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Carl Edward Sagan

No documento alter da Rosa Borges (páginas 53-60)

(1934-1996)

VRB – Na sua formação de cientista, indago-lhe inicialmen-te: o que é ciência? É apenas um corpo de conhecimento, emba-sado em fatos, teorias e hipóteses?

Sagan - A ciência é mais do que um corpo de conhecimen-to, é um modo de pensar.

VRB – É válida a concepção antropocêntrica e a antiga a-firmação do filósofo grego Protágoras de que “o homem é a medi-da de tomedi-das as coisas”?

Sagan - O universo não foi feito à medida do ser humano, mas tampouco lhe é adverso: é-lhe indiferente.

VRB – Não acredito em pecado, mas opção equivocada. O

“pecado original” está obsoleto.

Sagan - O primeiro pecado da humanidade foi a fé; a pri-meira virtude foi a dúvida.

VRB – Concordo. A dúvida metódica é o que caracteriza a ci-ência. E o mundo nem sempre é conforme as nossas expectativas.

Cientista norte-americano foi astrônomo, astrofísico, cosmólogo, escritor e divulgador científico. Escreveu mais de 20 livros de ciência e ficção científica, e autor de um pouco mais de 600 publicações científicas. Produziu um programa famoso para a televisão, intitulado Cosmos.

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Sagan - E se o mundo não corresponde em todos os aspec-tos a nossos desejos, é culpa da ciência ou dos que querem impor seus desejos ao mundo?

VRB – É uma inútil represália a frustração dos nossos dese-jos. Gostamos de dar azas à nossa imaginação. E, não raras vezes, temos o destino de Ícaro.

Sagan - Às vezes acredito que há vida em outros planetas às vezes eu acredito que não. Em qualquer dos casos, a conclusão é assombrosa.

VRB – Não discuto com crentes. Julgo uma preciosa perda de tempo.

Sagan - Não é possível convencer um crente de coisa algu-ma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar.

VRB – A ciência se ampara em hipóteses, ou seja, no co-nhecimento provisório. Elas constituem uma permanente aventu-ra científica.

Sagan - Existem muitas hipóteses em ciência que estão er-radas. Isso é perfeitamente aceitável, eles são a abertura para achar as que estão certas.

VRB – A evidência é a pedra de toque da investigação cien-tífica?

Sagan - A ausência da evidência não significa evidência da ausência.

VRB – A especulação da vida extraterrestre tem uma base, ao menos, lógica?

Sagan - Se não existe vida fora da Terra, então o universo é um grande desperdício de espaço.

VRB – Temos medo de uma solidão cósmica?

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Sagan - O que é mais assustador? A ideia de extraterrestres em mundos estranhos, ou a ideia de que, em todo este imenso universo, nós estamos sozinhos?

VRB – Conforme pensa James Lovelock, somos filhos de Gaia (a Terra) que é um ser vivo. Será que ela tem autoconsciência por intermédio de nós?

Sagan - Nós somos uma maneira do Cosmos conhecer a si mesmo.

VRB – A conquista do universo é uma saga da ciência.

Sagan - Estamos irrevogavelmente em um caminho que nos levará às estrelas. A não ser que, por uma monstruosa capitu-lação ao egoísmo e à estupidez, acabemos nos destruindo.

VRB – Diz o Gênese que Iavé criou o ser humano da argila.

Sagan - Nós somos feitos de poeira de estrelas.

VRB – Agrada-nos muito fazer fantasias sobre o universo.

Sagan - Para mim, é muito melhor compreender o universo como ele realmente é do que persistir no engano, por mais satisfa-tório e tranquilizador que possa parecer.

VRB – Uma pessoa erudita nem sempre revela Inteligência, mas apenas vasto conhecimento e/ou excelente memória.

Sagan - Saber muito não lhe torna inteligente. A inteligên-cia se traduz na forma que você recolhe, julga, maneja e, sobretu-do, onde e como aplica esta informação.

VRB – Há hipóteses científicas extremamente, como, por exemplo, a da teoria das cordas.

Sagan - Alegações extraordinárias exigem evidências extra-ordinárias.

VRB – A crença, em alguns casos, pode transformar-se em conhecimento confiável?

Sagan - Eu não quero acreditar, eu quero conhecer.

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VRB – A busca pelo conhecimento é a permanente epopeia da pesquisa científica?

Sagan - Queremos buscar a verdade, não importa aonde ela nos leve. Mas para encontrá-la, precisaremos tanto de imagi-nação quanto de ceticismo. Não teremos medo de fazer especula-ções, mas teremos o cuidado de distinguir a especulação do fato.

VRB – O uso da metodologia científica é que caracteriza uma determinada forma de conhecimento. E que lhe dá confiança, pela sua eficácia, conquanto não seja infalível.

Sagan - O método científico é comprovado e verdadeiro. Não é perfeito, é apenas o melhor que temos. Abandoná-lo, junto com seus protocolos céticos, é o caminho para uma idade das trevas.

VRB – A imaginação é a fonte natural da criatividade, em-bora apresente seus percalços.

Sagan - Frequentemente a imaginação nos transporta a mun-dos que nunca existiram, mas sem ela não vamos a parte alguma.

VRB – A verdade é, às vezes, incômoda. Mas é o preço que pagamos por ela.

Sagan - A verdade pode ser intrigante. Pode dar algum tra-balho lidar com ela. Pode ser contra intuitiva. Ela pode contradizer preconceitos profundamente enraizados. Pode não se coadunar com o que queremos desesperadamente que seja verdade. Mas nossas preferências não determinam o que é verdade.

VRB – O que pensamos ser impossível pode, algum dia, ser possível ao menos uma vez.

Sagan - Um evento inimaginável em uma centena de anos talvez seja inevitável em um milhão de anos.

VRB - O Espiritismo, assim as religiões do Oriente aceitam a reencarnação como um fato.

Sagan - Eu adoraria acreditar que quando eu morrer, eu vou viver outra vez. Que alguma parte pensante, sensível e memorável

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de mim continuará. Mas por mais que eu queira acreditar nisso, e apesar de antigas tradições culturais mundiais falarem sobre vida após a morte eu não sei de nada que possa sugerir que isso é mais do que simplesmente pensamento positivo. O mundo é tão primo-roso, com tanto amor e profundidade moral que não há razão para nos enganarmos com histórias bonitas para as quais existem poucas evidências boas. Parece muito melhor para mim, em nossa vulnera-bilidade olhar a morte nos olhos. E ser grato todos os dias pela bre-ve, mas magnífica oportunidade que a vida nos dá.

VRB – Que diferença você vislumbra entre agnosticismo e ateísmo?

Sagan - Sempre entendi que um agnóstico é um ateu sem a coragem de expressar suas convicções.

VRB – Você é ateu ou agnóstico?

Sagan – Quando digo que sou agnóstico, quero apenas di-zer que não disponho de provas. Não existem provas contunden-tes da existência de Deus... pelo menos da sua espécie de deus...

como também não existem provas convincentes de sua inexistên-cia. Como mais da metade da população da Terra não é formada de judeus, cristãos ou muçulmanos, eu diria que não há argumen-tos conclusivos para a existência do deus em que o senhor acredi-ta. Se não fosse assim, todos os habitantes da Terra teriam sido convertidos.

VRB – A imagem de um Deus antropomórfico só não é

“démodée” para os crentes ingênuos.

Sagan - A ideia de que Deus é um gigante barbudo de pele branca sentado no céu é ridícula. Mas se, com esse conceito, você se referir a um conjunto de leis físicas que regem o Universo, então cla-ramente existe um Deus. Só que Ele é emocionalmente frustrante:

afinal, não faz muito sentido rezar para a lei da gravidade!

VRB – As catástrofes naturais ainda atormentam a humani-dade e estão sujeitas às mais diferentes interpretações, seja de natureza científica ou religiosa.

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Sagan - Como um terremoto que confunde a nossa confi-ança no próprio solo que estamos pisando, pode ser profunda-mente perturbador desafiar as nossas crenças habituais, fazer es-tremecer as doutrinas em que aprendemos a confiar.

VRB – Blaise escreveu: “O silêncio eterno destes espaços infinitos apavora-me”. Outros, ao contrário, se deslumbram.

Sagan - A sedução do maravilhoso embota nossas faculda-des críticas.

VRB – Não apenas no Direito, mas em outras áreas que se apoiam no testemunho humano, é preciso cautela quanto a sua veracidade.

Sagan - Só confie numa testemunha quando ela fala de questões em que não se acham envolvidos nem o seu interesse próprio, nem as suas paixões, nem os seus preconceitos, nem o amor pelo maravilhoso.

VRB – O ser humano não gosta de imprevistos. A rotina dá-lhe segurança.

Sagan - Naturalmente, os seres humanos são altamente in-clinados a encontrar regularidades, isto é, leis naturais.

VRB – Como você vê a nossa Terra, não só em todos os seus aspectos, mas também a humanidade com todas as suas vir-tudes e defeitos?

Sagan - Nós podemos explicar o azul-pálido desse pequeno mundo que conhecemos muito bem. Se um cientista alienígena, recém-chegado às imediações de nosso Sistema Solar, poderia fidedignamente inferir oceanos, nuvens e uma atmosfera espessa, já não é tão certo. Netuno, por exemplo, é azul, mas por razões inteiramente diferentes. Desse ponto distante de observação, a Terra talvez não apresentasse nenhum interesse especial. Para nós, no entanto, ela é diferente. Olhem de novo para o ponto. É ali. É a nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos, que conhecemos, de quem já ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as suas vidas.

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Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, todas as inúmeras religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civili-zações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, pro-fessores de moral, políticos corruptos, "superastros", "líderes su-premos", todos os santos e pecadores da história de nossa espé-cie, ali - num grão de poeira suspenso num raio de sol. A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pensem nos rios de sangue derramados por todos os generais e imperado-res para que, na glória do triunfo, pudessem ser os senhoimperado-res mo-mentâneos de uma fração desse ponto. Pensem nas crueldades infinitas cometidas pelos habitantes de um canto desse pixel con-tra os habitantes mal distinguíveis de algum outro canto, em seus frequentes conflitos, em sua ânsia de recíproca destruição, em seus ódios ardentes. Nossas atitudes, nossa pretensa importância de que temos uma posição privilegiada no Universo, tudo isso é posto em dúvida por esse ponto de luz pálida. O nosso planeta é um pontinho solitário na grande escuridão cósmica circundante.

Em nossa obscuridade, no meio de toda essa imensidão, não há nenhum indício de que, de algum outro mundo, virá socorro que nos salve de nós mesmos.

VRB – Apesar de todos os dissabores, provocados pela na-tureza e pelos humanos, o nosso planeta é digno de nosso afeto e profunda admiração.

Sagan - Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer para mim dividir um planeta e uma época com você.

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No documento alter da Rosa Borges (páginas 53-60)