Categoria de análise 4 – espaços formais de troca de informações

No documento Antecedentes da aprendizagem organizacional em cursos superiores de tecnologia : a experiência brasileira (páginas 121-125)

5. Análise de dados – pesquisa qualitativa com coordenadores de cursos superiores de

5.1 Análise por categorias – práticas para aprendizagem organizacional

5.1.4 Categoria de análise 4 – espaços formais de troca de informações

A aprendizagem organizacional está intimamente ligada ao conhecimento (EASTERBY-SMITH; LYLES, 2005). A disseminação e a criação de conhecimento são influenciadas pela quantidade e pela qualidade de interação entre os indivíduos. Alguns dos processos do modelo SECI, de Nonaka e Takeuchi (1997), por exemplo, são bastante dependentes destas trocas, como é o caso, em especial, da socialização do conhecimento. Ela está ligada à base de conhecimentos tácitos, que permitem, segundo Polanyi (1967), que o indivíduo aprenda, de maneira integrada, questões práticas e teóricas, sendo capaz de entender muitas coisas sem necessariamente compreender detalhadamente cada um dos fundamentos. Por esta razão, a participação do indivíduo em espaços de troca, formais ou informais, físicos ou virtuais, possibilita articulações que geram aprendizagens em níveis individuais e coletivos (ELKAJAER, 2004, BRANDI; ELKAJAER, 2011).

Alguns espaços formais para troca de informações são citados por todos os entrevistados. O mais comum são as reuniões periódicas com todos os professores, que ocorrem normalmente uma ou duas vezes por semestre, à exceção de E3, o qual diz ter reuniões semanais com todos os docentes. Outras reuniões mais frequentes ficam, normalmente, restritas aos coordenadores e gestores das instituições e, em alguns casos, aos Núcleos Docentes Estruturantes – NDEs.

Nas reuniões gerais, com todos os professores do curso, assuntos gerais são debatidos. A entrevistada E3, que mantém reuniões semanais com os professores de seu curso, relata que consegue tratar de quase todos os assuntos nas reuniões, já que elas ocorrem com frequência.

A gente monta a pauta, a reunião é na quinta e até terça feira eles podem enviar sugestão de pauta. E a minha secretaria que é a Manu organiza isso, agenda, tudo direitinho, faz as atas das reuniões todas... (E3).

A gente diz, ‘Ah já que que quinta tem reunião, então deixa para quinta’. Só assuntos mega urgentes que a gente trata no particular. Mas 90% dos assuntos a gente consegue

deixar para quinta-feira. Porque é o momento que a gente tem. Está na agenda de todo mundo. Porque organizar a agenda deste povo é muito difícil... então está na agenda de todo mundo e todo mundo já sabem que nas quintas às 14h é sagrado, ninguém faz mais nada. Então... está tudo certo, assim.... bem bom! (E3).

E3 relata que, só no início de cada semestre, consegue reunir todos os professores, incluindo os docentes de disciplinas básicas ou cuja lotação vincula-se a outro curso. Nessas reuniões mais longas, são equalizados os conteúdos a serem trabalhados no semestre, alinhando as disciplinas e evitando sobreposições ou conteúdos desnecessários, que não fazem sentido para o aluno do curso.

todo o semestre, início de semestre, a gente reúne todos os professores do curso, independente de ser de ‘comgrad’ ou não, todo mundo... o cara do cálculo, da estatística... e apresenta as disciplinas do semestre, as que vieram antes e as que virão depois. Mas o foco principal é os do semestre que o aluno está inserido né? E tudo o que veio e tudo o que vai vir. Para quê? Para o professor de estatística, que é de um mundo diferente muitas vezes, entender para que que o aluno vai usar esta estatística. Então.. e focar, por que ele não precisa ver de repente um teste de Dunkan... ele precisa ver o Tuk, entende? (E3).

Questões pedagógicas também são discutidas nas reuniões de professores do curso do entrevistado E8. Ele relata que existe certa dificuldade de congregar todos os professores na mesma reunião. Ele só consegue fazer isto duas vezes por semestre, quando são tratadas questões de ordem administrativa e, em especial, questões pedagógicas. Estas reuniões também são espaços privilegiados para analisar os dados das pesquisas da CPA.

Além disso tem o colegiado a área, que aí não são só os professores do curso, mas os do curso e mais os professores de todos os cursos que integram a área. E a área é bem grande aqui dentro do campus, a gente tem vinte e sete professores na área e seis cursos. Então também tem, pelo menos duas vezes por semestre no mínimo, a gente faz reuniões da área... que também são momentos de discussões destas questões administrativas, mas também questões pedagógicas da evolução dos cursos... (E8).

As reuniões gerenciais, reunindo coordenadores e gestores, são mais frequentes. A entrevistada E4 revela que, em sua instituição, são realizadas reuniões mensais com todos os coordenadores da escola de negócios. Nelas, as pautas são diversificadas, abrangendo desde questões acadêmicas, como a organização da reunião com os professores, até questões mais administrativas, como alocação dos professores, recepção de alunos e eventos. Ela relata que estas reuniões são importantes, pois permitem uma visão mais ampla aos coordenadores, os quais acabam atuando em conjunto em atividades que podem ser compartilhadas, além de resolverem questões que precisam ser vistas cooperativamente, como a alocação de professores.

A entrevistada E5 complementa que também existe uma reunião bimestral com todos os coordenadores da universidade e gestores, inclusive com pró-reitores e, por vezes, com o

reitor, Nesta ocasião, são repassadas as metas e feito o acompanhamento do planejamento estratégico. A entrevistada considera essas reuniões importantes para o alinhamento do trabalho, por ficar claro quais são os desafios e os rumos futuros. Estas reuniões frequentes contribuem para o processo de feedback descrito tanto por Crossan, Lane e White (1997) como por Nelson e Winter (2002), que usam o termo no sentido de fazer correções de rota, para atender os objetivos.

Em termos de discussão do projeto pedagógico do curso, o espaço mais mencionado foi o Núcleo Docente Estruturante – NDE, como prevê a legislação educacional brasileira (BRASIL, 2010). Este achado corrobora os de Francisco et al. (2012), os quais relatam uma experiência bem-sucedida de um NDE no estado de Santa Catarina. O entrevistado E8 explicou que o NDE de seu curso reúne-se a cada três meses, avaliando questões que vão desde a matriz curricular até a adequação das estruturas físicas para dar conta das atividades do curso.

O NDE a gente se encontra a cada três meses para discussões acerca do curso... Geralmente, sempre no final de cada semestre a gente faz uma avalição do semestre para ver questões assim... Apontam inclusive algumas questões bem especificas, tipo estrutura... sala de aula, estrutura que o campus fornece para o curso, se o curso é condizente com que o PPC pontua, com as necessidades do curso, o que pode ser melhorado... questões, por exemplo, da biblioteca (E8).

A entrevistada E5 menciona que seu curso está se preparando para uma revisão da matriz curricular e diz que o NDE será o espaço utilizado para isso. Entende que o processo precisa ser formalizado, pois é uma exigência legal, preferindo, portanto, utilizar o espaço adequado para evitar problemas futuros.

Então esta é a maneira como eu vou pensar a alteração curricular. Vou fazer isto de uma maneira formal, porque ela tem que ser formalizada, mas estes são os agentes que vão pensar o curso.... junto comigo (E5).

A entrevistada E7 explicita que, em sua instituição, havia uma reunião semanal chamada de NDE. Entretanto nela eram tratados assuntos diversos, de ordem pedagógica e administrativa. Ao se darem conta que não existiam tantas questões pedagógicas a serem tratadas, a periodicidade foi alterada para mensal. A reunião inicia com uma pauta administrativa, seguindo para uma pauta de NDE, com discussões pertinentes ao acompanhamento do projeto pedagógico do curso.

Os entrevistados E4 e E9 consideram que o NDE é um dos espaços de discussão da proposta pedagógica, pois existem outros. E4 refere o colegiado e também outros informais, como a troca de informações e ideias entre os coordenadores, que dividem a mesma sala, e com os professores, na sala dos professores, pouco antes do início das aulas. E9, adepto do uso de

tecnologias da informação, explica que muitas discussões são feitas por e-mail ou pelo aplicativo de mensagens instantâneas WhatsApp. As reuniões presenciais permanecem apenas para a formalização, conforme exigência legal, sendo realizadas uma vez por semestre.

Foi mencionado por alguns dos entrevistados a existência de espaço formais de troca de informações com os alunos. Tanto E4 como E5 explicam que os alunos representantes participam formalmente do colegiado do curso. São também realizadas reuniões periódicas com esses alunos, que apresentam as informações que consideram relevantes. A entrevistada E4 diz que inclusive foi feito um grupo focal com os alunos, para avaliar o currículo da instituição em comparação ao currículo de outras faculdades e universidades.

a gente fez o projeto, a gente já pensou com base no que a [nome da coordenadora anterior suprimido] tinha levantado na segunda gestão, dela na coordenação do curso, que eram coisas que ela fez, levantou via grupo de focos com aluno, comparando os currículos... mas sempre via o aluno. ‘Ah gente não tem nada de direito empresarial... a gente acha que precisa ter’... “ah, a gente precisa as oficinas de liderança” (E4). Eu tenho a sorte de ter um representante discente que é muito envolvido assim. Então ele faz reuniões com os alunos para me passar o que os alunos pensam. Eu tenho, enfim, muita sorte neste sentido. E daí esse é o momento que vai acontecer justamente agora. Eu vou colhendo ao longo de todo o semestre opiniões dos alunos... (E5).

No mesmo sentido, E7 e E8 também mencionam a participação de alunos e seus representantes em reuniões com a coordenação e colegiado do curso. Relatam que os alunos são bem ativos e que trazem questões por vezes consideradas relevantes. É importante destacar que a participação dos diferentes segmentos nas instâncias colegiadas é uma exigência legal, mas que nem sempre funciona de forma efetiva.

O entrevistado E8 também menciona a escuta realizada por meio de pesquisas da CPA, a qual, de forma indireta, também foi lembrada por outros entrevistados. E8 diz que a avaliação dos alunos na CPA é bastante respeitada em sua instituição e que existem ações diretas, como a citada no exemplo a seguir, quando menciona uma ação em relação à avaliação dos docentes.

‘os alunos estão te avaliando mal, como é que a gente pode sair desta situação? tu esta precisando de alguma coisa? como é que tu avalias esta tua má avaliação?’... então a CPA tem um papel para nós bem, bem... No caso aqui para nós é SPA. Mas tem um papel para nós bem, bem importante (E8).

Outra ação mencionada pelo entrevistado E8 refere-se aos ex-alunos. Ele diz que a instituição tem trabalhado de forma bastante ativa com os egressos, avaliando com eles sua formação, a fim de verificar o que pode ser melhorado.

Os espaços formais citados são importantes para a troca de informações, sendo privilegiados para a interação dos sujeitos no contexto do curso. Percebe-se, pelas falas dos

entrevistados, que alguns espaços são bastante efetivos na reflexão sobre os resultados obtidos em relação aos projetos pedagógicos dos cursos, gerando, em grande parte, aprendizagens adaptativas (PROBST; BÜCHEL, 1997), de ciclo simples (ARGYRIS; SCHÖN, 1996). Aprendizagens de ciclo duplo, que modificam a teoria em uso (ARGYRIS; SCHÖN, 1996), não foram identificados nestes espaços, apesar de alguns esforços isolados, como o evidenciado no caso do relato de E5 para discussão de uma modificação de matriz curricular.

5.1.4.1 Afirmativas criadas a partir da categoria de análise ‘espaços formais de troca de informações’

Com base nos dados e nas análises qualitativas realizadas, associadas aos conceitos teóricos, afirmativas foram elaboradas para mensurar quantitativamente, na segunda fase da pesquisa, as práticas que contribuem para processos de aprendizagem organizacional relacionados aos espaços formais de troca de informações. Esta afirmativas estão, a seguir, listadas, sendo o código entre parênteses a identificação da questão na base de dados quantitativa:

a) as reuniões periódicas contribuem para a avaliação do projeto do curso (Q9_1); b) as reuniões e encontros formais são importantes para o alinhamento do curso

(Q9_2);

c) a sala de professores é um espaço onde as pessoas conversam e trocam informações que contribuem para a melhoria das práticas no curso (Q9_3).

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