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CAPÍTULO 3 —

No documento QUANDO QUANDO CHOROU NIETZSCHE (páginas 38-68)

OLVENDO DA JANELA, Breuer agitou a cabeça para desalojar Lou Salomé da mente.

Depois, puxou o cordão pendente sobre sua escrivaninha para avisar Frau Becker de que mandasse entrar o paciente na sala de espera. O senhor Perlroth, um judeu ortodoxo arqueado e barbilongo, entrou hesitante pela porta.

Cinqüenta anos atrás - Breuer logo soube -, o senhor Perlroth sofrerá uma tonsilectomia traumática; sua memória dessa operação era tão dolorosa que, até aquele dia, se recusara a consultar um médico. Mesmo agora, protelara ao máximo sua visita, mas um "estado clínico desesperador" - conforme suas palavras - não lhe deixara outra saída. Breuer imediatamente deixou de lado sua pose de médico, saiu de detrás da escrivaninha e sentou-se na cadeira ao lado, como fizera com Lou Salomé, para uma conversa informal com o novo paciente.

Falaram sobre o tempo, a nova onda de imigrantes judeus da Galícia, o anti-semitismo virulento da Associação da Reforma Austríaca e suas origens comuns.

O senhor Perlroth, como quase todos na comunidade judaica, conhecera e reverenciara Leopold, o pai de Breuer, e em poucos minutos transferiu sua confiança no pai para o filho.

- Então, senhor Perlroth, em que lhe posso ser útil? - perguntou Breuer.

- Não consigo eliminar a urina, doutor. O dia inteiro, e de noite também, sinto vontade. Corro para o banheiro, mas nada. Insisto e, finalmente, saem algumas gotas. Vinte minutos depois, a mesma história. Tenho que ir novamente, mas...

Breuer teve certeza da causa dos problemas do senhor Perlroth. A glândula prostática do paciente devia estar obstruindo a uretra. Restava uma única questão importante: o senhor Perlroth tinha um alargamento benigno da próstata ou um câncer? No exame do reto Breuer não sentiu nenhum nódulo canceroso endurecido encontrando em seu lugar um alargamento esponjoso e benigno.

Depois de ouvir que não havia indício de câncer, o senhor Perlroth irrompeu um sorriso jubiloso, apanhou a mão de Breuer e a beijou. Mas seu humor se empanou novamente quando Breuer descreveu, do modo o mais tranqüilizador possível, a

V

natureza desagradável do tratamento exigido: a passagem urinaria teria que ser dilatada pela inserção no pênis de uma série graduada de longas hastes de metal ou "sondas". Como o próprio Breuer não ministrava esse tratamento, recomendou o senhor Perlroth ao seu cunhado Max, um urologista.

Depois que o senhor Perlroth partiu, passava um pouco das seis, horário das visitas domiciliares de Breuer do final da tarde. Ele reabasteceu sua grande valise de médico de couro preto, vestiu seu sobretudo forrado de peles e sua cartola e saiu à rua, onde seu cocheiro Fischmann o esperava numa carruagem puxada por dois cavalos. (Durante o tempo em que Breuer examinava o senhor Perlroth, Frau Becker tinha chamado um mensageiro parado na esquina próxima do consultório - um jovem de olhos e nariz avermelhados que usava uma grande insígnia de oficial, um chapéu pontudo e um uniforme de exército cor cáqui com dragonas grandes demais para ele - e lhe pagara dez Kreuzer2 para ir correndo chamar Fischmann. Mais abastado do que a maioria dos médicos vienenses, Breuer alugava um fiacre para o ano inteiro em vez de chamar um quando precisasse.) Como de hábito, entregou a Fischmann a lista dos pacientes por visitar. Breuer fazia visitas domiciliares duas vezes ao dia: de manha cedo, após seu pequeno desjejum de café e Kaisersemmel ondulado e com três entalhes e novamente, após suas consultas vespertinas no consultório, como naquele dia. A semelhança da maioria dos médicos internistas de Viena, Breuer só enviava um paciente ao hospital como último recurso. Além de mais bem cuidadas em casa, as pessoas ficavam mais protegidas das doenças contagiosas que, com freqüência, assolavam os hospitais públicos.

Por conseguinte, o fiacre de dois cavalos de Breuer era freqüentemente usado: de fato, era um gabinete móvel bem guarnecido das mais recentes publicações médicas e obras de referência.

Algumas semanas atrás, Breuer convidara um jovem amigo médico, Sigmund Freud, para acompanhá-lo durante um dia inteiro. Um erro, talvez! O jovem

2 • Espécie de pãozinho doado e com entalhes do trivial austríaco. (N do T)

homem vinha tentando optar por uma especialidade médica, e aquele dia deve tê-lo afugentado da medicina de doenças internas.

Pois, segundo os cálculos de Freud, Breuer despendera seis horas em seu fiacre!

Agora, após visitar sete pacientes, três deles gravemente enfermos, Breuer encerrara seu dia de trabalho. Fischmann tomou a direção do Café Griensteidl, onde Breuer geralmente tomava café com um grupo de médicos e cientistas que, havia quinze anos, se reuniam todas as noites na mesma Stammtisch, uma grande mesa reservada no melhor canto do recinto. Naquela noite, porém, Breuer mudou de idéia.

- Leve-me para casa, Fischmann. Estou molhado e cansado demais para o café.

Repousando a cabeça no assento de couro preto, fechou os olhos. Esse dia extenuante começara mal: não conseguira adormecer novamente após um pesadelo às quatro da madrugada. Sua programação matutina fora pesada: dez visitas domiciliares e, depois, nove pacientes no consultório. De tarde, mais pacientes no consultório e, depois, a estimulante mas enervante entrevista com Lou Salomé.

Mesmo agora, sua mente não lhe pertencia. Fantasias insidiosas de Bertha a invadiam: de braços dados com ela, caminhando sob o sol quente, longe da gelada e cinzenta neve semilíquida de Viena. Logo, porém, imagens discordantes lhe assomaram: seu casamento despedaçado, seus filhos deixados para trás, ao singrar embora para sempre a fim de começar uma nova vida com Bertha na América. Os pensamentos o atormentavam. Ele os odiava: arrebatavam-no de sua paz; eram estranhos, nem possíveis, nem desejáveis. Não obstante, os acolhia de bom grado: a única alternativa - banir Bertha de sua mente - se afigurava inconcebível.

O fiacre trepidou ruidosamente ao atravessar uma ponte de madeira sobre o rio Wien.

Breuer observou os pedestres voltando apressadamente para casa após o trabalho, a maioria, homens, todos carregando um guarda-chuva preto e trajados praticamente como ele: sobretudos escuros e revestidos de peles, luvas brancas e

cartola preta. Alguém familiar lhe chamou a atenção. O homem baixo e sem chapéu, de barba aparada, ultrapassando os outros, ganhando a corrida!

Aquele passo firme - ele o reconheceria em qualquer lugar! Muitas vezes, nos bosques de Viena, tentara acompanhar aquelas pernas agitadas que jamais paravam, exceto à procura de Herrenpilze - os grandes e picantes cogumelos que brotavam entre as raízes dos pinheiros escuros.

Pedindo a Fischmann que encostasse o carro no meio-fio, Breuer abriu a janela e chamou:

- Sig, para onde está indo?

Seu jovem amigo, trajando um casaco azul comum mas decente, fechou o guarda-chuva ao se voltar para o fiacre; então, reconhecendo Breuer, sorriu e respondeu:

- Estou indo para Bäckerstrasse 7. Uma mulher encantadora me convidou para o jantar esta noite.

- Acho que tenho notícias desalentadoras! - disse Breuer em tom jocoso. - O marido dela está a caminho de casa neste exato minuto! Entre, Sig, venha comigo.

Terminei meu trabalho e estou cansado demais para ir ao Griensteidl. Teremos tempo para conversar antes do jantar.

Freud agitou o guarda-chuva para secá-lo, pisou no meio-fio e entrou no fiacre.

Estava escuro e a vela acesa na carruagem gerava mais sombras do que luz.

Após um momento de silêncio, virou-se para olhar de perto o rosto do amigo.

- Você parece cansado, Josef. Um longo dia?

- Um dia difícil. Começou e terminou com uma visita a Adolf Fiefer. Você o conhece?

- Não, mas li alguns de seus trabalhos no Neue Frete Presse. Um bom escritor.

- Brincamos juntos na infância, íamos para a escola juntos. Tem sido meu paciente desde meu primeiro dia de clínica. Bem, cerca de três meses atrás, diagnostiquei-lhe câncer no fígado. Alastrou-se como fogo e, agora, ele sofre de icterícia obstrutiva avançada. Conhece o próximo estágio, Sig?

- Bem, se o dueto comum for obstruído, a bile continuará a invadir a corrente sangüínea até que morra intoxicado. Antes disso, entrará em coma hepática, certo?

- Exatamente; de uma hora para a outra. Contudo, não posso revelar a ele a verdade. Mantenho meu sorriso esperançoso e falso, embora gostaria de me despedir honestamente dele. Jamais me habituarei com a morte de meus pacientes.

- Tomara que nenhum de nós se habitue - suspirou Freud. - A esperança é essencial e quem, a não ser nós, consegue mante-la? Para mim, é a parte mais difícil da atividade médica. Às vezes, tenho sérias dúvidas se estou à altura da tarefa. A morte é tão poderosa. Nossos tratamentos tão insignificantes, especialmente na neurologia. Graças a Deus, estou quase terminando esse período. A obsessão deles com a localização é obscena. Você deveria ter ouvido Westphal e Meyer discutindo hoje sobre a localização precisa no cérebro de um câncer bem na frente do paciente.

- Mas - e pausou - quem sou eu para dizê-lo? Apenas seis meses atrás, quando trabalhava no laboratório de neuropatologia, fiquei felicíssimo com a chegada do cérebro de um bebê, pois teria o trunfo de determinar o local preciso da patologia!

Talvez eu esteja me tornando demasiado cético, porém cada vez mais me convenço de que nossas disputas sobre a localização da lesão escondem a verdade real: que nossos pacientes morrem e nós, os médicos, somos impotentes.

- Além disso, Sig, é uma pena que os aprendizes de médicos, como Westphal, jamais aprendam como oferecer conforto aos que estão morrendo.

Os dois homens ficaram silentes enquanto o fiacre oscilava em meio ao forte vento.

Agora, a chuva aumentava novamente e gotejava do teto da carruagem. Breuer quis dar ao seu jovem amigo alguns conselhos, mas hesitou, escolhendo as palavras, conhecedor da sensibilidade de Freud.

- Sig, preste atenção. Sei quão desapontador lhe é ingressar na clínica médica.

Você deve senti-lo como uma derrota, como uma acomodação com um destino menor. Ontem, no café, não pude evitar escutá-lo criticando Brücke por se recusar a promovê-lo e por aconselhá-lo a abrir mão de suas ambições de uma carreira universitária. Mas não o culpe! Sei que ele o tem no mais alto conceito. Dos próprios lábios dele, ouvi que você é o melhor aluno que jamais teve.

- Então, por que não me promove?

- Promovê-lo a quê? Ao cargo de Exner ou de Fleischl, se é que venham a se aposentar?

Por cem Gulden ao ano? Brücke tem razão quanto ao dinheiro! A pesquisa é uma ocupação para homens ricos. Você não pode sobreviver com esse salário. Como vai sustentar os pais?

Teria que ficar solteiro pelos próximos dez anos. Talvez Brücke não tenha sido bastante delicado, mas teve razão ao dizer que sua única chance de continuar na pesquisa é conseguir um casamento com um bom dote. Ao propor casamento a Martha, seis meses atrás, sabendo que não lhe traria nenhum dote, foi você, e não Brücke, quem decidiu seu próprio futuro.

Freud fechou os olhos por um momento antes de responder.

- Suas palavras me ferem, Josef. Sempre senti sua desaprovação de Martha.

Breuer sabia quão difícil era para Freud falar francamente com ele: um homem dezesseis anos mais velho e não apenas seu amigo, mas seu professor, seu pai, seu irmão mais velho.

Esticou o braço e tocou a mão de Freud

- Não é verdade, Sig! Absolutamente! Discordamos apenas quanto à época. Senti que você teria anos demais de duro treinamento pela frente para se sobrecarregar com uma noiva. Mas concordamos quanto a Martha; vi-a apenas uma vez, numa festa, antes da partida de sua família para Hamburgo, e gostei dela imediatamente. Ela me lembra Mathilde naquela idade.

- Isso não me surpreende - a voz de Freud se suavizou. - Sua esposa foi meu modelo.

Desde que conheci Mathilde, venho procurando uma esposa como ela. A verdade, Josef, diga-me a verdade: se Mathilde fosse pobre, mesmo assim você teria casado com ela?

- A verdade, Sig - e não me odeie por esta resposta, foi há quatorze anos, os tempos mudaram - é que eu teria feito seja lá o que meu pai exigisse de mim.

Freud permaneceu calado ao pegar um de seus charutos baratos e oferecê-lo a Breuer, que, como sempre, o declinou. Enquanto Freud acendia o charuto, Breuer continuou:

- Sig, sei como se sente. Você sou eu. Você sou eu dez, onze anos atrás. Quando Oppolzer, meu chefe na medicina, faleceu subitamente de tifo, minha carreira universitária terminou de maneira tão abrupta, tão cruel como a sua. Também eu me considerava um rapaz altamente promissor.

Esperava sucedê-lo. Eu deveria tê-lo sucedido. Todos sabiam disso. Mas um gentio foi escolhido em meu lugar. E eu, assim como você, fui forçado a me contentar com menos.

- Então, Josef, você sabe quão derrotado me sinto. É injusto! Veja a cátedra de medicina: Northnagel, aquele bruto! Veja a cátedra de psiquiatria: Meynert! Serei menos capaz? Eu poderia fazer grandes descobertas!

- E as fará, Sig. Onze anos atrás, transferi meu laboratório e meus pombos para a minha casa e continuei minha pesquisa. Isso pode ser feito. Você encontrará um caminho. Mas jamais será o caminho da universidade. Ambos sabemos que não se trata apenas de dinheiro. A cada dia, os anti-semitas ficam mais ousados. Você leu a matéria no Neue Frete Presse desta manhã sobre as fraternidades gentias invadindo as salas de aula e expulsando os judeus? Elas estão ameaçando agora acabar com todas as aulas ministradas por professores judeus. Viu o Presse de ontem? A notícia sobre o processo na Galícia de um judeu acusado de assassinato ritual de uma criança cristã? Eles ousam alegar que ele precisou de sangue cristão para a massa da matzál3. É inacreditável! Estamos em 1882 e a coisa continua! São uns homens da caverna, selvagens com apenas um finíssimo verniz de cristianismo. Por isso você não tem futuro acadêmico! Brücke se dissocia pessoalmente de tal preconceito, é claro, mas quem sabe o que realmente sente? Em particular, ele me contou que o antisemitismo acabaria destruindo a sua carreira universitária.

- Mas eu nasci para ser pesquisador, Josef. Não tenho a sua aptidão para a clínica

3 • Pão sem fermento comido pelos judeus na Páscoa. (N. do T.)

médica. Toda Viena conhece sua intuição diagnosticadora. Não tenho esse dom.

Pelo resto de minha vida, serei um médico qualquer: Pégaso preso ao arado!

- Sig, não tenho nenhuma habilidade que não possa lhe ensinar. Freud se reclinou para fora do clarão da vela, grato pela escuridão.

Jamais se abrira tanto para Josef ou para qualquer outra pessoa, exceto Martha, para quem escrevia diariamente uma carta sobre seus pensamentos e sentimentos mais íntimos.

- Mas, Sig, não descarregue na medicina. Você está sendo cínico. Veja bem os avanços só nos últimos vinte anos, mesmo em neurologia. Pense na paralisia do envenenamento por chumbo, ou na psicose do brometo ou na triquinose cerebral.

Eram mistérios vinte anos atrás. A ciência progride lentamente, mas a cada década conquistamos uma nova doença.

Houve um longo silêncio antes que Breuer prosseguisse.

- Mudemos de assunto. Gostaria de lhe fazer uma pergunta. Você está lecionando para muitos estudantes de medicina agora. Já topou com um estudante russo de nome Salomé, Jenia Salomé?

- Jenia Salomé? Acho que não. Por quê?

- Sua irmã veio me ver hoje. Um estranho encontro. - O fiacre atravessou a pequena entrada da Bäckerstrasse 7 e parou subitamente, oscilando sobre suas pesadas molas por um momento.

- Chegamos. Contarei o resto lá dentro.

Apearam no imponente pátio século XVI de pedras de cantaria cercado por muros altos recobertos de heras. Em cada lado, sobre arcos livres no nível do solo apoiados por imponentes pilastras, erguiam-se cinco níveis de grandes janelas arqueadas, cada uma contendo uma dúzia de vidraças com molduras de madeira.

Quando os dois homens se aproximaram do portal do vestíbulo, um porteiro, sempre a postos, espiou pela pequena almofada de vidro na porta de seu apartamento e, depois, correu para destrancar a porta, saudando-os com uma mesura.

Subiram as escadas, passando pelo consultório de Breuer, no segundo pavimento, até o espaçoso apartamento da família, no terceiro, onde Mathilde

esperava. Aos 36 anos, era uma mulher impressionante. Sua pele acetinada e corada realçava um nariz finamente esculpido, olhos cinza-azulado e bastos cabelos castanhos, que usava enrolados em uma longa trança no alto da cabeça.

Trajando uma blusa branca e um longo vestido cinza, bem justo em volta da cintura, seu talhe era gracioso, embora tivesse dado à luz ao quinto filho apenas poucos meses antes.

Apanhando o chapéu de Josef, escovou os cabelos do marido para trás, com a mão, ajudou-o a retirar o sobretudo e o entregou à serviçal, Aloisia, que chamavam de "Louis" desde que começara a trabalhar para eles, quatorze anos antes. Depois, voltou-se para Freud.

- Sigi, você está encharcado e gelado. Para dentro da banheira! Já aquecemos a água e separei algumas roupas brancas de Josef para você na prateleira. Que prático ambos terem o mesmo tamanho! Jamais consigo oferecer a mesma hospitalidade a Max. - Max, marido de sua irmã Raquel, era enorme, pesando mais de 110 quilos.

- Não se preocupe com Max - disse Breuer. - Compensarei esse problema recomendando-o aos meus pacientes. - Dirigindo-se para Freud, acrescentou: - Mandei a Max outra próstata hipertrofiada hoje. Foram quatro esta semana. Eis um campo para você!

- Não! - interveio Mathilde, pegando Freud pelo braço e levando-o para o banho. - Urologia não é coisa para o Sigi! Limpar bexigas e "canos d'água" o dia inteiro! Ele enlouqueceria em uma semana! - Parou diante da porta. - Josef, as crianças estão jantando. Vá vê-las, mas apenas por um minuto. Quero que você tire uma soneca antes do jantar. Ouvi você se mexendo a noite toda. Você quase não dormiu.

Sem proferir palavra, Breuer se dirigiu para o seu quarto; depois, mudou de idéia e resolveu ajudar Freud a encher a banheira. Ao voltar, viu Mathilde se inclinar em direção a Freud e sussurrar:

- Está vendo o que eu quis dizer, Sigi, ele quase não fala comigo!

No banheiro, Breuer adaptou o bocal da bomba de petróleo aos tonéis de água quente que Louis e Freud estavam trazendo da cozinha. A maciça banheira branca, miraculosamente suportada por graciosas patas de gato de bronze,

rapidamente se encheu. Ao deixar o banheiro e atravessar o corredor, ouviu Freud ronronar de prazer ao mergulhar na água tépida.

Deitado na cama, Breuer não conseguiu dormir, pensando nas confidências tão íntimas de Mathilde para Freud. Cada vez mais, Freud parecia alguém da família, agora até jantando com eles várias vezes na semana. De início, o vínculo fora basicamente entre Breuer e Freud: talvez Sig tivesse tomado o lugar de Adolf, seu irmão mais novo, falecido alguns anos antes.

Mas, no último ano, Mathilde e Freud tinham se aproximado. A diferença de dez anos permitia a Mathilde o privilégio de uma afeição maternal; ela costumava dizer que Freud lembrava Josef quando ela o conhecera.

Assim - perguntou-se Breuer -, e se Mathilde se desabafa com Freud sobre minha indiferença?

Que diferença realmente faz? Provavelmente, Freud já sabe: ele registra tudo que acontece na casa. Como médico diagnosticador, pode não ser tão astuto, mas raramente deixa de perceber o que diz respeito aos relacionamentos humanos.

Ele também deve ter notado a avidez das crianças pelo amor de um pai: Robert, Bertha, Margarethe e Johannes acotovelando-se sobre ele aos gritos enlevados de "tio Sigi", e mesmo a pequena Dora sorrindo sempre que ele aparece. Sem dúvida, a presença de Freud na casa era positiva; Breuer sabia que ele próprio era pessoalmente alheado demais para proporcionar a espécie de presença que sua família precisava. Sim, Freud preenchia sua lacuna e, em vez de vergonha, sentia, na maior parte do tempo, gratidão por seu jovem amigo.

Breuer sabia que não poderia objetar às queixas de Mathilde sobre seu casamento. Ela tinha razões para se queixar! Quase todas as noites, ele trabalhava até meia-noite no laboratório.

Passava as manhãs de domingo em seu consultório preparando as conferências

Passava as manhãs de domingo em seu consultório preparando as conferências

No documento QUANDO QUANDO CHOROU NIETZSCHE (páginas 38-68)

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