5.2 SOFRIMENTO NO TRABALHO SEGUNDO OS PROFISSIONAIS DE
5.2.3 Classe 3: Falta de recursos humanos (22,8%)
Os profissionais de enfermagem exteriorizaram que a falta de recursos humanos nos CAPS III é um fator que dificulta a qualidade da assistência de enfermagem, além de acarretar desgaste físico e mental, pois há um alto número de usuários admitidos no serviço, conforme se desvela nas falas a seguir:
[...] Com relação aos profissionais da equipe falta fisioterapeuta, terapeuta, ocupacional e pedagogo, temos poucos: assistentes sociais, técnicos de enfermagem, enfermeiro só um por plantão, médicos psiquiatras duas vezes na semana e isso é lamentável todos ficamos sobrecarregados de atividades. Precisamos de mais funcionários para compor a equipe multiprofissional [E8].
[...] Quanto ao número de profissionais de enfermagem precisamos de mais profissionais de enfermagem, o número está insuficiente para a demanda do CAPS III e isso acaba sobrecarregando os demais profissionais. Só tem um enfermeiro por plantão. Isso é um absurdo. Tem hora que faço função de recepcionista, farmacêutica, de limpeza, de apoio, de tudo porque nas outras áreas também falta mais profissionais [E30].
[...] Quanto ao número de profissionais precisa melhorar bastante precisamos de um psiquiatra durante todo o nosso plantão, pois quando acontece uma urgência aqui não temos o que fazer. Aí tem que recorrer aos meios externos como o samu, o corpo de bombeiros e polícia militar [E26]. [...] O pior aqui é o número insuficiente de profissionais de enfermagem precisamos de mais profissionais de enfermagem, o número está insuficiente para a demanda do CAPS III. Todas as semanas temos usuários admitidos no serviço e temos poucos profissionais para dar de conta da demanda. Aqui não existe índice de segurança técnica. Se um enfermeiro tira férias temos que descobrir o plantão de outro turno. Aqui precisamos de três ou quatro enfermeiros de plantão, pois temos mais de oitocentos usuários admitidos [E42].
A partir das expressões de fala dos profissionais de enfermagem apresentadas acima, observa-se reduzida equipe de profissionais de enfermagem e multidisciplinar nos CAPS III, contribuindo, assim, para o desgaste e sobrecarga desses trabalhadores.
O Conselho Federal de Enfermagem revogou a Resolução nº 293/2004 e editou a Resolução nº 0527/2016, a qual atualiza e estabelece parâmetros para o
Dimensionamento do Quadro de Profissionais de Enfermagem nos serviços/locais em que são realizadas atividades de enfermagem, constituindo-se em referências para orientar os gestores, gerentes e enfermeiros.
Com a edição do ato normativo supracitado foram estabelecidos os parâmetros mínimos que devem ser implementados no planejamento para dimensionar o quantitativo dos profissionais das diferentes categorias de enfermagem nos serviços de saúde mental.
Resolução 0527/2016:
[...] Art. 4º. Para assistir pacientes em saúde mental, considerar:
a) Como horas de enfermagem: 1- CAPS I – 0,5 horas por paciente (8 horas/dia); 2- CAPS II (CAPS Adulto e CAPS Álcool e Drogas) – 1,2 horas por paciente (8 horas/dia); 3 - CAPS Infantil e Adolescente – 1,0 hora por paciente (8 horas/dia); 4 - CAPS III (CAPS Adulto e CAPS Álcool e Drogas) – 10 horas por paciente (24 horas); 5 - UTI Psiquiátrica – 16 horas por paciente (24 horas);
b) Como proporção profissional / paciente, nos diferentes turnos de trabalho: 1- CAPS I – 1 profissional para cada 16 pacientes, 1 enfermeiro para 32 pacientes e 1 técnico/auxiliar de enfermagem para 32 pacientes; 2- CAPS II (CAPS Adulto e CAPS Álcool e Drogas) – 1 profissional para cada 6,6 ≅ 7 pacientes, 1 enfermeiro para 13,3 ≅ 13 pacientes e 1 técnico e/ou auxiliar de enfermagem para 13,3 ≅ 13 pacientes; 3- CAPS Infantil e Adolescente – 1 profissional para cada 8 pacientes, 1 enfermeiro para 16 pacientes e 1 técnico e/ou auxiliar de enfermagem para 16 pacientes; 4- CAPS III (CAPS Adulto e CAPS Álcool e Drogas) -1 profissional para cada 2,4 ≅ 2,5 pacientes, 1 enfermeiro para 4,8 ≅0 pacientes e 1 técnico/auxiliar de enfermagem para 4,8 ≅ 5 pacientes; 5 - UTI Psiquiátrica – 1 profissional para cada 1,5 pacientes, 1 enfermeiro para 3 pacientes e 1 técnico de enfermagem para 3 pacientes;
c) A distribuição percentual do total de profissional de enfermagem deve observar as seguintes proporções mínimas: 1 – CAPS I – 50% de enfermeiros e os demais técnicos e/ou auxiliares de enfermagem; 2 – CAPS II (CAPS Adulto e CAPS Álcool e Drogas) – 50% de enfermeiros e os demais técnicos e/ou auxiliares de enfermagem; 3 – CAPS Infantil e Adolescente – 50% de enfermeiros e os demais técnicos e/ou auxiliares de enfermagem; 4 – CAPS III (CAPS Adulto e CAPS Álcool e Drogas) – 50% de enfermeiros e os demais técnicos de enfermagem; 5 – UTI Psiquiátrica – 50% de enfermeiros e os demais técnicos de enfermagem [...].
A partir da Resolução 0527/2016 implementada pelo Conselho Federal de Enfermagem depreende-se que os serviços de Saúde Mental deverão se readequar no tocante aos recursos humanos, uma vez que o número insuficiente de trabalhadores da equipe de enfermagem é responsável pelo desencadeamento de fatores de sofrimento no ambiente laboral, os quais geram frustrações e desconforto no âmbito do trabalho desses profissionais.
Por isso, faz-se necessário compreender a influência da organização do trabalho para a qualidade de vida dos profissionais da área de saúde mental, visto
que essa compreensão deverá nortear as intervenções em situações de trabalho que podem levar a diversas formas de sofrimento, adoecimento e exclusão.
Ressalta-se que a Política Nacional de Saúde Mental preconiza a valorização da importância do trabalhador de saúde mental na produção do ato de cuidar. E que em 2001, na III Conferência Nacional de Saúde Mental, foram discutidos os instrumentos para construção e consolidação de uma política adequada de recursos humanos coerente com os princípios da Reforma Psiquiátrica.
Dentre as garantias aos trabalhadores dos CAPS, estão a construção e consolidação de uma política de saúde mental coerente com os princípios da Reforma Psiquiátrica integrada nos planos municipal, estadual e federal, e que valorize e considere a importância do trabalhador de saúde mental na produção dos atos de cuidar, possibilitando o exercício ético da profissão. Além disso, destaca-se a garantia de capacitação e qualificação continuadas para as equipes de saúde mental através da criação de fóruns e dispositivos permanentes de construção teórica, científica, prática terapêutica e de intercâmbio entre a rede de serviços. A política de recursos humanos deve realizar contratações de profissionais exclusivamente via concurso público, no entanto em situações de caráter emergencial poderá realizar outras formas de contratação, através da CLT, mas assegurando-se sempre a seleção pública (BRASIL, 2001).