3 PERSPECTIVAS DA ECONOMIA INSTITUCIONAL SOBRE O
3.1 O CONCEITO DE INSTITUIÇÕES
3.1.4 Cognição e modelos mentais compartilhados
North (2003) parece ter desenvolvido um programa de pesquisa dentro da NEI que transitou entre os fundamentos neoclássicos e aproximou-se da visão multidisciplinar do antigo institucionalismo e da sociologia econômica. Instituições passam da ideia reconhecida de regras formais e informais para uma abordagem psicológica, cujo foco é o aprendizado humano e o seu compartilhamento, bem como as
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Nesse grupo de sociedades maduras de acesso limitado encontram-se os países da América Latina, da África e a Índia. Suas estruturas institucionais de Estado são duráveis e apoiam organizações compostas por elites. Restringem a concorrência no mercado e criam vantagens políticas a fim de manter grupos dominantes no poder. Ver North et al. (2007) para uma discussão dos problemas do desenvolvimento de países de ordens sociais limitadas.
mudanças em crenças e preferências. Experiências e feedbacks ocorrem em contextos de percepções de aprendizagem coletiva pautadas na herança cultural de uma sociedade. Assim, por meio dos feedbacks do ambiente, indivíduos moldam e são moldados pelas instituições (HODGSON, 2006).
North (1994) discute a tensão entre as regras informais e formais, evidenciando que as sociedades podem reproduzir um sistema de crenças do passado, mantendo instituições que não respondem à complexidade de problemas político-econômicos do presente. Conclusão essa que se aproxima da teoria do cultural lag apresentada por Veblen. Para o autor, o processo de mudança social compreende distintas esferas de construção e aprendizagem, porém iniciam no nível microeconômico. O tipo de formação cognitiva e de experiências individuais explicam os modelos mentais, as formas de interpretação e as crenças a respeito de uma realidade. Uma vez compartilhados, os modelos mentais dão origem a políticas específicas, cujos resultados na esfera macroeconômica retornam como feedbacks do ambiente ao nível individual, alterando os modelos mentais e a realidade. Por essa razão, North (2005) ressalta que modelos mentais inflexíveis, baseados em padrões de aprendizagem repetidas no tempo, mantem os sistemas de crenças de uma sociedade e suas instituições, tornando difícil sua modificação e revisão.
Os modelos mentais são representações internas dos sistemas cognitivos individuais. Hodgson (1998) observa que o conhecimento e a aprendizagem são elementos chave da cognição, já que o processamento de informações dos indivíduos ocorre mediante a existência de hábitos de pensamento prévios, capazes de dar significado, então, a esses elementos. Está-se diante de uma nova base conceitual, pois o autor afirma que “Institutionalists need to capitalize on conceptual and methodological advantage in this area and develop theories of learning that are appropriate for a knowledge intensive and rapidly changing world” (HODGSON, 1998, p. 175).
Segundo Scott (1995, p. 40), a dimensão cognitiva das instituições refere-se às regras que se estabelecem a partir da natureza da realidade e dos significados que são produzidos. Pauta-se nos sistemas de símbolos, representações, crenças e categorias que fundamentam a interpretação do mundo. Ao identificarem e classificarem suas construções individuais, os modelos mentais transformam-se em ações e atividades compartilhadas. Hodgson (2009) afirma que, em relação aos estudos da economia comportamental, a base teórica institucional é complementar à teoria da cognição social, quando aplicada de modo a descrever o comportamento social. Isso porque a dinâmica
trazida pelos institucionalistas reforça as explicações dos processos heurísticos72 na tomada de decisão dos agentes, como a de empreender, mudar o modelo de negócios, gerar uma nova tecnologia, ou pivotar o empreendimento ou a startup.
Fiske e Taylor (2013, p. 6-7) explicam que a cognição social complementa os conceitos da psicologia comportamental. Ao enfatizar o indivíduo e analisar sua situação (ou ambiente), bem como suas formas de interpretação do mundo (ou cognição) e suas motivações, a teoria da cognição social introduz a ideia dos hábitos para descrever processos mentais. Dessa forma, acrescentam que representações mentais preconcebidas influenciam a motivação e ativam a cognição de modo habitual, orientando a ação. Uma vez repetidos com frequência, os hábitos, portanto, passam a explicar o comportamento, o que se constitui num processo nem automático, nem controlado da mente (FISKE; TAYLOR, 2013, p. 38). Pode-se sugerir, então, que a teoria da cognição social indiretamente corrobora com a importância dos hábitos de pensamento ou dos aspectos cognitivos vinculados à formação dos modelos mentais, reforçando os argumentos da economia institucional. Ao permitirem a interpretação do ambiente social e se tornarem um hábito compartilhado, orientam a criação de instituições. Nesse sentido, indivíduos diferentes podem vir a ter modelos mentais semelhantes à medida que ampliam suas experiências e aprendizagens a partir de percepções culturalmente formadas e hábitos generalizados ao longo do tempo.
Cabe destacar ainda que os indivíduos possuem vieses cognitivos que formam o conjunto de crenças, determinam os processos de decisão sob incerteza e moldam o comportamento (TVERSKY; KAHNEMANN, 1974). Os vieses descritos por esses autores têm por base os julgamentos intuitivos preconcebidos a respeito da percepção de risco e de incerteza, além dos feedbacks recebidos do ambiente. Ao ignorar parte das informações recebidas, os indivíduos incorrem em heurísticas – ou processos cognitivos adaptativos – de forma a tornarem-se hábitos de pensamentos. Conforme Kahnemann e Lovatto (1993), o problema da representatividade e da ancoragem dos processos inferenciais humanos não resulta em previsões válidas e racionais. Ressalta-se, assim, a discussão da racionalidade limitada (SIMON, 1959) e da racionalidade heurística (GRIFFIN; KAHNEMANN, 2002), uma vez que os indivíduos substituem os processos inferenciais probabilísticos por julgamentos mais fáceis e rápidos, o que pode ser
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Gigerenzer e Gaissmaier (2011, p. 454) definem processos heurísticos como “a strategy that ignores part of the information, with the goal of making decisions more quickly, frugally, and/or accurately than more complex methods”.
interessante de se constatar no caso dos empreendedores. O pensamento humano não segue a lógica probabilística, mas atua por meio de sistemas, um mais rápido e intuitivo, e outro mais lento e racional. Segundo Tversky e Kahnemann (1974), julgamentos e decisões sob incerteza seguem três tipos de heurísticas que simplificam as decisões e podem se transformar em vieses, a saber, representatividade, disponibilidade e ancoragem. A heurística da representatividade está nas associações e similaridades entre eventos e na representatividade da amostra observada. É resumida pelos autores como a probabilidade de um evento “B” ser avaliado pelos indivíduos segundo nível em que um evento “A” se assemelha de “B”. As escolhas a partir dessa heurística levam a erros de probabilidades e, portanto, a vieses de julgamentos do tipo esteriotipados. Já a heurística da disponibilidade remete a julgamentos com base nos exemplos mentais facilitados pela ocorrência no passado, e não a partir de frequências e probabilidades. Acaba por originar correlações ilusórias aos indivíduos devido à utilização de informações recentes ou facilitadas pelo cérebro. E na heurística de ancoragem, os indivíduos tomam como verdade somente parte das informações recebidas, tornando-as valores de referência e as ajustando para realizar estimativas e tomar decisões. Incorrem em vieses de intuições que superestimam ou subestimam estados, e falácias sobre a construção de cenários e as estimativas para seus resultados, análise que particulariza os desafios de empreender e inovar das firmas startups.
Observa-se que os contextos histórico-culturais, assim como os hábitos adquiridos por um grupo ou comunidade parecem influenciar o tipo de viés cognitivo que embasa a tomada de decisão e o comportamento humanos. Tal noção sustenta o conceito de efeitos reconstitutivos (HODGSON 2002, 2006), para o qual as leis ou forças sociais podem revogar os princípios que regem o funcionamento da atividade humana ao nível do indivíduo. De acordo com Hodgson (2003), as forças sociais ao mesmo tempo que influenciam, não controlam as preferências e propósitos individuais, pois as mudanças decorrem da capacidade de aprendizado e dos vieses desses indivíduos. Na perspectiva do referido autor, um sistema, ao conter elementos de nível inferior microeconômico, cria ou reitera condições que, após interagir com o nível superior macroeconômico, gera mudanças em ambos os níveis. Comenta-se que uma sociedade não pode ser compreendida sem seus indivíduos, nem esses existem sem uma realidade social (HODGSON, 1997, p. 7). Portanto, explicações que reduzem o “todo” em partes ou que determinam as partes pelo “todo” não auxiliam nas análises de
realidades complexas a partir da lógica cognitiva social e dos modelos mentais compartilhados.
Constatam-se, adicionalmente, propriedades emergentes na relação entre as instituições presentes nos níveis micro e macroeconômicos. Conforme Hodgson (1997), tais propriedades emergentes apresentam as seguintes características:
a) podem ser descritas a partir dos conceitos de nível agregado ou macro; b) persistem por um determinado período de tempo, geralmente mais extenso
do que o requerido para as interações que ocorrem no nível microeconômico; e
c) não são explicados exclusivamente em termos das propriedades do nível microeconômico, mas dos seus elementos e relações com o nível macroeconômico.
O autor considera que esses movimentos dinâmicos são imprevisíveis e cruciais para o entendimento de processos de evolução. Em outras palavras, a realidade consiste em multiníveis, já descritos por Williamson (1985). Para Mayr (1985), novas características imprevisíveis emergem entre os níveis, afetando os componentes dos níveis inferiores, ressaltando o que Hodgson (2006) assume como “downward effects”.
Consequentemente, as percepções subjetivas utilizadas para compreender a realidade a partir da cognição são formadas culturalmente, seja no nível microeconômico dos relacionamentos individuais, seja nas estruturas macroeconômicas, o que sugere um conjunto de influências sobre o empreendedor e a firma startup. North (1994) torna claro que, enquanto as instituições formais são geradas por fatores exógenos aos grupos sociais, definindo-se como as “regras do jogo”, as instituições informais são endógenas, pois representam a expressão dos aspectos cognitivos que moldam os modelos mentais, resgatando elementos do Antigo Institucionalismo de Veblen. Em sua teoria dinâmica das instituições, o autor compreende os processos de mudança através das trajetórias históricas específicas (path dependence), do poder, da cultura, dos modelos mentais, e das formas de aprendizagem e de estratégia, o que denominou cultural learning (ARTHUR; NORTH, 1993). Desse modo, formam-se categorias e conceitos informais que permitem aos indivíduos referenciar e interpretar suas experiências, ampliando o seu compartilhamento. Criam-se as regras e mecanismos formais de enforcement, que direcionam e regulam os comportamentos.
Segundo Arthur e North (1993), um modelo mental pode ser conceitualmente definido por uma previsão realizada por um indivíduo a respeito do ambiente em que
está inserido. Tratam-se de expectativas que podem vir a ser validadas pelo feedback do ambiente, gerando aprendizagem. Nesse sentido, os autores consideram que modelos mentais são constantemente revisados, refinados ou rejeitados. Do ponto de vista do mecanismo de criação de soluções para novos problemas da sociedade, os autores esclarecem que os indivíduos são levados a ser criativos (o que é passível de comparação com o instinto de curiosidade vã de Veblen), pois desenvolvem modelos mentais distintos daqueles que não apresentam sucesso ao explicar uma realidade. Dessa forma, indivíduos de um determinado ambiente sociocultural obtêm aprendizados coletivos ao darem origem a soluções coletivas para problemas que surgem nesse ambiente. Uma obviedade na visão dos autores, pois interpretações comuns de uma realidade constituem-se na explicação para as interações sociais. A longo prazo, modelos mentais compartilhados se formam a partir do sistema de conhecimento e de aprendizagem de grupos ou organizações. Assim, o conhecimento teórico-científico e prático, adquirido com know-how ou por learning by doing ao ser incorporado, é transmitido culturalmente por hábitos, habilidades, atitudes ou instituições (NORTH, 1990, p. 71).
Analisadas como uma construção interna à cognição, vieses, heurísticas e aos modelos mentais, as instituições, seu surgimento, evolução e efeitos são importantes para explicar o comportamento. Numa abordagem cognitiva, então, o autor trata a racionalidade como uma propriedade individual emergente, e não como um padrão, já que são os processos mentais compartilhados que correspondem aos problemas da interação social. Com base nessa discussão, enfatiza que as instituições informais surgem de processos de inovação ou imitação em relação ao tipo de aprendizado de determinados grupos sociais. Para esse último, há uma certa associação do conceito de instituição informal ao efeito emulação vebleniano. Todavia, para North (2005), as instituições informais representam construções internas a uma comunidade. Desse modo, como resultado não intencional de uma ação, indivíduos que respeitam convenções e adotam normas sociais ou regras morais de uma sociedade geram, quando do compartilhamento coletivo, a emergência da ordem social. Instituições formais, contrariamente, podem ser consideradas como um produto do ambiente e, portanto, são representações externas apresentadas aos indivíduos e ao coletivo de uma comunidade.
Por consequência, a performance econômica também está associada aos modelos mentais compartilhados de uma comunidade local ou de uma sociedade. O autor argumenta que, os processos de formação de modelos mentais e de aprendizagem
compartilhada que definem as instituições informais, bem como as regras formais institucionalizadas, fornecem as estruturas de incentivos das atividades inovadoras. Conclui, portanto, que a evolução social e institucional ao longo do tempo pode definir trajetórias que não levem, necessariamente, ao crescimento econômico, haja vista que as histórias de fracasso são mais frequentes do que as de sucesso. E garante que não é possível aplicar estruturas institucionais de um lugar a outro na expectativa de se atingir desempenho semelhante em nível macroeconômico. É preciso que se observem os aspectos cognitivo e institucional informal de construção na esfera microeconômica para que se operem mudanças agregadas.
North (2005) considera, assim, que são esses os elementos que moldam ao longo do tempo a trajetória de desenvolvimento das economias, mas admite a influência da natureza informal das relações e do comportamento a longo prazo (NORTH, 1991), ressaltando o enfoque de Veblen sobre a cultura e instituições, ou hábitos de pensamento generalizados. Assim, as instituições informais são tratadas como a capacidade dos indivíduos em absorver modelos mentais positivos ao desenvolvimento, e as instituições formais são definidas a partir das regras políticas e econômicas, ao criarem um ambiente econômico que regula o ambiente de negócios, as organizações e os indivíduos. Desse modo, Mantzavinos, North e Shariq (2003) explicam que aprendizagem e regras coletivas podem alterar o desempenho econômico. Modelos mentais uma vez generalizados, formando um conjunto de crenças estáveis ao longo do tempo, juntamente ao padrão de regramento formal definido, despertam para importante constatação, qual seja, que toda a mudança se inicia no nível cognitivo, atinge o nível institucional e resulta no nível econômico.
3. 2 CATEGORIAS DE ANÁLISE INSTITUCIONALISTA PARA A CRIAÇÃO DE STARTUPS
As ideias apresentadas nessa seção visam reunir as contribuições das abordagens institucionalistas, de modo a orientar a discussão sobre o empreendedorismo a partir da criação de startups. As categorias de análise institucionalista serão apresentadas sob o aspecto informal e formal de construção, tal como sugere North (1990) ao analisar distintamente a influência das regras formais e informais sobre o desempenho das economias. Porém, as categorias apresentadas estendem-se para além do conceito de instituições, tendo em vista a amplitude do método de análise institucionalista. Esse
contempla as dimensões de processo e mudança e a interação com estrutura e atores, importantes na construção e avaliação da relação entre fenômenos complexos como empreendedorismo e instituições. Os argumentos que reúnem as categorias institucionais reportam-se à discussão da seção anterior desse capítulo, baseada na visão de autores de diferentes abordagens da economia institucional. Ampliam-se, portanto, as perspectivas de avaliação entre empreendedorismo e instituições a ser desenvolvida posteriormente.
A interação entre os ambientes social, político e cultural encontra-se em permanente estado de transformação e de feedback com a ação humana para os adeptos da análise das instituições informais. Assim, a questão cultural é avaliada pelos antigos institucionalistas como a socialização de comportamentos de alguns grupos da sociedade que acabam por impactar a todos os indivíduos através de seus hábitos, experiências e formas de aprendizagem. Numa perspectiva evolucionária, a mudança econômica encontra-se pautada na evolução institucional. Construções culturais moldam os hábitos de pensamento, assim como são pautadas por modelos mentais que dão significado à realidade. Nesse sentido, a natureza dinâmica da ação humana está relacionada culturalmente aos instintos, hábitos e padrões de ações coletivas, refletindo distintas instituições (informais).
Do mesmo modo, os aspectos cognitivos, quando generalizados por modelos mentais que guiam a ação e o comportamento individual, podem ser fontes de explicação institucional, devido a sua natureza informal e endógena na ótica de North (2005). Por essa razão, sugere-se um tipo de racionalidade cultural-institucional na explicação da tomada de decisão e do comportamento dos indivíduos. Para fins de compreensão de oportunidades empreendedoras e da criação das firmas startups, tal constatação parece relevante e complementar à abordagem da racionalidade limitada e procedimental de Simon (1959). Nota-se que essa discussão se inicia na formação do modelo mental do empreendedor, e se estende à criação de startups.
Ao refletirem os padrões culturais e o conhecimento acumulado, as regras ou instituições informais refletem o comportamento e as convenções. Por essa razão, as instituições informais orientam a criação das instituições formais por meio de trajetórias histórico-econômicas dependentes. Em outras palavras, a natureza informal das instituições pode ser fonte de mudança nas instituições formais ao longo do tempo. Desse modo, faz-se necessário categorizar as instituições formais e informais
identificando-as e interpretando-as sob a perspectiva do empreendedor, da firma startup e do ambiente de negócios.