Categoria de análise 7 estágios e atividades práticas

No documento Antecedentes da aprendizagem organizacional em cursos superiores de tecnologia : a experiência brasileira (páginas 136-140)

5. Análise de dados – pesquisa qualitativa com coordenadores de cursos superiores de

5.1 Análise por categorias – práticas para aprendizagem organizacional

5.1.7 Categoria de análise 7 estágios e atividades práticas

As atividades pedagógicas práticas emergiram nas entrevistas como formas para atualização dos currículos. Na visão dos entrevistados, isto acontece basicamente de duas maneiras. A primeira advém do aprendizado do aluno, o qual acaba sendo complementado, pelo desenvolvimento de competências no próprio mercado de trabalho. A segunda deriva da relação que se estabelece com as empresas que oferecem os estágios, já que há troca de informações sobre as necessidades destas empresas referentes à mão de obra e, por conseguinte, à formação dos alunos para o preenchimento de vagas.

Um exemplo é citado pela entrevistada E4. Ela expõe a parceria realizada com uma empresa de grande porte, que costuma buscar estagiários na universidade e promove palestras e atividades competitivas como parte de seu processo seletivo. A entrevistada E1 explica que busca parceiros em locais onde os alunos possam estagiar. Ela analisa que esta atividade é importante, pois, como seu curso não é muito tradicional, os alunos se deparam com dificuldade de colocação, porque as organizações ainda não vislumbram profissionais formados nesta área. Ela exemplifica uma parceria realizada com uma secretaria municipal, que costumava abrir vagas vislumbrando alunos do curso de educação física, no entanto as atividades estavam mais tipicamente relacionadas às competências desenvolvidas em seu curso.

Agora estabelecemos uma relação maior via estágio, tem um aluno nosso que está estagiando em uma vaga lá totalmente na área de gestão, os outros nem tanto. Mas assim era uma vaga tipicamente para a educação física e que agora ele está bem nesta área de programação dos eventos (E1).

Os entrevistados E2, E4 e E8 dizem que suas instituições possuem setores específicos para captação de vagas de estágio. Nesta atividade, há contato direto com o mercado de trabalho, o que permite obter algumas informações relevantes a serem consideradas no projeto do curso e na formação dos alunos.

A gente tem um setor de estágios que está sempre em contato com agências que fazem... integralização eu acho que é o nome... integradoras, que fazem esta comunicação com as empresas (E2).

A gente tem um canal institucional, que é o [nome da universidade suprimido] Carreiras, que fica na [nome da unidade suprimido], que é a nossa unidade de serviços acadêmicos, e ali tem o Carreiras, que os alunos podem se cadastrar, tanto para estágio curricular quanto para estágio não curricular, que seria o remunerado. E daí vem muita coisa dali, né? A gente pode mandar vagas, aquela coisa toda... e tem alguns alunos, os próprios alunos, por ti... “bah professora, estamos precisando de assim”... né? “dá para divulgar?”. Então tem este contato em função de mercado de trabalho bastante (E4).

A gente tem convênios enquanto instituição. Muitos deles captam alunos para estágio. A gente aproveita. A gente tem um setor que coordena aqui os estágios, e esse é um setor que nos alimenta com muitas informações, internamente. Por estar neste diálogo com empresas, com organizações, então a gente dialoga muito com isso (E8).

Percebe-se que a troca de informações, mesmo não sendo muito estruturada, é bem vista e que os coordenadores aproveitam os estágios extracurriculares para monitorar as necessidades do mercado de trabalho. A entrevistada E5 comenta que algumas empresas preferem os estagiários de algumas universidades, estando normalmente tal preferência relacionada ao perfil dos alunos. Ela diz permanecer sempre atenta ao que o mercado pede, pois acredita que ele sinaliza com importantes indicadores o que precisa ser trabalhado no curso.

Apenas a entrevistada E3 relata a existência de estágios curriculares em seu curso. Ela analisa que esta fase de estágio, a qual ocorre no terceiro e último ano do curso, é importante, pois oportuniza experiência prática na indústria, o que se torna um diferencial para o aluno egresso do curso.

Verifica-se, pois, que os estágios são uma forma de os coordenadores manterem-se atentos às necessidades do mundo do trabalho, tal como preconizam as DCNs dos cursos superiores de tecnologia. Os coordenadores explicam que monitoram o que está sendo pedido pelas empresas. Esta observação gera conhecimento a ser interpretado e subsídios para os processos de aprendizagem individuais e organizacionais. São assim oportunizados os processos descritos por Crossan, Lane e White (1999), tanto de feedfoward, os quais geram alterações quer no curso, quer em disciplinas, como de feedback, com ações de aprimoramento e melhor entendimento do que já consta do projeto do curso.

Visitas técnicas também são mencionadas como atividades práticas que ajudam a estabelecer relações com o mercado. Os entrevistados E1, E2, E7 e E8 explicitam que estas visitas, que costumam ocorrer durante o semestre, ajudam o estudante a visualizar o funcionamento de algumas organizações e possibilitam relacionar os conceitos vistos em sala de aula com a prática, reforçando o desenvolvimento de competências. Para professores e coordenação, ajuda a estabelecer contatos, que trazem informações sobre as necessidades atuais do mundo do trabalho. Ambos os casos reforçam o que preconiza a DCN dos cursos superiores de tecnologia (CNE, 2002).

De modo mais estruturado e profundo, cinco entrevistados (E3, E4, E5, E7 e E8) relatam que os alunos de seus cursos fazem vistas técnicas ou desenvolvem atividades internacionais. A entrevistada E3 diz que o curso costuma organizar viagens para encontros da área no exterior, onde estão empresários e executivos de empresas, sendo esta vivência oportunizada também aos alunos. As entrevistadas E4 e E5, pertencentes à mesma universidade, ressaltam que seus cursos têm uma disciplina optativa na qual é realizada uma viagem de uma semana para algum país da América Latina. Os alunos têm aulas antes e depois da viagem, a fim de estabelecerem conexões teóricas com a prática vivenciada. O entrevistado E8 lembra da viagem de estudos realizada ao Uruguai, na qual os alunos têm a oportunidade de visitar algumas empresas e o porto de Montevidéu. Esta atividade tem tido suporte local do governo uruguaio, por meio do consulado do país no Rio Grande do Sul.

A primeira foi muito na raça, no peito e na raça... e a segunda, a deste ano, já foi bem mais consolidada. A gente conseguiu o apoio do consulado geral do Uruguai no RS, foram eles que montaram as agendas, quando nós chegamos lá tinha alguém do

ministério das relações exteriores que nos acompanhou em todas as visitas... e aí foi algo bem, bem interessante. Foi bem mais produtivo, digamos assim, no sentido de que os alunos foram... as visitas foram quase as mesmas da primeira, só que ali tinha um apoio institucional forte, que nos possibilitou ter um melhor aproveitamento da visita (E8).

A entrevistada E7 narra que os alunos do curso de Comércio Exterior e Logística costumam fazer uma viagem a Buenos Aires, quando conhecem o porto da cidade, visitam a Câmara de Comércio Argentina-Brasil e mais alguma empresa.

O uso de laboratórios é outro tipo de atividade pedagógica prática, mencionada por E1 e E3. A entrevistada E1 comenta a futura instalação de centro de treinamento esportivo de alto rendimento dentro do campus, o que possibilitará aos alunos diferentes práticas, as quais ajudarão o desenvolvimento de competências. A entrevistada E3 explica que sua universidade tem vários laboratórios com equipamentos de última geração e que, em parceria com a indústria, diferentes análises e testes são realizados pelos alunos, nesses laboratórios. E3 considera que, desta forma, os alunos ficam conectados com as últimas tendências de mercado, pois, no laboratório, além de efetuarem atividades curriculares normais, efetivam práticas correspondentes a demandas de empresas.

No que diz respeito às atividades curriculares, quatro entrevistados elencam metodologias de ensino ativas em diferentes conteúdos curriculares. Em sua instituição, E3 e E7 citam a metodologia de ensino baseada em problemas. Nesta metodologia, o professor sempre propõe algum problema relacionado ao conteúdo apresentado, de tal forma que os alunos precisam aprofundar o conhecimento, a fim de resolver tal problema. A entrevistada E3 considera esta metodologia desafiadora, já que muda o papel do professor, o qual se torna um facilitador em sala de aula. Por vezes, o docente também se depara com novos problemas por ele nunca vistos.

O recurso a atividades práticas e estágios desempenha, para os alunos, importante papel no processo de ensino e aprendizagem de competências, as quais são necessárias para o enfrentamento de um mundo do trabalho em transformação (ZARIFIAN, 2012, PERRENOUD, 1999, GALLO, 2008, LÉVY, 2000). Para o curso, ele oportuniza o contato com o mundo do trabalho, gerando insumos para a aprendizagem organizacional (PALADINO, 2009, BEKTA; TAYAUOVA, 2014).

5.1.7.1 Afirmativas criadas a partir da categoria de análise “estágios e atividades práticas” Com base nos dados e nas análises qualitativas realizadas, associadas aos conceitos teóricos, afirmativas foram elaboradas para mensurar quantitativamente, na segunda fase da

pesquisa, as práticas que contribuem para processos de aprendizagem organizacional relacionados aos estágios e às atividades práticas, Esta afirmativas estão, a seguir listadas, sendo o código entre parênteses a identificação da questão na base de dados quantitativa:

a) os estágios (curriculares ou extracurriculares) são uma atividade prática que contribui para a formação de competências dos alunos (Q13_1);

b) os alunos que fazem estágios (curriculares ou extracurriculares) trazem contribuições para o curso, pois têm maior contato com as necessidades do mercado de trabalho (Q13_2);

c) visitas técnicas são uma boa maneira de manter o currículo do curso alinhado às necessidades do mercado de trabalho (Q13_3);

d) atividades práticas desenvolvidas em parceria com empresas e organizações contribuem para que o curso seja atualizado constantemente (Q13_4);

e) os cursos superiores de tecnologia (tecnólogos) devem ter mais atividades práticas do que cursos de bacharelado (Q13_5).

5.2 ANÁLISE POR CATEGORIAS – APRENDIZAGENS PRODUTIVAS DE CICLOS

No documento Antecedentes da aprendizagem organizacional em cursos superiores de tecnologia : a experiência brasileira (páginas 136-140)