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ELAS ESTAVAM ERRADAS.

Anna estava errada.

Sob a luz de uma tocha que Elsa encontrara acesa, Anna olhou novamente para o casco do barco-dragão vazio, sentindo algo entalado em sua garganta.

Algum tempo atrás, ele devia conter toneladas de ouro, vasos de cerâmica, capas exuberantes e jarras de temperos raros para ajudar o guerreiro Aren em sua valente missão.

Algum tempo atrás, esse lugar devia ter sido um lugar de descanso esplêndido para Aren e sua espada poderosa, feita de madeira polida.

Mas agora as tábuas podres mal aguentavam uma pegada de poeira, muito menos um objeto de um mito. Elsa parou no casco com Anna, revirando um tufo de sujeira com a ponta da bota. Uma nuvem de poeira tomou conta do ar, e Anna espirrou.

– Chegamos tarde demais – Elsa disse, pisando nos restos do que devia ser um remo. – Estamos mais ou menos mil anos atrasadas. Talvez a Revoluta estivesse aqui antes, talvez esse tenha sido o lugar onde Aren morreu, mas… – Ela se perdeu, com os olhos focados nos buracos dos poros da antiga madeira. – Acho que esse barco está vazio há muito, muito tempo.

Não. Elas tinham ido longe demais, tinham arriscado demais.

– A Revoluta está por aqui – Anna disse, chutando outro tufo de sujeira com sua bota, revelando… mais sujeira. Ela sabia que muitos barcos tinham compartimentos secretos de água no chão, mas procurara e não encontrara nada. – Tem que estar aqui!

Mas mesmo enquanto dizia isso, Anna sabia que não era necessariamente verdade. De fato, nada tem que estar em nenhum lugar. Se tem que estar valesse de algo, então uma grande tempestade nunca teria atingido o navio de seus pais. Isso significaria que a vida do rei Runeard não teria sido tirada por nortistas perigosos, e que a jovem Elsa e a jovem Anna teriam conhecido seu avô. Significaria que Sven nunca teria pegado

a ferrugem branca e que Anna nunca teria atraído a Nattmara para o reino, manifestando seus medos e pesadelos.

De repente, tudo se tornou demais. Anna sentiu o peso de toda a terra, mar e castelo cair nos seus ombros e amassá-la, expulsando a esperança que restava. Ela não havia encontrado a Lâmina Revoluta e nunca encontraria. Ela nunca derrotaria Nattmara. Ela nunca veria Kristoff, Olaf ou Sven novamente.

Saiu do barco e colocou as mãos na cabeça, com as lágrimas começando a escorrer.

– Ah, Anna – Elsa disse, seguindo-a.

Anna sentiu a pressão nos seus ombros enquanto sua irmã se agachava perto dela sob a luz trêmula da tocha.

– Por favor, por favor, não chore – Elsa disse. – Não é sua culpa. Se eu tivesse feito um trabalho melhor, teria reconhecido os sinais e poderia ter impedido a Nattmara antes de você atraí-la até o reino.

Anna sabia que Elsa estava tentando confortá-la, mas suas palavras só a fizeram se sentir mil vezes pior. Eram só a prova de que Elsa não precisava mais dela – prova de que, na verdade, Elsa ficaria até melhor sem ela.

Anna tirou as mãos do rosto e se encostou em uma parede áspera. Jogou a cabeça para trás e olhou para a figura do dragão com a boca aberta em um eterno rosnado, incapaz de evitar que os ladrões roubassem o tesouro.

Fechou os olhos, livrando-se do olhar de madeira acusador da criatura.

Talvez fosse melhor para Elsa e toda Arendelle se o dragão de madeira ganhasse vida e engolisse Anna e suas decepções, como o lobo a engolira em seu pesadelo. Ela não tinha certeza sobre como isso ajudaria, mas… o pensamento foi interrompido ao se deparar com uma ideia. Ela olhou para o dragão de madeira com a boca aberta.

– Elsa! – Anna se levantou.

Elsa levantou a tocha e ficou de pé também.

– O que foi, Anna?

– Acho que sei onde a espada está! – E sem esperar sua irmã, continuou falando: – Só estamos procurando no casco do barco porque é onde alguém ficaria caso fosse comido: na barriga de um dragão ou no barco. Mas o mito não diz que o dragão comeu Aren, diz que…

– Que ele foi engolido – Elsa disse, com os olhos arregalados. – A Revoluta pode estar escondida na boca do dragão!

Anna assentiu.

– Exatamente!

A boca aberta do dragão pairava alguns metros sobre suas cabeças.

Normalmente, Elsa poderia mexer as mãos e fazer uma escada de gelo.

Mas elas não estavam mais sob a proteção dos Huldrefólk. Se Elsa usasse um pouquinho de mágica, a Nattmara chegaria em segundos.

Escalar o pescoço do dragão também não era uma opção. O barco tinha mil, talvez milhares de anos, e a madeira descascada e lascada tinha tantos buracos quanto uma esponja. Parecia prestes a cair se Anna respirasse perto dele.

Elsa colocou a tocha no chão e se abaixou.

– Certo, sobe aqui.

– O quê? – Anna olhou para a irmã, confusa.

– Precisamos que alguém suba lá. Acho que você consegue alcançar se subir nas minhas costas.

– De cavalinho? Sério? – disse Anna, com um grande sorriso no rosto. – Você não me oferece isso desde antes dos portões ficarem fechados.

– Bem – Elsa disse com um sorriso –, acho que devo pelo menos mais essa a você.

Depois de tirar as botas, Anna subiu nas costas de sua irmã. Então, apoiou-se no casco de madeira, colocou os pés nos ombros de Elsa e ficou em uma posição na altura do olho do dragão.

Embora séculos tivessem eliminado a maioria dos detalhes, Anna ainda podia ver as marcas de rachadura e a expressão do dragão. De baixo, a expressão parecia a de uma fera raivosa, mas agora Anna pensou que talvez ela não fosse brava, apenas protetora. Nervos borbulhavam por seu corpo.

Era isso. A única chance. A última chance.

A Lâmina Revoluta, exatamente a que havia escavado Arenfjord e criado um lar para um povo errante. Uma espada forjada a partir de um raio de sol curvado com um poder incomum, um presente do próprio sol.

Elas derrotariam a Nattmara. Elas curariam as colheitas, os animais e as pessoas da ferrugem branca e libertariam todos que amavam de seus próprios pesadelos aterrorizantes.

– Pegou? – Elsa perguntou de baixo.

Ops. A mente de Anna estava se distraindo novamente.

– Não, ainda não! – Anna disse, controlando seus pensamentos.

– Bem, seja rápida! Você não pesa o mesmo de quando tinha cinco anos.

Não, Anna não tinha mais cinco anos. Ela era capaz de cometer vários erros, mas também era capaz de consertá-los. Então, ela colocou a mão na boca do dragão.

Primeiro, não encontrou nada lá. Enrugando a testa, Anna colocou o corpo mais para dentro da boca do dragão. Seu cotovelo sumiu, depois o resto do braço, até chegar nas axilas. Ela ficou preocupada. Se a cabeça do dragão fosse oca, teria que entrar completamente? Ela não tinha certeza se caberia. Se Olaf estivesse lá, ele conseguiria jogar a mão lá dentro. Até Sven seria útil, com seu nariz sensível. Mas eles não estavam lá, então Anna teria que dar um jeito sozinha.

– Anna – Elsa disse –, seu pé está começando a machucar meu ombro.

– Desculpa – Anna respondeu –, só mais um segundo. Respirando fundo para se equilibrar, ela ficou na ponta dos pés, esticada, até seus dedos encostarem em algo gelado e parecido com metal. Algo que cabia confortavelmente na palma da sua mão enquanto ela segurava. Algo que a deixava ansiosa. Anna puxou.

No começo, foi difícil, em seguida houve um barulho de metal, que pareceu um suspiro de dragão quando seu segredo se soltou. E então a mão de Anna voltou à luz laranja da tocha.

Poderia ser verdade?

O punho era feito de ouro e, no centro do pomo, como um sol em miniatura, havia um diamante amarelo. O ouro do protetor de mão tinha sido trabalhado para parecer pequenos raios de sol que iam até a lâmina.

E a lâmina… era feita de um metal preto-azulado – da mesma cor do meteorito na torre de observação de Sorenson. Ele se curvava, a leve forma de S espelhava a entrada de Arenfjord, onde o mito dizia que Aren havia feito o lendário corte.

Mas Anna não se atreveu a acreditar que o que ela segurava era o que precisava que fosse. Não até que tivesse descido cuidadosamente das costas de Elsa. Não até Elsa arrancar um pedaço de pano de seu vestido rachado e começar a polir a parte superior da lâmina, logo abaixo de onde ela encontrava o punho. Não até conseguir ler as letras gravadas na espada:

R-E-V-O-L-U-T-A

Elas tinham encontrado. O escultor do primeiro fiorde.

O mito e a solução.

A Lâmina Revoluta.