3 OS GESTOS DE LEVANTES NA PALESTINA
3.5 DAVI NAS ARTES
3.5.4 Cerimoniais e Ritos Fúnebres
Para continuarmos a construção do raciocínio sobre as imagens de gestos de levantes, faremos um pequeno estudo acerca dos cerimoniais e ritos fúnebres com o objetivo de estabelecer um embasamento lógico e teórico, relacionando-o com a teoria da força do desejo nos gestos de levantes na Palestina, através de uma fotografia de um funeral palestino que apresentaremos mais adiante.
Os funerais são cerimônias que podem ser religiosas ou não, tradicionalmente caracterizadas por gestos de despedida de um ente querido logo após a sua morte, antecedendo o enterro ou a cremação do corpo. As celebrações são expressas pelo compartilhamento de sentimentos, emoções e solidariedade com os familiares, trazendo um certo conforto aos vivos que se despedem num ritual de separação e passagem “garantindo” o bom encaminhamento do defunto.
Em diversas culturas e tradições, a morte não é considerada simplesmente como o fim da vida. Os ritos fúnebres são um conjunto de rituais que caracterizam a passagem da vida para a morte, ou seja, para o início de uma nova condição do indivíduo. Para algumas religiões, isso pode significar uma preparação para a vida eterna, podendo ser em um novo mundo dos vivos, ou no reino dos mortos. O funeral, para o morto, é uma separação entre estes mundos e o encaminhamento ao próximo. Para os vivos, o funeral é o cumprimento dos ritos de passagem de forma a “garantir” ao morto a separação desta vida para o que vier depois, dependendo da crença. Algumas dessas crenças afirmam que o descumprimento dos ritos poderia ocasionar uma perda irreparável para o morto, que poderá ficar errante e preso a este mundo. Portanto, a sequência dos eventos deve ser respeitada.
A ritualização passa pelos costumes dos povos através de gerações, alguns ritos são conservados e outros se transformam, de acordo com a cultura e a tradição de cada povo e as influências trazidas como consequência da miscigenação cultural decorrente de grandes fluxos migratórios. Para alguns povos, principalmente os de religiões monoteístas, o funeral deve ter pelo menos as quatro fases consideradas básicas. A primeira é a preparação do morto, passando por lavagem do corpo, procedimentos para conservação, maquiagem, vestimentas, colocação numa posição correta, etc. A segunda é o velório, onde os familiares, amigos e conhecidos prestam homenagens, em alguns casos fazem orações, acompanham os ritos e “velam” o corpo por algumas horas. A terceira é o cortejo fúnebre que focaremos mais adiante, devido a sua relevância no desenvolvimento desta tese, e a quarta é o sepultamento (enterro) acompanhado dos ritos e costumes específicos de cada povo ou religião.
Analisando imagens de funerais, percebemos muitas coisas comuns, mas o que nos trouxe até aqui no desenvolvimento desta tese foram os gestos. Podemos comparar imagens de funerais da Antiguidade, da Idade Média, Moderna e Contemporânea, em que perceberemos gestos comuns em todos eles, e que são os gestos ligados às lamentações. Inclusive, em alguns ritos, determinados gestos de lamentações são obrigatórios em tais situações. Ao nos depararmos com os diversos ritos decorrentes das manifestações coletivas, principalmente em funerais, carecemos de um apoio teórico para “enxergar” estes gestos e decodificá-los. O etnólogo Marcel Mauss, em seu ensaio “A expressão obrigatória dos sentimentos” de 1921, através da sua experiência e pesquisa sobre os ritos de algumas tribos autóctones australianas, disse que:
Mas todas as expressões coletivas, simultâneas, de valor moral e de força obrigatória dos sentimentos do indivíduo e do grupo, são mais que meras manifestações, são sinais de expressões inteligíveis, ou seja, são linguagens. Os gritos são como frases e palavras. É preciso emiti-los, mas é preciso porque todo o grupo os entende. É mais do que uma manifestação dos próprios sentimentos, é um modo de manifestá-los aos outros, pois assim é preciso fazer. Nós os manifestamos para nós mesmos ao exprimi-los para os outros e por conta dos outros. Trata-se essencialmente de uma ação simbólica. (MAUSS, 1979, pág. 153)
Tais gritos e gestos de lamentações expressam a dor, o sentimento de perda, de separação. A obrigação a que Mauss se refere na realização destes gestos orais e/ou físicos, individuais ou coletivos, é uma linguagem manifestada proposital e obrigatoriamente para que as pessoas presentes no funeral compreendam o significado daquele ritual. Assim, percebemos que tais gestos, por serem obrigatórios, tradicionais e
já codificados, perpassam gerações trazendo algo de tempos remotos até a atualidade. Não há como fugir do anacronismo presente nestes gestos. Eles estão presentes em diversos tempos e, por vezes, utilizados inclusive em outras cerimônias ritualísticas, não necessariamente de funerais, podendo inverter o significado original.
Georges Didi-Huberman baseia-se na teoria do historiador da arte Aby Warburg ao afirmar que existem gestos muito primitivos que voltam a se manifestar de tempos em tempos. Estes gestos permanecem no subterrâneo, no inconsciente, mas, quando requisitados, retornam e podem ressurgir com outras significações:
Isso significa que as emoções passam por gestos que fazemos sem nos dar conta de que vêm de muito longe no tempo. Esses gestos são como fósseis em movimento. Eles têm uma história muito longa – e muito inconsciente. Eles sobrevivem em nós, ainda que sejamos incapazes de observá-los em nós mesmos. Darwin sem dúvida tinha razão ao dizer que as emoções são gestos primitivos. Mas, na sua ideia de “primitivo”, ele via somente a natureza (daí a relação estabelecida entre os chimpanzés que grunhem e as crianças que choram). (DIDI-HUBERMAN, 2017, pág. 32)
O autor nos faz refletir sobre o tempo ao afirmar que “gestos são como fósseis em movimento”. O fóssil em movimento é aquele que mantém uma sobrevida, mantendo- se no subterrâneo até o momento em que for convocado a retornar, e, quando isso acontece, ele vem ressignificado. Os gestos de lamentações em funerais se repetem intensamente e vêm de um longo tempo. Mas de qual origem elas provêm? Das lamentações das crianças quando não conseguem ou quando perdem algo valioso para elas? Das lamentações das mães que tanto desejam, mas perdem o filho ainda no útero?
Apesar de ser o epicentro de nossa tese, não podemos afirmar que é uma condição necessária que os funerais ou as cerimônias de homenagem aos mortos sejam sempre seguidas de lamentações. Existem rituais fúnebres em que os funerais são comemorações, com verdadeiros preparativos de festas com comida, dança, etc., nos quais as pessoas celebram o morto e não lamentam a sua ausência. Utilizemos como exemplo o ritual Famadihana da tribo Malgaxe do Madagascar. Aproximadamente a cada sete anos, os familiares desenterram seus mortos, enrolam-nos em novos lençóis brancos e fazem uma festa.
Figura 43: Ritual Famadihana da tribo Malgaxe no Madagascar Fonte: MDig, 2012
Durante o evento, o morto é erguido acima dos ombros e sacudido como se estivesse se divertindo com os vivos que o celebram, pois eles creem que enquanto há restos mortais, ainda há vida, e que as novas vidas são feitas dos corpos dos seus ancestrais mortos. Neste caso, o cadáver é levado para dançar com as pessoas, participando ativamente do evento. Os familiares investem muito no ritual, convidando todos os parentes, amigos e conhecidos da família. Animais são sacrificados de acordo com o ritual e a carne é distribuída entre convidados e membros da família. Como o evento ocorre em longos períodos, os mais velhos juntam as crianças que nunca participaram ou que eram muito pequenas para lembrar e explicam a importância daqueles mortos enfileirados diante deles, a relevância de se fazer o ritual do Famadihana para conservar os valores da sua cultura e mostrar a elas, ao mesmo tempo, que aquele momento de alegria representa o quanto você ama seus familiares, pois ainda há restos mortais e, portanto, vida passível até de se comunicar com os que vivem.