O método das taxas de chefia (headship rate) para projeção habitacional parte do pressuposto de que o número de domicílios existente em uma população é igual ao número de chefes dessa mesma população20. Assim, o estoque inicial de domicílios necessários será calculado segundo a hipótese de que cada chefe represente a necessidade de uma moradia. A taxa de chefia de domicílios [nTx] é definida pela porcentagem de pessoas chefes de domicílios ou principais de

cada grupo de idade (equação 1). Note-se que a taxa de chefia de domicílio multiplicada pelo contingente populacional correspondente [nNx(t)] produz o número de domicílios associado a

cada grupo de idade. Tal procedimento possibilita a análise da dinâmica do estoque de domicílios, pois, para cada período se estabelece: (1) o montante de estoque total e dos grupos

20

RODRIGUEZ, CURBELO e MARTIN, (1991), KONO (1987); SHRYOCK, SIEGEL e STOCKWELL (1976) e BUSH (2000)

de domicílios classificados por idade; (2) a quantificação dos fluxos de entrada e de saída21 que alimentam o estoque de domicílio. Assim, a evolução da população e as alterações na estrutura etária constituem variáveis-chave de análise da demanda potencial.

) ( ) ( ) ( t N t n t T s x n s x n s x n = (1) Considerando que: ) (t Txs

n Taxa de chefia do sexo s, no grupo etário de x a x+n anos completos, no ano t

)

(t

N

xs

n População do sexo s, no grupo etário de x a x+n anos completos, no ano t

) (t

nxs

n Total de chefes do sexo s, no grupo etário de x a x+n anos completos, no ano t

O número de chefes, controlado por vários atributos sociodemográficos, pode ser facilmente obtido por meio dos censos demográficos, e a definição do chefe ocorre, na maioria das vezes, segundo uma hierarquia de provedor principal como também uma hierarquia de idade, mantendo uma tradição de matriarcado ou patriarcado. Dessa maneira, as taxas de chefia podem ser categorizadas segundo as características de seus chefes, ou segundo as categorias físicas das construções. O mais comum é diferenciar domicílios segundo seu tamanho ou pelas características do grupo de ocupantes. Os exemplos mais comuns, observados na literatura, referem-se ao estado conjugal dos responsáveis, ao tamanho dos domicílios, os tipos laços familiares que são encontrados nos domicílios, dentre outros. Assim, o presente estudo desagregou as taxas de chefia de domicílio segundo os critérios de déficit habitacional definidos no anexo metodológico deste artigo. A taxa de chefia dos domicílios inadequados é então definida como:

) ( ) ( ) ( t N t d t D s x n s x n s x n = (2) Considerando que: ) (t Dxs

n Taxa de chefia dos domicílios inadequados, no sexo s, no grupo etário de x a

x+n anos completos, no ano t )

(t

dxs

n Total de domicílios inadequados chefiados por indivíduos, do sexo s, do

grupo etário de x a x+n anos completos, no ano t )

(t

Ns x

n População, do sexo s, do grupo etário de x a x+n anos completos, no ano t

21

O fluxo de formação de domicílios é a diferença entre o total de domicílios entre duas datas e representa a formação de novos domicílios segundo a idade de seus chefes. Esse valor se torna negativo quando o total de

É importante ressaltar que a metodologia aqui adotada considera apenas os chefes de

domicílios, em detrimento do conceito de chefe de família. Esta escolha é justificada pelos diferentes tratamentos dado pelas diversas pesquisas disponíveis para parentes, locação de cômodos e empregados domésticos e que podem gerar números divergentes de domicílios. Alves e Cavenaghi (2005) destacam que as diferenças entre os critérios para definição de famílias utilizadas pelo Census Bureau dos EUA e pelo INDEC da Argentina inviabilizam a comparação dos números do déficit desses países com o Brasil. No caso brasileiro, dois conceitos ainda foram modificados entre os censos demográficos que impossibilitam o uso em todo o período que se pretende estudar. Como exemplo, vale citar que, na definição do censo de 197022 para famílias, considerava-se a possibilidade de se contabilizarem, no máximo três famílias conviventes em um mesmo domicílio. Já no censo de 200023, o número de família residentes em um mesmo domicílio não foi previamente limitado, tendo sido observados, na região metropolitana de Belo Horizonte, casos com sete famílias conviventes em um mesmo domicílio. Conforme salienta Alves (2004, p. 15) “considerar toda cohabitação como déficit habitacional é ignorar que o conceito de família utilizado pela IBGE tem uma função operacional e não sociológica”.

Para a projeção da demanda por residências24, o método mais usual baseia-se na aplicação de uma taxa constante sobre uma projeção populacional (Itens 3 e 4 da figura 2). Dado que a projeção da estrutura etária e do crescimento populacional faz parte dos pressupostos da projeção demográfica, a única fonte substancial de erro na projeção de demanda seria a originada na manutenção da taxa de chefia constante. Entretanto, não se pode afirmar, a priori, que a variação nas taxas de chefia não contribua de forma significativa na variação. Em um estudo anterior (RIOS-NETO, OLIVEIRA e GIVISIEZ, 2003) foi desenvolvida a decomposição dos fluxos de entrada e saída de domicílios e foi revelado que a maior parcela domicílio diminui no período em análise

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No censo de 1970, considerou-se como família um conjunto de pessoas ligadas por laços de parentesco ou de dependência doméstica, que vivessem no mesmo domicílio ou pessoa que vivesse só em domicílio independente. Todo conjunto de, no máximo, cinco pessoas, que vivessem num domicílio particular, sem estarem ligadas por laços de parentesco ou dependência doméstica, foi considerado como família.

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No censo de 2000 o IBGE considera como família, nos domicílios particulares, a pessoa que mora sozinha, o conjunto de pessoas ligadas por laços de parentesco ou de dependência doméstica e as pessoas ligadas por normas de convivência.

da variação no estoque de domicílios é devida à mudança no tamanho da população. Entretanto, a variação da taxa de chefia tem uma participação negativa de 1,92% e 0,53% nos períodos de 1980-1990 e 1990-2000, nessa ordem, passando para uma participação positiva de 10,28% no período de 1970-1980. Isso significa que, se fosse considerada uma taxa constante para se estimar o estoque de domicílios nos dois períodos de participação negativa, se superestimaria o número de domicílios necessários e, por outro lado, considerando a participação positiva, a projeção de demanda com taxas constantes subestimaria o número de domicílios.

Sendo assim, para obter estimativas de demanda mais precisas, seria indicado projetar alguns cenários de taxa de chefia a fim de minimizar os erros provenientes das variações na taxa. A metodologia escolhida para a projeção dessas taxas foi por meio do uso de modelos IPC. Uma metodologia similar de projeção foi utilizada por Rios-Neto e Oliveira (1999) na projeção de taxas de atividade e da PEA.

No documento Alguns aspectos sobre demandas sociais: educação, habitação e saúde (páginas 73-76)