4 METODOLOGIA DE INVESTIGAÇÃO

4.1 Caracterização da pesquisa

Este trabalho enquadra-se em uma abordagem de pesquisa qualitativa, uma vez que parte da construção social da realidade em foco e está interessado nas perspectivas dos participantes, em suas práticas e em seus conhecimentos relativos à questão em estudo.

Ressalto, porém, que também conta com uma pequena contribuição da abordagem quantitativa de pesquisa no momento em que dados colhidos por meio dos questionários que continham algumas questões fechadas foram tabulados e transformados em números para uma melhor apresentação do perfil dos usuários e para reforço de confirmação de quais ferramentas do AVA contribuíram para a aprendizagem da escrita de modo mais reflexivo segundo a visão dos alunos. Essa contribuição, no entanto, não tira desta tese o caráter predominantemente qualitativo, já

que nela se discute profundamente detalhes e singularidades dos dados observados que prezam a situação e o sentido atribuídos pelos envolvidos.

Segundo Marli André (2009), as raízes da pesquisa qualitativa datam do final do século XIX quando cientistas sociais questionaram-se sobre o método de investigação das ciências físicas e naturais que vigorava sob a base do positivismo e que servia, até então, como modelo para o estudo dos fenômenos humanos e sociais. Tais fenômenos, que já eram percebidos como complexos e dinâmicos, deveriam ser entendidos em seus contextos particulares, levando em consideração em sua interpretação elementos situacionais e interativos incluindo as percepções dos participantes e do pesquisador.

Denzin e Lincoln (2006) dizem que a pesquisa qualitativa envolve uma postura interpretativa e naturalística diante do mundo devido ao fato de os pesquisadores que a empregam estudarem as coisas em seus contextos naturais, tentando entender ou interpretar os fenômenos em termos de sentidos que as pessoas lhes atribuem. Trata-se de uma atividade situada que posiciona o observador no mundo a partir da utilização de um conjunto de práticas interpretativas e materiais “na esperança de sempre conseguir compreender melhor o assunto que está ao seu alcance” (2006, p. 17). Nessa mesma direção, Fragoso et al. (2011, p. 67) enfatizam que a abordagem qualitativa “visa uma compreensão aprofundada e holística dos fenômenos em estudo e, para tanto, os contextualiza e reconhece seu caráter dinâmico, notadamente na pesquisa social”.

Como este estudo abarcou os campos on-line e off-line, o método de pesquisa pautou-se em uma perspectiva etnográfica pelo fato de ela corresponder “a arte e a ciência de descrever um grupo humano – suas instituições, seus comportamentos interpessoais, suas produções materiais e suas crenças” (ANGROSINO, 2009, p.30) e pelo fato de ampliar seu lócus de pesquisa inserindo o ciberespaço, dando vida a etnografia virtual (HINE, 1998, 2000).

André (2009) conceitua a etnografia como a tentativa de se descrever uma cultura, haja vista o significado literal do termo agregar etno: nação/pessoas juntas e grafia: escrita. A etnografia, de raiz antropológica, preocupa-se com os significados que têm as ações e os eventos para as pessoas ou para os grupos estudados. Esses sistemas de significados constituem a sua cultura. Desse modo, a cultura engloba “o que as pessoas fazem, o que elas sabem e as coisas que elas constroem e usam” (2009, p. 19). Assim, o etnógrafo, em meio cultural em que cada participante pode atribuir

significados diferentes às suas experiências, tenta compreender esses diversos significados como partes da realidade do grupo estudado.

De um modo geral, pode-se dizer que etnografia é um método de pesquisa em que o pesquisador se insere contextualmente na cultura e na comunidade onde ela será aplicada, para observar e recolher informações que lhe permitam compreender “padrões de comportamento social e cultural” (FRAGOSO et al., 2011, p. 168) sobre seu objeto de pesquisa, visto como “agentes ativos e não como partes permutáveis de um grande organismo, sofrendo passivamente a ação de forças externas a elas mesmas” (ANGROSINO, 2009, p.20).

A partir da década de 1960, os estudos etnográficos foram aproximados do ambiente escolar, que até então era baseado nos pressupostos da corrente positivista. Essa década ficou marcada pela ocorrência de vários movimentos sociais contra a discriminação racial e social e em prol de igualdade de direitos. As rebeliões estudantis da França, como parte desse período, despertaram “o interesse dos educadores pelo que estava se passando dentro das escolas e das salas de aula e pelo uso da abordagem antropológica etnográfica como forma de investigação do dia-a-dia escolar” (ANDRÉ, 2009, p. 20-21).

Atualmente, em época de grande avanço tecnológico, com a utilização das TDICs, em especial a Internet, alterando contextualmente as relações humanas desde a emergência digital da Educação a Distância às Redes Sociais, a etnografia ampliou seu lócus de pesquisa inserindo o ciberespaço, dando vida à etnografia virtual. Os etnógrafos podem, agora, libertar-se do compromisso da vivência física presencial no ambiente a ser pesquisado por intermédio da internet, engajando-se em comunidades virtuais79. Para Angrosino,

[a]s comunidades virtuais agora são comuns; elas se caracterizam não pela proximidade geográfica nem por uma longa herança em comum, mas pela comunicação mediada por computador e pelas interações on-line. São “comunidades de interesse” e não comunidades residenciais. Embora algumas possam durar certo tempo, a maioria delas é efêmera por natureza – surgem e desaparecem conforme mudam os interesses dos participantes. (2009, p. 120).

                                                                                                                         

79 Com base nos estudos de Palloff & Pratt (2002), pode-se dizer que antes das novas tecnologias de

informação e comunicação, as comunidades formavam-se com base em um local determinado, pequena cidade ou bairro em que se vivia, onde pessoas que tinham interesse em comum formavam grupos a fim de buscar aquilo que as distinguia de outros grupos. Hoje, o conceito de comunidade não mais depende de lugar, o ciberespaço deu e dá a oportunidade não só de novas e diversificadas comunidades surgirem, mas também a possibilidade de recriar identidades, personalidade eletrônica.

Uma questão a ser considerada é que a Internet não deve ser entendida como um “não-lugar”, embora a etnografia virtual seja uma etnografia realizada sem lócus físico. Nela, o virtual minimiza fatores que limitam a pesquisa, como tempo e espaço, auxiliando na quebra destas barreiras e na aproximação, em maior ênfase, do pesquisador ao objeto de interesse. Outra questão primordial em ambiente virtual é a postura ética do pesquisador, pois além de ter que garantir e preservar de maneira autônoma e racional o espaço e a identidade de cada indivíduo ou comunidade que se envolve na ação, também deve decidir pela revelação ou não de sua identidade, o que, de certa forma, influenciará em suas “(...) escolhas, justificativas e direcionamentos éticos que acontecerão ao longo da pesquisa e que terão reflexos em seus resultados.” (FRAGOSO et al., 2011, p. 193.)

Dessa forma, a etnografia virtual, apropriada ao estudo empírico da internet, interessa-se pela apresentação das vivências da rede, redimensiona o aspecto espaço- temporal e modifica o ato de ir a campo. É nesse sentido que Hine (2000, p. 8) diz que a perspectiva etnográfica de pesquisa possibilita “desenvolver um senso enriquecido dos sentidos da tecnologia e das culturas que a permitem e que por ela são permitidas”.80

Fragoso et. al. (2011, p. 173) lembra que para Hine (2000) a “etnografia virtual se dá no/de e através do online e nunca está desvinculada do offline81, acontecendo através da imersão e engajamento intermitente do pesquisador com o próprio meio”. O uso da etnografia em ambiente híbrido é apresentado por Guribe e Wasson (2002), os quais veem como positivo a imersão do pesquisador no contexto “real” e “virtual” para investigar como ocorre o processo de integração das novas tecnologias de informação e comunicação nas atividades de aprendizagem.

A escolha desta estruturação metodológica representou “uma relação de contiguidade e atravessamento entre amb[a]s” (FRAGOSO et al., 2011, p. 178), uma vez que os ambientes virtuais de aprendizagem em contexto educativo presencial de LM não apenas refletem a inserção do progresso tecnológico, mas também distintos fenômenos culturais de relacionamento e de aprendizagem da língua. Posto isso, a etnografia imbuída de sua variante virtual e de alguns de seus instrumentos de geração

                                                                                                                         

80 Trecho original: “ “to develop an enriched sense of the meanings of the technology and the cultures

which enable it and are enabled by it”.

81 Com relação ao fato de a etnografia virtual nunca desvincular-se do off-line, entendo que seja por conta

de que o que está on-line refletir ou explicar o contexto off-line, sendo a internet um novo ambiente cultural que provoca mudanças no comportamento e nas relações das pessoas em sociedade, constituindo-se em uma continuidade de seu mundo físico. Além disso, um pesquisador, ainda que trabalhe com um corpus todo gerado em ambiente on-line, necessitará de tempo e espaço off-line para realizar sua análise.

de dados tornou-se relevante ferramenta para a investigação do objeto de estudo desta pesquisa que contempla a inserção de um AVA em contexto presencial do ensino médio, em que se fez necessário uma observação mais ampla para acompanhamento do processo de desenvolvimento de autonomia dos aprendizes de LM. Essa observação mais ampla ocorreu de modo participativo enquanto tutora-pesquisadora que pôde acompanhar as ações e os comportamentos dos usuários-participantes do AVA tanto a distância quanto “em frente à tela” quando realizavam suas atividades on-line no laboratório de informática da escola lócus.

No documento Ambiente virtual de aprendizagem no contexto presencial do ensino médio: indícios de autonomia na escrita via estratégias de aprendizagem (páginas 107-111)