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Capítulo I – Construção de um Modelo de Análise e Orientações Metodológicas

3. Caracterização das unidades amostrais

Tratando-se de uma pesquisa qualitativa, procura-se com os dados recolhidos uma “representatividade social” e não uma representatividade estatística (Guerra, 2006:40). Em concordância com a problemática de análise, considerou-se essencial definir dois grupos amostrais, cada um deles composto por sete indivíduos residentes na Beira Interior, prefazendo um total de catorze entrevistados. Assim sendo, o critério de selecção e distinção destas unidades de análise assenta na orientação sexual, sendo um dos grupos amostrais constituído por indivíduos com orientação homossexual e outro por indivíduos com orientação heterossexual, os quais se dispuseram a participar na presente investigação. Deste modo, pretendeu-se, de alguma forma, garantir o princípio da diversidade da pesquisa, na medida em que “a utilização das entrevistas se faz tendo em conta a heterogeneidade dos sujeitos (ou fenómenos) que estamos a estudar”, isto é, torna-se impreterível “interrogar os sujeitos cujas opiniões sejam heterogéneas, reportando-se a um leque variado de situações” (Guerra, 2006:40-41). No presente estudo procura-se, pois, entender as percepções quanto a situações de exclusão e discriminação social e política, particularmente referentes à parentalidade e procriação, por parte dos próprios interlocutores cuja orientação sexual é expressão e manifestação dessas situações. Por outro lado, para além das representações que emergem da própria homossexualidade, considerou-se importante perspectivar as representações quanto a estas questões, por parte de indivíduos que, devido à vivência e identificação com a heterossexualidade, se posicionam em lugares socialmente distintos.

Neste sentido, o procedimento amostral de selecção dos indivíduos com orientação homossexual passou por identificar algumas pessoas com a característica pretendida, tendo- se-lhes questionado sobre o interesse em participar na investigação e sobre o conhecimento de outras com a mesma orientação sexual. Através deste procedimento de “bola-de-neve”

constituiu-se uma cadeia de referência que possibilitou ao investigador a obtenção de um conjunto de indivíduos com esta característica para a construção deste grupo amostral. Segundo Fontes, “[e]ste tipo de amostra é adequado para algumas pesquisas, especialment[e] aquelas utilizando-se [o] referencial teórico-metodológico das redes sociais” (in Costa, 2004). Para selecção dos indivíduos com orientação heterossexual que compõem o outro grupo amostral da presente investigação, recorreu-se à técnica de amostragem por conveniência (Ribeiro, 2008), deixando a cargo do investigador a selecção dos indivíduos, identificados com aquela orientação sexual. Optou-se por este procedimento amostral, considerando-o o mais viável e oportuno, pois permitiu chegar aos indivíduos que pertenciam a um universo de maior proximidade, mas não de proximidade directa, para não influenciar as informações a obter neste estudo. A abordagem ocorreu em contexto informal (na rua e outros locais) e no local de trabalho, o que possibilitou chegar junto a um maior número de pessoas de contextos diferentes. Das pessoas abordadas, as que se mostraram disponíveis e aceitaram participar nesta investigação, integram o grupo amostral cuja variável distintiva é a orientação heterossexual.

Considerando a Beira Interior um contexto social de menor dimensão, mais conservador e onde existe uma maior proximidade relacional entre os indivíduos – ao contrário de zonas mais populacionais, onde o individualismo domina –, pretende entender-se se essas e outras determinantes influenciam o entendimento e a aceitação da homossexualidade. Por outro lado, procura saber-se como a homossexualidade é vivida pelos próprios, particularmente nesta zona do interior do país, uma vez que é escassa a investigação produzida sobre esta temática na região mencionada.

Ambos os grupos amostrais deste trabalho são constituídos por mulheres e homens. Quanto ao que define os entrevistados com orientação homossexual, foram conseguidos quatro mulheres e três homens; sendo constituído por três mulheres e quatro homens o grupo amostral que integra indivíduos com orientação heterossexual.

Os entrevistados com orientação homossexual apresentam idades compreendidas entre os 24 e os 40 anos de idade, e entre os 27 aos 61 anos no grupo dos indivíduos com orientação heterossexual. Sendo a população com orientação homossexual de mais difícil acesso, percebe-se que a amostra deste estudo fique circunscrita e situada na faixa etária genérica dos 20 aos 40 anos, pelo facto de fazer-se passar a informação – de que havia um estudo a decorrer e que eram necessários participantes para o mesmo – entre indivíduos de escalões etários que rondam, em média, os 30 anos, o que indica que a “bola-de-neve” se fez passar por indivíduos com idades aproximadas. Outro factor a revelar, prende-se talvez com o facto do coming out (assumir-se) em populações mais idosas com orientação homossexual ser mais camuflada – comparativamente a populações mais jovens –, pois, à maneira ocidental dominante, sexualidade e envelhecimento excluem-se mutuamente (Simões, 2003). Outros há que apontam para o facto de muitos indivíduos de faixas etárias mais altas, com orientação homossexual, terem constituído família com parceiro do sexo oposto. Assim, vêem-se impelidos a representar a estrutura familiar “heteronormativa”, numa sociedade onde a

heterossexualidade é reconhecida como cultura hegemónica (Mota, 2009). A estigmatização social dos mais idosos opera, assim, na auto-exclusão, pelos próprios indivíduos com orientação homossexual (Simões, 2003).

Concernente às habilitações, verifica-se na tabela seguinte que, na sua maioria, os entrevistados com orientação homossexual têm o ensino secundário, enquanto os entrevistados com orientação heterossexual se encontram heterogeneamente distribuídos em termos de habilitação, pelo facto de alguns destes se inserirem nas faixas etárias mais altas. Quanto à situação perante o emprego, constata-se que os dois grupos amostrais são diversificados, existindo situações de desemprego em ambos os grupos, e, na situação oposta, emprego qualificado (vendedor(a)/ operador(a), gestor(a), assistente, consultor(a), funcionário(a) administrativo(a) e investigador(a)) e não qualificado (doméstico(a)). Num dos grupos amostrais há ainda um entrevistado reformado.

Os catorze entrevistados residem na Beira Interior – a esmagadora maioria na Covilhã, à excepção de um que vive e é natural do Fundão –, embora possam ser naturais de outras zonas do país. Tal facto prende-se com o estabelecimento do critério da residência de todos os entrevistados na Beira Interior. Como pequeno apontamento, apraz mencionar a postura purista com que se encarou desde o início a elaboração deste trabalho, atendendo ao propósito da coerência e da honestidade quanto à circunscrição e escolha da Beira Interior como único local onde o presente estudo incidiu. Assim, mesmo tendo conseguido contactos de indivíduos com orientação homossexual fora desta região, o princípio da honestidade imperou, empreendendo-se esforços na procura de indivíduos aqui residentes, os quais são efectivamente parte integrante e total da amostra deste estudo (indivíduos com orientação homossexual e heterossexual). Não obstante esta escolha criteriosa, a naturalidade dos entrevistados não obedeceu à exigência de os mesmos serem natos desta região.

No que diz respeito ao estado civil e à procriação, todos os entrevistados com orientação homossexual são solteiros e não têm descendência. Já a amostra constituída por indivíduos com orientação heterossexual é mais heterogénea, sendo estes casados ou solteiros e sem filhos ou com um ou mais. Mesmo não sendo questionados sobre este facto, não deixa de ser curioso notar que nenhum dos entrevistados com orientação homossexual tenha filhos, o que poderá, porventura, ter sido um mero acaso, ou – se se procurar aprofundar um pouco a questão – passar pelo facto de serem solteiros, residirem na Beira Interior, ou ainda, motivado pelos constrangimentos sociais e políticos do quadro jurídico-legal português.

Todas as variáveis aqui sucintamente abordadas podem ser observadas na tabela que se segue, atinente à caracterização sócio-demográfica dos entrevistados deste estudo. Como breve nota, por uma questão de abrangência quanto à escala etária, incluíram-se as faixas etárias dos “menos de 20 anos” aos “61 e mais anos”. O mesmo sucede com a variável atinente às habilitações, incluindo-se a possibilidade de poder ter surgido algum(ns) entrevistado(s) que não tivesse(m) qualquer tipo de habilitações, até ao(s) que possa(m) ter o ensino superior, abarcando as situações possíveis no que a este critério diz respeito. Quanto à situação perante o emprego, foram já mencionadas categorias relativamente genéricas,

optando por não se especificar criteriosamente a profissão/ função referidas pelos próprios entrevistados, como forma de garantir o total anonimato. Quanto ao local de residência foi já exposto o essencial. O que foi mencionado na variável idade e habilitações aplica-se igualmente ao estado civil. Em relação à naturalidade e à procriação, estão também citadas as opções obtidas pelos entrevistados com uma ou outra orientação sexual.

Tabela 1 - Caracterização sócio-demográfica dos entrevistados

Deixando aqui explicitada parte da análise referente à caracterização sócio- demográfica dos entrevistados, avança-se para a observação interpretativa do restante material empírico recolhido. Contudo, recuperando um dos objectivos delineados neste estudo, e no sentido de compreender e contextualizar sociopoliticamente os restantes, terá lugar no primeiro subcapítulo analítico que se segue uma breve incursão pelo percurso legislativo português, cujo intento é perceber se existem desigualdades no acesso e direito à parentalidade, com base na orientação sexual dos indivíduos.