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CAPÍTULO XXXIV Do Evangelho de Judas

CAPÍTULO XXXI Do Evangelho dos Ebionitas

CAPÍTULO XXXIV Do Evangelho de Judas

A história da vida de um dos mais odiados personagens bíblico pode – se dizer que começou a ser traçada muito antes da escolha dele como um dos doze discípulos. Ele havia sido predestinado para trair Jesus de modo que se cumprisse as Escrituras, conforme predito em uma profecia descrito no livro Atos dos Apóstolos escrito por Lucas. A traição de Judas não pode ser vista como um ato fruto da sua vontade. Ele foi escolhido como parte do plano de Deus, afim de que Jesus Cristo pudesse morrer pelos pecados da humanidade. Aparentemente um personagem com um papel pequeno no drama de Cristo, mas que sem ele o Novo Testamento não faria o menor sentido. Judas não era nenhum imbecil pelo que se percebe nos relatos dos evangelistas. Ele era uma espécie de tesoureiro do ministério de Jesus, portanto uma pessoa de caráter acima de qualquer suspeita. Se ele tivesse qualquer desvio de comportamento notadamente ele não teria sido escolhido como tesoureiro de Jesus.

E, mais: os demais discípulos não o aceitariam em tal função.

Note que havia entre eles um ex-coletor de impostos chamado Mateus que, via de regra, deveria ser o mais gabaritado para exercer esse cargo. De repente a vida daquele que, até então, tinha sido um bom discípulo como os demais - vira um inferno como narra o evangelista Mateus no capítulo 26: 17-25.

É interessante notar que Jesus parece desconhecer que Judas foi designado para trai-lo. Do contrario, ele não teria dito: “Mas ai

morte de Judas depois que Jesus fosse condenado era dada como certa. As narrativas da traição e suicídio de Judas sempre foram um gargalo ao meu limite de tolerância as verdades até então estabelecidas.

Por isso, o exaustivo processo de leitura e releituras das passagens que envolvem este personagem no Novo Testamento me levaram a concluir que - Judas foi um mero instrumento nas mãos de Deus para que o destino de Cristo fosse cumprido. Sem isso também não teria sido possível o êxodo de si para o Pai e para os outros até a solidão extrema do abandono na cruz do qual se refere o brilhante teólogo italiano Bruno Forte.62 Aliás, sem esses acontecimentos o Cristianismo também não faria o menor sentido.

Basta lembrar que o Evangelho de Barnabé diz que Judas foi crucificado no lugar de Jesus, isso implica dizer que, não houve ressurreição. Se não houve ressurreição o Cristianismo é só antropologia. Por conta disso, um bom número de conceituados teólogos já ficou de cabelos brancos tentando posicionar este intrigante personagem na história. As ideologias sempre impediram que esses eruditos versados no assunto chegassem a algum lugar. Essa história que se arrasta já há tantos séculos deve dar uma nova imagem para Judas Escariotes no decorrer deste conhecimento de um documento escrito por uma comunidade que acreditava que a verdadeira espiritualidade só poderia ser alcançada pelo que eles denominavam “gnose” tanto que menciona no trabalho “Contra as Heresias” que esta seita gnóstica

havia escrito histórias fantasiosas num papiro que eles denominavam Evangelho de Judas.

A conceituada autoridade em estudos da cultura copta da Universidade Claremont, o professor aposentado James Robinson garantiu a autenticidade do papiro copta em 1983.

Tudo o que o texto diz sobre Judas, não me causou estranheza nenhuma, até por que era perfeitamente previsível que a comunidade cananita gnóstica retratasse Judas de uma forma bastante diferente daquela que se vê nos evangelhos canônicos.

Contudo, boa parte do texto traz a mesma tônica relatada no Novo Testamento como a descrição da prisão de Cristo, o ódio das autoridades romanas contra a pregação de Jesus Cristo e como Judas recebeu o dinheiro para entregar o Cristo. No entanto, a nuance que se dá a imagem de Judas é totalmente outra. Ele não é um homem insensível aos moldes dos irmãos de José que o venderam para a caravana de Ismaelitas que iam para o Egito.

Pelo contrário, o texto diz que Judas Iscariotes é bom e que apenas está servindo a Deus. Nem de longe lembra a imagem de vilão que permeia a cabeça dos cristãos em todo o mundo. No texto Judas é um herói, um discípulo especial que foi escolhido para participar do projeto de Cristo. Assim, ele não trai o amigo e mestre, mas cumpre uma missão divina. Basta mencionar que, no texto canônico da Bíblia Sagrada o termo empregado no original - Jesus não é traído, mas entregue.

No Evangelho de Judas o autor diz que Jesus instruiu Judas para que lhe entregasse aos romanos. Segundo o texto Jesus Cristo teria dito:

“Tu serás o apóstolo amaldiçoado por todos os outros. Judas, tu

“And after the sop Satan entered into him. Then said Jesus unto him, That thou doest, do quickly”.63

Desnecessário dizer que o texto da versão secular King James da Bíblia Sagrada parece denunciar à mesma coisa do evangelho copta de Judas Iscariotes. Judas não agia segundo sua vontade, mas movido por uma força alheia a sua vontade.

Há um bom número de versados no assunto que dão um outro norte para esse personagem tão odiado que os eruditos da National Geographic tentam agora reabilitá-lo. Existe uma tese amplamente divulgada entre os estudiosos do Novo Testamento de que Judas Iscariotes era, na verdade, um espião, que se infiltrou no grupo do Nazareno para rastrear os passos de Jesus e seus seguidores, que à época eram vistos como um bando de fanáticos, semelhantes àqueles de Antônio Conselheiro mencionados pelo pré-modernista Euclides da Cunha no livro “Os Sertões”. Basta dizer que as autoridades romanas não davam a mínima para as “bobagens” que Jesus dizia.

O erro de Jesus que acabou levando o à morte, a meu juízo, foi o episódio da purificação do templo descrito por Mateus (21:12-17), Marcos (11:15-19) e Lucas (19:45-49). Nesse momento Jesus cruza o caminho do ambicioso Caifás. Os autores canônicos dizem que quando Jesus chegou a Jerusalém, ele entrou no templo e expulsou os que estavam comprando e vendendo. E, mais:

derrubou as mesas com as mercadorias e proibiu que se carregassem mercadorias pelo templo. Isso foi certamente à gota d’água para que o sumo Sacerdote Caifás pressionasse Judas para entregar Jesus nas mãos dele. Não é demais lembrar que, os soldados levaram Jesus diretamente ao palácio de Caifás. Posto que Judas Iscariotes seria aparentado de Anás e Caifás, como argumentam alguns autores. Assim sendo, as 30 moedas de prata que Judas recebera pelo preço de sua traição, naturalmente fazia parte daquilo que ele recebia para “vigiar” Jesus.

No mundo pós-ideológico essa teoria parece fazer mais sentido, mas no tempo dos autores bíblicos certamente essa ideia nunca

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passou pela cabeça de nenhum deles. Não há no Novo Testamento qualquer indício de algo dessa natureza, apesar do primeiro evangelista afirmar que houve sim uma conspiração (Mateus 25:14-16). Por fim, cabe-me lembrar que o verdadeiro ódio que os cristãos sentem hoje por Judas Iscariotes foi gerado pela dramática descrição que os evangelistas fizeram da cena da crucificação de Jesus. Mas apesar da forma brutal que Jesus foi executado para seus contemporâneos aquela cena horrível não teve o mesmo impacto que ela tem hoje. Muitos cristãos modernos pensam que a crucificação foi um ato extremo que os judeus elaboraram para matar Jesus. No entanto, convém mencionar que a crucificação era um método romano de execução. Contudo, essa alegação não tira a culpa de Judas, mas com uma certa dose de reflexão, pode-se ver nitidamente que a crucificação de Jesus foi uma coisa banal para os romanos. Basta ler o que diz o primo evangelista de Jesus no capítulo 19 versículo 18. Os tradutores da famosa versão espanhola Rainha Valéria verteram o texto grego nos seguintes termos:

“Y allí le crucificaron, y con él a otros dos, uno a cada lado, y Jesús en médio”.64

A malgrado de São João não ter sido claro o suficiente com relação aos dois homens que foram crucificados com Jesus, os demais evangelistas sinópticos afirmam que eles eram ladrões.

Então, fica claro que Jesus sofreu a mesma punição dada aos demais criminosos do Império Romano. Sua pena por dizer ser o filho de Deus não foi nem maior nem menor do que as aplicadas até então.

Os dois criminosos que foram crucificados ao lado de Jesus como dito no capítulo do Evangelho de Nicodemos eram Dimas e

no madeiro que serviam como um alerta àqueles que ousassem desafiar o poderio romano. Dimas o ladrão bonzinho era uma espécie de Robin Hood, mas Gestas era assassino, seu crime que o levou a execução foi por ter profanado o templo e molestado a filha do sumo sacerdote Caifás.