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3. STYLING

3.1 STYLING PARA MARCAS E EMPRESAS

3.2.5 CARLSBERG, LIFE CHANGING

"A sério, metemos na cabeça que o que aqui vai acontecer pode mudar vidas. E provavelmente temos razão." 62

A frase acima foi utilizada nos textos que acompanhavam as imagens de publicidade desta nova festa. Uma noite nova, patrocinada pela Carlsberg, que prometia a busca da alegria enquanto se dança até ser dia. Agora vista à distância, a frase quase parecia um agouro do que ninguém esperava que acontecesse. Efectivamente mudou a vida de todos nós no atelier. A data marcada, quinta-feira, 29 de Março de 2018, viria a ser a primeira festa sem podermos contar com a presença de Manuel Reis. Viria a falecer quatro dias antes, na noite de 25 de Março.

Os preparativos e conceitos desta e da SUPERB foram ainda idealizados por ele, com alguns meses de antecedência. Com o seu desaparecimento repentino a meio do processo, um sentimento de fazer justiça e atender aos seus pedidos cresceu no seio de toda a equipa e colaboradores. Uma situação em que em lidamos simultaneamente com o sentimento de perda, conjuntamente com a obrigação e dever de continuar o trabalho iniciado por ele.

O objectivo era criar umas camisolas novas, em que se juntasse o universo de roupa de autor com algo que remetesse para o patrocinador Carlsberg. Manuel Reis gostava de detalhes, e eram esses detalhes que deveriam remeter para a marca, em vez de gritantes logotipos que fizessem lembrar merchandising. Lúcia Azevedo forneceu-nos então um documento com imagens de um logótipo e respectivas variações, criado especialmente para a festa e elaborado pelo designer gráfico Diogo Potes. A marca fez- nos chegar também o pantone da cor verde associada à Carlsberg.

Na peça de teatro "Tentativas de Matar o Amor", tinha-se recorrido à desconstrução de vestuário clássico masculino, desconstrução de blazers e camisas, tornando-as mais abstratas, conceptuais, contemporâneas. Manuel Reis achara esta ideia interessante e trouxe-nos uma camisola pessoal da marca Comme de Garçons como referência. A ideia era desconstruir camisa e sweater juntando-as numa única peça. Dino Alves propõe então um modelo oversized, com mistura de tecidos. A parte do tronco era efectivamente uma camisola normal, mas a mangas e fralda seriam em tecido e moldes de camisa. Fizeram-se 4 variações deste design com jogos de cores das associadas a marca. Verde, Preto e Branco. Para ter bem presente as diferenças entre as duas tipologias escolhidas para a peça, na parte de camisaria, mantiveram-se botões,

Margarida Sales

punhos, carcelas e adicionou-se uma ideia que iria incrementar a ideia de camisa: um padrão de riscas verticais, como as das camisas tradicionais, que seriam no verde da Carlsberg e aplicadas em serigrafia. Ainda assim restava-nos um detalhe; como utilizar o logotipo da marca, de uma forma discreta, mas com fácil leitura? Todos estes pormenores de riscas e cor já remetiam para a Carlsberg, mas mesmo assim e porque se criou um logo especial, era nosso dever utilizá-lo. Foi Manuel Reis quem deu a sugestão, tendo em conta que estas camisolas eram especialmente concebidas para esta marca e para as noites destinadas a ela. Dino Alves gostou e levou a um extremo esta ideia, aplicando várias etiquetas de tecido com o slogan e logótipo impresso em diferentes tamanhos, na frente da camisola, as etiquetas continham apenas o slogan "Life Changing" e uma atrás, junto ao decote da camisola, com o mesmo e o logo da marca impressa.

Figura 27 – Painel de Referências e primeiros modelos – Logótipos e Pantones de Diogo Potes;

Desenhos, padrão e montagem da autora

Era necessário confeccionar um total de 200 camisolas. 100 para a Carlsberg e 100 para a festa que iria ocorrer algumas semanas depois, Superb, Super Bock. O Lux-Frágil contacta Paulo Paradela da fábrica Eurofardas (uma empresa de confecção de fardas) e decidiu-se que para esta primeira festa era necessário ter obrigatoriamente pelo menos 50 t-shirts, 25 de dois modelos diferentes. Fez-se pedidos de orçamentos dos seus serviços, amostras dos produtos, cores, e tecidos disponíveis e posteriormente o atelier entrou em contacto com os mesmos, fornecendo especificações técnicas, fez chegar as etiquetas e esquemas de aplicação das mesmas e listagem de tamanhos necessários por departamento da Discoteca.

Foi a primeira vez que a mestranda executou estamparia pela técnica de serigrafia. O termo provém do latim SERICUM (seda) e do grego GRAPHÉ (escrever ou desenhar).63 Esta junção de termos é uma descrição curta e literal de todo o seu

processo. Trata-se de fazer passar tinta com o auxílio de espátula, numa tela (a matriz) feita com uma malha de seda, para transferir na base de tecido uma imagem ou texto. Até chegar a parte da execução da impressão há várias fases no processo de serigrafia.

Primeiramente, criou-se em Adobe Ilustrator dois padrões de riscas, aprovados por Manuel Reis. Depois, imprimiram-se esses padrões nos fotólitos, em alta definição, a tinta preta, opaca, sobre acetato transparente. É criado um ficheiro A.I/PDF com as medidas da tela, já com as margens incluídas (que devem ser suficientes para aplicar a tinta no quadro). A impressão é feita e são enviados para o laboratório/loja (LB- Materiais Gráficos) onde se adquire as tintas e catalisadores, para se proceder a gravação dos fotolitos na matriz. Uma emulsão fotossensível é colocada, e ao contacto com luz ultravioleta, as zonas vazias ficam preenchidas, criando o negativo da imagem; a revelação do padrão aparece depois do quadro limpo. Como o verde da Carlsberg é muito específico, comprou-se tinta num tom aproximado e tinta preta para misturar e chegar ao tom ideal. É uma tinta plástica para tecido, que deve ser misturada com uma porção de catalisador, para agarrar no tecido e ficar intacta após as lavagens.

A aplicação das riscas era feita apenas nas partes de camisaria, e como o tempo estava a escassear, optou-se por ir à fábrica várias vezes, para buscar os componentes que era possível trazer, para adiantarmos durante o dia e noite a parte da serigrafia, e reenviá-las ao final da tarde, ou por volta das 8 da manhã, já secas, de forma a que conseguissem terminar as camisolas por completo. Por cada camisola, era necessário um total de 6 estampagens, ou seja, na fralda na frente e costas e duas estampagens por cada manga, sendo um processo algo moroso, contando com o tempo de secagem entre aplicações e limpeza recorrente das telas com diluente (para não obstruir a malha dificultando a passagem de tinta).

Como espaço do atelier não é suficiente para este tipo de operação, dirigimo-nos para o Lux-Frágil, nas traseiras da discoteca, ao ar livre, e montámos improvisadamente uma pequena sala de serigrafia. Numa mesa forrada, colocámos os componentes de tecido até enchermos a mesa, estampávamos esses de uma vez e colocávamos a secar num estendal improvisado, que em caso de vento era colocado dentro do próprio bar, nos sofás e balcões. Prosseguíamos o máximo que conseguíamos, ficando os moldes a secar o resto da madrugada. Por volta da 8 da manhã, um funcionário do Lux levava os componentes a Eurofardas, à tarde alguém do

Margarida Sales

atelier ia buscar mais material, tanto de tintas como de moldes, para prosseguir o processo.

Quanto às etiquetas produzidas pela Etiglobal, forneceu-se os ficheiros do que deveria ser impresso e foi feita a encomenda. Eram 1700 etiquetas de algodão bege, divididas por tamanhos diferentes, ou seja, 150 destinadas para a marca Carlsberg, que iriam ficar atrás, e 400 de cada tamanho diferente, 50 mm, 30 mm, 20 mm, para decoração da parte da frente, que divididas por 50 t-shirts daria um total de 8 etiquetas de cada modelo a cada uma, num total de 28 etiquetas por t-shirt. Sendo a composição das etiquetas em algodão, não puderam levar solda para rematar, correndo o risco de se queimar a fibra. Era necessária uma costura à volta, pedindo-se à costureira do atelier e estagiários que as vincassem, com uma margem para poderem ser aplicadas na fábrica das fardas, sem as costureiras da mesma perderem tempo com isso.

A maior parte destes processos acima descritos ocorreram na última semana antes da festa, já Manuel Reis tinha falecido. Foi uma semana intensa, difícil, não só pela grande carga de trabalho e animosidade para que tudo estivesse pronto a tempo, mas também porque a toda a hora éramos relembrados da perda. Um telefone sempre a tocar a perguntar informações ou email's com pedidos de testemunhos por parte de Dino Alves, idas ao velório, dias e noites inteiras a trabalhar para conseguir cumprir tudo o que Reis tinha pedido.

Quinta-feira à noite, Lisboa em peso foi ao Lux-frágil, dançar, agradecer, celebrar o que Manuel Reis foi e representava que ainda está tão presente na cidade, na noite, e na cultura.

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