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Quem ler o testemunho de Urach, depara-se, na sequência, com um tipo de conduta empresarial, em que o cálculo da renda é aplicado à subjetividade da depoente. O prelúdio dessa transação tem como cena validada o ritual místico da oferenda. A negociação feita entre Urach e a entidade espiritual, conforme o relato — “a pomba-gira” (linha 55) “no batuque” (linha 56) —, custou a Andressa o valor “quase de um apartamento” (linha 60). Na sua condição de produção, a oferta sempre foi um fenômeno controverso nos segmentos religiosos em geral. Em Goiás, Bispo e padres já foram presos acusados de desviar R$ 1 milhão por ano da diocese.

Questionado, o vigário da paróquia confessou que o dinheiro tinha origem na oferta95. Caso

semelhante ocorreu com a Igreja Universal, que precisou devolver 74 mil reais de doações feitas

por uma contadora, até então membro da instituição96.

A descontinuidade, provocada pelo discurso histórico que atravessa a fala de Andressa, encontra-se no vínculo existente entre a oferenda espiritual e o efeito de malignidade presente, sobretudo nas religiões de matriz africana. O efeito de sentido de prejudicialidade não pode ser

verificado nas denominações cristãs97. Essa perspectiva se confirma no viés dado pela própria

Urach, que diz: “como eu ofereci a minha vida ao diabo, né?”, “eu fui uma grande pecadora”

(linhas 68-69). O desejo pela conquista e a capacidade de consumir e acumularda depoente são

as primeiras pistas de um modo hodierno e comum de ser que emerge em função de uma techne. A esse respeito, Lourenço, Adriana e Sandra Silva, nos testemunhos da Fogueira Santa e do

95 Disponível em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2018/03/19/bispos-e-padres-presos-

desviavam-r-1-milhao-por-ano-de-arquidiocese-em-goias-diz-mp.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em: 24 nov. 2018.

96 Disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/igreja-universal-tera-que-devolver-74-mil-de-doacoes-feitas-

por-fiel-11089755. Acesso em: 24 nov. 2018.

97 É possível que se interprete que as tecnologias da oferta cristã se associem à corrupção, mas não à malignidade

Sacrifício, respectivamente, parecem desenvolver a mesma techne para alcançar a almejada transformação, tendo como ruptura aparentemente a natureza do agente místico.

No caso de Andressa, essa subjetividade de capital humano torna-se presente, de fato, no momento em que o desejo verte-se na alegoria da empresa de si mesmo para fazer frente à concorrência. O efeito de sentido de uma conduta que atua na lógica de mercado parece tomar conta do discurso testemunhal quando se evidencia o engajamento de Urach pela forma ideal (“o meu corpo era o meu templo”, linha 82). Afastada do mal, discursivizado sob a esquiva de uma religião “errada”, a depoente confessa ter feito dez cirurgias plásticas e, ainda, aplicações de preenchimentos em forma de gel (hidrogel) nos membros inferiores. Essa espécie de capacitação ou qualificação física se justificava no ensejo de ser “assistente de palco” (linha 90) por “sonhar trabalhar na televisão” (linha 92). Exitosa na conquista das aptidões físicas, o relato se ampara, talvez de modo inconsciente, na ideia de sujeito como empresa de si. Validamente, a glória de vencer uma disputa no contexto competitivo é atribuída ao esforço do “eu individual”. Esse efeito de sentido gerado se ancora na sentença: “eu fui lá e persisti, consegui, Graças a Deus e ao meu trabalho” (linha 92). Essa interpretação da subjetividade tem sua proveniência no anarcoliberalismo americano, escola neoliberal que ampliou “a racionalidade do mercado a domínios tidos até então como não econômico (teoria do capital humano)” (SENELLART apud FOUCAULT, 2008, p. 527).

É certo que há, nas linhas 10 e 11, uma breve menção às dificuldades econômicas enfrentadas por sua mãe para sustentá-la. Nessa direção, Andressa chega a dizer que era de “família muito pobre”, contudo, parece não haver no testemunho a compreensão, não definitiva mas possível, dos embates históricos entre classes — exploradores e explorados, burguesia e proletariado, alto clero e plebe — como empecilho de um afloramento financeiro ou profissional. O que se infere, a partir dos efeitos de sentido gerados, é um modo de sujeição excessivamente individualista. Modo esse capaz de se alegrar quando utiliza o pronome pessoal “eu”, e o possesivo “meu”, quando obtém êxito, mas que também sintetiza afetos como a vergonha e o medo, quando esse mesmo “eu” fracassa.

Essa maquinaria ou engrenagem de produção de sujeitos, que tem como braço a teologia da prosperidade, produz uma felicidade que funciona não somente articulada com a responsabilidade autoritária do governante ou do pastor mas ainda por meio de uma suposta “liberdade” e responsabilidade pessoal para a bem-aventurança. Por isso, insistimos no vínculo existente entre essa teologia e a razão governamental da biopolítica (FOUCAULT, 2008) que versa sobre um individualismo competitivo somado à perda da referência de classe social.

Foucault (2008) explana, com muita clareza, como esse tipo de racionalidade invade a subjetividade do homem do século XX:

O bem de todos vai ser assegurado pelo comportamento de cada um, contanto que o estado, contanto que o governo saiba deixar agir os mecanismos de interesse particular que estarão assim, por fenômenos de acumulação e de regulação, servindo a todos. O Estado não é, portanto o princípio do bem de cada um [...]. É esse ao meu ver, uma mudança capital que nos põe em presença dessa coisa que vai ser, para a história dos séculos XVIII, XIX e também XX, um elemento essencial, a saber: qual deve ser o jogo do Estado, qual deve ser o papel do estado, qual deve ser a função do estado em relação a um jogo fundamental e natural, que é o jogo dos interesses particulares (FOUCAULT, 2008, p. 466).

No caso de Urach, o modo subjetivo independente e meritocrata parece sofrer uma espécie de colapso depois da introdução do que a depoente chamou de “veneno” para se referir ao hidrogel, momento de clímax na verdade narrada (linha 153). É nesse contexto que os enunciados relacionados à sua felicidade ganham outro sentido. Cônscio do excesso de vaidade, da necessidade de amor, de atenção e da presença do ódio na sua alma (linhas 99-104), o testemunho parece se entregar à topografia de uma interioridade, do jogo perturbador do pensamento, que muito se assemelha ao gênero confissão cristã, um modo de coação que sustenta a ruminação ativa. O eu, entidade privada, novamente volta ao epicentro da enunciação.

Quando tem início o calvário de Andressa – que pode ser esquematizado na sequência de cenas validadas: a infecção pelo líquido, a lipoaspiração, a liberação do trabalho, a chegada da ambulância e a emergência do hospital (os episódios da cenografia se evidenciam entre as linhas 103 e 117) –, o primeiro sintoma daquilo que chamamos de colapso de um modo subjetivo tornou-se possível pelo ritual de dependência e agradecimento que a depoente constrói em homenagem ao Sistema Único de Saúde (SUS). Com isso, o modo independente presente naquela conduta, de um eu persistente, cônscio do seu próprio esforço e capaz de ir em busca do seu “sonho” (linha 91), deu lugar ou dividiu espaço com um modo de ser possivelmente condicionado pela sua própria vulnerabilidade. Nesse episódio circunstancial, o direito

fundamental à saúde98 parece ser lembrado. A gratidão de Andressa emerge em pormenores.

Hierarquizado, o reconhecimento é endereçado ao SUS, ao Hospital Nossa Senhora da

98 O direito à saúde está presente na Constituição Federal de 1988. Com o objetivo de promover o bem-estar e a

justiça social a Constituição, no seu Art. 6º, estabelece ainda a educação, o trabalho, o lazer, a segurança e a previdência social como outros direitos fundamentais. Disponível em:

https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/518231/CF88_Livro_EC91_2016.pdf. Acesso em: 27 nov. 2018.

Conceição e à equipe de profissionais que compõe a instituição. Na ocasião, a soberania individual de Urach não se mostrou com a mesma autonomia de outrora.

O modo subjetivo da empresa de si mesmo, no entanto, parece não sucumbir por completo. A mesma depoente que confessa ter ganhado muito dinheiro (linhas 59 e 61) também parece inteirada dos custos dos 25 dias de internação. A gratidão pelo dispêndio, no valor de R$ 350 mil (linha 114) cria um efeito de sentido não egoísta, de reconhecimento do outro em função da produção discursiva de um ethos humilhado. Essa confluência de modos de ser, de tipos, de processos ou de fluxos subjetivos encontra âncora na leitura que Deleuze (2011, p. 122) faz de Foucault.

Que posso eu saber ou que posso ver e enunciar em tais condições de luz e de linguagem? Que posso fazer, a que poder visar e que resistências opor? Quem posso ser, de que dobras me cercar ou como me produzir como sujeito? Sob essas três questões, o eu não designa um universal, mas um conjunto de posições singulares ocupadas num Fala-se/Vê-se Combate-se, Vive-se. Nenhuma solução pode ser transposta de uma época a outra, mas pode haver usurpações ou invasões de campos problemáticos, fazendo os dados de um velho problema serem reativados em outro.

O modo não egoísta que predomina na ocasião da narrativa é uma semente histórica cristã, como diria Foucault (2008, p. 243) por não ser marcada “pelo domínio de si sobre si, mas por toda uma rede de servidões, que implica uma servidão geral de todo mundo em relação a todo mundo”. São páginas deveras determinantes e descontínuas no livro inacabado do cuidado de si.