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Mapa da tese

Organograma 1 Circuito de transmissão de documentos

? Felisberta n. fim anos 1850 M anuel Inácio n. 1847 Pulquéria Felisberta n,1881 Libânea n.? Belizário n. 1874 M anuel Inácio n.1894 Angélica Inácia n.1883 Raquel Inácia n. 1884 Rosalina Inácia n. 1885 M aria Inácia n.1889 M ercedes Inácia n. 1896 Ladislau Inácio n.1898 M aria Clara da Rosa Benta Inácia M arques Aurora Inácia M arques Am élia Inácia M arques M anuel Inácio M arques Neto Geni Inácia M arques Eva Inácia M arques M aria Inácia M arques Diva Inácia M arques  

Hereditários, porém, não eram apenas os papéis, mas o hábito de conservá-los. Conforme me confidenciou, a “mania de guardar” também é uma herança.1 Em certa ocasião,2 perguntei para dona Aurora com quem ela gostaria que ficassem os papéis depois dela, e ela afirmou que deveriam permanecer com Manoel Inácio Marques Neto, o seu único irmão homem. A decisão de deixar para ele explica-se pelo fato de ela não ter filhos, mas também por características individuais de Manoel: ele é muito “interesseiro”.3 Isso implica, portanto, que a conservação dos papéis envolve interesses familiares. Quais serão? Voltarei a esse aspecto adiante.

Meu primeiro contato com esse fundo documental deu-se em uma reunião, em 20 de julho de 2002, com a Associação Comunitária Rosa Osório Marques, da comunidade de Morro Alto, da qual a família em questão é parte integrante. Na mencionada reunião estávamos na reta final de conclusão de nosso relatório de pesquisa, e havíamos solicitado aos moradores que levassem, para aquele evento, fotografias antigas e outros documentos que eventualmente tivessem em seu poder. Eis

      

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Diário de campo de Rodrigo de Azevedo Weimer. Dia 9 de fevereiro de 2008.

2

Entrevista com dona Aurora Inácia Marques da Silva no dia 23 de janeiro de 2009 em Osório.

3

“Interesseiro”, entre os moradores de Morro Alto, não tem o mesmo significado pejorativo da linguagem corrente, aproximando-se, ao invés, de “interessado”, porém com a nuance de denotar o indivíduo com elevada capacidade de ir atrás de interesses – individuais ou coletivos.

57 que dona Aurora apareceu trazendo, no interior de uma sacola de supermercado, um verdadeiro tesouro, em termos de documentação antiga.

Na semana seguinte, com calma e vagar, dirigi-me à sua residência, em Osório, e, com a sua autorização, pesquisei seus papéis. Realizei sua leitura e transcrevi parte deles, os que me pareceram mais relevantes do ponto de vista da pesquisa histórica então empreendida, dada a heterogeneidade do corpo documental. Particularmente dois foram utilizados no laudo de reconhecimento de Morro Alto como “remanescente de quilombos”: um recibo de terras adquiridas, em 1890, por Manoel Inácio de um integrante da família senhorial, Manoel Osório Marques, e uma carta recebida por ele de Ana Osório Nunes, outra ex-senhora.

É difícil saber até que ponto outras famílias da região possuem documentos na profusão com que os descendentes de Felisberta os têm, na medida em que eles só se tornam públicos quando disponibilizados para pesquisa de historiadores, ato de desprendimento raro entre núcleos familiares de condição social similar. Todavia, tendo a acreditar que a “gente da Felisberta” tenha mais documentos do que seus vizinhos ou parentes. De qualquer maneira, parece-me que, nessa localidade, está invertida a lógica descrita por Artières (1998, p. 11), segundo a qual a ausência de papéis constitui anormalidade e a ausência de controle gráfico é índice de periculosidade.4

Pelo contrário, a raridade de registros escritos, seu caráter excepcional, parece ser a regra em Morro Alto. Os documentos em posse de Aurora Inácia Marques da Silva devem diferenciar a “gente da Felisberta” das demais da região: poucos núcleos da comunidade de Morro Alto parecem possuir tantos documentos antigos ou utilizá-los no sentido de “produzir presença” do ancestral (ver adiante). Ora, na comunidade em questão, o vínculo com o ancestral fundador de um ramo familiar é definidor do pertencimento a ele (Barcellos et al., 2004), ressaltando o papel dessa documentação.

O tempo urgia, e o prazo para conclusão do relatório se estava esgotando. Assim, não foi possível dar uma utilização exaustiva para aqueles ricos papéis. Os anos foram passando, Morro Alto foi reconhecida, no entanto aquele fundo documental de inegável valor histórico – escritos envolvendo um ex-escravo e seus familiares – seguia inexplorado. Então, já em 2008, quando me preparava para fazer o doutorado, decidi deter-me novamente sobre esses documentos, por entendê-los merecedores de um investimento analítico consistente. Então, munido de uma máquina fotográfica, retornei       

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Parece-me que, por não levar em conta estratos sociais iletrados e por se debruçar majoritariamente sobre o meio urbano, esse autor hiperestima os imperativos sociais no sentido do autoarquivamento.

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à residência de sua guardiã, e os encontrei arquivados no interior de uma bolsa, e não mais no interior de sacola plástica.5 Fotografei todos os documentos, porém diversas imagens ficaram tremidas e propus-me a repetir o trabalho.

Era necessário reproduzi-lo o quanto antes, pois aquele patrimônio poder-se-ia desagregar. Em uma de minhas visitas a dona Aurora, ela solicitou-me que lesse um documento para uma sua prima que ali estava presente, de visita. Constatando que era um bilhete do avô da visitante para sua avó, ela lhe deu de presente, como uma recordação!6 Dona Aurora não compartilha da concepção de que acervos documentais são indivisíveis, e como proprietária dos documentos pode dá-los para quem bem entender. No entanto, o meu dever como historiador era viabilizar uma forma de conservação do corpo documental, o quanto antes.

Percebendo-me interessado – ou “interesseiro”, no termo positivado da comunidade –, dona Aurora autorizou-me a xerografar seus documentos. Não o fiz com todos, mas apenas com aqueles mais antigos e cuja importância considerei maior. Fiz isso – o ideal teria sido reproduzir todos, independentemente de meus critérios subjetivos de “importância” – para não abusar da confiança de dona Aurora, permanecendo tempo demais afastado com a documentação. Afinal, ela deixou-me sozinho com um legado de seus avós, em um ato que me emociona até hoje. Eu contei os documentos, antes de levá-los para copiar, e ao retornar, iniciei a contar novamente, para demonstrar que os devolvia em sua integralidade. Fui interrompido por ela, que disse: “Não precisa. Eu confio em ti”. Essa confiança passa, evidentemente, por um bom uso das fontes que ela me estava disponibilizando, mesmo que não fizesse idéia de em que consiste o meu trabalho,7 nem de porque, afinal, aqueles papéis faziam de mim tão “interesseiro”.

O interesse familiar naqueles papéis era claro e indubitável. O de um estranho não podia ser explicado, por mais que eu me esforçasse em dizer-lhe que eu gosto de saber das histórias do passado, das histórias dos “antigos”, e por mais que ela

      

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O que demonstra, talvez, que a relevância dada aos documentos no processo de pesquisa tenha levado dona Aurora à decisão de conservá-los de uma forma mais “nobre”.

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Trata-se de Tibério, camponês negro da região do Morro Alto que protagonizou um processo criminal discutido no capítulo 3. Por sorte, fiquei com uma transcrição do documento – muito importante, um convite para participação em uma festa de São Benedito. Não é uma cópia fotográfica ou xerográfica, mas é melhor que nada.

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Como dito no “mapa da tese”, os moradores frequentemente associam a pesquisa realizada para o doutorado com aquela empreendida para o seu reconhecimento como “remanescente de quilombos”. Apesar dos repetidos esforços por explicar a verdadeira natureza do trabalho mais recente, frequentemente vi-me obrigado a prestar esse esclarecimento novamente.

59 conhecesse o livro que foi publicado a partir das pesquisas realizadas anteriormente. No entanto, nenhuma dessas justificativas parecia bastar, pertencendo, pelo contrário, o acesso à documentação à ordem da confiança.8

Os documentos guardados dentro da bolsa

Uma característica marcante desse corpo documental é a sua heterogeneidade. É composto por fragmentos juntados ao longo de décadas, cuja relevância era avaliada por indivíduos incapazes de discernir o conteúdo de papéis juntados ao conjunto. Não há, aqui, qualquer intenção autobiográfica, conforme Artières (1998, p. 11) propôs aos arquivos privados: trata-se de um testemunho ao mesmo tempo voluntário e involuntário, nos termos de Bloch (1987, p. 52). Voluntário na intenção de sua composição (embora não na sua constituição como fonte histórica, como acervo passível de utilização para reconstrução de um passado), involuntário no controle sobre o que dele faria parte, afinal, aqueles que juntaram aqueles papéis não eram alfabetizados e não tinham pleno domínio do que ali se registrava. Isso constitui, talvez, sua maior riqueza: há os mais variados tipos de fonte – convites para participação em festas religiosas comunitárias, orações, santinhos, poemas, donativos à igreja local, documentação referente a direitos trabalhistas, regulamentos de cemitérios, guias de sepultamento, receituários médicos, anotações de créditos e débitos, notas de aquisições realizadas em empórios e armazéns, registros de dívidas,9 dentre outros.

São documentos incríveis, os quais o historiador dificilmente terá condições de encontrar juntos, mas ao mesmo tempo de difícil trato, dado o seu caráter esparso. Sequer me proponho a dar conta de todas as possibilidades de análise por eles abertas. Aqui discutirei o acervo como um todo, visando à relação entre oralidade e palavra escrita, com especial atenção às correspondências. Meu problema são os motivos que, considerando o limitado acesso à palavra escrita, levaram os integrantes dessa família à conservação desses papéis.

      

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Segundo Prochasson (1998, p. 108), quando está em jogo o acesso a arquivos pessoais, “Procedimentos visando a criar confiança, que podem às vezes resultar numa cumplicidade amigável ou mesmo numa amizade franca e plena, constituem a base de toda aproximação”.

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Esse registro de dívida encontra-se no verso da Correspondência Passiva 8 (ver adiante). Segundo Jack Goody, “Recordar quais são as dívidas e a quem se deve (para poder agradecer e mais tarde retribuir), é um processo complexo. O registro escrito, pelo contrário, assume uma forma tremendamente simplificada e tremendamente abstrata, por si já categorizada; consiste no nome do autor do empréstimo e na quantidade oferecida, acrescentados às vezes seu local de residência, e sendo-lhe atribuído freqüentemente um número” (Goody, 1988, p. 100). O texto, anotado a lápis no documento é: “José Francisco Pastorino deve a Manoel Inácio 13$000”. Trata-se de empréstimo realizado entre meio-irmãos.

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No capítulo 3 analisarei documentos esparsos. A documentação particular, provavelmente devido aos grupos sociais que usualmente abrange, vem sendo mais explorada pela história política e dos intelectuais, parecendo, portanto, uma contribuição interessante utilizá-la para a escrita da história social mais rés-ao-chão, sem, contudo, a pretensão de apresentá-los como passíveis de estabelecer a diferenciação entre o verdadeiro e o falso (Prochasson, 1998, p. 113-114). Por outro lado, ao possibilitar a discussão da relação entre cultura escrita e oralidade, abre uma janela para a história da memória.

Do ponto de vista da demanda fundiária em que a comunidade está inserida, o documento de maior destaque é o mencionado recibo através do qual Manoel Inácio – apesar de ser marido de uma herdeira de uma doação de terras – adquiriu um terreno a seu ex-senhor. Além desse, temos uma série de guias de pagamento de impostos territoriais. Iniciada em 1899, ela vai até 1941, com algumas interrupções.10 Essa documentação é relevante para a escrita de uma história agrária da presença dessa família na região e, em um contexto de demandas fundiárias, como comprovação de uma ocupação territorial contínua até a década de 1940, pelo menos.

As correspondências trocadas pela “gente da Felisberta” na primeira metade do século XX são importantes para delinear sociabilidades e afetos em que ex-escravos e descendentes estavam inseridos. A correspondência datada mais antiga é de 1903, e a mais recente, de 1947. Temos 24 cartas, que podem ser divididas em dez correspondências passivas e quatorze ativas.11 A rigor, todas são passivas, isto é, foram recebidas pela família em questão e guardadas por ela, mas no caso das classificadas como ativas elas também foram escritas por familiares, de forma que serão essas que nos permitirão investigar sua produção, práticas de escrita e existência ou não de delegação de escrita (ver adiante). Eu ordenei esses documentos e atribui-lhes uma numeração, em ordem cronológica, de tal forma que temos CP8, CA6 significando correspondência passiva número 8, correspondência ativa número 6.

Dessas cartas escritas por sua gente, a maior parte delas foi dirigida por filhos para dar notícias à sua velha mãe, com duas exceções: uma para um irmão, outra de sobrinha para tia. Na maior parte, elas tinham por signatária Rosalina Inácia Marques, uma filha de Felisberta que foi residir em Conceição do Arroio.12 O outro filho que       

10

Ver capítulo 3.

11

Ver relação completa entre as fontes escritas.

12

61 mandou uma carta é Ladislau, provavelmente durante uma viagem. Temos, ainda, uma correspondência escrita por Ercília, filha de Rosalina, para sua madrinha e tia Angélica, e missivas não assinadas, mas cujo conteúdo permite perceber serem internas ao núcleo familiar. Uma exceção é uma carta (CA14) dirigida de Manoel Inácio para seu tocaio13 Manoel Isabel, ou seja, para alguém de fora do núcleo familiar. Considerando improvável que o signatário tenha feito duas vias da carta para guardar uma, deduz-se que se trata de missiva nunca enviada, ou ainda presenteada ao patriarca ou família, em um circuito comunitário de recordações, conforme exemplificado anteriormente.

Práticas de produção da documentação

Neste ponto, discutirei de que forma foram produzidas as cartas identificadas no ponto anterior como correspondência ativa da família em questão. Analisarei a existência de “índices de oralidade” na correspondência, a fim de que esses índices possam contribuir para elucidar se as cartas foram escritas diretamente pelos signatários ou se, pelo contrário, foram ditadas por eles para alguém dotado da capacidade para escrever, no fenômeno denominado “delegação de escrita”. “Índices de oralidade” tratam-se da presença de indícios, na palavra escrita, de uma tradição oral ou mesmo de um registro escrito de falas verbalizadas oralmente – a exemplo da transcrição de discursos parlamentares:

Por “índice de oralidade” entendo tudo o que, no interior de um texto, informa-nos sobre a intervenção da voz humana em sua publicação – quer dizer, na mutação pela qual o texto passou, uma ou mais vezes, de um estado virtual na atualidade e existiu na atenção e na memória de certo número de indivíduos. (Zumthor, 1993, p. 35).

A fim de verificar o lugar ocupado pela oralidade na “gente da Felisberta”, em sua relação com a sociedade que a cercava na primeira metade do século XX, peço aos leitores licença e paciência para examinar, de forma breve, a teorização acerca da sua relação com a palavra escrita. Zumthor (1993, p. 18) define a existência de três tipos de oralidade: a primária, correspondente ao caso de sociedades nas quais inexiste qualquer contato com a palavra escrita, a mista, “quando a influência do escrito permanece

      

13

Um dicionário um pouco posterior a esse documento define tocaio como homônimo. No caso, dois Manoéis. (Figueiredo, 1913, p. 1962.)

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externa, parcial e atrasada” e a oralidade segunda, quando se trata de um meio no qual a escrita “tende a esgotar os valores da voz no uso e no imaginário”.14

No caso da “gente da Felisberta”, trata-se da oralidade segunda, pois suas formas de interação com o Estado, como veremos no capítulo 3, a exemplo dos impostos – e eventualmente entre si, no caso das correspondências ora analisadas –, dão-se mediadas pela palavra escrita. Isso é importante, pois a configuração da oralidade quando a sociedade envolvente desconhece o escrito é radicalmente diverso daquele em que ele é usado largamente.

Para Goody (1987, p. 269), a discrepância entre linguagem escrita e oral, bem como as diferentes pronúncias decorrentes, constituem um poderoso fator de discriminação de classes sociais. Não dominar a palavra escrita em um meio em que todas as transações oficiais dependem do uso desta implica, além de um estigma, em uma dependência de outrem que “terceirize” tal função. Nesse caso, aqueles que desconhecem os códigos escritos são levados, assim, a adaptarem-se, apelando para a modalidade aqui denominada “delegação de escrita”.15 Conforme veremos no primeiro interlúdio de racialização, hierarquias raciais operavam no acesso, ou não, à possibilidade de alfabetização.

Não é possível, não obstante, opor de forma binária aqueles que possuem o domínio, ou não, da palavra escrita. A noção de letramento é tomada por Goody, definindo sujeitos sociais como letrados ou iletrados. O que diferenciaria iletrados de analfabetos é que os primeiros não são leitores, embora não necessariamente sejam incapazes de fazê-lo, como os analfabetos. Há diversos graus de indivíduos parcialmente alfabetizados que se inserem entre os iletrados (Goody, 2007, p. 165).

É legítimo interrogar-se acerca de se os familiares redigiram suas cartas de próprio punho ou delegaram sua escrita para alguém. Zumthor (1993, p. 45-46) apontou, como primeiro “índice de oralidade”, os abundantes “tiques de composição, ou de vocabulário”, isto é, “refugos textuais” que demonstrariam a persistência, no escrito, de fórmulas orais que funcionavam como amparo da discursividade verbal. Tratar-se-ia da reprodução escrita dos elementos “mais estáveis na tradição oral”. Convém sublinhar, contudo, que não é a elevada ou baixa quantidade de “índices de oralidade” que       

14

Alternativamente, Walter Ong subdivide as sociedades humanas entre as que utilizam a oralidade de forma primária (ignorando completamente o uso da escrita) e secundária (no mesmo sentido da oralidade segunda de Zumthor) (Ong, 1998).

15

Não se trata de vitimizar aqueles que não possuíam o domínio da palavra escrita. Pelo contrário, trata- se de verificar, como, ativamente, puderam apropriar-se, através da delegação da escrita, de um meio de comunicação que a princípio lhes era alheio.

63 implicará, necessariamente, na caracterização de um texto como delegado, mas sim a natureza desses índices.

Nas cartas por mim analisadas, aqueles “tiques de composição”, longe de serem elementos enraizados na tradição oral, parecem ser, pelo contrário, fórmulas estereotipadas oriundas de normatizações da redação de cartas, conforme se vê no quadro abaixo: prescrições de bons modos na prática epistolar. Os trechos selecionados foram agrupados de forma temática, para perceber melhor as recorrências de fórmulas utilizadas:

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Quadro 1 – Fórmulas estereotipadas na redação de cartas – primeira metade do século XX

Fórmula16 Carta

Votos de saúde

“Muito estimarei que estas mal-traçadas linha vão te encontrar gozando boa saude” CA1 “Estimo que estas va encontrar todos de perfeita saúde” CA2 “eu istimo que porai vãom todos consaude” CA5 “Estimo que ao receber esta va gosando perfeita saude em companhia de suas filha” CA10

“mamãe desejo que esta va le encontrar com saúde com todos” CA13 “Estimo a tua saude e a de tua familia” CA14

Saudações e felicidades

“Saudações e Felicidades. Em primeiro lugar desejo-te, saude e paz e prosperidade junto com sua querida família”

CA7

“Saudações e felicidades” CA8

“Saudações e felicidades” CA11

Levar e solicitar notícias [pegando a pena ou lápis]

“Muito estimo que vão estas a fim de contar notícias minhas e para saber tuas” CA3 “tive hoje o praser de pegar na penna ao fim de nottar estas poucas linhas” CA4 “hoje tenho o fim de pegar a mão a pena escerver esas mal tarsadas linha” CA5 “hoje tive a oportunidade de pegar a mão no lapis ao fim de dar noticias minhas e ao mesmo

tempo saber noticias suas”

CA8 “Com prazer peguei a mão no lapis para le participar que se as cousa correr bem para nos” CA9 “Oje peguei, na pena para dar noticias nossas e no mesmo tempo saber noticias suas”. CA10 “hoje com imenso prazer que levo a mão em meu lápis para dar notícias minhas (...) e ao

mesmo tempo para saber notícias suas”

CA11 “Prezada mãe, com muito prazer e felicidade eu peguei a mão no lapis para darte noticias

minhas e ao mesmo tempo saber noticias suas”

CA12

Lembranças a familiares

“muita lembranças a todos da casa um abraço na mamãe e otro na afilhada” CA1 “saudades e lembranças a minha madrinha e todos de meus parente, sem mais nada peço