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Casos contra o Brasil e implementação das decisões

C) Estruturação do trabalho

3. O BRASIL NO CONTEXTO DO SISTEMA INTERAMERICANO DE

3.3. Casos contra o Brasil e implementação das decisões

Além dos casos antes referidos, submetidos à apreciação da Corte Interamericana de Direitos Humanos, inúmeras petições já foram apresentadas à Comissão Interamericana contra o Estado Brasileiro, envolvendo violações das mais variadas ao Pacto de São José da Costa Rica.

Um dos casos de maior repercussão foi o Caso Maria da Penha, iniciado pela própria vítima, Maria da Penha Maia Fernandes, pelo Centro pela Justiça e pelo Direito Internacional (CEJIL) e pelo Comitê Latino-Americano de Defesa dos Direitos da Mulher (CLADEM), relativo à violência contra a mulher. Maria da Penha Maia Fernandes foi vítima de sucessivas agressões por parte de seu então marido, Marco

260 Cf. Corte IDH. Caso Nogueira de Carvalho y otro Vs. Brasil. Excepciones Preliminares y Fondo.

Antônio Heredia Viveiros, vindo a ficar paraplégica em virtude das agressões por ele perpetradas, inclusive tentativas de homicídio.261

Deve-se fazer especial menção ao fato de que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, no Caso Maria da Penha, exerceu controle de convencionalidade sobre a legislação brasileira e recomendeu que o Brasil promovesse as necessárias medidas para a adequação legislativa, isto é, adequação de seu ordenamento aos preceitos internacionais relativos à proteção dos direitos da mulher.

Um dos desfechos do caso, em sede de controle de convencionalidade, foi a edição pelo Brasil da Lei nº 11.340/2006, que alterou significativamente disposições legais do seu direito interno para a maior proteção da mulher contra a violência doméstica.262

Ressalte-se que esse caso não pôde ser levado à apreciação da Corte Interamericana de Direitos Humanos face ao princípio da irretroatividade, uma vez que os fatos em apuração se deram em data anterior a 10 de dezembro de 1998, impedindo aquele Tribunal de tomar conhecimento do caso.

Caso de grande importância foi o Caso Simone André Diniz, iniciado pelo Centro pela Justiça e o Direito Internacional (CEJIL), a Subcomissão do Negro da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP) e o Instituto do Negro Padre Batista.263

A petição originou-se a partir da discriminação racial sofrida por Simone André Diniz, negra, em face de anúncio publicado no jornal A Folha de São Paulo, com os

261 Cf. CIDH. Caso Maria da Penha Maia Fernandes. Mérito (Brasil). Relatório nº 54/01 (Petição nº

12.051).

262 A Lei nº 11.340/2006 “cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher,

nos termos do § 8o do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de Todas as

Formas de Discriminação contra as Mulheres e da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de Execução Penal; e dá outras providências”.

seguintes dizeres: “doméstica. Lar. P/ morar no empr. C/ exp. Toda rotina, cuidar de crianças, c/docum. E ref.; Pref. Branca, s/filhos, solteira, maior de 21a. Gisele”. Apesar da clara configuração do crime de racismo, o Ministério Público pediu o arquivamento do inquérito policial, no que foi atendido pelo Poder Judiciário. 264

Tal situação impediu que Simone André Diniz pudesse ver punida a autora do crime de racismo contra si praticado, já que o ordenamento jurídico brasileiro prevê a possibilidade de ajuizamento de ação penal privada subsidiária da pública apenas se o Ministério Público, titular da ação pena pública, quedar-se inerte. Como o Promotor de Justiça requereu o arquivamento do inquérito policial, cristalizou-se a impunidade.265

Esse caso é de profunda relevância, pois se defronta com uma garantia constitucional dos Membros do Ministério Público, que é a independência funcional, e põe em xeque a vedação do exercício de ação penal privada subsidiária da pública em caso de promoção de arquivamento requerida pelo Ministério Público, mesmo quando claramente presentes a prova da materialidade e os indícios suficientes da autoria delitiva.

D’outra banda, quiçá possa o exame do Caso Simone André Diniz avivar o debate sobre o cabimento de impetração de mandado de segurança ou outro remédio jurídico, diante da possível configuração de direito líquido e certo à responsabilização criminal do autor do delito em face da prova da materialidade e dos indícios suficientes da autoria delitiva.

Outro caso envolvendo discriminação racial foi o Caso Neusa dos Santos

Nascimento e Gisele Ana Ferreira, abreviadamente denominado Caso Neusa Santos,

iniciado pelo Instituto da Mulher Negra (Geledés).266 Nesse caso o Ministério Público

264 Cf. CIDH. Caso Simone André Diniz. Mérito (Brasil). Relatório nº 66/06 (Petiçaõ nº 12.001), nota de

rodapé nº 3.

265 Cf. artigo 100, § 3º, do Código Penal Brasileiro: “A ação de iniciativa privada pode intentar-se nos

crimes de ação pública, se o Ministério Público não oferece denúncia no prazo legal”.

266 Cf. CIDH. Caso Neusa dos Santos Nascimento e Gisele Ana Ferreira. Admissibilidade (Brasil).

ofereceu denúncia, mas a mesma foi julgada improcedente por falta de provas. No registro do Relatório da Comissão Interamericana,

O juiz da 24ª Vara Criminal julgou improcedente a ação penal sob a justificativa de “resta dúvidas a respeito da verdadeira conduta do réu”. Ademais, afirmou que não havia certeza das provas apresentadas, visto que não se conseguiu demonstrar a real intenção do acusado. (sic)

O caso ainda está tramitando perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, não se podendo colher maiores informações sobre o mesmo dado o caráter sigiloso do seu processamento.

Outros casos podem ainda ser citados, como o Caso Carandiru,267 Caso El Dorado dos Carajás,268 Caso 42° Distrito Policial Parque São Lucas, São Paulo,269 Caso Adolescentes Custodiados pela FEBEM,270 Caso Internos Presídio Urso Branco, Rondônia,271 Caso Márcia Barbosa de Souza 272 e outros.

Enfim, cumpre registrar que tem havido negociações para criação de órgão no Brasil para acompanhar a implementação das decisões e recomendações emanadas do sistema interamericano de direitos humanos, composto por agentes públicos e representantes da sociedade civil, que terá, entre outras, as seguintes atribuições:

a) acompanhar a negociação entre os entes federados envolvidos e os peticionários nos casos submetidos ao exame dos organismos internacionais;

267 Cf. CIDH. Caso Carandiru. Mérito (Brasil). Relatório nº 34/00 (Petição nº 11.291).

268 Cf. CIDH. Caso Eldorado dos Carajás. Admissibilidade (Brasil). Relatório nº 04/03 (Petição nº

11.820).

269 Cf. CIDH. Caso 42° Distrito Policial Parque São Lucas, São Paulo. Mérito (Brasil). Relatório nº 40/03

(Petição nº 10.301). Conforme listagem apresentada pelas entidades peticionárias, foram vítimas as seguintes pessoas: Arnaldo Alves de Souza, Antonio Permoniam Filho, Amaury Raymundo Bernardo, Tomaz Badovinac, Izac Dias da Silva, Francisco Roberto de Lima, Romualdo de Souza, Wagner Saraiva, Paulo Roberto Jesuíno, Jorge Domingues de Paula, Robervaldo Moreira dos Santos, Ednaldo José da Fonseca, Manoel Sivestre da Silva, Roberto Paes da Silva, Antonio Carlos de Souza, Francisco Marlon da Silva Barbosa, Luiz de Matos e Reginaldo Avelino de Araújo.

270 Cf. CIDH. Caso Adolescentes Custodiados pela FEBEM. Admissibilidade (Brasil). Relatório nº 39/02

(Petição nº 12.328).

271 Cf. CIDH. Caso Internos Presídio Urso Branco, Rondônia. Admissibilidade (Brasil). Relatório nº

81/06 (Petição nº 394-02).

272 Cf. CIDH. Caso Márcia Barbosa de Souza. Admissibilidade (Brasil). Relatório nº 38/07 (Petição nº

b) promover entendimentos com os governos estaduais e municipais, Poder Judiciário e Poder Legislativo, para o cumprimento das obrigações previstas nas decisões e recomendações dos organismos internacionais de proteção dos direitos humanos;

c) fiscalizar o trâmite das ações judiciais que tratem das violações de direitos humanos referentes aos fatos previstos nas decisões e recomendações dos organismos internacionais de proteção dos direitos humanos;

d) fiscalizar a implementação de políticas públicas nas esferas federal, estadual e municipal necessárias para o cumprimento das decisões e recomendações dos organismos internacionais de proteção dos direitos humanos;

e) acompanhar a gestão das dotações orçamentárias da União destinadas à execução financeira das decisões e recomendações dos organismos internacionais de proteção dos direitos humanos;

f) garantir que o valor a ser fixado nas indenizações respeite os parâmetros fixados pelos organismos internacionais de proteção dos direitos humanos;

g) fazer gestões junto aos órgãos do Poder Judiciário, Ministério Público e Polícia para que agilizem as investigações e apurações dos casos em exame pelos organismos internacionais de proteção dos direitos humanos.