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3. PERSPECTIVAS CONTEMPORÂNEAS PARA A EXECUÇÃO

3.3. Meios de constrição

3.3.4. Central Nacional de Indisponibilidade de Bens – CNIB

O Provimento de n.º 39/2014 do Conselho Nacional de Justiça instituiu a Central Nacional de Indisponibilidade de Bens (CNIB). De acordo com uma das justificativas de tal ato normativo, era imperiosa a “(...) implantação de sistema que concentre todas as comunicações de indisponibilidades de bens, decretadas por autoridades judiciárias e administrativas, com sua comunicação eletrônica em tempo real para notários e registradores de imóveis (...)”. Tal mecanismo, desse modo, garantiria “(...) a maior eficácia dessas decisões, em benefício da segurança jurídica”463.

Percebe-se, por conseguinte, que a ferramenta em análise funciona como um grande facilitador para a comunicação entre diversas autoridades públicas e as unidades extrajudiciais brasileiras de registro de imóveis. Ao afastar o demorado procedimento de envio de ofícios em papel, o sistema eletrônico permite que as ordens judiciais sejam cumpridas em tempo real, evitando o perecimento do direito em jogo.

A utilização do CNIB no âmbito da execução civil é de grande valia para a constrição de bens imóveis titularizados pelo executado, de forma a viabilizar a concretização da obrigação prevista no título executivo. E isso porque o lançamento da indisponibilidade na Central não necessariamente precisa ser direcionado a um imóvel específico.

Nos termos da regulamentação do CNJ, a ordem judicial lançada no sistema pode se dirigir a imóveis indistintos de determinado sujeito (através do CPF ou CNPJ, conforme se extrai do art. 13), de forma que os oficiais de registro de imóveis devem conferir, de maneira obrigatória, no mínimo duas vezes por dia, se existe determinação relativa a algum imóvel registrado em sua serventia, efetuando, em caso positivo, as providências devidas (art. 8.º, caput).

Nos termos do art. 2.º, §1.º, caso a indisponibilidade seja direcionada a “imóvel específico e individualizado”, a comunicação entre o órgão judicial decisor e a serventia extrajudicial ocorrerá de forma direta, em meio físico ou eletrônico, a depender da definição da respectiva Corregedoria de Justiça. Inegável, contudo, que o emprego do CNIB também para essa situação facilita a transmissão das informações e o cumprimento da decisão judicial.

463 CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Provimento n.º 39, de 25/07/2014. Dispõe sobre a instituição e funcionamento da Central Nacional de Indisponibilidade de Bens - CNIB, destinada a recepcionar comunicações de indisponibilidade de bens imóveis não individualizados. Disponível em:

<https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/2049https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/2509>. Acesso em 29 de junho de 2022.

O §3.º do art. 14 disciplina a situação em que o oficial identifica bens da pessoa física ou jurídica sujeita à ordem judicial. Nesse caso, “(...) a indisponibilidade será prenotada e averbada na matrícula ou transcrição do imóvel, ainda que este tenha passado para outra circunscrição”.

O art. 14 traz, ainda, importante regra direcionada aos registradores de imóveis e tabeliães de notas, evidenciando mais uma funcionalidade do CNIB. O dispositivo impõe a consulta à Central “(...) antes da prática de qualquer ato notarial ou registral que tenha por objeto bens imóveis ou direitos a eles relativos, exceto lavratura de testamento (...)” (art. 14, caput).

Tal providência, para a doutrina, confere maior segurança jurídica às transações imobiliárias464. E isso porque caso exista alguma ordem de indisponibilidade, ela poderá ser identificada e cientificada às partes contratantes, de modo que elas terão conhecimento da circunstância de que, apesar de lavrada a escritura pública do negócio jurídico que envolva imóvel ou direito real a ele relativo atingido por restrição, o registro imobiliário não será possível, enquanto estiver vigente a medida restritiva (art. 14, §1.º).

Não obstante as características acima descritas, é possível identificar certa resistência dos Tribunais brasileiros quanto à aplicação do CNIB no seio da execução civil. A partir da busca nos repositórios eletrônicos de jurisprudência, identifica-se diversas decisões em que a amplitude da plataforma em estudo é reduzida pelo Judiciário, levando ao indeferimento de sua utilização em desfavor da parte executada.

Um exemplo de julgado desfavorável a tal pretensão foi proferido pela 13.ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Conforme se observa no voto do relator, entendeu-se que o sistema funciona apenas a partir da especificação do imóvel a ser restringido, afastando a possibilidade de que uma ordem genérica seja nele lançada465. Conforme visto, contudo, o próprio Provimento 39/2014 do CNJ não faz tal limitação, sendo possível a transmissão de ordem judicial com base apenas no CPF ou CNPJ do devedor, cabendo ao oficial registrador a conferência de eventual imóvel de titularidade daquele em sua serventia.

Dentro do próprio Tribunal mineiro, contudo, é possível encontrar julgamentos em que o entendimento final foi em sentido oposto. A 14.ª Câmara Cível, por exemplo, determinou ao

464 “(...) ainda que o lançamento da indisponibilidade não impeça a realização do negócio jurídico, serve como um alerta aos adquirentes”. NUNES, Dierle; ANDRADE, Tatiana Costa de. Recuperação de créditos: a virada tecnológica a serviço da execução por quantia certa. Belo Horizonte: Expert, 2021, p. 75.

465 BRASIL. Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Agravo de Instrumento-Cv n.º 1.0000.20.494397-1/002.

Fundação de Crédito Educativo, Fundação de Ensino e Pesquisa de Itajubá v. Izamara Pereira Nogueira. Relator:

Des. Luiz Carlos Gomes da Mata, 13.ª Câmara Cível, julgamento em 23 de junho de 2022. Há outras decisões do TJMG em tal sentido.

juízo de primeira instância a consulta ao sistema, após o relator apontar que “(...) a CNIB constitui interessante ferramenta disponibilizada ao Poder Judiciário para lançamento de indisponibilidade de bens indeterminados de devedores, dando maior efetividade às medidas para satisfação do crédito”466.

É interessante destacar que os dois julgados supracitados foram proferidos no mesmo dia, no mesmo Tribunal, com resultados diametralmente opostos. A matéria, portanto, não é pacífica entre os julgadores e caberá ao advogado do exequente o ônus argumentativo de demonstrar que a plataforma não se limita a uma base de dados para conferir publicidade, mas sim pode ser usada como forma de investigação patrimonial.

Ressalte-se que competirá ao juízo executivo apenas o acesso ao sistema e o lançamento da indisponibilidade. A medida em comento não gera um grande trabalho para o Judiciário e tem o potencial de facilitar a concretização das execuções civis, a partir da busca por propriedade imobiliária em um sistema eletrônico de âmbito nacional.

A pesquisa no sistema de consulta jurisprudencial do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, por sua vez, indica grande volume de julgados no sentido aqui defendido, autorizando a utilização do CNIB no âmbito executivo civil. Ao mencionar a dificuldade de identificação de patrimônio da parte executada, a 16.ª Câmara Cível daquele Tribunal determinou o emprego do CNIB em execução de título extrajudicial, sem que outras diligências administrativas sejam previamente exauridas467.

O Superior Tribunal de Justiça, por fim, também já deu provimento a recurso especial interposto contra decisão que havia indeferido a utilização do CNIB. Com fundamento em julgamento proferido no âmbito de recursos repetitivos, o STJ voltou a decidir que o esgotamento de outras medidas não é exigência para que se determine a indisponibilidade de bens do devedor468. Tal interpretação privilegia a atuação executiva e afasta um tratamento protetivo do devedor.

466 BRASIL. Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Agravo de Instrumento-Cv n.º 1.0000.21.221747-5/001.

Limagrain Brasil S.A. v. Cesar Brossi, Fernanda Guedes Resende e Flavio Resende Marques. Relator: Des.

Estevão Lucchesi, 14.ª Câmara Cível, julgado em 23 de junho de 2022.

467 BRASIL. Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Agravo de Instrumento n.º 70085575215. FUNDACRED v. Ana Greice Cipriani e Eloi Mezzomo. Relator: Ergio Roque Menine, 16.ª Câmara Cível, julgado em 23 de junho de 2022.

468 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial n.º 1.816.302. IBAMA v. LA SALLE Componentes Industriais LTDA. e Ivan Jose Masiero. Relator: Ministro Og Fernandes. Brasília, 13 de agosto de 2019. Disponível

em: <https://scon.stj.jus.br/SCON/GetInteiroTeorDoAcordao?num_registro=201901486459&dt_publicacao=16/08/2019>.

Acesso em 29 de junho de 2022.