4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.2 Entrevistas
4.2.2 Com empresas licitantes
Outra sugestão refere-se ao ComprasNet. Os entrevistados acreditam que o governo deve investir mais no sistema e, também, repartir a sua administração, para que o mesmo possa evoluir.
Seguem as ilustrações de falas a respeito do assunto:
• E1: “No sistema, no ComprasNet, o governo tinha que investir muito, muito mais.”
• E2: “Esse sistema tem que ser tirado do executivo. Ele tem que ser administrado por uma entidade com a co-participação dos três Poderes, de modo que todos possam dar sua contribuição, colaboração, participar.”
A seguir, serão apresentadas e descritas as categorias criadas a partir das entrevistas com as empresas licitantes.
Vantagens do Pregão Eletrônico Categoria Descrição Ilustração de Falas
Redução do custo unitário dos produtos adquiridos
Redução do custo unitário dos
produtos adquiridos pelo
órgão nas licitações realizadas por meio do pregão
eletrônico.
E4: “O pregão eletrônico fez com que a gente vendesse bem mais barato. (...) A gente teve que baixar preços, dar uma alternativa de marca.”
E4: “A gente acaba tendo que vender mais barato. Você não sabe quem está do outro lado. Quando você tava numa sala, você via a cara de todo mundo, você já conhecia. No pregão [eletrônico] você não vê a empresa com que você está brigando. (...) Então acaba que você tem que ir pra ganhar mesmo. A briga ficou mais acirrada.”
Aumento da Concorrência
Ampliação do número de
empresas participantes nas
licitações realizadas por
pregão eletrônico, abrangendo empresas de
todo o país.
E4: “A concorrência aumentou, ficou mais complicado, ficou mais difícil, ficou mais competitivo para as empresas.”
E6: “Todo mundo pode participar. Não importa o estado que você esteja, (...), basta você ter um computador, se cadastrar [no sistema do Governo] que você pode participar do pregão eletrônico. Essa é a primeira grande vantagem. É abrir para o maior número de empresas participarem.”
Quadro 8: Categorias criadas para o tópico Vantagens do Pregão Eletrônico, a partir de entrevistas com empresas licitantes.
As duas vantagens do pregão eletrônico para a Administração Pública citadas pelas empresas licitantes foram: a redução de custos e o aumento da concorrência. Conforme visto anteriormente, esses dois pontos também foram citados pelos servidores do Tribunal e pela literatura sobre o assunto. Para Fernandes (2005, p.196) “os benefícios diretos das compras eletrônicas para os governos incluem a redução de custos, o incremento da competição e do acesso.”
Segundo Neibuhr (2004 apud NUNES; LUCENA; SILVA, 2007, P.238) “a principal vantagem dos recursos de tecnologia da informação é a aproximação das pessoas”.
O Quadro 9 apresenta as categorias criadas a partir das desvantagens do pregão eletrônico. Foram definidas 5 (cinco) categorias: baixa qualidade dos produtos adquiridos, distanciamento do fornecedor, conduta negativa das empresas participantes, falta de técnicos do órgão pública durante as compras por pregão eletrônico e aumento dos custos administrativos do órgão público.
Desvantagens do Pregão Eletrônico Categoria Descrição Ilustração de Falas
Baixa qualidade dos
produtos adquiridos
Redução da qualidade dos
produtos adquiridos por meio do pregão
eletrônico, quando comparado com
produtos adquiridos em outra modalidade
de licitação.
E4: “Em qualidade não ficou bom pro governo. As marcas também deram uma caída. O pessoal [as empresas] que começou a perder começou a botar marcas mais em conta para ganhar. Antigamente, eles [órgão público] tinham uma qualidade melhor de produto.”
E5: “A qualidade dos produtos que eles [órgão público]
recebem é péssima.”
E5: “Depois que fecha tudo, você vai ver que, das 5 empresas que estão na sua frente, nenhuma atende. Mas o órgão público, por pessoas que não foram devidamente treinadas para isso, entende que os produtos daqueles 5 primeiros colocados atendem. Aí, adquirem produtos que com 6 meses de uso, no máximo, estão encostados.”
E6: “A qualidade caiu. Caneta, todo mundo [do governo] quer comprar Bic, mas se compra chinesa. Por quê? Porque se você cotar Bic, você não ganha.”
Distanciamento do fornecedor
Geração de problemas devido
ao aumento da distância física entre o órgão
licitante e as empresas fornecedoras.
E5: “Quando você pega uma empresa que é do Rio Grande do Sul e vai entregar um produto aqui e eles têm um período de 10 dias pra entregar o produto. Esse produto, eles não vão conseguir entregar aqui. Se ele [o órgão] seguir a risca o que está escrito no edital, ele tem que punir essa empresa. Nunca houve uma punição pra uma empresa. (...) Então a empresa demora a entregar o equipamento, às vezes entrega o equipamento sem amostra.”
E5: “O distanciamento [entre o órgão e as empresas] foi um caos.”
Conduta negativa das
empresas participantes
Ações e atitudes inapropriadas das empresas
licitantes envolvidas no
processo licitatório.
E5: “As empresas a nível nacional entram com equipamentos que não atendem ao órgão e com preços inexeqüíveis que acaba banalizando o pregão eletrônico, tornando-o uma coisa nula, havendo a perda do dinheiro, do capital, nosso capital, que é o do órgão público.”
E5: “Eu dou um lance de R$ 1 e depois mando um fax dizendo que digitei errado. Acaba a competição.”
E5: “As empresas não sabem o que estão oferecendo, não sabem o que o órgão quer comprar. (...) Por mais que o sistema peça modelo e marca, as empresas colocam um modelo e uma marca e na hora de entregar elas tentam trocar o modelo e a marca.”
E6: “Entram duas empresas do mesmo grupo [A e B], (...) e tem uma licitação que querem ganhar de qualquer jeito. (...) Então, as duas empresas dão lances. A empresa A lança um preço errado, um preço inexeqüível. A empresa B, como sabe disso, lança um preço pra anunciar a chegada dela. Os outros concorrentes, quando verem o preço da A, falam: não vou lançar preço, vou desistir. Aí, não lançam preço. Como a empresa A vai pedir para tirar a proposta, pois foi lançada errada, e B sabe disso, ela já sabe que vai ficar em segundo lugar e vai ganhar a licitação.”
Falta de técnicos do órgão público
durante as compras por
pregão eletrônico
Ausência nas sessões por pregão eletrônico
de técnicos especializados do órgão público para acompanhar
o processo de compras e os produtos que estão sendo
adquiridos.
E5: “O técnico que era para acompanhar o pregão eletrônico não está presente. (...) Não existe um técnico para verificar aquilo que está sendo oferecido. Diferente de um pregão presencial, onde ali [na sessão] estão o presidente da comissão, seus conselheiros e um técnico que está vendo tudo que está sendo oferecido.”
E5: “O órgão só compra cartucho original da impressora. Não compra outra marca. Então, não adianta a empresa brigar e falar, porque lá mesmo [na sessão do pregão presencial] o técnico já verifica que não é o original da impressora e determina que o órgão não deverá comprar daquela empresa.
(...) O pregão presencial na hora desclassifica. O pregão eletrônico nunca desclassifica.”
E6: “No pregão presencial, antes de abrir [o envelope], antes de verificar preço, ele [técnico do governo] vê se o material que foi orçado atende às exigências do edital. (...) Têm vezes que ele pede amostra. (...) Não levou amostra antes do pregão, a amostra foi reprovada, não atendeu, então a empresa está fora. (...) O técnico está presente na sessão, ele desclassifica.”
Aumento dos custos administrativos
do órgão público
Ampliação dos custos administrativos do órgão público
devido à necessidade de
repetição dos processos licitatórios realizados por meio do pregão
eletrônico.
E5: “Há um gasto muito grande de recursos, porque eles gastam pra fazer o processo, eles gastam pra dar continuidade no processo na hora do pregão eletrônico e depois eles vão gastar de novo pra comprar os mesmos equipamentos.”
E5: “Redução de custos não existe. Se uma hora alguém parar e colocar na ponta do lápis, vai ver que não houve redução. Houve um acréscimo nos custos operacionais.”
E6: “O Governo compra mal. (...) Com o pregão eletrônico, as empresas pegam a especificação [do produto discriminado no edital] e colam. (...) Então, normalmente, têm muitas licitações eletrônicas que fracassam devido a isso. Os custos de uma licitação fracassada (...) são muito altos. Existem muitas licitações eletrônicas fracassadas devido a empresas que cotam errado.”
Quadro 9: Categorias criadas para o tópico Desvantagens do Pregão Eletrônico, a partir de entrevistas com empresas licitantes.
As categorias “distanciamento do fornecedor” e “conduta negativa das empresas participantes” apareceram novamente como desvantagem do pregão eletrônico, dessa vez, apontadas pelos próprios fornecedores.
As empresas licitantes apontaram 3 (três) desvantagens do pregão eletrônico não citadas pelo órgão público: baixa qualidade dos produtos adquiridos, falta de um técnico do órgão durante as sessões realizadas via pregão eletrônico e aumento dos custos do órgão público. A redução dos preços, a ausência de técnicos que acompanhem as sessões e o distanciamento entre o órgão e as empresas fornecedoras são fatores que estão diretamente relacionados e geram, como resultado desse relacionamento, a diminuição da qualidade dos produtos.
Para conseguir reduzir os preços dos produtos e ganhar a licitação, as empresas estão substituindo as marcas, ou seja, estão oferecendo produtos com marcas de qualidade inferior e preços mais baixos. Um exemplo citado por uma empresa entrevistada foi o da caneta BIC, que vem sendo substituída por canetas chinesas que apresentam a mesma especificação da BIC, mas possuem qualidade inferior. Como não existem técnicos disponíveis durante a sessão do pregão eletrônico para analisar os produtos que estão sendo oferecidos e desclassificar aqueles que apresentem características inferiores àquelas pré-estabelecidas, os órgãos estão adquirindo produtos de baixa qualidade, afinal, eles estão em conformidade com as especificações feitas pela instituição pública. Essa ausência pode ser caracterizada como um dos fatores responsáveis pela diminuição da qualidade dos produtos.
Outro fator responsável pode ser a distância entre o órgão e os fornecedores. No pregão presencial, o técnico do órgão está presente nas sessões e pode solicitar informações sobre os produtos oferecidos, pode analisar os folders dos produtos, algumas instituições públicas até pedem amostras dos produtos, por exemplo. Nunes, Lucena e Silva (2007, p.238) apontam como vantagem do pregão presencial a possibilidade de conhecer melhor as características do produto, de analisar amostras, e isso é “considerado importante para conferência de qualidade, uma vez que possibilita o exame do objeto a ser adquirido, possibilitando ainda o contato oral para esclarecimento de quaisquer dúvidas.” No pregão eletrônico, a situação se complica, pois não existe um técnico que participe da sessão, nem existe o contato oral com os concorrentes, fato que exclui a possibilidade de conhecer melhor o produto, de analisar os folders dos materiais oferecidos.
Segundo Taylor (1999 apud FERNANDES, 2005), um dos benefícios das compras eletrônicas para o governo é a redução dos custos administrativos.
Entretanto, as empresas licitantes têm opinião diferente do autor. Para elas, as compras realizadas por pregão eletrônico aumentaram os custos administrativos da Administração Pública. Esse aumento se deve à grande quantidade de licitações fracassadas e, em conseqüência, à necessidade de repetição dos procedimentos licitatórios realizados por meio eletrônico. Os entrevistados disseram que em muitos processos de compras via pregão eletrônico o órgão não consegue comprar o produto que deseja e tem que repetir os procedimentos, elevando seus custos.
Em relação à avaliação do sistema CompraNet pelas empresas licitantes, foi criada uma categoria: pontos negativos. Diferentemente dos servidores do TST, as empresas licitantes não apontaram aspectos positivos do sistema.
Sistema ComprasNet Categoria Definição Ilustração de falas
Pontos Negativos
Características desfavoráveis do
sistema.
E4: “Essa semana que acabou a energia, caiu [o sistema]. Aí pronto. Na hora que volta quem está na frente ganha. Mesmo você tendo condições de baixar o preço, você não baixa, não consegue. Aí já não tem mais condições.”
E5: “Isso é uma coisa normal [perder vendas por falha do sistema]. Inclusive, existe uma brincadeira que a gente fala:
isso aí está armado. Porque no ato do encerramento ele começa a travar, você não consegue dar lance. (...) É sorte.”
E6: ”Muito falho. Cai, trava. Às vezes você que dar um lance ele trava, às vezes sai do ar e você não consegue lançar uma proposta. (...) Às vezes, você dá um lance e trava naquele momento e você perde uma licitação por causa de um centavo.”
Quadro 10: Categorias criadas para o tópico Sistema ComprasNet, a partir de entrevistas com empresas licitantes.
Uma crítica comum ao sistema feita pelas empresas foi em relação à infra-estrutura tecnológica. Quando o sistema fica indisponível e depois retorna, as empresas disseram que não conseguem voltar a participar da etapa de lances, mesmo que essa ainda esteja acontecendo e mesmo que elas tenham lances inferiores a oferecer. Todas relataram que já deixaram de vencer uma licitação por causa de defeitos do sistema.
Das entrevistas com as empresas licitantes, uma sugestão feita foi em relação à padronização do processo de compras governamentais via pregão eletrônico. Segundo um entrevistado, não há uma uniformização nos procedimentos licitatórios adotados pela Administração Pública. Essa sugestão implica, diretamente, numa outra: a necessidade de treinar e capacitar os pregoeiros.
Segue o que foi exposto sobre esses assuntos:
• E6: “Treinar os pregoeiros para que todos trabalhassem de forma uniforme.
Então, por exemplo, o que é certo num órgão não é no outro. (...) Então cada um age de uma forma diferente.”
• E5: “Depois que fecha tudo, você vai ver que, das 5 empresas que estão na sua frente, nenhuma atende. Mas o órgão público, por pessoas que não foram devidamente treinadas pra isso, ele dá a entender que os produtos
daqueles 5 primeiros colocados atendem. Aí, adquirem produtos que com 6 meses de uso, no máximo, estão encostados.”