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Tudo o que se descreveu sobre as NTIC compõe o quadro de contextualização necessário para a perfeita compreensão do que, já há muito tempo, denominou-se de “ciberdemocracia”.

Com efeito, Pierre Lévy se dispôs a “[...] pensar a ciberdemocracia a longo prazo”, propondo “[...] um quadro dos primeiros passos da ciberdemocracia efectiva em 2001”, com a descrição, análise e defesa “[...] de uma governação mundial cibernética, de um novo tipo de Estado transparente ao serviço da inteligência colectiva e, consequentemente, de uma separação da cultura e do Estado” (2002, p. 15).

De fato, as NTIC têm potencial para quebrantar o controle da agenda política - apropriada pelos grupos empresariais controladores dos meios de comunicação social tradicional - seja por propiciar mecanismos dinâmicos de contestação e contraponto a essa agenda, seja por interligar em rede os membros da sociedade por fora mesmo das mídias tradicionais.

Como bem frisado por Lévy,

A principal vantagem da Internet, relativamente aos meios de comunicação da democracia mediática da segunda metade do século XX (imprensa, rádio e televisão), é que permite que a todos os agentes que o desejem expimirem-se sem terem de passar pelo poder do jornalista. Resultado: a esfera pública alarga-se, diversifica- se e complica-se particularmente. Esta mutação da esfera pública constitui um dos fundamentos da ciberdemocracia.

Com efeito, nos meios de comunicação de massas da democracia moderna, quem decidia, consoante os seus interesses ou necessidades, aquilo que iria transpor a fronteira entre o privado e o público? Não quem tinha a mensagem a transmitir, mas sim o jornalista que controlava o meio de comunicação ou aqueles que estavam por trás dele. Ora, o jornalista, mesmo que trabalhe num país livre e faça o seu trabalho de boa fé, exerce necessariamente uma censura, nem que seja por razões de espaço disponível.

Hoje em dia, graças à Internet, são os próprios agentes, as pessoas, as empresas (e as de notícias como qualquer outra), as instituições, os movimentos, os partidos, as associações, os agrupamentos, as comunidades virtuais de toda a espécie que decidem o que querem publicar na rede (destaques do autor) (2002, p. 57).

O principal elemento de caracterização da “ciberdemocracia”, portanto, é a real autonomia da “esfera pública” em face do poder econômico e do poder político, na perspectiva de Jürgen Habermas:

Essa formação política horizontal da vontade, que depende de entendimento ou consenso obtido comunicativamente, deve ter a primazia, tanto do ponto de vista genético como normativo. Para a prática da autodeterminação dos cidadãos pressupõe-se uma base na sociedade civil, independente da administração pública e do comércio privado mediado pelo mercado, a qual preserva a comunicação política de ser absorvida pelo aparelho do Estado ou de ser assimilada à estrutura do mercado. Na concepção republicana, a esfera pública e política e a sociedade civil, como a sua base, obtêm um significado estratégico; elas devem garantir à prática de entendimento dos cidadãos sua força de integração e autonomia. O desacoplamento da comunicação política da sociedade econômica corresponde, em nossa terminologia, a uma religação do poder administrativo ao poder comunicativo resultante da formação política da opinião e da vontade (grifou-se) (2012, p. 333).

Nesse contexto, é importante assinalar o que Wilson Gomes sintetiza como iniciativas digitais democraticamente relevantes, que são aquelas voltadas para pelo menos um dos seguintes propósitos: a) fortalecimento da capacidade concorrencial da cidadania, que se desdobra em dois objetivos, o de aumentar a transparência do Estado e as formas de responsabilização dos agentes políticos e o de fomentar a participação e a influência civis; b) consolidar e reforçar uma sociedade de direitos, “[...] uma comunidade política organizada como Estado de Direito”, assegurando “[...] que minorias políticas e grupos e setores mais vulneráveis do corpo social tenham preservados os seus direitos, acesso à justiça e proteção jurídica”; c) promover o aumento da diversidade de agentes, de agências e de agendas na esfera pública e nas instâncias de decisão política, com o aumento de “[...] meios e oportunidades para que minorias políticas se representem e sejam representadas na esfera pública e nas instâncias de produção da decisão política” (2011, p. 29-30).

Apesar dessa evidente vantagem que a ciberdemocracia proporciona, diversificando as possibilidades democráticas participativas de forma autônoma pelo todo social, é preciso submetê-la a exame crítico em pelo menos duas perspectivas: a) a da efetiva pluralização e diversificação da participação cidadã democrática; b) a da efetividade da participação.

Com efeito, o advento das NTIC criou uma expectativa de “pluralidade de fontes informativas” e “aumento do acesso à informação” (PEREIRA; BRAGA, 2014, p. 177). Mas essa atmosfera não se pode dizer tenha sido atingida em sua plenitude, cabendo o exame da necessidade da democraticação da participação na ciberdemocracia, tendo em vista evidentes exclusões que se processam por critérios econômicos, sociais e políticos.

Em estudo exploratório sobre o perfil dos blogueiros de política no Brasil, Pereira e Braga concluem pela “[...] existência de uma nova elite de opinião, com influência política dentro da internet e formada por blogueiros homens, brancos, com curso superior e com renda média mensal acima da média nacional”, cujos dados “[...] atestam a não confirmação das expectativas iniciais em relação à pluralização das vozes oriundas de diferentes estratos sociais, que poderiam ocorrer a partir da disseminação do uso das novas tecnologias de informação e comunicação” (2014, p. 187). Ou seja: a participação política na ciberdemocracia não tem sido efetivamente igualitária.

No que se refere à efetividade quanto ao alcance dos objetivos, é indispensável considerar que a livre e autônoma participação política no debate público não é fim, mas instrumento de deliberação efetivamente democrática.

Isso quer dizer que não basta a existência de pluralismo e igualdade de participação social autônoma no debate público, é preciso que a essa participação corresponda deliberação democrático-participativa que alcance materialmente seus propósitos, sob pena de se tornar “mais do mesmo” no programa representativo das democracias liberais.

Essa é a boa advertência de Wilson Gomes:

Assim, faz parte do sistema de produção da democracia digital fazer com que inicativas (meios) sejam (vistas como) oportunidades vantajosas para os que dela participam. Como isso é possível? Iniciativas precisam incuir cálculos de eficiência ou efetividade. Uma iniciativa como um orçamento digital (vide Sampaio, 2009), por exemplo, só se converte numa real oportunidade se, de fato, assegurar que os resultados da participação produzam efeitos sobre o orçamento público e/ou sobre políticas orçamentárias. Caso contrário, ela será, ao menos em parte, artimanha do sistema político para legitimar as suas decisões jogando para o público.

Naturalmente, o cálculo de eficiência de uma iniciativa de democracia digital está ligado ao modo como o propósito específico de uma iniciativa qualquer (orçamento digital não tem a mesma meta de um sistema de fóruns de deliberação eletrônica, por exemplo) se relaciona com o seu fim democrático (ligado aos três fins indicados

acima). O importante, naturalmente, é que uma vez que haja confluência do propósito específico de uma iniciativa com a meta democrática do fortalecimento da cidadania, a eficiência do primeiro redundará em eficiência do segundo (grifou-se) (2011, p. 31).

Essa análise da “ciberdemocracia” encerra o presente capítulo como ponte de transição para o segundo capítulo, em que serão apresentados e desenvolvidos os pressupostos conceituais da democracia participativa bem como os obstáculos à sua efetividade no Brasil.

3 DEMOCRACIA PARTICIPATIVA E OS BLOQUEIOS À SUA CONCRETIZAÇÃO