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4 AVALIAÇÃO FONOLÓGICA DA LIBRAS: FONOLIBRAS

4.3 COMO FOI CONSTITUÍDO E UTILIZADO O FONOLIBRAS

A seguir será apresentado o caminho metodológico que utilizamos para a confecção do instrumento denominado FONOLIBRAS.

4.3.1 1º Passo: coleta de dados

O primeiro passo que seguimos, após a elaboração do instrumento, que será posteriormente apresentado, foi apresentar as imagens do instrumental à criança em apresentação no computador, sendo que cada figura foi exibida individualmente em modo tela cheia. A partir daí, a criança foi estimulada a enunciar o sinal de cada figura à medida em que as mesmas iam sendo apresentadas. Quando a criança não enunciava o sinal, durante o momento da apresentação da figura, foi facultado ao avaliador proferir o questionamento:

“essa figura, o que é?” (em Libras – ISS@ / QUE-É [ENM interrogativa]). A coleta de dados da linguagem é de suma importância, considerando que:

As amostras de linguagem nos proporciona uma descrição muito clara da linguagem que a criança utiliza normalmente e nos permite, uma vez transcrita, realizar a análise pormenorizada de todas as dimensões e processos da linguagem da criança (ACOSTA et al., 2003, p. 24).

No quadro abaixo, estão dispostas as cinquenta figuras que foram selecionadas para o instrumental. No quadro, há ainda a indicação da respectiva classe semântica, o vocábulo em LP e o respectivo vocábulo na escrita da língua de sinais (SW). No que tange aos critérios de seleção das imagens, é pertinente destacar que: (1) foram considerados tanto os sinais com formas monomórficas (sinais simples com 1-mão, sinais simples com 2-mãos e sinais lexicalizados) quanto os sinais com formas polimórficas (nomes derivados e sinais compostos); (2) as figuras selecionadas contemplam itens lexicais pertinentes ao léxico infantil; e, (3) foram priorizadas imagens coloridas e sem muitos estímulos. Quanto  à questão relativa ao balanceamento fonológico, não foi possível realizá-la nesse estudo, tendo-se em vista que isso demandaria um pouco mais de tempo do que o que fora previsto para a condução dessa pesquisa. Uma vez que todas essas figuras foram extraídas da internet, por meio de consulta por imagem no portal www.google.com.br, utilizando-se das palavras-chave em língua portuguesa e/ou inglesa. Os endereços eletrônicos de cada uma dessas imagens estão descritos no Apêndice C.

É relevante pontuar que, a fim de que se fosse ratificado os nomes previstos às respectivas imagens selecionadas, cinco sujeitos surdos adultos usuários fluentes da Libras foram consultados e corroboraram as pressuposições, para fins de validação do material udado como estímulo. Além da experiência do pesquisador em atendimento fonoaudiológico para surdos, os trabalhos de Karnopp (1994, 1999) e Bento (2010) também contribuíram para a escolha dos itens lexicais desse instrumental, haja vista que os estudos dessas pesquisadoras versaram sobre a aquisição fonológica da Libras.

Figura74 Classe

Semântica Vocábulo (LP) Vocábulo (SW)

1 Frutas ABACAXI

,

                                                                                                               

74 Tendo em vista que as imagens aqui postas foram extraídas da Rede Mundial de Computadores (Internet),

indicamos os endereços eletrônicos das mesma no Apêndice C. Optamos por essa forma de referência, a fim de que os respectivos endereços – alguns muito longos – não poluíssem visualmente o quadro elaborado.

Figura74 Classe

Semântica Vocábulo (LP) Vocábulo (SW)

2 Cores AMARELA

3 Verbos (ação) ANDAR

4 Elementos da Natureza ÁRVORE 5 Brinquedos AVIÃO 6 Cores AZUL

,

7 Frutas BANANA 8 Pessoas BEBÊ 9 Brinquedos BICICLETA 10 Brinquedos BOLA 11 Vestimentas BONÉ

,

12 Brinquedos BONECA

Figura74 Classe

Semântica Vocábulo (LP) Vocábulo (SW)

13 Verbos (ação) (CARRINHO) BRINCAR

14 familiares Objetos CADEIRA

15 Vestimentas CALÇAS 16 Vestimentas CAMISA 17 Brinquedos CARRO 18 Objetos familiares CASA 19 Animais CAVALO

20 Elementos da Natureza CHUVA

21 Verbos (ação) COMER

,

22 Objetos

familiares COMPUTADOR

,

Figura74 Classe

Semântica Vocábulo (LP) Vocábulo (SW)

24 Pessoas CRIANÇAS

25 Elementos da

Natureza FOGO

26 Animais GATO

27 familiares Objetos GELADEIRA

28 Pessoas HOMEM

29 Elementos da Natureza LAGO (ÁGUA)

30 Frutas LARANJA

31 Frutas MAÇÃ

32 Partes do corpo MÃO

33 Pessoas MULHER

Figura74 Classe

Semântica Vocábulo (LP) Vocábulo (SW)

35 Verbos (ação) NADAR

36 Partes do corpo NARIZ

37 Partes do corpo OLHOS

38 Partes do corpo ORELHA

39 Animais PÁSSARO

40 Partes do corpo PÉS

41 Cores ROSA

42 Vestimentas SANDÁLIA / CHINELO

43 Vestimentas SAPATO

44 Animais TARTARUGA

Figura74 Classe

Semântica Vocábulo (LP) Vocábulo (SW)

46 Frutas UVA

47 Animais VACA

48 Pessoas VELHO

49 Cores VERDE

50 Cores VERMELHA

Quadro 29 – Ilustrações para coleta de dados do FONOLIBRAS.

Após a coleta de dados, mediante a apresentação das imagens acima para registro em vídeo (com câmera de boa resolução), os dados foram transcritos, conforme descreveremos no próximo passo.

É pertinente relevar que os vocábulos transcritos/escritos em SW referem-se aos sinais utilizados pela comunidade surda de Salvador/BA. Em caso de utilização desse instrumento em outros contextos (outras comunidades surdas do Brasil), sugere-se que seja realizada a adaptação do sinal correspondente à figura, e o avaliador, por seu turno, deve fazer a respectiva alteração do sinal esperado em termos de escrita da língua de sinais.

4.3.2 2º Passo: transcrição dos dados coletados

Para a transcrição dos dados coletados, adotou-se a técnica de “transcrever” os sinais por meio da escrita da língua de sinais, também conhecida como SignWriting. Para a escrita de alguns sinais, observamos a escrita no Dicionário de Libras (CAPOVILLA; RAPHAEL, 2001). Considerando que nem todos os sinais desse dicionário encontram-se descritos de

maneira adequada, não copiamos todos os sinais, mas apenas aqueles que continham uma escrita mais próxima à realidade da sinalização.

A escrita em SW pode ser feita manualmente, sendo que o escritor deverá ter um bom treinamento nessa área antes de tentar utilizar-se desse sistema para transcrições. Além da escrita manual, pode-se utilizar o software SW Edit.75 Sobre essa “ferramenta”, é pertinente destacar que

O sistema desenvolvido SWEdit tem, como principal funcionalidade, a edição de textos em línguas de sinais, baseado no sistema de escrita

SignWriting. Permite também a inclusão de textos em linguagem oral,

figuras e imagens, drag & drop entre diferentes programas, salvar e carregar arquivos no formato SWML[76] (SignWriting Markup Language). Apresenta

uma base de dados expansível e inclui dicionários. [...] Além disso, a interface e as ferramentas são similares a dos editores de texto comumente utilizados. Isto torna a interface bem mais amigável, pois mesmo tendo sido projetada para pessoas surdas, um ouvinte pode aprender a utilizá-la apenas interpretando as funcionalidades similares a outros editores, o que se aplica também aos surdos (TORCHELSEN; COSTA; DIMURO, 2011, p.3). O software acima descrito foi desenvolvido para ser utilizado com o sistema operacional Microsoft Windows. Tendo em vista que o computador utilizado para a escrita dessa Dissertação, bem como para a transcrição e análise dos dados, foi uma plataforma operacional diferente – ou seja, Mac OS X, versão 10.6.8 –, utilizamos um miniprograma denominado “Sign Text Editor”, em formato HTML, para a edição de todos os sinais escritos/transcritos em SW que se encontram nessa Dissertação. Após a transcrição de cada sinal, os mesmos foram transpostos para cá por meio do recurso de exportação de imagem em formato JPEG ou PNG.

4.3.3 3º Passo: análise dos dados a partir das transcrições fonológicas

Após a transcrição dos dados, os dados foram cuidadosamente analisados. Deve-se atentar para o fato de que pequenas “alterações” em determinado traço podem constituir processos fonológicos naturais encontrados também no padrão de fala de surdos adultos.                                                                                                                

75 Esse programa pode ser baixado gratuitamente na seção de downloads da página eletrônica

<http://www.signwriting.org>.

76 A fim de se obter maiores informações a respeito desse formato (SWML), é relevante fazer uma consulta no

Além do objetivo de fazer um levantamento das unidades mínimas distintivas que já fazem parte do sistema fonológico, o FONOLIBRAS também contempla: (1) a comparação entre o sinal transcrito e o modelo determinado como esperado; e, (2) o escrutínio dos processos fonológicos subjacentes aos sinais perscrutados.

Quanto aos critérios de julgamento dos sinais eliciados em termos de acerto/erro, o FONOLIBRAS considera:

• Cada um dos sinais eliciados de maneira adequada ou com simplificação fonológica, mas semelhante ao sinal esperado, receberá a pontuação de 2 pontos;

• Cada um dos sinais eliciados de maneira adequada ou com simplificação fonológica, que seja diferente ao sinal esperado, mas pertencente ao mesmo campo semântico do sinal esperado, receberá a pontuação de 1 ponto;

• Os sinais que não pertençam ao mesmo campo semântico do sinal esperado, mas que estejam baseados em alguma figura da imagem apresentada, também receberão a pontuação de 1 ponto;

• As figuras que forem referenciadas apenas com dêiticos indicativos (apontação) em relação à própria imagem receberão a pontuação 0. Caso a apontação seja para um objeto com a mesma característica da imagem, a pontuação será de 1 ponto;

• As figuras que sejam referenciadas com sinais idiossincráticos (ou seja, CM completamente atípicas) ou com sinais “caseiros” receberão a pontuação 0; • As figuras que forem referenciadas como “NÃO-SABER” (o sinal

propriamente dito ou com o movimento da cabeça para direita e para a esquerda) também receberão a pontuação 0.

Considerando que o FONOLIBRAS possui 50 imagens, a pontuação máxima será, obviamente, de 100 pontos, caso o sujeito acerte todas as figuras de acordo com o modelo de sinal esperado. O objetivo de se pontuar essas ilustrações em 2, 1 e 0 é a fim de se verificar a viabilidade de cada uma delas permanecer ou não no instrumental. Evidentemente que é de suma relevância a condução de outros estudos com um número maior de sujeitos investigados, para que se possa ventilar a possibilidade de validação (com revisão, caso seja necessário) do instrumento avaliativo proposto nessa Dissertação.

Após a coleta de dados, deverá ser feito um inventário em termos de CM. Baseando- se nos sinais indicados como esperados no Quadro 30 em SW, inventariamos as CM de nosso instrumental:

Grupo 1 Grupo 2

Grupo 3 Grupo 4

Grupo 5

Grupo 6