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CASO 3: O Escândalo do Tráfico de Influência – Caso EJ

2.6. Caso EJ e os ‘Modos de dizer’ de Veja e IstoÉ

A partir da análise dos modos de dizer das reportagens de Veja e IstoÉ, as marcas de intencionalidade e os sentidos atribuídos aos fatos e personagens envolvidos no Caso EJ ficam mais evidentes se comparados aos textos dos editoriais, principalmente no que se refere a forma como as revistas descrevem (função de mostração) e qualificam (função de sedução) as atitudes de FHC e do governo perante os fatos.

Em ambas as revistas, o uso da função de mostração é menos freqüente como estratégia discursiva para descrever as atitudes consideradas ideais ou agradáveis (Caso 3, Leitura dos modos de dizer, Grades 1A e 1C). Nenhuma atitude considerada ‘ideal’ foi identificada nas reportagens analisadas. Mas, do total de cinco reportagens analisadas em IstoÉ, foram identificadas duas formações discursivas, na qual o uso do léxico revela certa aprovação da revista em relação às decisões do governo e ao processo de investigação da ligação de Eduardo Jorge com o esquema de superfaturamento da construção da sede do TRT/SP e as ligações de autoridades do governo com o juiz Nicolau dos Santos. Em Veja, a mesma temática ‘decisões’ foi mencionada em três formações discursivas marcadas como atitude agradável do governo. São exemplos:

Em meio a esse tiroteio, procuradores da República saíram na frente e já começaram a investigar as ligações de autoridades do governo com Nicolau. Eduardo Jorge será convocado a depor e terá quebrados seus sigilos bancário, fiscal e telefônico. Martus Tavares pode ser o próximo. “O Ministério Público está investigando as ligações de Eduardo Jorge com todo o processo da obra do TRT”, anunciou o procurador da República no DF, Guilherme Schelb. (IstoÉ,

edição 1607, sem pag. versão eletrônica)

As perguntas começarão a ser respondidas a partir de agora, quando o ex- secretário será submetido a um check-up judicial. O Ministério Público aguarda

nesta semana o envio da documentação prometida pelos advogados de Eduardo Jorge, contendo informações sobre sua renda, vida bancária e seus telefonemas. Os

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procuradores se propõem a analisar o material antes de anunciar o próximo passo. Os deputados e senadores também querem examinar as atividades do ex- assessor de FHC. Eduardo Jorge se dispôs a dar seu depoimento no Congresso Nacional em agosto. (Veja, edição 1659, p.41)

Cabe ressaltar que essas passagens do texto não se referem a FHC ou às decisões tomadas por ele enquanto chefe de estado, ao contrário, ele sequer aparece como agente decisório, sendo atribuído este papel ao governo e suas instâncias competentes, principalmente ao Ministério Público. Entretanto, uma formação discursiva foi identificada em Veja, na qual o presidente reafirma seu compromisso com a ‘coisa pública’, mas ainda assim ‘transfere’ ao ‘Planalto’ a responsabilidade de investigar os fatos e punir os culpados, como na passagem a seguir:

Nunca, em todas as crises anteriores - e não foram poucas - o presidente precisou

soltar um comunicado reafirmando seu compromisso com a “correção com o trato da coisa pública”, segundo suas palavras. A nota seguia garantindo aos brasileiros que o Planalto não vai ‘acobertar’ nenhum deslize penal praticado eventualmente pelo ex-secretário-geral do Planalto. (Veja, edição 1658, p.42-43)

Mas, esta mesma função de mostração se aplica de forma mais freqüente para descrever as atitudes consideradas desagradáveis e de risco, variando segundo o tom da reportagem. Em IstoÉ, as marcas textuais das atitudes reprovadas podem ser facilmente perceptíveis seja em reportagens meramente expositivas, como também nos textos com tom de denúncia ou reportagens especulativas. As atitudes consideradas desagradáveis apresentam-se em menor freqüência (Caso 3, Leitura dos modos de dizer, Grade 1B): do total de oito reportagens analisadas, foram identificadas seis formações discursivas associadas às atitudes consideradas desagradáveis, e estas se relacionam tanto às reportagens expositivas como às especulativas. Do ponto de vista temático, essas formações discursivas de atitude desagradável estão associadas ao escândalo e o cenário de crise instalado no governo, às justificativas de FHC em relação ao conhecimento dos fatos, às decisões do governo e a relação da imprensa com FHC e a apuração do caso.

Um exemplo de como a intencionalidade da reportagem expositiva se apresenta em IstoÉ encontra-se na passagem que o uso de verbos de ação marcam uma postura ativa de FHC enquanto sujeito que age diante de uma situação ‘desagradável’, conforme grifos abaixo:

O presidente interrompeu a estratégia de dar ênfase aos seus comentários

otimistas sobre a economia para justificar as declarações do ex-colaborador. FHC sentiu-se traído pelo amigo, que vinculou suas relações com Nicolau a indicações de juízes favoráveis à desindexação salarial. O presidente reconheceu

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as ligações entre Eduardo Jorge e o juiz que está foragido. “No que eu sabia, o

Eduardo Jorge se envolveu na questão dos tribunais do trabalho, não só no de São Paulo, para que eles fossem bem informados sobre o plano e não decidissem contra o Real, pela volta da indexação. (IstoÉ, edição 1606, sem pag. versão eletrônica)

No caso da marca de intencionalidade ‘desagradável’ presente na reportagem especulativa, as referências mais pontuais podem ser observadas nas decisões do governo enquanto agente de ação e também na relação da imprensa com FHC. No primeiro caso, percebe-se uma desaprovação da atuação da CPI do Judiciário na investigação das ações de Eduardo Jorge, a partir da escolha da expressão ‘fazer vista grossa’, revelando nas entrelinhas uma idéia de descaso; e, na outra passagem temática, o uso de verbos de ação mostra que a imprensa conseguiu ter acesso ao presidente (que parecia não querer se pronunciar) para falar sobre seu ex-assessor envolvido no escândalo. Os exemplos seguem, respectivamente:

Livrar Eduardo Jorge de investigações é uma prática que tem custo e nem sempre é eficaz. Apesar de todos os indícios, a CPI do Judiciário fez vista grossa à ação do ex-ministro e, na pressa de acabar com os trabalhos, deixou de lado outras apurações moralizadoras, como a atuação de desembargadores do Tribunal

de Justiça da Bahia acusados de pressionar colegas para conceder habeas-corpus a bandidos. (IstoÉ, edição 1608, sem pag. versão eletrônica)

Durante toda a viagem, seguranças impediram que os jornalistas abordassem Fernando Henrique, mas na entrevista coletiva protocolar o repórter Ricardo

Amaral, do jornal Valor, conseguiu romper o cerco e FHC, a contragosto, teve de falar sobre a participação de seu ex-ministro no escândalo. (IstoÉ, edição

1608, sem pag. versão eletrônica)

Outro posicionamento marcante de IstoÉ é o recorrente uso do léxico para descrever atitudes consideradas de risco, especialmente o uso de verbos que estabelecem as relações entre os personagens FHC e Eduardo Jorge, ou o juiz Nicolau e o ex-assessor. Do total de 10 formações discursivas identificadas nesta categoria, sete delas descrevem a relação de proximidade e confiança aferidas pelo elo entre o presidente e EJ, estando também associadas às tonalidades expositiva, de denúncia e especulativa das reportagens. Nos exemplos a seguir, extraídos de reportagem expositiva e de denúncia, respectivamente, é marcante a acessibilidade de Eduardo Jorge a FHC assim como a confiança a ele atribuída para indicar nomes ao presidente e sugerir ações com a habilidade de quem tem o comando da situação:

Depois da indicação de Nicolau, Eduardo Jorge levava os nomes favoráveis ao

Plano Real a Fernando Henrique, que os nomeava. (IstoÉ, edição 1606, sem pag.

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Eduardo Jorge era mesmo poderoso. Martus seguiu suas ordens e no dia 27 de

setembro de 1996 propôs a abertura de crédito suplementar de R$ 25,7 milhões

para tocar a obra do TRT. Para convencer o presidente Fernando Henrique da necessidade de dar mais dinheiro para o prédio de Nicolau, Martus endossou os argumentos da Justiça trabalhista de que sem novas verbas a construção do edifício poderia ser comprometida. (IstoÉ, edição 1607, sem pag. versão

eletrônica)

Esse mesmo cenário de risco foi identificado nas relações entre o juiz Nicolau e o ex-assessor, principalmente nas formações discursivas extraídas das reportagens com viés especulativo. A marca de intencionalidade é perceptível também no uso de verbos de ação que posicionam atitudes de defesa de Eduardo Jorge perante as denúncias:

Na tentativa de justificar suas conversas com Nicolau, Eduardo Jorge se atrapalhou. Não conseguiu dar explicações convincentes para o fato de só ter

Lalau como seu consultor permanente para a nomeação de juízes classistas. O ex-

ministro disse também que não faz lobby pelas empresas que o contratam para

conseguir negócios no governo. “Minhas consultorias são o oposto do lobby, o

que faço é ajudar as empresas a entenderem como funciona o governo.” Os

fatos o desmentem. (IstoÉ, edição 1610, sem pag. versão eletrônica)

No caso de Veja, o uso da função de mostração atribuída às atitudes consideradas desagradável é recurso pouco utilizado na composição do discurso informativo. Do total de seis reportagens analisadas, apenas seis formações discursivas foram identificadas em tom de desaprovação às atitudes de FHC, entre elas na forma como presidente se posicionou do ponto de vista argumentativo em defesa da idoneidade de seu governo e deixando transparecer a imagem de um chefe de estado ‘encurralado’ pela pressão midiática:

Em função das declarações do antigo assessor, o presidente Fernando Henrique

passou pelo constrangimento de esclarecer, ainda que indiretamente, que seu governo nada tem a ver com o escândalo da obra que desviou 169 milhões de reais. Durante um café da manhã com jornalistas, FHC viu-se bombardeado por perguntas sobre as relações entre Eduardo Jorge e o juiz Nicolau. (Veja, edição

1657, p.40)

As atitudes de risco são predominantes (Gráfico 15) no corpus analisado de Veja cobre o Caso Eduardo Jorge, assim como nesta mesma categoria predomina a incidência de reportagens com viés especulativo. Entre as temáticas com maior incidência: FHC e escândalo (seis formações discursivas) e FHC e os personagens (sete formações discursivas). A primeira suscita uma apreciação peculiar – a escolha do tempo verbal e a sua relação com o tom especulativo criando uma argumentação que ‘leva a crer’ na veracidade dos acontecimentos. O tempo verbal que sustenta a idéia de suposição é o pretérito imperfeito e seu uso está condicionado a incerteza de algum acontecimento

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passado. No exemplo abaixo percebe-se justamente essa suposição de que o presidente FHC ‘estaria’ envolvido de alguma forma com o escândalo, nos trechos grifados:

A denúncia sugeria que o próprio presidente Fernando Henrique Cardoso teria usado o cargo para dar dinheiro público. Como se veria, os indícios de que isso teria ocorrido não se sustentam. A participação de Fernando Henrique no processo

se resumiu a enviar ao Congresso Nacional um projeto de lei com um pedido de suplementação de 25 milhões de reais em favor da obra. (Veja, edição 1658, p.40)

Mas, esse argumento especulativo também é sustentado por formações discursivas que abrigam verbos no pretérito perfeito, reforçando o tipo de relação que Eduardo Jorge mantinha com FHC, numa empreitada discursiva que também ‘leva a crer’ que o ex-assessor utilizou seu poder político para tirar vantagens de negócios e assim sustentar a acusação de tráfico de influência. Ao longo da análise foram identificadas sete formações discursivas com essa marca textual. Por outro lado, há uma preferência por conjugações no futuro quando Veja deixa transparecer a intenção de prever resultados. Os dois casos seguem nos exemplos:

Com o presidente, a relação permaneceu próxima mesmo depois da demissão formal. E foi mantida mesmo depois que se revelaram na Justiça suas ligações com

o juiz Lau-Lau em junho do ano passado. Eduardo Jorge costumava freqüentar o

gabinete de FHC e chegou a assistir a algumas audiências. (Veja, edição 1658,

p.46)

A crise terá proporções maiores e conseqüência desconhecida se as investigações apontarem para a existência de uma rede de influência no governo. No Palácio do Planalto, há naturalmente uma apreensão grande em relação ao andamento do caso. Afinal, Eduardo Jorge conheceu a intimidade da máquina governamental e esteve também envolvido com a campanha da reeleição,

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Gráfico 15 : Total de reportagens analisadas (Veja = 8)

Outro aspecto comum às duas revistas refere-se ao uso da função de sedução (ou função avaliativa). Ao analisar o corpus que abrange o Caso Eduardo Jorge, é possível observar uma preferência em Veja e IstoÉ, por qualificar de maneira dúbia ou negativa a imagem de FHC em relação à todas as temáticas apontadas pela pesquisa (Caso 3, Leitura dos modos de dizer, Grades 2A, 2B, 2C, 2D), enquanto que é praticamente nulo o enquadramento de uma imagem positiva ou neutra sobre o presidente e os temas a ele relacionados. Essa observação associa-se também ao tom da reportagem e a escolha dos adjetivos, expressões advérbios e verbos que atuem com função avaliativa no texto, sobrevalorizando assim, não só as intenções discursivas das revistas como também reforçando os sentidos que elas atribuem ao escândalo, aos personagens Fernando Henrique, Eduardo Jorge, ao governo enquanto instituição e às decisões tomadas em instâncias legais.

O texto de Veja no qual a imagem negativa é empregada, predomina o viés especulativo nas reportagens com uso extensivo de metáforas para enfatizar o ambiente de crise instalado no governo e o emprego de adjetivos e expressões qualitativas associados à FHC e ao governo. Do total de reportagens analisadas, foram identificadas seis formações discursivas retiradas de reportagens especulativas. É o que ocorre nos seguintes exemplos: 29% 41% 12% 6% 12%

Gráfico 15: Atitude de Risco - Variação Temática /

Caso EJ - Veja

FHC e o Escândalo

FHC e os Personagens

FHC e o Conhecimento dos Fatos

FHC e as Decisões

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Brasília mergulhou na semana passada numa crise política criada por um motivo errado, mas com um personagem certo: o ex-secretário-geral da Presidência da República, Eduardo Jorge Caldas Pereira. O motivo errado: a tempestade em torno dos suspeitos de que, em 1996, o Planalto teria facilitado a liberação de

verbas para a obra superfaturada do prédio do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo. (Veja, edição 1658, p.40)

Conhecido nos tempos do Planalto como ‘O Sombra’, por sua aversão aos

holofotes, Eduardo Jorge saiu do governo há dois anos. A versão que prevaleceu sobre a saída foi que o antigo assessor estava cansado [...] No final de 1998, Eduardo Jorge confessou a amigos que deixava o governo também por razões financeiras. “Preciso ganhar dinheiro”, disse ele na época. (Veja, edição 1658, p.44) [...] a equipe de comunicação do governo apresentava o presidente como um

nefelibata pronto a assinar documentos cujo teor desconhece. A resposta

produziu ainda outro efeito negativo para Fernando Henrique. Ao dizerem que ele desconhecia o teor do papel que levou sua assinatura, os assessores atiçaram a suspeita de que haveria irregularidades no documento. Ou seja, caso o presidente

conhecesse seu conteúdo, teria tomado a atitude correta de atirar o documento ao lixo. (Veja, edição 1658, p.42)

Outra estratégia discursiva marcante em Veja e muito freqüente também nas reportagens especulativas, é a preferência pelo artifício do enquadramento da imagem e/ou atitude dúbia. Neste caso, a imagem afetada é a de Eduardo Jorge. O ex-assessor é sempre retratado com certo ar irônico presente nas entrelinhas, não dito diretamente mas assimilado a partir da significação contextual como um personagem que ‘sempre esteve presente, ainda que ausente’. Essa noção dúbia sobre EJ também é reforçada pela reiteração do cargo que ele ocupava no governo, quando a revista tem a intenção de aguçar o raciocínio do leitor em relação à forma como o ex-secretário adquiriu seu patrimônio financeiro e construiu seus contatos políticos. Essas marcas de intencionalidade foram encontradas em nove formações discursivas e podem ser observadas nos seguintes trechos, conforme os grifos:

O ex-secretário Eduardo Jorge Caldas Pereira deixou há quase dois anos o cargo que ocupava no Palácio do Planalto. Sua presença, no entanto, continua a se fazer sentir no governo. Primeiro em virtude de suas bizarras declarações aos

jornais, elogiando dois personagens do escândalo do TRT: o ex senador: Luiz Estevão e o juiz Nicolau dos Santos Neto, o Lau-Lau. Depois porque em suas atividades na iniciativa privada, ele conseguiu montar ume empresa de consultoria capaz de atrair grandes grupos e faturar quase 1 milhão de reais por ano. (Veja, edição 1657, p.40)

Há uma certeza e duas grandes dúvidas em torno do ex-secretário-geral da Presidência Eduardo Jorge Caldas Pereira, homem da confiança de Fernando Henrique Cardoso, que durante quatro anos trabalhou no Palácio do Planalto. A certeza é de que Eduardo Jorge efetivamente intermediou negócios com o governo [...] As duas grandes dúvidas neste caso: não se sabe ao certo quanto ele ganhou pelos serviços que realizou, tampouco se agia só ou se pilotava algum

tipo de ‘esquema EJ’, referência ao já lendário ‘esquema PC’. (Veja, edição 1659, p.41)

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Em IstoÉ, a descrição negativa está mais associada aos acontecimentos e ao personagem Eduardo Jorge, relegando a segundo plano qualquer comentário sobre as decisões tomadas por FHC e/ou governo. Ao longo da análise é possível observar além da descrição de detalhes, a presença de verbos e expressões com função avaliativa, capazes de expressar o estado de humor do personagem ou o clima do ambiente em que se desenrolam os fatos para criar no imaginário do leitor uma sensação de credibilidade. Ao ativar o recurso da descrição das sensações, emoções e dos pormenores do cenário do escândalo, a revista conduz o leitor a suas próprias inferências em seis formações discursivas. No caso da descrição da imagem dúbia, a revista explora, assim como Veja, as atitudes do personagem Eduardo Jorge, mas alternando sua abordagem em tons de denúncia e de especulação. Ao total, foram contabilizadas 10 formações discursivas com enquadramentos dúbios, sendo que a marca intencional predominante encontra na ironia um aporte discursivo que deixa nas entrelinhas certo tom de reprovação.

Os trechos abaixo caracterizam justamente o cenário das revelações, a reação produzida em FHC e a ironia discursiva de IstoÉ quando se refere a Eduardo Jorge e sua teia de amizades conquistadas enquanto esteve no cargo de ex-assessor do presidente da República:

Desconforto, constrangimento e o sentimento de traição tomaram conta do Palácio do Planalto depois que o ex-secretário-geral da Presidência Eduardo Jorge Caldas revelou as “relações institucionais” do juiz foragido Nicolau dos Santos Neto com o governo Fernando Henrique. A entrevista do amigo do presidente há 15 anos, dada ao jornal Valor no meio da semana, amargou o café da manhã servido quinta-feira 6 pelo presidente aos jornalistas no Alvorada,

como parte das comemorações dos seis anos do Plano Real. (IstoÉ, edição 1606, sem pag. versão eletrônica)

Funcionário aposentado do Senado, Eduardo Jorge Caldas Pereira é o exemplo mais acabado de como o poder pode servir aos interesses privados. Quando assumiu o cargo de secretário-geral da Presidência, em janeiro de 1995, criou uma gigantesca teia de influência que vai desde a nomeação de funcionários de

alto escalão no próprio Executivo, passando por dirigentes de empresas estatais, bancos e seguradoras federais, fundos de pensão, lideranças governistas no Legislativo e juízes [...] Até mesmo depois de ter deixado o governo, em 1998,

Eduardo Jorge continuou mandando.” (edição 1610, sem pag. versão eletrônica)

A função de interação, por sua vez, é peculiar em termos de estratégia discursiva. Trata-se de uma leitura da marca registrada do estilo textual e tonalidade da reportagem de cada revista. Cabe, portanto, pontuar nesta análise, os aspectos priorizados por cada uma das semanais de informação que vão além das escolhas lexicais, mas que abrangem a forma como as formações discursivas são combinadas de

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modo a costurar o texto e trazer a tona novas significações para os enunciados. De modo geral, ao longo da análise busca-se compreender como o leitor é convocado a participar e interagir com o discurso construído pela revista.

Em Veja, particularmente, o uso das frases afirmativas para construir a argumentação do ‘leva a crer’ tem como foco principal FHC e sua imagem negativa em alusão aos outros escândalos que ocorreram em seu mandato. Um aspecto curioso é o fato de que todas as formações discursivas identificadas (Caso 3, Leitura dos modos de dizer, Grade 3B) pertencem ao discurso da reportagem interpretativa “Lições de Maquiavel” (edição 1660), cujo enfoque é a defesa da tese das ‘consecutivas mortes de FHC’ ao longo dos dois mandatos. Nesta reportagem, há uma abordagem analítica da