2 O INSTITUTO DA ARBITRAGEM NO DIREITO
2.1 CONCEITO E CARACTERÍSTICAS
2.1.3. Características
2.1.3.4 Celeridade
Quando se aventa que a arbitragem constitui uma “solução” ao assoberbamento ou lentidão do Judiciário, costuma-se apontar como significativa vantagem que a resposta arbitral pode ser adquirida de forma muito mais rápida. Em se tratando de arbitragens internacionais, essa ferramenta pode figurar como a mais adequada em conflitos entre os sujeitos de direito internacional, principalmente por oferecer uma resposta rápida para um conflito que se delonga há algum tempo e que tenha chegado a um ponto de inflexão que se mostre inútil uma composição amigável.
É verdade que os trâmites da arbitragem são mais céleres do que os do processo judicial. No entanto, não é correto pensar que a arbitragem se mostra como o mais adequado remédio à morosidade judiciária, uma vez que se recorre à justiça privada por características outras que tornam a arbitragem mais atrativa à disputa, como, por exemplo, a especialidade do conhecimento dos árbitros escolhidos. Outrossim, a celeridade não é uma qualidade que pode ser definida em parâmetros absolutos. Na verdade, a depender da complexidade dos fatos e fundamentos jurídicos abordados no litígio, pode-se exigir tempo maior para a correta e adequada solução arbitral. Não é impossível que se possa estipular que, num procedimento arbitral, um prazo de três meses para a apresentação de uma manifestação sobre um ponto técnico ou intrincado, sem que se possa reputar demasiadamente dilatado. Num processo judicial, um prazo de três meses para uma manifestação pode ser visto como inconcebível.
Mesmo admitindo a proclamada celeridade, é preciso pontuar que um dos lados do processo arbitral pode se valer de táticas e estratégias para delongar o término do procedimento, inclusive com a possibilidade de esgotar o tempo que tenha sido definido para que se produza a decisão arbitral. Nem mesmo a arbitragem está imune a medidas procrastinatórias. Além do mais, a complexidade da causa pode desqualificar aquelas proclamadas celeridade e menor onerosidade. Pontilha Carlos Alberto Carmona que a arbitragem pode ser demorada, bem como o seu custo pode ser igual ou superior ao do processo estatal29.
29 CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e jurisdição. In: WALD, Arnoldo (Org.). Doutrinas essenciais –
No mundo dos negócios, “tempo é dinheiro”. Assim como a espera delongada pode significar a bancarrota de uma empresa, os esforços na tentativa de remediar um impasse podem ser racionalizados se se puder dispender o menor tempo possível nesse objetivo. Por esta e outras características variadas, recorre-se ao mecanismo arbitral nos litígios entre empresas que não estejam dispostas a desperdiçar suas energias.
Ainda a respeito da celeridade, oportuno é consignar que, de regra, o procedimento arbitral se dá numa única instância sem que haja a possibilidade de revisão noutra esfera. Assim, a decisão arbitral é final e vinculante uma vez proferida. Ressalve-se que, como o faz o art. 30 da LA30, após o conhecimento da sentença arbitral, pode-se solicitar que seja corrigido erro material ou que seja explicado algum ponto omitido, obscuro, duvidoso ou contraditório.
De qualquer forma, esclareça-se que não se obsta que seja acordada a possibilidade de recurso. Podem os envolvidos, se assim lhes for do interesse, estipular um meio de revisão da decisão arbitral, submetendo-a a uma segunda instância. A título ilustrativo, no âmbito interestatal, pode ser relembrado o sistema do Mercosul que, conforme debatido anteriormente acerca da revisão da sentença arbitral internacional, com o Protocolo de Olivos, promulgado pelo Brasil através do Decreto nº 4.982, de 9 de fevereiro de 2004, instituiu o Tribunal Permanente de Revisão para o qual, nos termos do art. 17 do referido estatuto, pode ser dirigido recurso de revisão em face dos laudos arbitrais proferidos pelos tribunais ad hoc gerenciados pela Secretaria Administrativa do Mercosul os quais funcionariam como uma espécie de “1º grau de jurisdição” arbitral. Lembra ainda Adriana Dreyzin de Klor que, em homenagem à celeridade, o sistema do Mercosul assegura a faculdade de as partes acionarem per saltum a jurisdição do Tribunal Permanente de Revisão31. De acordo com o art. 23 do Protocolo de Olivos, frustradas as negociações diretas, as partes podem submeter diretamente o litígio ao Tribunal Permanente de Revisão que
30 Art. 30. No prazo de 5 (cinco) dias, a contar do recebimento da notificação ou da ciência pessoal da sentença
arbitral, salvo se outro prazo for acordado entre as partes, a parte interessada, mediante comunicação à outra parte, poderá solicitar ao árbitro ou ao tribunal arbitral que:
I - corrija qualquer erro material da sentença arbitral;
II - esclareça alguma obscuridade, dúvida ou contradição da sentença arbitral, ou se pronuncie sobre ponto omitido a respeito do qual devia manifestar-se a decisão.
Parágrafo único. O árbitro ou o tribunal arbitral decidirá no prazo de 10 (dez) dias ou em prazo acordado com as partes, aditará a sentença arbitral e notificará as partes na forma do art. 29.
31 KLOR, Adriana Dreyzin de. MERCOSUR. Los laudos arbitrales: una visión prospectiva. DeCITA –
atuará como instância única e, com isto, a resposta final poderá ser dada de forma mais rápida.
A singularidade da celeridade arbitral está na definição do calendário para o desenvolvimento do procedimento, vinculando as partes e julgadores ao seu cumprimento estrito. Conforme alertam Yves Derains e Ana Paula Montans, é dever do árbitro provocar as partes a atender os marcos temporais e sancionar condutas dilatórias injustificadas em nome da celeridade32. A duração do rito é estipulada pelas partes que delimitam os marcos temporais dos atos necessários ao resultado final. Assim, o tempo do procedimento arbitral é escolhido pelas próprias partes que deliberam qual a duração razoável. Se ficar convencionado que o rito poderá se delongar por três anos, considerando os prazos para todos os atos possíveis, parece que para as partes aquele intervalo não é delongado demais. Uma vez respeitados pelo árbitro os prazos propostos e tendo aquele conduzido as partes a obedecerem também, a percepção de tempo do procedimento será absorvida como satisfatória e, não, como morosa.