2.3 SAMBA E PROSA DE VARANDA
2.3.2 Chula: Texto, Forma e Memória
Ao longo das minhas idas e vindas da varanda, gravo muitas chulas de Jorge. Um dia chego com vinte páginas impressas de letras e as espalho pelo banco de pedra. Pretendo tirar dúvidas sobre algumas letras e finalizar meus registros escritos. Eu escolho uma chula e faço minhas perguntas. Para minha frustração, ao preencher algumas lacunas, outras palavras já mudam. E quando peço para cantar a mesma chula, Jorge escolhe outra melodia. Não consigo fixar a chula num registro grafado definitivo. Suas letras e melodias não foram tão permanentes quanto eu queria. Ao ver a papelada de chulas imprensas espalhada pelo banco, Jorge me pergunta se são todas dele. Quando digo que sim, ele ri e os olhos brilham. Jorge nunca aprendeu a ler nem escrever. Pressinto que ele goste de ver suas chulas escritas – talvez pela palavra grafada remeter algum tipo de prestígio, ou talvez por poder admirar uma fracção da imensa quantidade de poesia que ele carrega na cabeça. Ao mesmo tempo, percebo algo de incrédulo na sua reação, um estranhamento ao ver a música, efêmera e imaterial, cravada no papel. Considero a possibilidade de que algumas das minhas chulas digitadas, riscadas e corregidas no papel, em vez de simbolizar uma composição concluída e fechada no tempo, são mais parecidas com fotografias borradas de sujeitos em movimento.
A questão da autoria da chula é, às vezes, tão ambígua quanto sua letra e melodia. Segundo Jorge, uma chula ou pode ser aprendida – transmitida oralmente de um sambador para outro – ou composta. Das que Jorge me afirma ter aprendido, há três categorias: as dos velhos sambadores de Caiçara que ele ouviu quando jovem, as que conheceu por outros sambadores e grupos ao longo da vida, e as que decorou vis-à-vis fitas cassetes. A partir dos anos 70, era comum os
sambadores levarem tocadores de fita para os sambas e gravarem suas performances. Depois as fitas eram repassadas para as rádios da região, tocadas e vendidas nas barracas das feiras. Ele aprendeu inúmeras chulas das três maneiras. Por outro lado, Jorge claramente compõe chulas que narram sua história e visão particular do mundo. Nunca assisto ele compor uma chula, mas cada vez que chego com meu gravador, ele está pronto com uma nova composição para me mostrar. Ao refletir sobre o seu processo de criação, volto novamente à varanda. Se a fonte do dom de Jorge esconde-se nos mistérios do divino, a chula encontra sua musa terrestre na própria varanda – espaço de porosidade onde a paisagem sonora e imagens do passado invadem os sentidos. A trovoada retumba no horizonte, Jorge canta (Faixa 6):
Meu limoeiro já parou de dar limão Suas flor caiu no chão
Eu não sei o que aconteceu
Falta de chuva já chegou a trovoada Olha aí terra molhada
Meu limoeiro enverdeceu
Ao olhar para o terreno na frente da varanda e a casa antiga, ele entoa:
Aprendi lutar com gado no campo pra campiar Quatro horas da manhã depois que o galo cantava Eu pulava da cama quando os passarinho chiava Às 6 horas da manhã a minha mãe levantava Ela encostava na cerca do curral me procurava Se o leite já tava pronto eu parava ali ajudava
Depois que eu sortava o gado outra lida eu começava Eu pegava um machado um serrote que cortava Eu encostava num toro e ni tabua eu desmanchava Fui criado com alegria era empreita do dia
Que o velho papai me dava
Se a letra da chula pode referir-se ao passado, a própria forma da chula também remete um tempo e uma época de samba. Um dia pergunto pela chula mais antiga que Jorge conhece, e ele me canta uma chula que diz ter ouvido o sogro, Damião, cantar (Faixa 7).
Amanhã eu vou mim’bora Que mandaram me chamar Vamo morena vamo Pro Sertão trabalhar Caçá o jeito da vida Lá na mina do cristá Balançá que pesa ouro
Não pesa outro metá Vamo morena vamo Pro Sertão trabalhar
Ele chama essa chula de chula amarrada por ser “bonita, boa e curtinha”. Embora Jorge confesse gostar mais das chulas antigas, ele também canta a chula nova, popularizada nos CDs e DVDs de samba na feira, que ele chama chula de romanço38. Essa chula caracteriza-se por ter versos mais cumpridos e melodias padronizadas39.
Um dia indago sobre o processo de compor e ainda recordar todas as chulas. Jorge me responde:
Eu não sei não. É porque eu não anoto nada né. Aí eu fico com ela só na cabeça. Só que no dia que eu vou no samba, aí eu começo sambando e começa chegando. Aí vai chegando. Eu canto uma e outra já entra aí eu digo quando chegar minha vez já tem uma. Aí a madeira impena.
Ao somar todas as chulas, amarradas e de romanço, aprendidas e criadas, esquecidas e relembradas, forma-se um repertório imenso de textos poético-musicais. Um dia na varanda Jorge comenta: “a música é infinita”. Essa constatação talvez seja mais polissémica do que eu inicialmente penso. Volto a pedir a chula “Vamos pro Sertão” que Jorge havia me cantado. Ele, mais uma vez, muda a melodia. Prefiro a original que gravei. Mas qual sua forma verdadeira? Qual seria a original? Depois, ao escutar uma coletânea de chulas gravada no Recôncavo, vejo uma chula cantada por Zeca Afonso, de São Francisco do Conde (DÖRING, 2016, p. 53):
Balança que pesa ouro não pode pesar metal O peso que dá o ouro, o metal não pode dar Tá me chamando pra lá, as meninas de São Braz Os olhos que me ver hoje amanhã não me vê mais!
Imagino: na linha temporal que conecta esses pequenos versos, de São Francisco do Conde a Capim Grosso, quantos sambadores já cantaram, quantas viagens já desenrolaram, quantas chulas foram lembradas, e quantas esquecidas. A chula de Jorge estende-se pelo passado, atravessa gerações e territórios extensos, se mistura e se transforma com o tempo e com os sambadores. Interconecta povos e lugares que jamais se conheceram.
38
Outros sambadores chamam a chula nova de chula martelada. 39
Para ouvir exemplos deste estilo de chula, recomendo uma busca simples no YouTube por “Zé Beté e Silvano” – uma dupla de samba bem conhecida e influente no semiárido baiano.