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Ciência e experimento em Humano, demasiado Humano

1.1. A CIÊCIA COMO MÓBIL PARA O EXPERIMETO O ÂMBITO DE

1.1.2. Ciência e experimento em Humano, demasiado Humano

A partir de Humano, demasiado Humano – texto rubricado sob o signo de uma crise61– é necessário lidar com uma concepção bem mais ampla de ciência do que aquela que a toma como tradução de um esboço equivocado e superficial de positivismo. Trata-se, como bem observaram Colli e Montinari, da exigência em se ampliar o campo de investigação do conceito bem como da definitiva continuação da arte através da ciência: “Para a realização dessa ‘ciência’ que, na verdade, aproxima-se mais do jogo que da necessidade (por isso Nietzsche afirma que a ciência estaria determinada a levar adiante a arte), é necessário, porém, uma ampliação extrema do campo de investigação”.62 Se isso é verdade, por um lado, pela definitiva unidade formada entre ciência e arte, por outro lado, esse par incorpora uma outra estrutura que é precisamente um desdobramento prático dessa unidade, que põe em curso um projeto de auto-formação do espírito livre.

Para explicar esse argumento é necessário compreender que o conceito de ciência não é tão genérico como pode parecer a primeira vista. Nossa hipótese é que há uma

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HH 222. Cf. também Venturelli, A. op.cit., p. 83: “Neste sentido, pertence à arte uma função insubstituível de transição para uma ciência filosófica realmente libertadora. Além disso, Nietzsche confere à arte de uma época pós-metafísica, uma tarefa ainda mais penosa: a transformação dos homens científicos do futuro numa simples ‘continuação do homem artístico’” [In dieser Hinsicht kommt der Kunst eine unersetzbare Funktion beim Übergang in eine wirklich befreiende philosophische Wissenschaft zu. Doch schreibt Nietzsche der Kunst einer nachmetaphysichen Epoche eine noch folgenschwerere Aufgabe zu: die Verwandlung des wissenschaftlichen Menschen der Zukunft in eine einfache ‚Weiterentwicklung des künstlerischen’].

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EH Humano, demasiado Humano, 1.

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KSA 2, p. 709. „Zur Verwirklichung dieser ‘Wissenschaft’, die wahrlich dem Spiel nähersteht als der Notwendigkeit (weshalb Nietzsche behauptet, die Wissenschaft sei dazu bestimmt, die Kunst weiterzuführen), ist jedoch eine äusserste Ausweitung des Untersuchungsfeldes nötig“. O grifo é nosso.

variação semântica da ciência mesmo nesta segunda fase. Esse movimento conceitual se desdobra, por um lado, até Humano... quando ciência se situa numa seara exclusivamente propedêutica.63 Se já a partir de 1875 Nietzsche tem a percepção de que a “libertação do homem veio da ciência”64, é porque, propedeuticamente, ela serve como instrumento na mão do espírito livre a fim de se apropriar novamente de si mesmo e se desprender da tradição, um veículo usado por esse “espírito tornado livre, que de si mesmo de novo tomou posse”.65 O anseio por retorno e reencontro de si tem na ciência o instrumento propedêutico mais adequado, a fim de pôr em curso o imenso projeto de desprendimento e

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Há uma série de comentários, refiro-me especialmente aos textos da Nietzsche-Forschung, que mesmo de modo não explícito parecem apontar na direção da ciência como propedêutica. Schlimgen, Ottmann, Brusotti, Campioni e Abel são algumas das leituras que vislumbram nossa hipótese. Outro motivo importante para situarmos ciência nesta seara propedêutica, deve-se aos freqüentes equívocos em relegar a relação que Nietzsche tem com a ciência ao âmbito positivista. Ottmann (p. 164), Brusotti (p. 101) e Abel (p.10s), p.ex., são taxativos quanto a esses equívocos. Além do mais, Nietzsche tem em vista a formação dos espíritos livres, misto de desprendimento e reencontro consigo mesmo com o resgate da inocência do devir, cujo instrumento principal para a auto-formação é precisamente a ciência. Vejamos alguns argumentos. Em 5ietzsches Theorie des Bewusstseins, Berlin/New York: Walter de Gruyter, 1999, p. 49, Erwin Schlimgen registra o caráter essencialmente especulativo da ciência que vislumbra uma dimensão investigativo-propedêutica e, portanto, tomada como meio e não um fim em si mesmo: “Nietzsche considera as verificações das ciências naturais de seu tempo antes como potencial especulativo do que como conhecimento objetivamente seguro” [die naturwissenschaftliche Befunde eher als Spekulationspotencial denn als objektiv gesicherte Erkenntnisse]. Henning Ottmann, op.cit., p. 167, situando didaticamente o lugar da ciência em Nietzsche, elege três pontos que cercam o conceito que parece também apontar para uma concepção propedêutica. São eles: “1. Ciência em Nietzsche deveria ser análise; as complexas unidades são decompostas em unidades simples, p.ex., ‘a’ vontade num feixe de impulsos e anseios. [...] 2. ‘ciência’ analítica deve ser redução; o superior deve ser referido ao inferior; [...] e 3. ligando-se a isso a ‘ciência’ em Nietzsche deveria ser ‘dialética’. Ela tentaria demonstrar a ultrapassagem do um no múltiplo, do infinito no finito, do ‘bem’ no ‘mal’”. Além disso, Marco Brusotti, op.cit., p. 101, também se refere a uma “ampla preocupação” que Nietzsche tinha com a ciência, especialmente quando se tem em mente o desdobramento prático com que a ciência tem de operar, quer dizer, não se trata apenas de um projeto esclarecido de ciência que exerce compulsão de “domínio sobre a natureza”, mas sobretudo que o homem alcance “um poder incondicional sobre si mesmo”. Nos parece que também neste caso a ciência é um instrumento na mão do homem para fins de auto-formação. Brusotti opta, inclusive, por falar em “conhecimento científico” ao invés de “ciência”. Ainda no comentário de Giuliano Campioni a propósito da relação de Nietzsche com a Aufklärung, In: Ottmann, H. (Hrsg.) op.cit., p. 201, parece indicar para uma ciência que, estreitamente vinculada à história, exerce um “importante instrumento crítico” que imputa à ciência o caráter crítico-propedêutico em relação à tradição filosófica que, segundo Campioni, liberta o “indivíduo da tirania da comunidade e dos costumes”. Nas palavras de Campioni: “a postura de desmistificação que desmascara e reconduz às ‘coisas primeiras e últimas’ em seu Humano, demasiado Humano, encontra na ciência e na História ligada a ela seu importante instrumento crítico”. Por fim, Günter Abel, op.cit., p. 11s, listando didaticamente cinco argumentos que delimitariam o campo da ciência, também registra que, se por um lado, ela “intensifica o poder do homem”, por outro lado, a “ciência tem uma função crítico-metafísica sem, todavia, hipostasiar a cientificidade como tal”. Num fragmento da primavera/verão de 1875, KSA 8, 5[32] p. 49, a propósito da educação dos jovens, Nietzsche se refere à “economia”, “geografia” e inclusive às “ciências naturais” situadas todas num plano decididamente propedêutico: “atualmente é utilizado apenas como propedêutica para pensar, falar e escrever”. [Jetzt wird es als Propädeutik benutzt, für Denken, Sprechen und Schreiben].

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KSA 8, 5[107] p. „Die Befreiung kam der Wissenschaft“.

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auto-formação ou, se quiser, experimental66. Por outro lado, os textos póstumos entre 1880 e verão de 1882, incluindo as publicações de Aurora e A Gaia Ciência, operam uma variação semântica a partir do registro da “passio nova”67 de Nietzsche, quando o espírito livre descobre que tanto o “ceticismo”68 da época de Humano... quanto o próprio “impulso ao conhecimento” são uma “paixão”.69 Em todo caso, a intenção de auto-formação ético- estética que toma o mundo e o indivíduo como obra de arte e experimento está presente em ambas variações. Vejamos como a ciência exerce influência no experimento nesses dois momentos.

A primeira premissa que devemos reafirmar é a unidade entre ciência e arte, sobretudo se relembramos da continuação do artista através do homem científico70, bem como da função exercida pela ciência de levar adiante a arte.71 A bem da verdade, Nietzsche se preocupa inclusive com um certo preconceito que os artistas têm com os cientistas, chamados por eles de “trabalhadores espirituais”. Num fragmento do verão de 1880 Nietzsche se refere diretamente a Goethe como o arauto que vislumbra a unidade ciência e arte e, além disso, aquele que reconhece o quanto de imaginação e fantasia são pressupostos no “grande conhecimento” produzido pela ciência: “Goethe sabia o que pertence aos homens de ciência: ele é um ideal em que se unificam todas as habilidades

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Abel, G. op.cit., p. 18s., aponta também para o fato de que, neste sentido, também “a moral deve ser reduzida à estética” [Moral auf Ästhetik reduzieren zu müsse], sobretudo porque se “desdobra praticamente” [praktisch zu entfalten].

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KSA 9, 6[461] p. 316.

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Fragmento do outono de 1880 – KSA 9, 6[122] p. 226: “Isto é uma rara paixão. O ceticismo é uma paixão” [Dies ist eine seltene Passion: die Skepsis ist eine Passion].

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Cf. o fragmento intitulado “A nova paixão” em A 429: “Mas nosso impulso ao conhecimento [...] transformou-se em paixão que não vacila ante nenhum sacrifício e nada teme, no fundo, senão a sua própria extinção; nós acreditamos honestamente que, sob o ímpeto e o sofrimento dessa paixão, toda a humanidade tenha de acreditar-se mais sublime e consolada do que antes, quando ainda não havia superado a inveja do bem-estar grosseiro que acompanha a barbárie”.

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Christian Schüle, In: Ottmann (Hrgs), op.cit., p. 197, se refere a essa segunda fase de Nietzsche como “período estético-crítico”.

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Segundo Abel, G. op.cit., p. 13s., a propósito dessa unidade, Nietzsche bebe da fonte de Goethe, para quem “a íntima relação de ciência e arte se evidencia a partir de um conhecimento – o de que todo conceito substancial está sob a condição da intuição –, que conduz precisamente para instaurar a intuição sobre os princípios fundamentais também na consideração da natureza. Essa perspectiva foi desenvolvida sobretudo por Goethe, que chegou a uma concepção de que as leis na arte e na ciência são iguais e formam uma unidade”. [Der innere Zusammenhang von Wissenschaft und Kunst tritt auch dann zutage, wenn die Einsicht, dass jeder gehaltvolle Begriff unter der Bedingung der Anschauung steht, dazu führt, die Anschauung zur Grundlage auch der Naturbetrachtung zu erheben. Diese Perspektive ist vor allem von Goethe entwickelt worden, der so zu seiner Auffassung gelangte, dass die Gesetze in der Kunst und in der Wissenschaft letztlich die gleichen sind und eine Einheit bilden].

humanas tal como todas as ondas no mar. Por que vocês [os artistas – JLV] os julgam [os cientistas – JLV] segundo trabalhadores espirituais?”.72

Para além do reconhecimento que vai ocorrer anos mais tarde em Além do Bem e do Mal, vale dizer, que a ciência é uma arte e, na verdade, apenas uma “arte de interpretação”73, ainda nesta segunda fase Nietzsche se preocupa em indicar que arte e ciência pressupõem as mesmas forças imaginativas de criação. Isso significa que à atividade artística corresponde “não apenas forças emotivas, mas convêm igualmente forças cognitivas organizadoras e formadoras, bem como criadoras de sentido ao mundo” e, inversamente, não cabe ao conhecimento científico o olhar frio, mas “pressupõe toda uma série de momentos artísticos”.74 Trata-se de reconhecer que arte e conhecimento75 constroem, por ora, as bases para a criação de novas possibilidades de vida.

O espírito livre, por exemplo, é o tipo esclarecido e desprendido da tradição de tal modo que lhe “caíram os costumeiros grilhões da vida, a tal ponto que ele só continua a viver para conhecer sempre mais”.76 Um de seus grandes objetivos é precisamente o conhecimento. Tomado como um fim em si mesmo, porém, o conhecimento não tem um grande valor porque, por um lado, trata-se de um instrumento propedêutico para a auto- formação e, por outro lado, porque trará pouco prazer nesse conhecimento ou na experimentação consigo. Ao conhecimento é necessário acrescentar a arte em uma unidade tal que, somados, abre espaço para um certo prazer neste conhecimento: “Para ter prazer no conhecimento se deveria realmente exercer pelo menos uma ciência e uma arte, e talvez

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KSA 9, 4[213] p. 153. „Goethe wußte es, was zum wissenschaftlichen Menschen gehört: er ist ein Ideal, in dem alle menschlichen Tüchtigkeiten sich vereinigen wie alle Ströme im Meer. Warum beurtheilt ihr ihn nach den Arbeitern des Geistes?“ Cf. aprofundamento dessa discussão com Goethe em Venturelli, A. op.cit., p. 50-5.

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ABM 22.

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Abel, G. op.cit., p. 14. „Der Tatsache, dass der künstlerischen tätigkeit […] nicht nur eine emotive, sondern eine zugleich cognitive, eine welt-, sinn-, gestalt- und form-organisierende Kraft zukommt, entspricht umgekehrt, dass wissenschaftliche Erkenntnis eine ganze Reihe künstlerischer Momente voraussetzt“.

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Cf. Gretić, G. Das Leben und die Kunst. p. 150. In: Djurić, M.; Simon, J. op.cit.: “Segundo Nietzsche, duas são as condições fundamentais que possibilitam a vida em comunidade: o conhecimento, que sustenta a vida de modo a poder detê-la na permanência e não naufragar na torrente incessante do múltiplo e do vir-a-ser; e a arte, que através da produção da aparência da perfeição inaugura para a vida possibilidades cada vez maiores de ultrapassar-se a si mesma”. [Es sind nach Nietzsche zwei Grundbedingungen, die in Gemeinsamkeit das Leben ermöglichen: die Erkenntnis, welche das Leben beständigt, so dass es Halt am Bleibenden nehmen kann und nicht im Strom der Ungleichheit, in dem Strom des Werdens unaufhörlich versinkt, und die Kunst, die durch Erzeugung des Scheins der Vollendung je und je dem Leben Möglichkeiten des Über-sich-hinaus eröffnet].

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elaborar de vez em quando um romance, uma consideração filosófica, um discurso”.77 É nessa unidade que o par ciência/arte se configura como a alavanca com a qual o espírito livre vai conseguir “pairar livre e destemido sobre os homens, costumes, leis e avaliações tradicionais das coisas”.78

Uma última consideração a fazer do par ciência/arte é quanto ao próprio estilo literário inaugurado por Humano, demasiado Humano. A estratégia crítica, neste caso, se volta a uma maquinaria nômade veiculada na forma aforismática, estilo este recepcionado através de várias fontes como Lichtenberg, Emerson ou mesmo Pascal. A conexão entre linguagem e experimento já ocorria desde a primavera/outono de 1873, quando Nietzsche, apesar da consciência de ainda não ter um estilo próprio, tinha certeza da linguagem como experimento: “Não temos também nenhum estilo ainda na linguagem, mas sim apenas experimentos”.79 Essencialmente experimentação, diga-se também que os aforismos são compreendidos como ciência na “sua forma mais proba, como entrelaçamento de pensamentos e provas sem resultados e pressuposições últimas”. O aforismo, portanto, já é um mecanismo propedêutico contra as pretensões de verdade objetiva nas ciências mas, principalmente, “o aforismo é a forma artística da ciência”.80

Outra premissa a ser reafirmada é a formulação de que não cabe à ciência ocupar o papel teórico fundante, mesmo com a relevância que ela ocupa no segundo período. Essa hipótese aparece pela primeira vez no verão/outono de 1873 (7, 29[197]), é reafirmada no verão de 1875 (8, 56[41]) e prolongada até o inverno de 1880/81 (9, 8[98]). Trata-se do definitivo reconhecimento de que “ciência funda apenas o curso da natureza, mas nunca pode ordenar o homem”.81 Para além da pretensão objetiva que Nietzsche já tem claro para si neste momento, resta à ciência exercer a restrita função de esclarecedora: “as ciências [...] só conseguem esclarecer, e não ordenar”.82

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KSA 8, 23[132] p. 450. „so sollte man, um der Lust der Erkenntniss willen, wenigstens eine Wissenschaft eine Kunst wirklich ausüben, und vielleicht einen Roman, eine philosophische Betrachtung, eine Rede von Zeit zu Zeit ausarbeiten“.

78

HH 34.

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KSA 7, 27[66] p. 606. „Wir haben auch in der Sprache noch keinen Stil, sondern nur Experimente“.

80

Stegmaier, W. op.cit., p. 29s. „der Aphorismus ist die Kunstform der Wissenschaft. […] Nietzsche versteht so den Aphorismus: als Wissenschaft in ihrer redlichsten Gestalt, als Geflecht von Gedanken und Beweisen ohne letzte Voraussetzungen und Ergebnisse“.

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KSA 8, 6[41] p. 113. „Wissenschaft ergründet den Naturverlauf, kann aber niemals dem Menschen befehlen“.

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Os textos que compõem essa premissa ficam claros se lidos à luz da nossa hipótese anterior, a propósito do estatuto exclusivamente propedêutico da ciência que, sob essas condições, está no genuíno horizonte das Luzes. Trata-se do caminho esclarecido em que a apropriação de si mesmo se faz com o martelo das ciências na mão83, um processo gradual que através do conhecimento o espírito livre chega ao amadurecimento e, portanto, ao definitivo “poder sobre si mesmo”84 – preocupação nuclear que Nietzsche tem nessa época com os espíritos livres. Seu desprendimento da tradição e o consecutivo retorno a si mesmo através da ciência não têm um fim em si mesmo; mais que isso, é instrumento propedêutico que dá ao espírito livre o auto-conhecimento adequado que se desdobra em auto-formação experimental, na medida em que ele toma a si e ao mundo como experimento e se converte no artista de si mesmo.

O fragmento do inverno de 1880/81(9, 8[98]) revela um detalhe importante a ser levado em conta: se por um lado a ciência traz muitos benefícios e não pode prescrever ou ordenar mas só esclarecer, por outro lado, ela só se torna útil quando já se conhece o “para onde?”.85 Parece que esse detalhe do “para onde?”, além de concluir que a ciência ou a busca por um auto-conhecimento não tem um fim em si mesmo, revela ao mesmo tempo um desdobramento prático do auto-conhecimento, qual seja, em um processo de auto- formação ou experimentação do espírito livre com o mundo e consigo mesmo. Aí está o “para onde?”: na auto-formação experimental ou na variante ético-estética do experimento. É a ciência ou o auto-conhecimento que deve indicar o “para onde?” e, neste caso, estamos falando da caríssima fórmula de Nietzsche que já aparece em Humano..., precisamente aquela que reza: “se torne aquilo que é,” ou seja, o anseio por traduzir o auto-conhecimento num desdobramento prático de auto-formação, num imperativo que diga: “descarregue-o em obras e ações”.86

A unidade ciência/arte – homem e o mundo como obra de arte – e o papel exclusivamente esclarecedor da ciência – que capacita o homem a um auto-conhecimento

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KSA 8 23[160] p. 463.

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Cf., p.ex., KSA 9, 4[257] p. 163. „Macht über sich selbst“. Cf. também Brusotti, op.cit., p. 96.

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KSA 9, 8[98] p. 403. „Die Wissenschaft hat viel Nutzen gebracht […]. Sie kann nicht befehlen, Weg weisen: sondern erst wenn man weiß wohin?, kann sie nützen“.

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HH 263. Em suma, certo é que a ciência só deve exercer a função de esclarecer e jamais ordenar. Neste caso, se “devemos nos tornar novamente bons vizinhos das coisas mais próximas” [Wir müssen wieder gute 5achbarn der nächsten Dinge warden, HH II, AS 16], a boa etiqueta aconselha antes seguir pela via da ciência que conduz ao definitivo amadurecimento ou, se quiser, aos “caminhos da libertação do espírito” [Wege zur Befreiung des Geistes, KSA 8, 17[72] p. 308].

que se desdobra em processo de auto-formação – são as duas premissas a serem reafirmadas, pois elas correspondem, respectivamente, à variante estética e ética do conceito de experimento.