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Comando, condução e liderança .............................................................................................................................1 92

CAPÍTULO 6 - A AUTORIDADE DE JUAN DOMINGO PERÓN

1) Comando, condução e liderança .............................................................................................................................1 92

Pela transposição do meio castrense ao civil, a exemplaridade física e psicológica de Perón não repercutiria apenas em seu domínio sobre si e sobre os soldados, mas também sobre a população civil. Por essa via, Pavón Pereyra sintoniza com a discursividade peronista ao defender o caráter imutável da personalidade que influenciaria nas duas esferas de atuação do general e presidente Perón:

Resulta una labor harto difícil disociar las dos vertientes que informan la polifacética personalidad de Perón y que inciden, por igual, en la configuración de su fisionomía humana: La civil y la castrense. (PAVÓN PEREYRA, 1950: 129)

El espíritu civil que predomina en Perón posee facetas excepcionales. Enfocamos sucesivamente al estadista, al tribuno, al gobernante popular, el hombre público, en una palabra, después de observar al personaje hasta en sus mínimas actitudes. Nos atreveríamos a calificarlo como el más civil de los militares y, por contraste, el más militar de los civiles. En la definida personalidad de nuestro Presidente, es poco menos que desconocida e inédita su íntima naturaleza anímica en la que resuena, a

través de voces pluriformes, un eco sostenido, perenne, una nota de ancestral universalidad. (1950: 67-68)

por aparecer aliadas, las dos vertientes que conforman su personalidad, esta labor de análisis tornase aún más dificultosa. Ambas corrientes, lo civil y lo castrense, se presentan simultáneas y con gran vigor en su mente. (1950: 134)

Por tais vias, a personalidade de Perón operou entre uma liderança que o acompanhou quando saiu da esfera castrense para adentrar na civil. Nesse mesmo movimento carregou os próprios saberes psicológicos e valorações de gênero constituídos nas práticas militares. Em suma, pela transposição do corpo do general ao do presidente também foram carregadas as teorias psicossociologicas e as metáforas de gênero que permitiram com que se firmassem os pressupostos para uma teoria da liderança, do comando e do governo das condutas e do povo.

Nessa perspectiva, a personalidade de Perón foi definida como:

el alma de la compañía y el único que se ha sabido cumplir las instrucciones de sus superiores. Vive para su compañía. Es sincero y leal […] Es un oficial de condiciones sobresalientes como conductor. Es superior y verdadero maestro de su tropa, bajo los tres puntos de vista: físico, moral e intelectual. La influencia que ejercía sobre los aspirantes llevaba igualmente el sello inconfundible de su personalidad (PAVÓN PEREYRA, 1952: 81).

Segundo a lógica dos saberes psi, ao possuir distintas qualidades de personalidade (físicas, morais e intelectuais), Perón seria exemplar mandatário e sobressaliente condutor.

Com relação a isso, Pavón Pereyra comenta sobre as teorías do general francês “Andre Gavet, que aún se lee en las filas de nuestro Ejército, y que ha contribuido como pocos libros a delinear la personalidad moral de muchas generaciones de soldados” (1952: 97) tal como a do próprio presidente. Em suma, aproveitando das transposições autorizadas pelas artes de governar, a personalidade de Perón permitiria com que as teorias psicológicas do comando, tais como fundamentadas no exército, fossem reaproveitadas em seu exercício como líder da nação, de forma que estariam alinhadas as duas técnicas de mando, compreendidas enquanto conduções. Nesse sentido, Pavón Pereyra atesta a consolidação da personalidade de Perón em relação direta ao seu manual Moral Militar (1925):

pónese en evidencia aquí una cabal unidad interpretativa, a través de la que no resulta excesivo adivinar una personalidad ya definitivamente elaborada.

Recomendamos, en abono de esa aseveración, la lectura del Capítulo “E” [del manual Moral Militar] donde se desarrollan opiniones atinentes a la educación estratégica y los referentes a la preparación al Comando, que contiene una profunda y actual significación (PAVÓN PEREYRA, 1950: 79).

Dessa forma, é demarcada a profunda e atual significação do conjunto de regras sobre o comando militar lançadas por Perón na década de 1920 que, como vimos, conceituavam a moral como a mais alta expressão da masculinidade: “La educación moral exalta las condiciones del hombre, estimula la virilidad, forma un espíritu superior y respetable, y adorna al cuerpo y a la inteligencia con las más hermosas conquistas: las virtudes”. (PERÓN, 1925: 10). Tais virtudes varonis derivam uma concepção de condução que é ampliada na política nacional, tal como descrito pelo aprendizado do biógrafo frente às escrituras do líder:

a través de sus páginas [de Perón] pudo observar las acciones de los Grandes Capitanes, empaparse y compenetrarse de la ley de los conductores [militares], que después aplicaría al campo político. En su premisa de hacer el bien sin egoísmos se adivina la envergadura de aquellos grandes conductores capaces de hacerse adorar por la masa (PAVÓN PEREYRA, 1952: 112).

É por essa continuidade entre um mando militar e político que o biógrafo cita o presidente quando, modestamente, afirmava que: “No entiendo mucho de política pero entiendo bastante de comandos” (PERÓN Apud PAVÓN PEREYRA, 1952: 226). Dessa forma, a liderança de Perón se daria justamente por ser grande comandante militar que equipara suas técnicas à condução das massas: “‘Ese ha sido mi oficio durante toda la vida:

dirigir hombres. Yo daré las directivas generales y movilizaré a la ciudadanía que está aguardando la voz de un conductor para hacerse presente’” (PERÓN Apud PAVÓN PEREYRA, 1952: 227). Segundo o biógrafo, essa sabedoria e conhecimento acerca dos comandos e das maneiras mais efetivas de se fazer obedecido foram aprendidos por Perón nas instituições de elite militar, tais como a Escuela de Suboficiales, que

agrupaba la flor y nata de la oficialidad de todas las armas; […] hombres que hacían escuela de honor y que tenían el altruismo como virtud esencial. Entre aquella pléyade de varones daba Perón su nota de excepción y a fe que debía tener calidades lo suficientemente nítidas como para poder distinguirse entre sus iguales. […]

Arrastraba, seducía a los suyos, con su entusiasmo contagioso, donde la voluntad parecía responderle hasta límites inconcebibles. ‘La voluntad es el único motor ante la cual hasta las enfermedades confiesan su impotencia’, remarcaba a menudo.

‘Quiero hombres de voluntad decidida y no autómatas’ (1952, 83).

Nesse espaço competitivo, aglutinador da nata do oficialato argentino, Perón haveria de demonstrar que suas qualidades o fariam superior a qualquer outro mandatário. São justamente tais qualidades de liderança que seduziam aos demais, pelo entusiasmo contagiante e sugestionador, por meio de uma vontade ilimitada que seria demandada também de seus parceiros e subordinados. Tais qualidades que Perón desenvolve na academia militar

fizeram dele o maior conhecedor das artes de governar e de conduzir aos demais, definindo-se o conceito de comando a partir das próprias palavras do líder:

Que entiendo yo por conductor […] Conductor proviene del latín “conductor”, y el término sustantivo viene a significar “el que guía, el que dirige”; otros, en cambio, lo hacen derivar de “conducta” del latín (“conducta”, conducida, guiada) en su acepción de gobierno, mando dirección. (PERÓN Apud PAVÓN PEREYRA, 1950:

169)

Note-se a etimologia atribuída à Perón o conceito de condução é compreendido enquanto direção da conduta dos outros, em articulação direta com as ideias de governo e mando. Essa é a mesma formulação já usada por Le Bon e demais psicólogos sociais da virada do século XIX para o XX, especialmente quando afirmavam que a missão do líder haveria de ser conduzir as condutas individuais para assim alcançar o pastoreio das massas em sua (in)consciência. Tal discursividade também está presente no discurso peronista: “‘El conocimiento del espíritu humano es el que manda’… ‘El mando se ejecuta sobre el espíritu del hombre; ese es el efectivo, el verdadero mando’” (PERÓN, Apud PAVÓN PEREYRA, 1950: 82)”. Essa concepção de comando é atrelada à ideia de governo enquanto atualização das antigas artes de governar condutas instrumentalizadas pelos modernos saberes psi. Tal influência é afirmada pelo próprio Perón e replicada por seu biógrafo:

Se habrán podido escribir grandes obras sobre gobierno, pero sus autores fueron teóricos de gabinete. Quien escribió "La psicología de las multitudes", Le Bon, fue indudablemente un gran psicólogo, pero no fue un conductor de masas. Para ser Conductor no es suficiente comprender; ni la reflexión ni el raciocinio permiten conducir las masas; Las masas se conducen con intuición. […] El caudillo triunfa en el mando o en el llano, porque su reino no es de la materia sino del espíritu.

“gobierno más que el rey - decía un célebre caudillo francés - porque mando sobre las almas" (PERÓN Apud, PAVÓN PEREYRA, 1950: 174)

Nessa célebre passagem – citada na biografia de 1950, repetida na de 1952 e ecoada nos demais tratados que estudaram a personalidade do líder (GARCÍA, 1948) – Perón demonstra conhecimento da obra de Le Bon em sua teorização, embora o critique por falta de conhecimento prático. Pela ideia de governar as massas com intuição, o comando é posto não como um elemento racional, mas antes sentimental, justamente porque as massas são qualificadas como irracionais e irreflexivas. Para que tal comando fosse efetivo, seria necessário o domínio das almas, das crenças, do espírito, isso lhe faria governar mais que o rei, tal como afirmara o célebre caudilho francês Napoleão Bonaparte.

Ao contrário de Vargas ou de qualquer outro de seus colegas classificados como populistas, Perón discorre e teoriza sobre a própria liderança, comando e governo. Não é por

acaso que nas suas biografias muitas citações de Perón são centrais para a fundamentação política, já que tais assertivas servem tanto para a consolidação de sua personalidade enquanto líder quanto para reafirmar a ciência da liderança que sustenta todo o esquema conceitual em questão. Por todas as vias, Perón foi comandante e intelectual a pesquisar, ele próprio, sobre o comando, a liderança e o governo, aplicando tais conhecimentos na prática de seu próprio governo sobre “as almas”.

2) Conducción Política: Artes de comandar as massas

Para compreendermos mais aprofundadamente as intencionalidades que estão em jogo nessas biografias, devemos analisar a teoria da condução política tal como formalizada e difundida pelo próprio Perón, que pretendia definir as rotas estratégicas da doutrina peronista por ele formulada. Nesse sentido, os ideais hierárquicos de gênero, as teorias psicológicas sobre a sociedade, as biografias e as formulações peronistas sobre a condução eram dialógicas e intertextuais, trocando informações que compunham uma completa teoria sobre o comando das multidões argentinas, verdadeira arte de governo e estratégia de Estado a ser aplicada na experiência política nacional das décadas de 1940 e 1950.

Existem algumas obras da autoria de Perón que são consideradas elementares na definição de uma noção de liderança peronista, compreendendo o termo liderança como uma relação não apenas impositiva, mas antes afetiva, ética e política travada no entremeio da condução do líder e da obediência dos governados. Uma das principais obras a esse respeito é Conducción Política113(1951), na qual o reeleito presidente e general Perón apresenta uma compilação dos principais preceitos e metodologias destinados ao manejo coletivo. A relevância política desse escrito não pode ser menosprezada, tendo em vista ter sido um livro bastante editado, publicado, propagandeado e distribuído pelo já consolidado regime. A preocupação em promover a leitura, compreensão e interesse pelos conceitos de condução e liderança a partir das canônicas palavras do líder pode ser constatada na revista Mundo Peronista – um dos principais meios de propaganda impressa do governo – que referiu-se à Conducción Política da seguinte forma:

113 No ano de 1952 a obra foi reeditada e publicada em formato de livro pela gráfica da revista Mundo Peronista.

A composição se deu pela transcrição de seis aulas por ele ministradas à Escuela Superior Peronista, que é apresentada na epígrafe da reedição do referido livro da seguinte forma: “La Escuela Superior Peronista fue inaugurada el 1º de marzo de 1951 y, en la calle San Martín 655, se impartían fundamentalmente conocimientos sobre tres temas: el Movimiento Peronista, su historia, su sistema de organización y sus realizaciones; el Justicialismo como doctrina política, económica y social y, por último, como eje central de todas las clases, las normas de Conducción y Ética (PERÓN, 2006: 06).

Todo Perón está presente en este libro, que será “su Libro”, por antonomasia.

Quintaesencia de su pensamiento capital, libro orgánico, el espíritu que informa las páginas de “Conducción Política” podría ser seguido hasta por el entendimiento de un niño. [...] Aunque Perón adoctrina permanentemente con hechos, muy pocas veces se ha detenido a explicar su doctrina en forma integral y orgánica. Esta es una de esas pocas veces. Sin la coyuntura ofrecida por la Escuela Superior Peronista difícilmente hubiéramos escuchado su verbo tan depurado de concesiones o con tan pocas digresiones a todo lo que no sea pura y decantada filosofía de la acción. Un índice temático orienta y guía la lectura de esta verdadera “Biblia del Peronismo”

(MUNDO PERONISTA, 1952: 43).

É verdade que Conducción Política é uma das mais claras formulações doutrinárias e teóricas lançadas por Perón, e essa bíblia apresenta não apenas as formulações ético-morais do comando e da liderança pronunciada pelo verbo quase sagrado do líder. Muitas enunciações fazem coro ao processo de transmutação de valores castrenses às esferas civis, já que expressa uma completa metodologia de governo de indivíduos e multidões a partir das ideias de condução e organização. É no sentido de resgatar suas formulações previamente dispostas nas teorizações militares que Perón comenta sobre seu próprio escrito juvenil Moral Militar (1925):

Hay varios trabajos míos sobre el conductor y un librito mío que habla muchos sobre la conducción. Es de carácter militar, pero es aplicable a la política. Las condiciones del conductor en la política son más o menos las mismas que se requieren para la técnica de la conducción [militar] (PERÓN, 1951: 130).

Dada essa conexão intrínseca entre as categorias e técnicas de condução de condutas em escala ampla, Perón reatualiza sua discussão moral-militar para aplicá-la no campo político civil, definindo a peça fundamental que rege a ordem e a própria condução de todos esses elementos aparentemente dispersos: o líder enquanto condutor de massas. Segundo a pragmática peroniana, esse homem ocupa o posto fundamental na escala hierárquica de poderes porque fundamenta e unifica todo o exercício de condução, inspirando autoridade a partir da obediência, lealdade e disciplina. Nesse sentido a (auto)imagem do conductor é talhada por Perón com bastante vagar e detalhamento.

Com o claro objetivo de conceituar e demandar uma imagem de líder ideal, fundado em sua própria imagem, Perón se inspira nas definições psicológicas sobre a vontade como força motriz da liderança: “el conductor, o el presidente, no se somete a voluntad alguna […]

hace primar su voluntad” (1951: 26). Por meio dessa determinação quase absolutista, o condutor é definido como aquele que arregimenta aos demais, lhes dá sentido e orientação àqueles que carecem de qualidades de personalidade tais como a vontade: “Esa acción directa

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