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Porta de entrada para o mundo da revista, as capas de Grande Hotel, assim como suas quarta capas caracterizam-se, sobretudo, por serem constituídas de imagens coloridas, como já ressaltamos. Para a composição de capas e quarta capas, em 90% dos números que compõem o nosso corpus, sempre foi utilizado papel jornal. De 1947 a 1952 e de 1959 a 1961, nas capas e quarta capas da revista, identificamos praticamente o mesmo papel empregado na confecção do miolo de Grande Hotel. Sua diferença em relação a ele era o fato de apresentar uma superfície mais áspera, o que talvez facilitasse a impressão colorida, em grandes tiragens. A partir de 1953 até 1958, notamos, nas capas e nas quarta capas dos números que analisamos, que o papel jornal ainda utilizado em sua composição estava, no entanto, mais liso e brilhante. Provavelmente, esse tipo de acabamento era obtido ao acetinar a superfície do papel jornal utilizado para as

128 páginas internas da revista. Desse modo, seria possível imprimir grandes quantidades de capas e quarta capas para Grande Hotel, com um índice razoável de brilho e lisura, e ainda de uma forma barata.90 Para produzir esses dois componentes da revista, é possível pensar que o papel utilizado era impresso em cores e cortado de uma só vez – no formato A3. Depois, dobrado, esse papel maior era utilizado para cobrir suas folhas internas.

Ainda que o papel usado nas capas e quarta capas de Grande Hotel fosse o papel acetinado, mais brilhante, mais liso e mais caro do que o papel jornal usado na composição de seu miolo, valeria a pena o investimento da Editora Vecchi na compra desse papel e na impressão em cores desses componentes. Os leitores da revista, ao comprá-la, mesmo que fossem atraídos pelos fotodesenhos ou pelas fotonovelas, poderiam ter ainda mais vontade de adquirir Grande Hotel pelos recursos empregados nas suas capas e quarta capas. Primeiros elementos a serem vistos, os desenhos, as cores, a foto retocada, que retrata com detalhes os artistas representados, poderiam seduzir os olhos inclusive daqueles que nem fossem leitores de Grande Hotel, mas que, ao verem o impresso, passariam a ter o desejo pela aquisição e, possivelmente, pela leitura da revista.

Segundo Sylvette Giet (1997b, p.3), não há nada de surpreendente no fato de as capas, por exemplo, de Nous Deux, a versão da revista italiana na França, serem constituídas de desenhos em tempos de miséria (material) da imprensa. Mas, para a autora, em contrapartida, a temática e a estética desses desenhos são totalmente originais.91 No desenho da capa de Nous Deux, n.1, de 14/05/1947,92 que apareceria pouco mais de três meses depois na capa de Grande Hotel, n.5, de 27/08/1947,93 ambas, retomando a capa do n.11 de Grand Hôtel, conforme a autora, há um casal numa gôndola, no primeiro plano, sobre um fundo, como podemos imaginar, que representa Veneza, num cenário, nas margens, extremamente preciso. De acordo com Giet, a aquarela e a sutileza das cores quentes dão a ilusão de volume. A plástica dos

90 A respeito de todo o processo que envolve a produção gráfica de jornais e revistas, do maquinário à

tinta, aos tipos e tamanhos de papel, utilizados na sua impressão, consultar Lorenzo Baer (1999). Os tipos de papel empregados na fabricação de revistas ilustradas no Brasil, tendo em vista as técnicas usadas na composição de suas imagens, são indicados também por Orlando da Costa Ferreira (1994). As técnicas de editoração que ajudam a compreender os processos de produção material, industrial de impressos podem ser consultadas ainda em Emanuel Araújo (1986).

91

Vale notar que as capas dos números de Capricho mencionadas por Raquel Miguel (2009) em sua tese, sobre as leitoras da revista nos anos 1950 e 1960, eram compostas por fotografias coloridas, às vezes retocadas.

92 Consultar, nesse sentido, a figura 10 no corpo do capítulo 1. 93

129 personagens, como observamos em todas as capas de Grande Hotel analisadas por nós, faz visivelmente, segundo a pesquisadora, referência ao cinema hollywoodiano e a seus cartazes. Esse desenho não-assinado, nas duas revistas, seria obra de Walter Molino. De acordo com Isabelle Antonutti (2012a), sem assinaturas, os desenhos anônimos pertenceriam a todos e permitiria ao leitor melhor se apropriar da ficção aí sugerida.

Para Sylvette Giet (1997b, p.3), no desenho da capa citada, tudo concorre para guiar o olhar do leitor e para animar a cena, como ocorre também nas demais capas dos números de nosso corpus e naquelas de Grand Hôtel e de Nous Deux, às quais tivemos acesso. Nesse sentido, segundo a autora, destacam-se a construção em diagonais do primeiro plano (sobre um fundo de horizontais e verticais) e mesmo o jogo das linhas das roupas e dos reflexos. O casal deitado no fundo da gôndola, conforme Giet, é um casal entregue ao ócio, e sua riqueza é evocada pelo “sportswear”, pela discrição na combinação das cores, rompida pelas joias ou por uma echarpe, em resumo, pela elegância, em contraste com a vestimenta do gondoleiro.

As imagens que ilustram as capas da revista brasileira, como também as capas da revista francesa, ocupam a maior parte da folha grossa e colorida que serve de “cobertura” aos exemplares de Grande Hotel e de Nous Deux. Nas capas, há, entretanto, um espaço reservado estrategicamente para o nome da revista. De 1948 a 1961, em todos os exemplares analisados durante a pesquisa, título e subtítulo aparecem na parte superior da primeira folha de Grande Hotel.94 Seus supostos leitores poderiam visualizar a denominação atribuída à revista e, a partir daí, eles já saberiam o que encontrariam no interior de “Grande Hotel: a mágica revista do amor”.

O protocolo de leitura95 da revista brasileira apresenta-se ao leitor desde a sua capa, confeccionada com caracteres grandes e coloridos. Ao descer os olhos pela capa, o leitor, ao observar a imagem, encontra a confirmação do sentido construído a partir do

94 Os números anteriores ao n.75 de Grande Hotel, de 28/12/1948, e os posteriores ao n.729 da revista,

publicado em 19/12/1961, trazem apenas a denominação Grande Hotel, sem o subtítulo: “a mágica revista do amor”.

95 Trata-se do “contrato de leitura” – conceito também utilizado por Sylvette Giet (1997a,1997b) ao

analisar a revista Nous Deux –, estabelecido entre o texto e o leitor. Nesse contrato, ‘seus parágrafos e artigos’, isto é, os títulos, subtítulos, imagens, legendas, frases em destaque, a disposição dos elementos textuais nas páginas de um suporte, ao mesmo tempo em que mostram a especificidade dos textos apresentados ao leitor, convidam-no a manipulá-los, a compreendê-los de uma determinada forma. Essa forma de interação, seja com os textos de um suporte, seja com o próprio suporte, foi prevista antes, foi pensada no momento de produção do impresso. Assim, para cada tipo de texto, para cada tipo de suporte, um modo de leitura será demandado do leitor. Por meio de seus elementos, um impresso, um texto apresenta-se ao leitor já com uma proposta de produção de sentido, que poderá se aceita por ele ou não. O modo de negociação entre o leitor e o texto apresentado (imposto?) pelo contrato de leitura será guiado também pela liberdade do leitor. Nesse sentido, ver: Roger Chartier (1988), Umberto Eco (2004 [1994]) e Graça Paulino et al. (2001).

130 título e do subtítulo da revista. Todas as capas dos números analisados de Grande Hotel sugerem o amor entre as mulheres e os homens aí representados. Nesse caso, estamos considerando os movimentos de um leitor que colabora com os produtores do texto que se apresenta a ele.96 Esse leitor colaborativo se deixaria guiar pelos sentidos sugeridos tanto pelas marcas textuais, quanto pelas sugestões que o desenho da capa oferece.

Textos verbais e imagens estão juntos no dispositivo97 que procura conduzir o leitor no seu encontro com a revista. Para que não haja dúvida na interpretação da imagem da capa, na parte inferior da folha, algumas palavras indicam-lhe o significado do desenho. Todos os números da revista analisados apresentam uma espécie de título para os desenhos de suas capas.98

Tabela 30 – Título da ilustração das capas de Grande Hotel, entre 1947 e 1961

Grandes tendências Ano do exemplar Título da ilustração da capa

A gôndola das quimeras A torcida

1947

Chegou a Primavera

A boneca mais bonita é… você. Idílio campestre nos Alpes Mosquito impertinente O trem se atrasou 1948

Para o amor não há mau tempo Atrás do esporte vem o amor Chegou a Primavera! Fazemos as pazes? 1949

O melhor presente de Natal Alpinismo e amor

Amor no lar, neve na rua Baile a rigor

1950

Você, sim, é uma uva! 1947 a 1951

1951 A inspiradora de meus boleros

96 A esse respeito, consultar Umberto Eco (1979). Salientamos que, para traçar o perfil dos leitores

esperados para Grande Hotel, assim como dos leitores pensados pelos redatores da revista e instituídos pelos textos que compõem Grande Hotel, adaptamos o conceito de Leitor-Modelo, construído por Eco. Para a análise de nossos dados, procuramos operar com esse conceito tanto para o impresso, uma das fontes de nossa investigação, quanto para os diferentes gêneros textuais publicados na revista e não somente para a análise de narrativas, como fez o autor no trabalho do qual resultou o livro publicado no Brasil, em 1979.

97

Para um aprofundamento na discussão sobre dispositivos textuais, consultar Roger Chartier (1988).

98 Vale dizer que títulos para as ilustrações das capas foram localizados nos números consultados de

Grand Hôtel e de Nous Deux, publicados entre o fim dos anos 1940 e meados dos anos 1950. Ver, nesse

sentido, a figura 8, no corpo do capítulo 1, em que se encontra a imagem da capa de Grand Hôtel, n.1, 29/06/1946, e a figura 24, na qual vemos a capa de Nous Deux, n.225, 1951 [21/09/1951], nos apêndices da tese. A revista Capricho, por sua vez, não apresentava um título para as fotos de suas capas, mas um “slogan”, de acordo com Raquel Miguel (2009, p.89). Em 1953, Capricho era “A revista da moça moderna”; de 1954 a 1966, a “Revista mensal da mulher moderna”.

131 Grandes tendências Ano do exemplar Título da ilustração da capa

O jornalista se enamora Até a volta, meu amor! 1951

O presépio Amor e valsa 1951 a 1952

1952

Feliz Ano Novo A despedida do ano Aprendendo a patinar 1952

Idílio campestre

Amor, quer salvar-me do dilúvio? Missa do galo nos Alpes

1953 No bote e no coração 1952 a 1954 1954 Lua-de-mel A loura ou a morena? Feliz Natal! Idílio ao luar

Nosso amor é imenso como o mar 1954 O retrato da noiva Amor é felicidade Aumento do ordenado Chuva de verão Estudando a dois Feliz Ano Novo! Lindo presente 1955

O bolo de Natal Amor à primeira vista Contrastes

Feliz Ano Novo! Idílio estudantil Multa à vista Parque de diversões 1956 Viajantes em lua-de-mel A noiva do cadete Fingindo dormir Fios do destino

Turistas no Velho Mundo 1957 Um passeio em gôndola À espera da meia-noite Alpinismo Engano Noite de Natal 1958 Visita ao castelo Excursão sentimental Início de um idílio Piquenique

Presentes para a esposinha Rumo à ilha dos sonhos 1959

Um troféu e um sorriso

Coitadinho, você tem de aprender! Êle não tem pressa!

Felicidades para todos em 1960 Pensando na lua-de-mel 1954 a 1961

1960

132 Grandes tendências Ano do exemplar Título da ilustração da capa

A felicidade no amor A mais bela viagem Paisagem ou retrato? 1961

Querido papai

Desses títulos, 41% apresentam, explicitamente, a palavra “amor”, ou são formados por termos de grupos semânticos próximos (“idílio”, “enamora”, “coração”, “lua-de-mel”, “sentimental”, “a dois”). Os outros títulos, 59% do total, os quais descrevem as imagens das capas, juntamente com o nome da revista e os desenhos aí presentes, conduziriam o leitor para o universo dos encontros amorosos.

Mas seria mesmo necessário explicar o que encenam as capas dos números de

Grande Hotel? Que tipo de leitor seria esse, o leitor esperado para a revista? Por que

não poderia ele mesmo criar, com mais liberdade, o significado para a ilustração das capas?

As capas de Grande Hotel, Grand Hôtel e Nous Deux ilustram sempre uma cena de uma história de um casal, formado por um homem e por uma mulher, às vezes experimentado o amor, em um cenário romântico, outras vezes, vivenciando ‘problemas’ do cotidiano. Para Sylvette Giet (1997b), pelo título, é o casal que afirma

Nous Deux. No caso da revista francesa, a grafia “inglesa” do título de Nous Deux,

segundo Giet (p.3), mostraria familiaridade com os leitores. “Tratar-se-ia do discurso da revista, chamando para o diálogo? Do discurso suposto de uma leitora, evocando sua intimidade com um cônjuge? Até mesmo do diálogo suposto entre a leitora e seu companheiro?”.99 Para a autora, em todos os casos, o título expõe uma relação afetiva, estabelecida entre os leitores e a revista, e as capas de Nous Deux em seu conjunto apresentariam o programa do impresso (p.95).

Isabelle Antonutti (2012a, p.194) assim descreve o que serviria100 de referência para as capas da revista francesa que a pesquisadora analisou: “uma bela capa em cores vibrantes que representa em geral um jovem casal feliz e apaixonado. Ele [o casal] evoca o amor, a felicidade e o sucesso pela família. Esse casal evolui em um quadro moderno. Ele conduz um carro, toma banho de mar ou vai ao cinema...”. A sugestão do

99 No original, em francês: “S’agit-il du discours du magazine appelant au dialogue? Du discours supposé

d’une lectrice évoquant son intimité avec un conjoint? Voire du dialogue supposé entre la lectrice et son compagnon?” (GIET, 1997b, p.3).

100 Na tese, em francês, lemos: “une belle couverture aux couleurs chatoyantes qui met en scène en

général un jeune couple heureux et amoureux. Il évoque l’amour, le bonheur et la réussite par la famille. Ce couple évolue dans un cadre moderne. Il conduit une voiture, il se baigne au bord de la mer ou il se rend au cinéma... ” (ANTONUTTI, 2012a, p.194).

133 possível encontro bem-sucedido do casal é visível em praticamente todas as capas das revistas consultadas. Os espaços, em que as cenas dos desenhos das capas consultadas das três revistas se passam, são muitas vezes lugares de sonho, ou ‘exóticos’, como podemos ver na imagem da capa do n.5 de Grande Hotel ou da capa do n.1 de Nous

Deux, ou na imagem seguinte, retomada na capa do n.644 de Grande Hotel, de

134 Figura 25 – Capa da revista Grande Hotel, n.644, de 08/12/1959.

135 Figura 26 – Capa da revista Grand Hôtel, n.682, de 18/07/1959.

136 Na capa, por exemplo, do n.644 de Grande Hotel, vemos um casal, formado por um homem branco e uma mulher branca, de olhos claros.101 Eles estão em um barco. O homem, de camisa listrada, lembra um marinheiro; além da roda de leme que ele maneja, as listras e o modelo de sua camisa reforçam essa impressão. Ele olha para o horizonte e, ‘naturalmente’, nesse contexto, conduz o barco (símbolo da relação?). A mulher, loura, de olhos verdes, usa batom e esmalte vermelhos, cor ‘tradicionalmente’ ligada à paixão. Ela está sentada um pouco mais à frente do homem e apresenta um olhar penetrante, como se estivesse posando para uma câmera.102

O clima de sensualidade está aí presente como estava também nas capas em que Veneza compunha o cenário, embora os casais não tenham uma atitude explicitamente erótica, como destaca Sylvette Giet (1997b) para a capa do n.5 de Nous Deux. Nos dois casos, todo o desenho converge em direção ao casal. No n.644 de Grande Hotel, na extremidade esquerda inferior da capa, lê-se: “Rumo à ilha dos sonhos”. O barco e o mar, nesse contexto, só reforçam a ideia de que o casal viveria, numa ilha, longe de interferências, o amor romântico, objeto dos sonhos – imagina-se – de muitos – senão de todos – leitores esperados para Grande Hotel.

Seria por causa desse clima de sensualidade que alguns pais proibiriam seus filhos, sobretudo, suas filhas de lerem a revista? Segundo Margareth, em sua casa, “graças a Deus, nunca teve nenhum impedimento pra ler fosse o que fosse. A gente tinha plena liberdade de leitura. Mesmo no tempo, quando minhas colegas de escola eram proibidas de ler Grande Hotel e de ler história em quadrinho [...]” (Margareth, professora universitária, 04/05/2011). Por que Grande Hotel e histórias em quadrinhos seriam leituras proibidas em alguns lares? Alguns dos leitores de Grande Hotel que nós entrevistamos eram também leitores de quadrinhos. Esse é o caso, por exemplo, de Wagner Emanuel, Kléber, Adônis, Adélia, Alzira e da própria Margareth.

De acordo com Eliane Marta Teixeira Lopes (2012, p.16), seus pais,

apesar da baixa escolaridade (nada de extraordinário para época [...]), eram também leitores vorazes – de gêneros diferentes, claro: policial e aventura para ele; poesia e romances para ela – e tinham princípios

101 Vale notar que todas as mulheres e todos os homens representados nas capas dos números de Grande

Hotel que analisamos são brancos, têm cabelos lisos ou ondulados e parecem ser jovens adultos, com

idades entre 20 e pouco mais de 30 anos.

102 Nessa capa, a mulher representada retoma as características de Marilyn Monroe. A postura da mulher

representada no desenho sugere a relação da revista Grande Hotel com o cinema. Também Giet (1997a, 1997b), como salientamos, constatou que os desenhos das capas de Nous Deux retomavam as formas, a aparência dos personagens do cinema hollywoodiano.

137 rígidos em relação às escolhas. Mesmo hoje, não leio revistas em quadrinhos, que foram proibidas àquela época: acreditavam que esse tipo de leitura me acostumaria mal, não saberia ler livros depois, e isso seria da ordem do imperdoável [...].

No caso de Grande Hotel, haveria alguns agravantes, que contribuiriam com essa proibição. Para Wagner Emanuel, o problema seria a revista não ser propriamente uma um bem cultural legítimo, que veiculasse textos da cultura erudita. Uma vez que seu pai era professor universitário, e a cultura cultivada na sua casa era bem acadêmica, erudita ‘mesmo’, o ambiente era controlado. O espaço mais livre desse controle era o espaço das empregadas da sua casa, onde ele encontrava Grande Hotel e outras revistas de fotonovelas.

Para Nelson, a interdição na leitura era de outra ordem. Entre os operários da construção civil com quem ele trabalhava, ele mesmo operário, revista de fotonovela não era considerada revista para ‘homens’. Então,

[...] Às vezes, a gente era criticado porque ficava lendo. Tinha os preconceitos dos próprios colegas. Você ler uma fotonovela naquela época era um abuso com o machismo que existia. Mas quem tem a cabeça feita não vê isso dessa maneira. Eu não achava nada demais eu ler uma fotonovela e continuar sendo um homem “normal”. A gente, às vezes, até sofria com esse preconceito. Mas aquilo não me atingia. A minha cabeça era outra. Ler era a melhor coisa que tinha [...] (Nelson, pedreiro, 28/10/2011).

Para as mulheres, a proibição relacionava-se a questões morais. Grande Hotel era considerada uma revista indecente103 por veicular histórias com imagens nas quais homens e mulheres se beijavam, se encontravam, se tocavam. Além disso, o problema estaria também no fato de a revista veicular histórias de amor em quadrinhos, que valorizavam a realização na vida pelo amor romântico, em um percurso sempre repleto de sofrimento. Nas palavras de Ana Lúcia, “[...] A mãe da gente falava que não podia ficar... Em casa, a gente não lia aquilo porque ela tomava e rasgava, falava que estava aprendendo besteira” (Ana Lúcia, manicure aposentada, 09/05/2011). Revistas como

Grande Hotel, Capricho, Ilusão e Sétimo Céu eram proibidas e, por isso, Ana Lúcia e os

irmãos liam “escondido” “na roça”. De acordo com a leitora,

103 Nous Deux foi também considerada “obscena”. Sylvette Giet (1997a, 1997b) discute em seus trabalhos

a seguinte afirmação de Roland Barthes, publicada em seus Fragmentos de um discurso amoroso: “Nous

138 [...] Meu avô quando pegava a gente lendo essas revistinhas, que a gente sempre ia pros empregos, mas a saudade era tão grande que voltava e trazia as revistinhas escondido, dentro de uma mala, e ia ler no meio da roça [...] Lá no mato, vovô vinha com “espera aí, que absurdo! Lendo essas porcarias, essas coisas que não prestam, pra botar vocês com a cabeça ruim, menina. Para com isso”. Então, a gente amoitava104 a revista [...] E Grande Hotel já tinha mais assim... Falava mais sobre a besteira, o sexo [...] Era mais evoluído que os pequenininhos, Capricho, Ilusão. Já tá escrito capricho, né? Ilusão e Sétimo Céu [...], você achava que tava subindo pro sétimo céu. [...] o Grande Hotel era mais... Era diferente, era mais instruído, uma coisa mais assim... Como é que fala? É... Sei lá, evoluído [...]? Falava mais assim dos contos e tal. Aí, a gente ficava pensando, será que não é o conto de fada que a gente caiu a vida inteira? [...] (Ana Lúcia,