PARTE II — ACESSO À INFORMAÇÃO DE GOVERNO NO BRASIL 1 A informação no Estado Brasileiro

2. O processo orçamentário — histórico e características 1 O surgimento das finanças públicas

2.2. O Siafi, o organizador de informações 1 Histórico

2.2.2. Características

a. Definição: o Siafi é definido por Saldanha como “o sistema informatizado que processa e controla a execução orçamentária, financeira, patrimonial e contábil da União, através de terminais instalados em todo território nacional. Tem como premissa básica a contabilização de todos os atos e fatos praticados pelos gestores públicos.” (p. 7). Para que o sistema fosse implantado, foi implementada uma rede de teleprocessamento de dados ligando o computador principal (localizado em Brasília) com os terminais das Unidades Gestoras e os localizados em todos os Estados da federação e no exterior.

b. Objetivos: além do objetivo geral previsto no decreto que criou a STN e autorizou a implantação do Siafi, o manual elaborado pela STN (Saldanha), descreve ainda os seguintes objetivos:

• “prover de mecanismos adequados o registro e controle diário da gestão orçamentária, financeira e patrimonial, pelos órgãos centrais, setoriais e seccionais do Sistema de Controle Interno e órgãos executores;

• fornecer meios para agilizar a programação financeira, com vistas a otimizar a utilização dos recursos do Tesouro Nacional;

• permitir que a contabilidade pública seja fonte segura e tempestiva de informações gerenciais destinadas a todos os níveis da administração pública federal;

• integrar e compatibilizar as informações disponíveis nos diversos órgãos e entidades participantes do sistema;

• permitir aos segmentos da sociedade obterem a necessária transparência dos gastos públicos;

• permitir a programação e o acompanhamento físico-financeiro do orçamento, a nível analítico [sic];

• permitir o registro contábil dos balancetes dos Estados, Municípios e das suas supervisioandas;

• permitir o controle da dívida interna e externa, bem assim o das transferências negociadas.” (p. 10).

c. Abrangência: utilizam-se do sistema todos os órgãos da administração direta e grande parte da administração indireta, com exceção das empresas públicas e sociedades de economia mista (pois não compõem o Orçamento Geral da União) e as instituições financeiras oficiais. Essas entidades têm seus saldos contábeis registrados periodicamente para consolidar as informações econômico-financeiras do governo federal. A exceção é para as sociedades de economia mista, que têm registrada apenas a participação acionária do governo. Segundo Saldanha:

“O Siafi destina-se a processar e controlar a execução orçamentária dos Órgãos da administração pública federal direta, das autarquias, das fundações e das empresas públicas e sociedades de economia mista que estiverem contempladas no Orçamento Fiscal e/ou no Orçamento da Seguridade Social.” (p. 11).

De acordo com Saldanha41, o Siafi foi construído e implantado para atender os órgãos federais dos três Poderes da República que estejam contemplados no orçamento fiscal ou no orçamento da seguridade social. Os órgãos que representam as empresas estatais não estão contemplados no Orçamento Fiscal ou da Seguridade Social, como é o caso do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e por isso não estão no Siafi. Estão no Siafi: todos os órgãos do Orçamento (presidência, vice-presidência, ministérios, autarquias, fundações e empresas públicas vinculadas ao orçamento), agências estatais reguladoras (Anatel, Aneel, Ana), as duas casas do Legislativo (Câmara dos Deputados e

41 Informações concedidas via correio eletrônico (23/01/2002) em complementação ao material da STN

Senado Federal) e todos os tribunais federais. Eles registram seus atos de forma analítica no Siafi.

Não estão no Siafi: órgãos que configuram apenas no orçamento das estatais sob o controle e acompanhamento da DEST/MPO (Petrobrás, Banco do Brasil S/A, BNDES, as empresas do sistema Eletrobrás, por exemplo). Eles não registram atos de gestão de forma analítica no Siafi.

As entidades públicas federais, estaduais e municipais podem utilizar o sistema, mas apenas para receberem suas taxas dos órgãos que utilizam o sistema, através da Cota Única do governo federal, desde que autorizadas pela STN.

d. Uso: há duas modalidades de uso pelos órgãos credenciados: total e parcial. Na modalidade total, os órgãos e entidades cadastrados podem processar todos os atos e fatos, incluindo eventuais receitas próprias; realizar todas as disponibilidades financeiras através da conta única do governo federal e tornam-se sujeitas aos procedimentos orçamentários e financeiros do órgão ao tratamento padrão do Siafi. Na modalidade parcial, é possível realizar a execução financeira dos recursos previstos no Orçamento Geral da União efetuada pelo Siafi, mas não permite tratamento de recursos próprios da entidade e não substitui a contabilidade do órgão, o que torna obrigatório o envio de balancetes para incorporação de saldos. De acordo com Saldanha, “É obrigatória a utilização do sistema na modalidade de uso total por parte dos órgãos e entidades do Poder Executivo que integram os Orçamentos Fiscal e da Seguridade Social, ressalvadas as entidades de caráter financeiro” (p. 12). Atualmente, os Poderes Legislativo e Judiciário também utilizam o Siafi na modalidade total.

e. Funcionamento — noções básicas da execução orçamentária e financeira pelo Siafi: depois de publicada a Lei Orçamentária Anual, a Secretaria de Orçamento Fiscal (órgão do Ministério do Planejamento) faz publicar, através de portaria, o Quadro de Detalhamento de Despesas (QDD) — instrumento que descreve “os subprojetos e sub-atividades da LOA, especifica as Unidades Orçamentárias de cada órgão, fundo e entidade dos orçamentos fiscal e da seguridade social, além de especificar, para cada categoria, a fonte de recursos, a

categoria econômica, o grupo de despesa e a modalidade de aplicação” (Saldanha, p. 22)42. Esse é o ponto de partida para a execução do orçamento. Em seguida, a Secretaria de Orçamento envia o QDD, em arquivo magnético, para a Secretaria do Tesouro Nacional que providencia o lançamento no Siafi. Isso é feito através da geração de um documento denominado Nota de Dotação (ND); ele permite que seja feito o detalhamento de crédito. No QDD, os créditos são vinculados às Unidades Orçamentárias correspondentes, responsáveis pela gestão dos programas de trabalho. O Siafi, através de uma tabela, já vincula os créditos das Unidades Orçamentárias às respectivas Unidades Gestoras responsáveis pela execução dos créditos recebidos. A partir daí é que as UOs fazem as movimentações dos créditos que lhe foram consignados pela Lei Orçamentária. As execuções orçamentária e financeira seguem as etapas do processo orçamentário: empenho, liquidação (referentes à execução orçamentária) e pagamento (referente à execução financeira, quando ocorre, efetivamente, a liberação do recurso).

“Faz-se necessário esclarecer que toda a execução orçamentária e financeira do governo federal é efetuada através da utilização do Siafi que é o sistema informatizado que processa e controla toda a execução orçamentária, financeira e patrimonial da União, contabilizando-as , por meio de terminais de computador instalados em todo o território nacional. O Siafi tem como premissa básica a contabilização de todos os atos e fatos praticados pelos gestores públicos.” (SALDANHA, 1998, p. 23).

A estrutura do Siafi como sistema contábil permite que todo lançamento seja registrado na forma de evento, conforme explica Saldanha:

“(Evento) é um código associado a cada ato ou fato de gestão que deva ser registrado contabilmente pelo Siafi. A ele é associado um roteiro contábil (tabela de contas a serem debitadas ou creditadas); desta forma, foi possível que todos os operadores do Siafi efetuassem lançamentos contábeis, mesmo não sendo contadores, pois é solicitado apenas o código do evento que identifica o fato que está sendo registrado no sistema.” (p. 21).

42 As origens e destinações dos recursos orçamentários são identificadas por códigos. São utilizados códigos

para classificação institucional (identificação de órgãos e unidades orçamentárias); classificação da receita; classificação funcional programática (despesas por funções, programas e subprogramas) e classificações das despesas quanto à natureza.

Para buscar as informações no Siafi é necessário seguir a “lógica básica” da execução orçamentária, ainda segundo Saldanha. Assim estão organizadas as informações:

Objetivos dos gastos: identificado pela classificação funcional programática do OGU (permite saber em quais unidades, funções, programas, subprogramas e atividades são efetuadas as despesas e investimentos do governo federal).

Agentes dos gastos: através das Gestões e Unidades Gestoras. Origem e aplicação: através das Fontes de Recursos.

f. Transações do Siafi: são, ao todo 195 tipos de consultas que podem ser feitas através do Siafi, dependendo do critério de consulta que se pretende utilizar e do tipo da informação que se busca. A cada uma corresponde um código de comando43, chamado de “mnemônico”. Por exemplo, o código CONUG (consulta unidade gestora) é utilizado para consultar os dados das unidades gestoras cadastradas no sistema. Se o usuário precisar consultar os dados cadastrais de um credor (informando código CPF ou CGC ou mesmo o nome), utiliza o comando CONCREDOR (consulta credor). A cada comando, o Siafi pede que usuário escolha a opção de pesquisa e oferece os dados solicitados, com seus respectivos códigos.44

g. Acesso: as consultas à base de dados do Siafi se dividem em basicamente duas modalidades: a consulta analítica (permite acesso a todos os documentos registrados até o momento em que é feita a pesquisa) e a sintética (permite informações atualizadas até um dia útil anterior à data da consulta). Nos dois níveis de consulta, o Siafi permite que sejam feitas consolidações dos dados, que podem ser organizados por Unidade Gestora, Sub- Órgão, Órgão, União e Gestão. Têm acesso à base de dado os usuários autorizados e credenciados pela Secretaria do Tesouro Nacional, que oferece senha de acesso (senha de rede e senha de Siafi). Até outubro de 2001, havia cerca de 38.400 usuários e 4.300

43 Cf. lista completa dos códigos das transações do Siafi no anexo 6.

unidades gestoras do governo federal cadastradas no Siafi45. Apenas os operadores das unidades gestoras têm senha que permitem registros de documentos no sistema — exclusivamente referentes à Unidade Gestora ao qual estão cadastrados, para movimentação dos créditos atribuídos àquela unidade.

A STN oferece nove níveis de acesso, que servem apenas para consultas e indicam quais os documentos e informações os usuários podem consultar. São eles:

No documento Acesso à informação governamental: estudo exploratório do papel do Siafi na publicidade da execução do Orçamento Geral da União (páginas 124-129)