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Características gerais do desenvolvimento do adolescente

Parte II ADOLESCÊNCIA E RISCO

CAPÍTULO 2 – Um panorama do desenvolvimento do adolescente

2.1 Características gerais do desenvolvimento do adolescente

“A adolescência, em todas as sociedades industriais e ao longo de todo o século, constitui um período da vida cheio de oportunidades e riscos”.9

a) Uma perspectiva história

Na Grécia antiga, os pensadores Platão e Aristóteles comentaram a natureza da juventude. Em seus diálogos, Platão (séc. IV a.C.) se referia aos jovens como apaixonados e emotivos, mencionando que o raciocínio não seria uma característica das crianças, eclodindo apenas na adolescência. O desenvolvimento humano também já era discutido por seu aluno, Aristóteles (séc. IV a.C.), para quem os estados progressivamente mais altos da alma culminam aos 14-21 anos de idade (Chipkevitch, 1994). Aristóteles, ao mencionar que o aspecto mais importante da adolescência era a habilidade para escolher, argumentava que tamanha autodeterminação se tornava uma marca da maturidade (Santrock, 2003). A visão de Aristóteles não difere muito de visões contemporâneas que consideram a independência, a identidade e as escolhas educacionais, profissionais e inter-pessoais como os pontos chaves da adolescência.

Muitas descrições da juventude encontradas em obras de autores gregos surpreendem por sua semelhança com visões atuais da juventude, como por exemplo:

Os nossos jovens parecem amar o luxo. Têm maus modos e desdenham a autoridade. Desrespeitam adultos, e gastam seu tempo vadiando por aí, tagalerando uns com os outros. Estão sempre prontos a contradizer seus pais, monopolizam a atenção em conversas, comem insaciavelmente, e tiranizam seus mestres... (Sócrates, 469-399 a.C., citado por Chipkevitch, 1994, p. 112).

Os jovens são apaixonados, irascíveis, e tendem a se deixar levar por seus impulsos, particularmente os sexuais, e neste sentido não conhecem a continência. Também são volúveis, e seus desejos inconstantes, além de transitórios e veementes. Levam tudo ao extremo, seja amor, ódio ou qualquer outra coisa. Acham que sabem tudo... (Aristóteles, 384-322 a.C., citado por Chipkevitch, 1994, p. 112).

De uma perspectiva histórica, há de se considerar a adolescência como um fenômeno recente, um processo que marca a transição do estado infantil para o estado adulto. Em seu livro sobre a História Social da Criança e da Família, Áries (1981) discorre sobre como somente em meados do século XVI passou-se a diferenciar infância, juventude e velhice. O termo juventude estava relacionado a uma idade mais tardia, significando “força da juventude”, de modo que não havia, ainda, um lugar para a adolescência (Levisky, 1995).

Ao longo de toda a Idade Média, as crianças e os adolescentes eram contemplados como miniaturas de adultos, não se distinguindo enquanto uma categoria etária específica. Ao se integrarem ao trabalho da comunidade, as crianças ingressavam muito cedo no mundo adulto (Áries, 1981).

Somente a partir da Renascença foi que a adolescência começou a ser entendida sob um novo prisma. No século XVIII, o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau escreveu uma opinião mais esclarecida sobre a adolescência, apontando que ser uma criança ou um adolescente não era o mesmo de ser adulto (Rousseau, 1973; 1979). Tal qual Platão, Rousseau

e 20 anos de idade como uma fase na qual os indivíduos amadurecem emocionalmente, substituindo o seu egoísmo por um interesse nos outros. Rousseau, considerado o primeiro grande teórico da adolescência, foi um precursor na concepção da crença de que o desenvolvimento tem fases distintas (Cole & Cole, 2003).

Ao se referir ao recente processo de sociogênese da adolescência, enquanto uma invenção social, Cavalcanti (1988) leva a refletir que: “se a infância nasceu com a burguesia, a adolescência foi gerada no bojo da revolução industrial. Seu conceito é mais nítido na população urbana do que na população do campo e mais bem caracterizada quanto maior for o privilégio da classe social a que pertence” (p. 10). Kensington (1970) afirma que quando um segmento da sociedade produz o suficiente para liberar os jovens a partir dos 12 anos da força de trabalho, aí se demarca claramente o conceito de adolescência. Ao empreenderem um levantamento histórico do surgimento da adolescência, Oliveira e Egry (1997) afirmam que esta é um produto da Revolução industrial, configurada a partir da instituição do sistema educacional obrigatório e os programas de maternidade e da infância.

Ao final do século XVIII e início do século XIX, a educação das crianças havia se tornado mais difundida e extensiva, implicando numa maior atenção social dirigida às crianças mais velhas, um grupo que demandava uma maior atenção em função das recorrentes situações conflitivas em que se metia e da dificuldade de seu controle (Oliveira & Egry, 1997). Ao término do século XIX, diversas leis foram criadas visando a restrição do trabalho infantil e a consolidação da escolaridade obrigatória (Kett, 1979). Ocorreu, então, que os adolescentes passaram, de súbito, a conviver muito mais tempo com seus pares e separados dos adultos. À medida que foram marginalizados com seus companheiros, os adolescentes desenvolveram sua própria cultura, passando a ser vistos como uma classe diferente de indivíduos que haviam

deixado a inocência da infância para trás, mas que ainda não podiam assumir as responsabilidades da vida adulta.

A moldagem do conceito de adolescência deu-se principalmente na virada para o século XX, quando diversos psicólogos, educadores, assistentes sociais e orientadores começaram a desenvolver normas de comportamentos para adolescentes (Santrok, 2003). Um dos primeiros a propor que a adolescência era uma fase evolutiva do desenvolvimento humano, com direito a uma investigação específica, foi o psicólogo norte-americano Stanley G. Hall, autor do volumoso e influente tratado de 1904, com mais de 1.300 páginas, intitulado “Adolescência: sua psicologia e suas relações com a fisiologia, antropologia, sociologia, sexo, crime, religião e educação”. A convicção de Hall, que perdura até os dias de hoje, é a de que a adolescência é necessariamente uma fase do desenvolvimento associada a tumulto emocional, tensão e agitação.

Uma série de autores de orientação psicanalítica vieram reforçar a concepção da adolescência como um período marcado por inescapáveis perturbações psíquicas (Berryman, Hargreaves, Herbert & Taylor, 2001). Ao configurar as devidas considerações deste importante período de desenvolvimento humano, talvez a principal contribuição de Hall tenha sido criar um lugar para a adolescência (Springthall & Collins, 1994), mas a caracterização da adolescência como um estágio do desenvolvimento deixou pouco espaço para outras explicações que dessem conta das influências do meio e do contexto no qual ela se dá.

Entre os escritos de Hall e o início da década de 50 ocorreram inúmeros acontecimentos sociais, econômicos e políticos no mundo industrializado que subsidiaram a “invenção” da adolescência enquanto um período do desenvolvimento. Leis sobre o trabalho infantil foram instituídas, uma série de contingências econômicas adiaram a entrada dos

jovens no mercado de trabalho e, aos poucos, a sociedade passou a aceitar a necessidade de um período de transição entre a infância e a vida adulta.

b) Adolescência: em busca de uma definição

Ao se partir em busca de uma definição para o termo adolescência, pode-se recorrer, como recurso primeiro, a um dicionário da Língua Portuguesa qualquer. O Dicionário Houaiss, por exemplo, assevera que o adolescente é aquele que: “se encontra em processo de maturação; que está no início de um processo; que ainda não alcançou todo o vigor”, e que a

adolescência é uma “fase do desenvolvimento humano caracterizada pela passagem à

juventude e que começa após a puberdade” (Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa, 2001).

Uma aproximação etimológica desvela que o termo adolescência vem do verbo latino

adolescere, significando “crescer para a maturidade” (Mussen, Conger, Kagan & Huston,

1995). Sendo assim, seu começo estaria marcado pelo início da puberdade e o término se daria quando as responsabilidades adultas estivessem assumidas, o que é bem ilustrado pela frase singela que tanto diz: “a adolescência começa na biologia e termina na cultura” (Musse & Cols, p. 515). De modo que o período que chamamos de adolescência tanto pode ser breve, como nas sociedades mais simples, ou extensivamente prolongado, como ocorre na sociedade ocidental.

Já é senso comum conceber a adolescência como um período de transição da infância para a vida adulta. A. Pereira (2005) aponta que: “Na psicologia do desenvolvimento,

adolescência é um construto teórico referente a um processo, e não um estado, caracterizado

pelas mudanças psicológicas que ocorrem num período de transição entre a infância e a idade adulta” (p. 1).

Ruffino (1993), autor que conseguiu contemplar diversas variáveis inerentes a uma conceitualização mais ampla do termo adolescência, assim se refere a ela:

A adolescência é um conceito historicamente determinado, um fenômeno da modernidade, que atinge o jovem do ocidente por eclosão da puberdade, quando, por falta de dispositivos em geral presentes nas organizações societárias pré-modernas ou não ocidentais, a passagem da criança ao jovem adulto se tornou problemática (p. 41).

Atualmente, diversas contribuições da antropologia referentes ao conceito de adolescência se contrapõem às teorias de autores como Freud, Hall e outros que postulavam que a causalidade da conduta humana estava inerentemente ligada à natureza, não atribuindo, portanto, as devidas considerações às influências do ambiente (Saito, 2001). Os estudos da antropóloga Margaret Mead (1928) com os adolescentes na ilha Samoa, nos mares do oceano pacífico sul, chegaram à conclusão que a natureza básica da adolescência não era tanto biológica, como considerado por Hall, mas principalmente sociocultural.

c) Puberdade, Adolescência e Juventude

Embora sejam termos distintos, os conceitos de puberdade e adolescência guardam uma estreita relação entre si. A puberdade está associada ao período de mudanças fisiológicas durante o qual os órgãos sexuais tornam-se maduros (Cabral & Nick, 1998). Relaciona-se ao processo de desenvolvimento orgânico e corporal, numa seqüência de eventos biológicos que apresenta pouca variação em todas as culturas para os jovens de ambos os sexos (Berger, 2003). Contudo, é preciso se observar que, por si só, a puberdade fornece pouca informação sobre o processo das mudanças comportamentais vivenciadas por um indivíduo, visto que estas estão sob forte influência da ação de aspectos culturais, sociais e cognitivos. Não se deve confundir os termos, ainda que se superponham.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS, 1997), os conceitos de puberdade, adolescência e juventude são diferentes. A puberdade se refere ao conjunto de modificações corporais, a adolescência abarca o período de transição bio-psicossocial que ocorre entre a infância e a vida adulta, e a juventude compreende períodos intermediários e finais da adolescência e primeiros da maturidade, num período social que começa a partir dos 15 anos e se estende até por volta dos 24 (OMS, 1997). Para o sociólogo Kenneth Kenigston (1970),juventude seria um termo relacionado ao período de transição entre a adolescência e a vida adulta, correspondendo a uma época de transitoriedade econômica e pessoal.

Enquanto parte do curso da vida, a adolescência não deveria ser considerada um período isolado do desenvolvimento, pois embora constelada por uma plêiade de características singulares, os acontecimentos da adolescência estão interligados com o desenvolvimento e as experiências na infância e na vida adulta (Santrok, 2003).

d) As fases da adolescência

A definição da adolescência como uma fase do desenvolvimento biológico, social e psicológico, situada entre a infância e a idade adulta, implica no problemático estabelecimento de certos limites cronológicos. Em nossa cultura, são os eventos biológicos observados na puberdade aqueles que melhor se prestam para demarcar o início da adolescência, embora isso não seja uma condição universal e irrevogável. Fixar o limite inferior a partir de características biológicas tem sido o critério mais comum nas diferentes culturas (Cavalcanti, 1988). Contudo, delimitar as fronteiras que separam a adolescência da idade adulta não se revela um procedimento tão simples. Tal delimitação há de se voltar para aspectos psicológicos, culturais e sociológicos, apenas para citar os principais.

Na visão psicanalítica de Freud (1909/1997), a adolescência corresponde à quarta fase de desenvolvimento psicossexual, a fase genital, a qual é interrompida pelo período de

latência. Todavia, ao longo de toda a adolescência se processam modificações fisiológicas, anatômicas, intelectuais e emocionais.

Didaticamente, a adolescência pode ser dividida em três fases: inicial, média e tardia (Leal & Saito, 2001; Cronau & Brow, 1998). A discrepância entre os autores quanto a uma definição de limites exatos para cada fase deve-se às diferenças físicas, intelectuais, emocionais e sociais de cada fase. A idade cronológica tem pouco valor para a delimitação desses momentos, pois a demarcação dessas fases não é nítida, donde setorna preciso observar uma série de fatores socioculturais.

Para Cronau e Brow (1998), assim poderiam ser subdivididas cada uma das fases da adolescência: inicial (entre 12 e 14 anos de idade), média (entre 15 e 16 anos) e tardia (entre os 17 e 21 anos). Leal e Saito (2001) se referem ao último período pela designação do termo

alta adolescência, entre 17 e 19 anos. Muss (1976) afirma que a adolescência se estende, aproximadamente, dos 12 ou 13 anos até os 20, 21 ou 22 anos, podendo apresentar grandes variações individuais e culturais.

De acordo com a Lei nº 8.069 (de 13/07/1990) do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o adolescente é o indivíduo com idade entre 12 e 18 anos10. Atualmente, a Organização Mundial de Saúde define os adolescentes como pessoas de 10 a 19 anos e os jovens como o grupo de pessoas de idade entre 15 e 24 anos, empregando o termo gente jovem para incluir ambos os grupos (OPS – Organización Panamericana de la Salud, 1998, p.77).

Na adolescência alta ou tardia, período em que se deverá alcançar a consolidação da identidade, com uma possível separação final do núcleo familiar e o assumir de

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Logo ao início do Estatuto, no Título I - Das Disposições Preliminares, a lei Nº 8.069 que dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente, atesta que: “Art. 2º Considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade.

responsabilidades e papéis adultos, o indivíduo será confrontado com o estabelecimento da identidade sexual, com relações mais maduras e possivelmente mais estáveis, coincidindo também com o momento da escolha profissional (Aberastury & Knobel, 1981). Para March e Jay (1993), a adolescência tardia começa quando o adolescente começa a fazer escolhas próprias com relação a comportamentos, atividades recreacionais, vocação e amizades, o que lhe propicia maior autonomia.

Ao tentar discriminar quais seriam os elementos mais universais na atualidade que apontassem para o término da adolescência, Neto e Osório (2002) relacionaram o preenchimento das seguintes condições: “estabelecimento de uma identidade sexual e possibilidade de estabelecer relações afetivas estáveis; capacidade de assumir compromissos profissionais e manter-se (independência econômica); aquisição de um sistema de valores pessoais (moral própria); relação de reciprocidade com a geração precedente (sobretudo com os pais)” (p. 37). Esses mesmos autores ponderam que, em termos etários, isso deveria se dar ao redor dos 25 anos de idade na classe média brasileira, com possíveis variações conforme as condições socioeconômicas da família de origem do adolescente (Neto & Osório, 2000). Ainda em 1904, Hall fixara o término da adolescência nos Estados Unidos entre 24 e 25 anos (Hall, 1904).

Atualmente, na maioria das culturas ocidentais, a adolescência tardia é um fenômeno que aparece atrelado a um maior período de preparação na formação escolar e na preparação profissional de seus membros, impedindo com isso que eles ingressem logo no mercado de trabalho e desenvolvam a tão almejada independência financeira.

e) O pensamento Adolescente

Conforme apontado por Piaget (1954), a compreensão do pensamento adolescente, com características do tipo formal, egocêntrico e hipotético é importante visto que, com o desenvolvimento do pensamento formal, o sujeito se torna capaz de raciocinar sobre proposições e sobre a distinção entre o real e o possível, além de melhor considerar e avaliar hipóteses. Isto ocorre por volta dos 11-12 a 14-15 anos e traz como uma das principais características desse período de operações lógico-formais a capacidade do adolescente de prever e antecipar relações que poderiam se demonstrar válidas para a resolução de situações que se apresentam.

Os adolescentes estarão, portanto e pela primeira vez na vida, na posição (quando não na condição) de tomar decisões pessoais e fazer escolhas independentes, repercutindo conseqüências de longo prazo e impacto sobre o futuro (Hamburg, 1991). A título de ilustração, podem ser destacados tópicos como: o que e como estudar, se o projeto de vida inclui o estudo universitário, de quem ser amigo, se terão uma vida sexual ativa, em quais habilidades profissionais (ou culturais) devem investir e se vão usar drogas ou não (Berger, 2003).

À diferença das crianças mais novas, cujos pensamentos estão mais vinculados à realidade tangível, os adolescentes podem elaborar sistemas formais e teorias gerais que transcendem, quando não ignoram, a experiência prática. Mais que empírico e concreto, seu raciocínio pode ser formal e abstrato, uma habilidade que os torna capazes de avaliar princípios abstratos, relacionados, por exemplo, aos conceitos de justiça, liberdade, amor e ao significado da vida humana (Berger, 2003).

cognitivo, oriundo da combinação entre maturação e experiência. Piaget (1954) salientou que ao incluir novas idéias, os adolescentes adaptam seu pensamento, posto que a informação adicional expande a compreensão. As principais características do pensamento operacional formal são a habilidade de gerar abstrações, gerar hipóteses, considerar situações contrárias aos fatos, gerar inúmeras possibilidades de uma dada situação, abordar um problema de modo sistemático e fazer uso de lógica (Piaget, 1970). A importância dos estudos de Piaget apontam como a lógica não é inerente ao sujeito, mas construída passo a passo através da atividade do sujeito.

f) Como o adolescente é visto

A adolescência costuma ser freqüentemente caracterizada como um período de recessão da influência dos adultos. Também muito se alude ao fato dos valores e comportamentos dos jovens haverem se tornado distantes e desvinculados dos valores dos pais e de outros adultos. A literatura tem o costume de olhar para a adolescência como um período caracterizado por intensa necessidade de explorar e experimentar o contexto em que se vive. Evidências indicam que essa necessidade de exploração e de experimentação tornam o adolescente mais vulnerável ao engajamento em comportamentos que envolvem riscos pessoais (Irwin & Millstein, 1986b).

Se, por um lado, experimentar e explorar são tendências naturais do desenvolvimento do adolescente (Baumrind, 1985), por outro se torna cada vez mais evidente que os adolescentes engajam-se cada vez mais em comportamentos que podem ter conseqüências negativas, a curto e longo prazo, para sua vida adulta.

Para Berryman e cols. (2001), embora a adolescência não deixe de ter dificuldades muito reais, como seria de se esperar de um período de mudança rápida e drástica, os lados negativos têm sido muito exagerados. A sociedade contemporânea costuma ver os

adolescentes de forma estereotipada, referindo características como desafio, falta de racionalidade e sentimentos de invulnerabilidade como componentes chaves do modo como o pensamento e comportamento adolescente difere das normas sociais adultas. Em minha práxis clínica cotidiana não é incomum ouvir relatos de pais de adolescentes que confirmam tais estereótipos, reforçando, por assim dizer, a visão de turbulência e conflito tão comumente atribuída à adolescência.

A adolescência se revela um momento oportuno para que o processo de “independentização” do indivíduo, iniciado na infância, se apresente de forma mais marcante rumo a um desfecho esperado que deverá ocorrer somente na idade adulta. Quando comparada a outras espécies animais, constata-se que os humanos nascem em estado de um absoluto desamparo, necessitando do meio social para lograrem sobreviver por um tempo prolongado, até que o indivíduo adquira e desenvolva a capacidade de viver de forma mais autônoma, responsabilizando-se por suas escolhas e pelos seus projetos de vida.