2. JUSTIFICATIVA
6.2 Capacidade funcional e espirometria nos participantes com asma
Pacientes com asma não controlada foram os que mais apresentaram resposta pós-BD em relação aos valores de FEF25-75%. Rao et al.107 também evidenciaram que alterações no FEF25-75% estão fortemente associadas ao controle inadequado da asma em crianças, com maior percentual de internações, uso sistêmico de corticosteroides, atendimentos em pronto- socorro e exacerbações 107.
O FEF25-75% é capaz de refletir a obstrução ao fluxo aéreo nas vias aéreas periféricas, principalmente em crianças108-109. Lebecque et al.108 e Constant et al.110 demonstraram que o FEF25-75% é um parâmetro mais sensível que o VEF1 e os outras medidas espirométricas utilizadas para avaliar a obstrução. Valores de FEF25-75% comprometidos estão relacionados a maior gravidade da doença e podem estar associados ao risco futuro de exacerbações e asma mal controlada, uma década mais tarde107-111.
Mesmo em crianças com asma não controlada, valores normais de VEF1 são frequentemente observados108. Além disso, Ferguson112 observou em seu estudo que em crianças e adolescentes com asma assintomáticos, baixos valores no FEF25-75% apareceram em maior proporção que no VEF1, sugerindo que o FEF25-75% é um indicador mais sensível de obstrução crônica nesses indivíduos112.
Em nosso estudo, crianças e adolescentes que apresentaram resposta ao FEF25-75% na espirometria pós-broncodilatador, foram os indivíduos que obtiveram a maior variação na distância percorrida no TC6, independente do nível de controle da doença. No entanto, esta relação não foi observada nos valores de VEF1.
Rao et al.107 e Borrego et al.113 concluíram em seus estudos que o FEF25-75% pode ser utilizado como marcador de resposta ao BD, sendo mais sensível que o VEF1107,113. O mesmo foi observado no estudo Simon et al.114, onde as análises realizadas indicaram que o FEF 25-75% previsto tem relação mais forte com a resposta ao BD do que o FEV1/ CVF% prevista e o VEF 1 % previsto.
Não encontramos diferença na média da distância percorrida no TC6, tanto no pré-BD quanto no pós-BD, em todas as análises realizadas em nosso estudo, portanto, nossos grupos eram homogêneos. Este fato, somado ao resultado da análise de regressão linear múltipla, indicaram que a resposta ao FEF25-75% e o maior ∆TC6, estão relacionados exclusivamente com o uso do BD.
Não há estudos na faixa etária pediátrica que avaliem a capacidade funcional de indivíduos com asma antes e após uso de broncodilatador. Segundo Aguilaniu115 que analisou a resposta ao broncodilatador de pacientes adultos com doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) no exercício, a broncodilatação, ocasionada pelo uso de b2-agonistas, pode melhorar a obstrução brônquica e a limitação ao fluxo aéreo, no entanto, seu efeito na capacidade de exercício ainda é inconsistente115.
De acordo com Martins et al.71, o teste AVD-Glittre adaptado para crianças apresenta tarefas lúdicas e atraentes, é mais dinâmico, divertido e apresenta maior variedade de atividades e velocidades que o TC6. Segundo Reis et al.72 e Capeletti et al.116 o desempenho dos participantes no teste AVD-Glittre está diretamente relacionado com à gravidade da doença, o que reforça o fato de que este teste é melhor para diferenciar pacientes com limitações funcionais graves daqueles com capacidade funcional preservada, pois envolve atividades comuns essenciais à vida cotidiana 72,116.
Acreditamos que não encontramos a relação do ∆AVD-Glittre com as variáveis analisadas, incluindo o FEF25-75%, como foi observado no TC6, pois, este teste é capaz de refletir melhor a capacidade de realização das tarefas cotidianas do que a capacidade ao exercício. Além disso, a amostra do nosso estudo foi composta por crianças e adolescentes com asma, que ainda não apresentam limitações importantes na realização das atividades de vida diária, como ocorre nos pacientes adultos com DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica).
6.3 COMPARAÇÃO ENTRE ASMA CONTROLADA E NÃO CONTROLADA Não encontramos diferença no nível de atividade física de crianças e adolescentes com asma controlada e não controlada, pelo questionário IPAQ e pelo pedômetro.Verlaet et al.117 avaliaram o nível de atividade de adultos com asma controlada, não controlada e saudáveis e não encontraram diferenças entre os grupos. Assim como em nosso estudo, Matsunaga et al.101 também avaliaram o nível de atividade física de crianças e adolescentes com asma controlada e não controlada pelo questionário IPAQ e concluíram que não houve associação entre atividade física e nível de controle da asma.
Porém, Vahlkvist & Pedersen118 avaliaram crianças e adolescentes com asma e investigaram a relação dos sintomas apresentados com o nível atividade física, e constataram que o pior controle da doença está associado à redução da aptidão física e ao tempo gasto em atividades intensas118. O mesmo foi observado por Holderness et al.105 que estudaram atividade física e controle da asma em crianças e adolescentes, onde aquelas com sintomas não controlados apresentaram maior limitação nas aulas de educação física, durante esportes, atividades vigorosas e mesmo durante atividades leves.
Independentemente do nível de controle da asma, os participantes apresentaram o mesmo desempenho nos testes de capacidade funcional TC6 e AVD-Glittre. Não há estudos que comparem o desempenho de crianças e adolescentes com asma controlada e não controlada em testes de capacidade funcional. Gazzotti et al.119 avaliaram o impacto da asma na realização de atividades de vida diária, qualidade de vida e lazer em adolescentes brasileiros com asma. Os autores constataram que os participantes com asma não controlada apresentaram maior dificuldade na realização nas atividades diárias e no esforço físico leve do que aqueles com asma controlada119.
Em estudo com adultos brasileiros, Pereira et al.70 avaliaram pacientes com asma grave não controlada pelo TC6 e concluíram que esses indivíduos percorreram uma distância em metros semelhante àquela prevista para a população brasileira saudável70. Os autores acreditam que essa diferença não foi observada devido à falta de um grupo controle, à pequena casuística, ao delineamento transversal e por ter sido conduzido em um único centro70.
No presente estudo, não encontramos diferença nas variáveis da espirometria entre os pacientes com asma controlada e não controlada. Cowie et al.120 analisaram a relação entre gravidade e controle dos sintomas com a espirometria em 500 pacientes com diagnóstico de asma. Segundo os autores, não há relação direta entre as variáveis com medidas subjetivas de gravidade ou controle da doença120. Como em nosso estudo, as medidas VEF1/CVF e VEF1 não diferenciaram pacientes com asma controlada e não controlada.
O controle da asma é o objetivo principal do manejo do tratamento destes pacientes, mas a avaliação precisa do nível de controle da asma é difícil. Os questionários c-ACT e ACT são recomendados pela GINA2 para identificar o controle e incluem perguntas que avaliam limitação de atividades, sintomas diurnos e sintomas noturnos121. Porém, essas respostas são subjetivas e influenciadas pelo nível de percepção das crianças e adolescentes122.
A percepção dos sintomas da asma representa um aspecto fundamental nesta questão, uma vez que os médicos e os pacientes geralmente tendem a superestimar o nível de controle da doença123. Segundo Pedersen122, o escore do c-ACT e do ACT >19 provavelmente não é a melhor indicação para classificar o controle da asma, pois estudos mostram que um grande número de crianças, apesar de serem classificadas como asma controlada pelos testes, podem ainda apresentarem clínica de doença não controlada121. Fato que pode explicar porque em
nosso estudo não conseguimos identificar nenhuma diferença em relação ao nível de atividade física, capacidade funcional destas crianças e adolescentes classificadas com asma controlada e não controlada pelo c-ACT e ACT.
7 CONCLUSÃO
Em conclusão, todas as avaliações realizadas (pedômetro, IPAQ, TC6 e AVD-Glittre) foram capazes de diferenciar o nível de atividade física e a capacidade funcional entre os participantes dos grupos, indicando que crianças e adolescentes com asma, apresentaram pior desempenho físico no resultado de todas as avaliações em comparação aos indivíduos sem asma.
A resposta ao FEF25-75% pós-BD na espirometria relacionou os pacientes com asma não controlada.
Crianças e adolescentes com resposta ao FEF25-75% na espirometria pós- broncodilatador, foram os indivíduos que apresentaram maior variação no desempenho entre os TC6 realizados.
As medidas espirométricas que avaliam obstrução e gravidade não diferenciaram pacientes com asma controlada e não controlada.
Não houve diferença na avaliação dos indivíduos com asma controlada e não controlada em relação ao nível de atividade física, capacidade funcional.