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Com um ambulante

No documento Simbolismo do Morro do careca (páginas 147-151)

Entrevista de Lisandra Mayra Teixeira Silva O Morro já representou muita coisa boa né e hoje

não representa mais porque a gente não pode subir

Gostaria que o senhor se apresentasse.

Gilberto – Me chamo Gilberto Cardoso do Nascimento, tenho 58

anos, sou nativo daqui de Ponta Negra, nasci na praia mesmo, conheço toda a história do Morro, tudo o que você me perguntar eu respondo.

O senhor poderia começar da sua trajetória e o que o morro representou e representa para você desde a sua infância. Gilberto – O Morro já representou muita coisa boa né e hoje não

representa mais porque a gente não pode subir mais o Morro. Muita gente é doida para subir o Morro e hoje não pode mais, mas antigamente todo mundo subia e nunca teve problema. Agora que o governo, de uns 15 anos atrás, depois que proibiu o pessoal de subir aí ninguém sobe mais, é por isso que acon- tece as coisas que está acontecendo aí porque não liberaram o Morro pra subir, porque o intuito que você subia o Morro subia e descia, a areia descia e circulava, né, hoje a areia não circula, hoje a areia lá em cima do Morro.

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Mas atrapalhou de alguma forma na sua profissão?

Gilberto –Atrapalhou, atrapalhou porque antes a gente podia

subir o Morro, hoje tomou conta... A Barreira tomou conta de tudo, a Barreira do Inferno é um órgão que acabou com a gente.

O que é a Barreira do Inferno?

Gilberto – A Barreira do Inferno é a coisa dali da Aeronáutica,

tem uma área do Morro para lá que você não pode mais subir que é proibido deles. Eles têm uma área aqui que vai para Pium, que tem umas coisas do avião ali do... é da Barreira, aqui você não pode pescar para o outro lado, não pode fazer nada que eles proibiram.

E como era antigamente?

Gilberto – Antigamente era aberto, todo mundo andava, era

livre, hoje não é, hoje eles alegam roubo, roubo tem em todo canto, né, mas mesmo assim hoje a pessoa não pode mais ir pescar lá, não pode mais caminhar, não pode mais fazer nada porque a Barreira tomou conta de tudo.

E tem alguma área aqui por dentro da vila que dá acesso até lá?

Gilberto – Tem! E hoje eles botaram uma cerca, agora lá que

não passa nada, uma cerca que nem um cachorro passa. Então eles cercaram tudo, antigamente, uns 20 anos atrás, uns 30 anos atrás, era uma coisa que você subia o Morro e descia, você corria de tauba, você ia pegar uma fruta lá porque tem muita fruta, tem pitomba, tem cajueiro tem caju, tem tudo, hoje você não

Lisandra Mayra Teixeira Silva | Kelvis Leandro do Nascimento

pode mais usar aquela área porque é uma área militar e eles tomaram tudo. Então até roçado meu pai tinha lá, plantava umas coisas lá como macaxeira, jerimum, melancia, isso era uma produção que dava era uma renda que a gente tinha, porque aqui antigamente não tinha emprego, você tinha que viver da pesca. Esses dias chegou um pessoal de São Paulo para vender aqui, pra vender camisa, vender roupa de banho, tudo aí porque vendem, porque aqui é um lugar que vende. Ponta Negra não falta gente não, até o carnaval, Ponta Negra tá lotado eu garanto a você, os hotéis até o carnaval tá lotado.

Quem vem de fora tem facilidade para trabalhar aqui? Gilberto – É, porque você tem que ter um lugar pra ficar, uma

casa pra morar ou alugar uma casa, você vai estabilizar onde seu comércio? Então é a praia que resolve tudo, muita gente quando vem já vem com carrinho, porque com o carrinho ele bota suas coisas em cima do carrinho e sai por aí vendendo, entendeu? Aqui tem muita gente da Paraíba vendendo aquelas saidazinha de praia e vende a R$ 10,00, me diz por quanto é que eles compram lá na Paraíba isso aí? Eles compram na faixa de R$ 4,00 ou R$ 5,00 e vende muito que o pessoal compra. Aí, aqui o cara aqui vende crepe, vende cachorro quente, vende churrasco, churrasco de frango, carne, camarão, peixe, tudo vende; se tem uma coisa que rende o dinheiro se chama Praia de Ponta Negra. Você vai ver como é que é, é uma coisa que PontaNegra faz que não tem outra igual; não tem a Praia do Meio, Praia dos Artistas, Praia do Forte, não tem nenhuma. Você pode chegar qualquer hora que Ponta Negra tem gente.

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É o Forte, né?

Gilberto – É o Forte, o turismo daqui se chama Ponta Negra, se

não existisse Ponta Negra aqui era um bairro derrubado. Aqui não tem uma indústria, não tem onde você ganhar dinheiro a não ser pela praia. Você vai ganhar dinheiro aqui em quê? Em nada! A não ser um supermercado e você vai trabalhar no supermercado, entendeu? Aqui não tem. Aqui tem, digamos, uma casa de família pra uma mulher trabalhar lá naquela casa e pronto, mas não tem uma coisa pra você ganhar dinheiro a não ser pela praia.

Houve uma mudança também da rotina dos moradores e dos trabalhadores com o bloqueio do acesso ao morro? Gilberto – A história do morro é isso que eu tô falando, né?

Antigamente você podia subir, você brincava e hoje você não pode, então o morro acabou aí já, aí o morro nem tem muita história.

É o cartão-postal daqui de natal, mas...

Gilberto –É o cartão-postal nem brasileiro, mas todo o estran-

geiro que chega O MORRO DO CARECA, porque não tem outra coisa a não ser o morro, o morro é o cartão-postal de Ponta Negra.

E quanto às mudanças da paisagem?

Gilberto –Teve muita mudança, mudou muita coisa porque

o turismo caiu muito quando fechou o Morro. Agora que se levantou de novo, mas caiu muito o turismo por causa do Morro,

Lisandra Mayra Teixeira Silva | Kelvis Leandro do Nascimento

o Morro fechado e agora que eles estão lá, vão fazer umas coisas que não vão nem mais chegar perto dele.

O que é que vão fazer?

Gilberto – Eles vão fechar lá não sei o quê, vão colocar uma

guarita eles mesmo lá. Você foi até o pé do morro? Então, aquelas coisas que estão lá eles vão fazer não sei o quê... Já ouvi falar que vão arrodear de pedra pra ninguém subir mais, porque tem alguém que ainda sobe, o cara vem e bota pra fora, bate nos caras.

Eu vi uma reportagem de pessoas subindo, mas não tinha

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