2 APORTES TEÓRICOS PARA A COMPREENSÃO DAS FEIRAS LIVRES
2.3 COMÉRCIO E CONSUMO
2.3.1 Comércio Tradicional e Setor Informal
Muito tem se escrito sobre uma classificação que diferencia o comércio entre o “Tradicional” e o “Moderno”, tal divisão popularizou-se a partir do desabrochar da revolução comercial, com a difusão de novos formatos de estabelecimentos comerciais, técnicas de venda e estratégias de gestão. A conceituação do comércio tradicional dispõe de contornos imprecisos, e seu uso tem sido feito sem que se tenha efetuado uma apurada investigação histórica sobre o termo, mas que começou a ganhar consistência na segunda metade do século XX .
Tal conceituação se associa a pequena dimensão das empresas de caráter familiar; pequena quantidade de mercadorias; relação próxima entre comerciante e consumidor, entre outros fatores.
Em contraponto, segundo Fernandes (2000) et all, os estabelecimentos providos de novos formatos, novas técnicas de venda e gestão que surgiram com a revolução comercial e alteraram a dinâmica comercial existente até então, ganharam a nomenclatura de “modernos”. O mesmo autor propôs alguns atributos que poderíamos utilizar nessa classificação, que estão agrupados no quadro a seguir:
Figura 01 – Quadro das características do comércio tradicional e moderno Atributos do comércio retalhista
Dimensões da análise
Tradicional Moderno
Formatos das lojas
Pequenas lojas generalistas Pequenas lojas especializadas Mercados
Feiras
Grandes armazéns Galerias comerciais
Grandes superfícies de dominante alimentar; supermercados, hiper- mercados, lojas de desconto Grandes superfícies especializadas Centros comerciais Megastores Lojas de conveniência Formas de venda Venda ao balcão
Relação estreita entre comerciante e consumidor Venda ambulante Livre serviço Venda automática Venda a cistância Lojas virtuais Tipo de comerciantes Pequenos retalhistas Comerciantes independentes Pequenas empresas(mono- estabelecimento)
Grandes cadeias de distribuição Sistema de franchising
Redes sucursalistas
Sociedades por quotas e anónimas Estratégias
de gestão das empresas
Predomínio de gestão familiar Estratégias de gestão passivas e reactivas
Ausência de estratégias de crescimento bem definidas
Gestão estratégica (capitalista) Estratégias reactivas e proactivas Procura de economias de escala Redução dos custos
Diversificação dos formatos Diferenciação da oferta Conquista de novos mercados Localização;
lugares e princípios
Centro da cidade
Artérias principais da cidade Bairros residências Proximidade (vizinhança) Centralidade Conveniência (proximidade) Periferia Centro da cidade
Grandes artérias urbanas Acessibilidade
Facilidade de estacionamento Conveniência (horários flexíveis) Significado das lojas Espaços de trocas Lugares de compras/abastecimento Espaços mono-funcionais Espaços <mercadoria>
Lugares de experiência de consumo Espaços de <síntese>
Fonte: Fernandes, et all, 2000.
Evidentemente, não podemos obedecer rigidamente essas diferenciações na medida em que nos deparamos com as formas comerciais presentes nas nossas cidades. O próprio Fernandes afirma que no quadro, se vê uma oposição estilística entre o moderno e tradicional, como se fossem antônimos, mas que na verdade, quando se analisa a realidade, tal oposição
nem sempre é nítida. Isso acontece devido a alta complexidade real, que talvez possam nos levar a encontrar casos de autêntica reversibilidade.
Diante desses aspectos, uma parcela significativa dos comércios tradicionais – incluindo nosso objeto de estudo - estaria inserido no que se denominou de setor informal. Sobre tal tema foram desenvolvidos numerosos estudos sobre a economia urbana do Nordeste brasileiro, patrocinados pela Superintendência o Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE e pela Fundação Joaquim Nabuco (BARROS, 1987). Tal setor, com alta capacidade de absorção de trabalho, se apresentaria como uma alternativa para mitigar as dificuldades de sobrevivência de uma parcela considerável da sociedade.
No início dos anos 1970, a Organização Internacional do Trabalho – OIT, publicou os estudos pioneiros sobre o denominado setor informal da economia urbana, descrito como um fenômeno típico de países subdesenvolvidos, nos quais o avanço das relações mercantis modernas não havia sido capaz de incorporar significativa parcela da população trabalhadora no padrão de emprego capitalista, suscitando o aparecimento de outras estratégias de sobrevivência (OIT, 1972).
A Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal), teve influência no norteamento desses estudos, a partir da constatação de que o crescimento econômico da época não vinha sendo suficiente, nos países subdesenvolvidos, para melhorar as condições sociais das camadas populacionais que continuavam vivendo em condições de pobreza absoluta e marginalidade social.
O Setor Informal, nessa conjuntura, era visto como uma porta de entrada ao mercado de trabalho urbano. Podendo ter sido, um recurso de acesso à atividade econômica urbana para a população que migrava dos campos, num contexto de êxodo rural.
Esses estudos, assim como a política de emprego com base no setor informal, se disseminaram na década de 1970, quando houve declínio na estratégia político-econômica que se baseava no amplo endividamento externo e interno para financiamento das inversões privadas e expansão estatal.
A partir da década de 1990, a discussão em torno desta temática ganhou novos contornos, contando com um contexto de profundas mudanças econômicas e no mercado de trabalho. Vale ressaltar que atualmente, apesar da recuperação do emprego com vínculo formalizado na última década, ainda permanece uma enorme heterogeneidade no mercado de trabalho e o denominado setor informal permanece exercendo função vital na rede urbana brasileira.
Acreditamos que com o crescimento urbano que se consolidou no Brasil ao longo do século XX, as feiras livres, além da função essencial de centro de compras e abastecimento que exercem para a população local, contribuíram também na geração de trabalho e renda para pessoas que não se inseriram no setor formal da economia e que identificaram no comércio popular uma alternativa para sobrevivência.
Verificar as atuais conjunturas que se inserem o comércio tradicional e informal das feiras livres, além de sua importância regional para populações urbanas e rurais torna-se pertinente à nossa pesquisa, focando em uma análise com características socioeconômicas e populacionais.