“A fala avança no escuro. O espaço não se estende, mas se escuta. Pela fala, a matéria está aberta, crivada de palavras; o real ali se desdobra. O espaço não é o lugar dos corpos; ele não nos serve de apoio. A linguagem o carrega agora diante de nós e em nós, visível e oferecido, tenso, apresentado, aberto pelo drama do tempo no qual estamos com ele suspensos. O que há de mais bonito na linguagem é que passamos com ela. Tudo isso não é dito pelas ciências comunicativas, mas nós sabemos muito bem disso com nossas mãos na noite: que a linguagem é o lugar do aparecimento do espaço”. (Valère Novarina)
ou começar pela dificuldade, premida pelo tempo para escrever... O título surgiu primeiro “espaço e tempo na experiência do sujeito do inconsciente” e logo estranhei já que o tema do encontro “Os tempos do sujeito do inconsciente. A psicanálise no seu tempo e o tempo da psicanálise” não nos remete imediatamente a noção de espaço. Ou será que sim?
Na apresentação do livro preparatório deste Encontro Josée Mattei cita de modo interessante o livro Vous qui habitez le temps. Descubro vários livros desse autor editados em português, interessei-me especialmente por um. Aí, começou uma outra busca, o livro está esgotado no Brasil, depois de alguns dias a editora entregou um exemplar, belíssimo de Valère Novarina. Pronto. Esse era o significante que faltava para a articulação que eu esperava.
Diante da palavra94 do poeta me
ocorreu a articulação que eu esperava: estava lá o tempo todo – inconsciente – estampado no cartaz do Encontro: a banda de Moebius, figura topológica por onde Lacan demonstra a experiência do sujeito do inconsciente.
94 Novarina, Valère. Diante da palavra (1999). Rio de Janeiro: Sete Letras, 2003.
Já que nosso tempo é curtíssimo, farei breves pontuações a propósito de espaço e tempo e em seguida, por meio de um fragmento de um caso de histeria, assinalo para a formação do sintoma por meio de um dizer no âmbito da experiência do sujeito do inconsciente.
O espaço: Kant, Lacan, Freud
Os conceitos de espaço e tempo são para Kant (1724-1804) “duas formas puras da intuição sensível” (oriundas da sensibilidade, ou seja, da capacidade de obter representações mediante o modo como somos afetados por objetos) como princípios do conhecimento a priori e não da “intuição empírica” proveniente da experiência. Para Kant a posteriori é o que pode ser dado na experiência. Espaço e tempo são, portanto para ele a priori a qualquer experiência do sujeito. Isto quer dizer que “o sentido interno mediante o qual a mente intui a si mesma ou o seu próprio estado interno, na verdade não proporciona nenhuma intuição da própria alma como um objeto; consiste apenas numa forma determinada unicamente sob a qual é possível a intuição do seu estado interno de modo a tudo o que pertence às
V
determinações internas ser representado em relações de tempo”95.
Aqui Kant lembra Lacan, se é que posso fazer essa articulação, por exemplo, no Estádio do espelho como formador da função do eu tal qual nos é revelado na experiência psicanalítica. Lacan compara o estádio do espelho como uma identificação, no pleno sentido que a análise lhe confere, ou seja, a transformação produzida quando o sujeito assume uma imagem que vai da insuficiência a antecipação; revelando a matriz simbólica em que o eu se precipita numa forma primordial antes de se objetivar na dialética da identificação com o outro e antes que a linguagem lhe restitua, no universal, sua função de sujeito. (Encontramos também em Freud “a identificação como a expressão mais primitiva de uma ‘ligação sentimental’ (Gefühlsbindung) com uma outra pessoa”96.) Cerca de onze anos depois em
Observação sobre o relatório de Daniel Lagache, de 1960, Lacan retoma o estádio do espelho e nos propõe uma reformulação do Esquema ótico de Bouasse para pensar a estrutura do eu ideal e do ideal de eu. Auxiliada por um professor de física, repetimos a experiência proposta por Lacan, e foi possível verificar que o espaço necessário para a criação da imagem virtual ficou elidido no Esquema proposto por Lacan. O esquema abaixo (Fig.1) é uma figura modificada do esquema proposto por Lacan. O espaço vazio deixado entre a flor e o aparador, é o espaço da “intuição sensível” kantiana para o vaso (ou o corpo), de modo que a imagem do vaso (ou do corpo) possa de fato ser formada virtualmente e vista pelo sujeito, por meio do “espelho falante” do (grande) outro
95 Kant, I. Crítica da razão pura. In: Os Pensadores. São Paulo: Abril cultural, 1980.
96 Freud, S. Psicologia das massas e análise do eu. In: Edição Standard Brasileira das Obras completas psicológicas de S. Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1994. Vol. 18.
Fig.1: Figura modificada do Esquema de Lacan.
Lendo Lacan com Kant talvez possamos supor que o espaço é mesmo a priori a toda experiência do sujeito, ou seja, oriundo da “intuição sensível” caso contrário não seria possível Lacan cometer esse engano e mesmo assim afirmar corretamente a experiência. Talvez, possamos aproximar os a priori kantiano do que Freud denominou uma suposição “necessária e legítima da existência do mental inconsciente”. (Ficou essa questão para outro momento.)
Em O inconsciente97, de 1915,
no capítulo “características especiais do sistema inconsciente” Freud resume: no Inconsciente há isenção de contradição mútua entre os representantes pulsionais, prevalece o processo primário (mobilidade dos investimentos), não há negação, nem dúvida, nem grau de certeza, os processos inconscientes são intemporais, isto é, não são ordenados temporalmente, não se alteram com a passagem do tempo; não têm absolutamente qualquer referência ao tempo; e há substituição da realidade externa pela psíquica.
Com a ajuda do Aurélio – o outro mais popular do significante de nossa língua – encontramos tanto intemporal quanto atemporal. Atemporal quer dizer que independe do tempo, enquanto intemporal quer dizer “não temporal ou transitório; eterno, perene”; “não temporal ou profano;
97 Freud, S. O inconsciente. In: Edição Standard Brasileira das Obras completas psicológicas de S. Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1994. Vol.14.
espiritual”. Intemporal grosso modo é o que deixa inscrição, vestígio, como assinala Freud no Bloco mágico; ou conforme formulou Lacan no Encore “não para de não se escrever”.
O interessante nessa releitura do texto O inconsciente é a afirmação contundente de Freud: “há ordem do tempo” e esta é dada pela censura do sistema pré-consciente; quando escapa provoca o riso! Ou seja, o acesso aos representantes pulsionais, ou significantes como exprime Lacan, passam por uma censura. É a esta censura que se dirige a regra fundamental da psicanálise da associação livre e as formações do inconsciente.
Somente em Achados, idéias e problemas, de agosto de 1938, Freud se refere a Kant para abordar espaço e tempo na relação com do sujeito do inconsciente. Ele discorda de Kant. Ele escreve “O espaço pode ser a projeção da extensão do aparelho psíquico. Nenhuma outra derivação é provável. Em vez dos determinantes a priori, de Kant, de nosso aparelho psíquico. A psique é estendida; nada sabe a respeito”. Esse fragmento é um verdadeiro achado e a banda de Moebius utilizada por Lacan nos demonstra esses determinantes a priori. O tempo, o dizer: a banda de Moebius
Kant ainda trabalha no espaço da Geometria plana, ainda que ele tenha sido assim como Freud e Lacan um “instaurador de discursividade”. O espaço da Geometria projetiva será descrito em meados do século XIX. Moebius em 1861 descobre a figura que passará para a posteridade, como nos informa Jeanne Granon-Lafont98, a “banda de Moebius” e
suas superfícies uniláteras. O que era “estudo do lugar” em 1679 com Leibniz passa quase dois séculos depois a se
98 A topologia de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990.
chamar Topologia, estudo dos espaços e de suas propriedades.
Lacan na aula de 14 de janeiro de 1975 de R.S.I. distingue que o nosso corpo – presente no espaço – seja de três dimensões, é o que não deixa nenhuma dúvida, já que, com esse corpo, a gente pinta e borda; mas isso não quer absolutamente dizer que o que chamamos de espaço não seja sempre mais ou menos plano. Há até matemáticos para o escrever com todas as letras: todo espaço é plano”99, 100. Lacan nos lembra também que
sabemos manejar muito mal qualquer coisa do Real que escapa esse espaço de três dimensões.
Jeanne Granon-Lafont em seu estudo da topologia de Lacan interroga sobre como podemos compreender tal observação. Ela responde que o espaço em si não encerra a dimensão da profundidade, a famosa terceira dimensão. É somente para aquilo que se encontra mergulhado no próprio espaço que, segundo seus movimentos que se desenrolam no tempo, vai existir um antes e um depois e, por extensão, um na frente e um atrás. Os topólogos, tentando manipular esta percepção e suas ilusões, recorrem classicamente a “metáfora da formiga” presente na capa do seminário d’Angústia de Lacan e desenhado pelo artista gráfico holandês Mauritus Cornelis Escher (1898- 1970).
Imaginemos, comenta a autora, que no lugar da formiga situa-se o sujeito em análise. Este sujeito-formiga ou – os homenzinhos na fita da primeira divulgação deste Encontro – se desloca sobre a banda de Moebius, superfície plana com duas dimensões, que assim é definida na relação que mantém com sua vizinhança imediata.
99 Lacan, J. O seminário: RSI, aula de 14 de janeiro de 1975, versão pirata brasileira, s/d.
100 Cf. Kant em Sobre o primeiro fundamento da distinção de direções no espaço (1768), [tradução de Rogério Passo Severo], disponível em http://www.ufrgs.br/kantcongress/sociedadekant/fundamento.pdf
Por outro lado, diz ela, o horizonte, o ponto onde a banda revira, pinça sua torção, sempre na relação às vizinhanças imediatas, é percebido como profundidade. Ora essa profundidade – cria o plano projetivo – tem como medida o tempo que a formiga levará para alcançar este ponto de torção, ao qual ela jamais chegará, uma vez que tão logo o atinja, um novo horizonte irá sempre se apresentar como terceira dimensão, como profundidade.
O plano é o que se define como a superfície de um quadro limitado por seus contornos, e o espaço pela percepção da profundidade. Trata-se do horizonte, o qual sabemos não ser o limite, mas que topologicamente, se entende como o tempo necessário para alcançá-lo.
O que é interessante é que será por meio da experiência provocada pelo movimento de torções, de cortes, de meias- torções, etc., que se faz surgir “como um vazio” o espaço moebiano ou plano projetivo. Isto tem, sem dúvida, um valor fundamental para a experiência psicanalítica. A experiência do vazio, do buraco, certamente, pode ser aproximada da experiência da angústia – que é mediana entre gozo e desejo, como assinala Lacan – vivida, pelo sujeito na análise. É curioso, dependendo da condição econômica de nossos analisantes, podemos ouvir aqueles que dizem parecer estar em uma montanha russa ou aqueles que parecem estar em um trem descarrilado! Eis aí a experiência subjetiva da banda de Moebius que a psicanálise revela. Como o psicanalista pode se servir dela? Por meio, claro, da promoção da associação livre do lado do analisante e da interpretação e do ato psicanalítico do lado do analista.
Jairo Gerbase na aula de 12 de maio de 2000 de seu seminário Clínicas de nós de toros - comentários101 faz um resumo do livro
J.-D. Nasio Monstration et Topologie, de 1983;
101 Gerbase, Jairo. Clínicas de nós de toros - comentários, aula de 12 de maio de 2000, disponível em www.campopsicanalítico.com.br.
nesse esquema Nasio propõe estabelecer relações entre quatro conceitos lacanianos que definem a realidade e os objetos topológicos respectivos. Das quatro proposições recolho apenas uma já que nosso tempo é curto, mas remeto vocês ao texto de Jairo que é muito interessante.
Na primeira a demanda e o desejo são representados pelo toro. Na terceira, o significante e a cadeia, representados pela garrafa de Klein. Na quarta, a relação do sujeito e o objeto (a fantasia), representados pelo gorro cruzado (ou cross-cap). Na segunda relação do sujeito e o dizer, a que recolhi para comentar por meio de um fragmento clínico, está representada pela banda de Moebius. Então, indaga Jairo Gerbase, como dizer que somos sujeito se somos dizer? Como ser outro ou como haver transformação pelo fato de dizer? A banda de Moebius (Fig. 2) mostra o sujeito, suas peripécias. Sua propriedade de ter um único lado se transforma se nela operamos um corte mediano. Não basta representar o sujeito no espaço é preciso também o ato de cortar. O ato de dizer é da mesma ordem, o significante fende o sujeito em dois: o significante simultaneamente representa o sujeito e o faz esvaecer102 (apagar-se).
102 Lacan, J. Seminário: A topologia e o tempo, aula de 15 de maio de 1979. Edição fora de comércio.
Fig. 2 – Banda de Moebius inteira e cortada ao meio
Fragmento de um caso de histeria e a formação do sintoma
“Hoje estou muito feliz! Escuta só! Fui designada a conferir os microscópios do setor de produção para padronizar o controle de qualidade dos testes de AIDS que o Brasil exporta para diversos países. Era muita responsabilidade e eu tremia dos pés a cabeça, não pela função para a qual fui designada porque eu sabia fazer, mas porque teria que voltar naquele setor que gerou todos os problemas que me trouxeram aqui há dois anos atrás...”
Essa moça de vinte e poucos anos, bonita, prossegue descrevendo-se por meio de uma imagem (significante), aquela que ela preparou desde a noite anterior para ocupar o lugar que lhe foi designado e ao qual ela temia não saber se poderia ocupar na hora marcada.
“Fui bem bonita, coloquei meu salto mais alto, meu melhor terninho, me maquiei, coisa que nunca faço... Eu e um outro colega começamos a tarefa, eu tremia tanto que o colega me sugeriu fazer somente parte do experimento. Neste instante me senti igual a uma formiguinha, humilhada, diminuída como se fosse literalmente cair... Lembrei-me do saltinho fino (risos) e me senti poderosa, então respondi lentamente a ele: de jeito algum, é
minha responsabilidade fazer o experimento do começo ao fim, não tem porque não fazer...”
Ela se espanta e indaga: “como pode, doutora, um dizer modificar o que éramos?”
Esse dizer, esse modo de bem-dizer o sintoma – testemunhado por meio da transferência na experiência psicanalítica – se chama interpretação, diz Lacan103, e tem
relação com o desejo do sujeito do inconsciente.
Como diz o poeta: “O que há de mais bonito na linguagem é que passamos com ela. Tudo isso não é dito pelas ciências comunicativas, mas nós sabemos muito bem disso com nossas mãos na noite: que a linguagem é o lugar do aparecimento do espaço”.
103 Lacan, J. L’etourdit. [Tradução de Isidoro Eduardo Americano do Brasil]. Edição fora de comércio.
____________________________________________________________▪ Tempo e estrutura