzir à criação de uma entidade ou instituição, que exerceria como um todo o poder do controle majoritário da tecnologia literatura de modo uniforme. O mercado editorial a que se refere neste trabalho consiste nas diversas e não necessariamente relacionadas manifestações das forças editoriais dentro dos circuitos do entretenimento como mercadoria. Assim, o mercado editorial é composto, na visão deste estudo, por editoras, que, de certo modo, estão alinhadas com as políticas de um capitalismo artista, como apresentado por Lipovetsky e Serroy (2015), e uma indústria do entretenimento.

A associação da arte aos ideais mercantis do período posterior à Revolução Industrial resultou nos interesses de comercialização da arte frente a uma perspectiva de obtenção de lucro (LIPOVESTKY; SERROY, 2015). O impacto da associação entre essas duas forças atingiu também a literatura, de modo que a comercialização de exemplares de livros por parte das editoras, consideradas também um dos pilares da indústria de produção de arte em massa (LEMOS; LÉVY, 2010), ampliou-se ao ponto de atualmente ser comum encontrar livrarias facilmente nas grandes cidades com uma grande variedade de livros sendo comercializados.

De forma consecutiva às associações entre mercado e arte, a internet nasce no século XX e se consolida como mídia a partir de sua chegada até as casas de habitantes de diversos países, utilizando como principal suporte o computador pessoal (POE, 2011). No entanto, a história de seu surgimento tem início consideravelmente antes de seu uso efetivo: “the story of the Web properly begins in sixteenth-century Europe during the Scientific Revolution, for it was then and there that the project that would end in the Internet was conceived in its modern form5 (POE, 2011, p. 147).

Dentre as inúmeras características que definem a internet e que serão comentadas em detalhes nos próximos capítulos, uma das mais interessantes às investigações promovidas consiste na posibilidade de participação dos indivíduos, permitida pela velocidade do meio (POE, 2011). A possibilidade de comunicação mais acelerada entre indivíduos via internet torna o meio mais dialógico (POE, 2011). A ser estudada mais tarde por meio da ideia de uma cultura participativa e da inteligência coletiva (LÉVY, 2011), a característica da velocidade do meio e sua consequente pré-disposição ao diálogo entre indivíduos é importante pois a presença dos indivíduos na internet e os diálogos entre eles estabelecidos de modo mais rápido podem colaborar para a criação de conexões que posteriormente podem resultar na produção literária em comunidades virtuais (LEMOS, 2007).

Outra característica da internet pertinente ao campo explorado por este estudo, é a possibilidade de criação e compartilhamento ampliadas. De acordo com Poe (2011, p. 157), “posting is the continuation of talking by other means”6. Esse diálogo permanente entre indivíduos no ciberespaço é também fruto da liberdade que cada sujeito tem de realizar suas próprias postagens e compartilhamentos nas redes, entre outros.

A maior liberdade de promoção das próprias ideias obtida por meio de processos interativos e de sociabilização de indivíduos que atuam nas redes situadas no ciberespaço, implica, no campo da literatura, um ganho de liberdade para que os processos de escrita antes relacionados somente ao meio impresso e a outros meios que com ele coexistiam, possam também ser transferidos para o meio digital e assumam características relacionadas à utilização do próprio meio. No

5 “a história da Web começa realmente no século XVI na Europa durante a Revolução Cientifica, e foi então que o projeto que terminaria na Internet foi concebido em sua forma moderna” (POE, 2011, p. 147). Tradução nossa.

excerto abaixo, unem-se as ideias de liberdade de interação entre sujeitos e a velocidade do meio, por Poe (2011, p. 167):

you read something on a web page and then you write something about what you read on the same web page. Then other people read what you just wrote and they write back. The back-and-forth can happen instantly, just like talking to someone; or it can be drawn out, like an email exchange7.

Essa importante relação de troca de respostas, característica da internet, possui também seu impacto na produção literária realizada no ciberespaço. É nesse contexto de interação e convivência de indivíduos que obras literárias criadas em rede encontram espaço para seu surgimento, contando com comentários do público leitor que podem ser acatados pelo autor que publica de modo independente suas histórias na internet.

Segundo Poe (2011), a questão da postagem na internet, da colaboração, do anonimato e da liberdade de expressão são características da internet e de seu uso social. Para Poe (2011), a questão social presente na internet é valiosa e traz para esse estudo uma colaboração significativa para que se entenda a vida em comunidade virtual e os processos de escrita literária concentrados nela: “media networks engender certain social practices, and these social practices engender related values8” (POE, 2011,p. 20).

O surgimento de um ambiente digital, além de alterações na dimensão social da interação humana, implica alterações dos processos de produção e consumo da literatura (LEMOS; LÉVY, 2010). O até então monopólio da comercialização da produção literária realizada pelo mercado editorial impresso, passa a enfrentar uma outra opção para o consumo de obras literárias.

Desde as publicações independentes de materiais autorais, até o compartilhamento ilegal de obras literárias em formatos que ainda remetem àqueles da mídia impressa, a internet revoluciona e promove uma ruptura mais significativa com os modos de leitura empregados na literatura impressa em relação à ruptura realizada entre o manuscrito e o impresso (CHARTIER, 1998). As relações de tensão entre forças como mercado editorial e a produção literária marginal da

7 “você lê algo em uma página na Internet e então você escreve algo sobre o que leu na mesma página na Internet. Então outras pessoas leem o que você acabou de escrever e respondem. O movimento de ida e vinda pode acontecer instantaneamente, como em uma conversa com alguém; ou pode ser expandida, como em uma troca de e-mails” (POE, 2011, p. 167). Tradução nossa.

8 “as redes de conexões dos media engendram certas práticas sociais, e essas práticas sociais engendram valores relacionados”. Tradução nossa.

internet pode ser exemplificadas por Lemos e Lévy (2010, p. 49) a partir do seguinte excerto, que também abarca outros exemplos dessas relações:

blogs tensionam publicações massivas como jornais e revistas, podcasts

emulam emissões radiofônicas, softwares livres reconfiguram os proprietários, redes P2P incomodam a indústria do entretenimento… As atuais crises da indústria cultural nesse novo cenário da comunicação planetária são sintomas de uma evolução que […] busca maior liberdade – de consumo, produção e distribuição de informação (LEMOS; LÉVY, 2010, p. 49)

Com as possibilidades criativas introduzidas pela internet frente às opções de publicação de obras da literatura disponíveis previamente (LEMOS; LÉVY, 2010), a literatura como tecnologia passa a ser utilizada também de outras formas ao ser associada à internet. A oportunidade de divulgar virtualmente uma obra literária, por meio de métodos não necessariamente relacionados à tradição editorial ou submetidos ao crivo de uma editora como elemento indispensável para a publicação, entrega à internet a responsabilidade por uma nova forma de compatilhamento e divulgação da literatura.

Tais processos resultam em impactos sociais e econômicos a partir do momento em que a força da produção independente é posta em disputa com o já consolidado mercado editorial, que também passa a integrar o ciberespaço com o surgimento do e-book. No entanto, mesmo a presença online das editoras com a comercialização das versões virtuais de seu catálogo impresso, a força das possibilidades de publicação independente ou da replicação ilegal de conteúdo publicado pelas editoras não é suprimida diretamente.

Como exemplo, o surgimento da plataforma blog, que fornece uma espécie de espaço pessoal para publicações diversas (AZEVEDO, 2007) e que segue algumas simples regras de publicação e convivência, permite que o indivíduo expresse ou aborde de forma bastante individual e livre seu apreço por determinados temas ou auxilia na necessidade de compartilhar tudo aquilo que escreve.

É nesse ponto que a questão da hegemonia de um mercado editorial parece começar a sofrer mudanças, tal como apontaram Lemos e Lévy (2010) a respeito da coexistência entre blogs e publicações massivas e a instauração de um local de disputa e competição. O espaço digital, em constante desenvolvimento, se

apresenta ao campo literário como uma alternativa à hegemonia do mercado impresso.

Com a tecnologia de acesso e publicação da literatura de forma tão próxima a indivíduos antes silenciados ou marginalizados pela indústria do entretenimento, a internet serve como meio de publicação independente de obra literárias sem a interferência direta do mercado editorial na escolha das obras a serem publicadas. Desse modo, a forma de consumo da literatura em si também se altera, tal como apontam Lemos e Lévy (2010, p. 93) a respeito dos processos inversos à homogeneização promovidos na cibercultura:

se pensarmos nos produtos da cibercultura contemporânea, podemos ver como, na sua grande maioria, eles funcionam justamente contra essa padronização, homogeneização e nivelamento rasteiro. O que o ciberespaço permite é encontrar ‘aquele’ livro, ‘aquela’ música, ‘ ‘aquela’ informação não massificada, marginal, que estaria colocada para debaixo do pano pelos meios massivos homogeneizadores. Talvez a crítica frankfurtiana não faça mais tanto sentido na cibercultura, a não ser contra a massificação que perdura! Os produtos em ‘excesso’ na cibercultura não são, portanto, homogêneos, padronizados, vinculados a uma lógica mercantil, ao poder totalitário do capital, da publicidade ou do marketing (LEMOS; LÉVY, 2010, p. 93).

Uma vez que o indivíduo que tem acesso à uma tecnologia como a internet, que o permite uma variedade de possibilidades de publicação gratuita de seus trabalhos literários, ele passa a ter uma alternativa em mãos quando não tem a possibilidade de publicar sua obra pelo meio impresso por uma editora. Nesse sentido, o espaço digital de publicação representa uma nova alternativa aos meios tradicionais de publicação de uma obra literária.

A aparente oposição apresentada neste estudo entre um mercado editorial submetido aos interesses do capital e o surgimento de uma literatura na internet desprendida desses processos de comercialização, esclarece-se, não tem o intuito de promover uma divisão categórica entre as forças que parecem disputar a literatura como tecnologia.

Reconhece-se a existência de diversas outras forças, assim como se atesta a influência de uma série de aspectos na literatura como tecnologia que vão muito além do escopo deste estudo. Porém, para fins de segmentação do objeto de estudo e determinação do foco de pesquisa, optou-se por privilegiar uma visão aplicada às relações entre mercado editorial na indústria do entretenimento e produções

literárias independentes na internet, ainda que essas não somente se relacionem a partir de uma perspectiva de oposição.

Assim, há também uma provável convergência de interesses entre ambas as forças exploradas por este estudo que tem como objeto a literatura como uma tecnologia a ser adaptada aos interesses de forças ideologicamente, economicamente e socialmente fundadas. A hipótese de estudo, apresentada na introdução desta dissertação, busca então investigar a possibilidade de existir uma relação que vá além da simples disputa entre forças aparentemente opostas, encontrando pontos de convergência de interesses entre ambas na utilização da literatura como tecnologia.

A literatura é, portanto, uma tecnologia que pode estar presente em contextos de interação de diferentes formas e pode pertencer às conexões de diferentes grupos sociais, considerando as forças hegemônicas que atravessam esses usos e iniciam disputas, em convergência com o pensamento de Feenberg (2010).

Finalmente, debruçando-se sobre as especificidades dos meios pelos quais a literatura transita de forma mais recorrente na contemporaneidade, é necessário falar sobre os mercados literários localizados tanto em um ambiente real – no qual está, principalmente, o meio impresso, que entrega produtos físicos como livros impressos – e um ambiente virtual simulado – no qual estão tanto publicações editoriais de e-books desse segmento, quanto publicações independentes promovidas pela maior liberdade de acesso propiciada pela internet.

A literatura fica, então, em um campo de comercialização intensificado, pois a tecnologia não vem ao uso humano somente pela necessidade de fruição estética, literária e cultural para propósitos de entretenimento e transmissão de ideias, mas também para a geração de lucro a partir de uma comercialização fundada em um momento de alta mercantilização da arte por métodos de massificação.

Ainda que existam hipóteses de que o surgimento de um meio como a internet, que permitiria uma aparição mais democrática de autores pouco conhecidos aos olhos de um público leitor, culminaria no fim de uma literatura do meio impresso, os dados previamente mencionados a respeito dos e-books, que correspondem a apenas 2% das vendas no mercado editorial brasileiro (ROSA, 2017), demonstram uma exclusividade ainda persistente do meio impresso.

Entretanto, a coexistência desses meios apenas desloca a quantidade de poder que cada meio possui, de forma que a disputa pela literatura como tecnologia

apenas se alterna entre os dois pontos. Enquanto o meio impresso enfraquece, ele parece também encontrar na internet modos de se fortalecer ao transpor obras literárias para o seu próprio modo de publicação.

Não há, portanto, confirmação de que o surgimento de um meio digital, que interrompe a hegemonia do mercado editorial impresso, possa diminuir a presença da literatura publicada em livro impresso. No entanto, o que é realmente certo é o fato de que as relações, nesse contexto, se alteram: a partir do momento em que o meio digital surge como uma alternativa para o uso da literatura como uma tecnologia, há uma mudança nos processos antes consolidados de escrita, edição, publicação e leitura de obras literárias.

É por meio da perspectiva de uma disputa e uma posterior convergência de interesses entre mercado editorial e produção literária independente na internet que o uso da literatura como uma tecnologia será visto e explorado neste estudo. Para a continuação do debate sobre o tema serão chamadas às discussões outras tecnologias que exercem impacto direto nas dinâmicas nas quais se insere a literatura no século XXI. Desse modo, o item seguinte explorará a questão da escrita e do suporte tanto na conservação do texto literário escrito, quanto nas estratégias de difusão e de comercialização de obras literárias.