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OS SABERES DOCENTES E A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE PROFISSIONAL

4.4 Como se constitui o professor universitário

Considerando a indefinição de um lugar ou de uma proposta para a formação do docente do Ensino Superior, foi perguntado aos entrevistados como eles aprenderam a ser professor universitário.

Segundo o Professor VII, o docente universitário vai se formando à medida que, motivado por sua afinidade com a profissão, procura se qualificar. É a partir desse embasamento teórico que deve ele estruturar sua vivência na profissão, como está explicitado no seguinte excerto:

Primeira coisa, você tem que ter afinidade com aquilo que está fazendo, se não tiver, não adianta nem começar. Tendo essa afinidade, procurar embasamento suficiente para puder passar para o aluno, um embasamento teórico. E vivenciar, não adianta nada também você ter esse preparatório todo se realmente não vivenciar de corpo e alma aquilo que você está fazendo [...] (Professor VII).

Nessa colocação, o Professor VII defende três aspectos da constituição de um professor universitário: primeiro, a afinidade com a profissão; segundo, uma formação que proporcione um repertório de saberes que servirão como base na atuação profissional e, por último, a experiência na profissão que é descrita como um momento de constante aprendizagem da docência.

Para a Professora IV o primeiro aspecto destacado pelo Professor VII, ou seja, a afinidade com a profissão, é fundamental para que o profissional se consolide na profissão. Desse modo:

A pessoa tem que gostar, gostar, gostar... Gostar do conteúdo, gostar de ensinar. Se alguém não gosta de estudar, não pode ser professor de nível superior, porque se não, tu entras e os próximos vinte, trinta anos dentro da universidade, serão reproduzindo alguma coisa que tu aprendeste na tua graduação, mestrado ou doutorado [...] (Professora IV).

Assim como o Professor VII, a Professora IV defende que é o gosto pela profissão que motiva o indivíduo a procurar se desenvolver profissionalmente, consolidando uma identificação com a profissão. Para esses professores, o indivíduo precisa se identificar com a

atividade que desempenha, caso contrário, mesmo que ele tenha uma excelente formação, não conseguirá se realizar na profissão. Ainda segundo a professora, a insatisfação com o próprio trabalho transparece na atuação cotidiana, trazendo graves consequências para aqueles que dependem diretamente desse profissional.

A Professora VI também destaca a importância da afinidade com a profissão, ao afirmar que:

Junta um pouco essa parte, primeiro, de motivação interna mesmo do professor; segundo, de prática, de conhecimento teórico, mas também de prática pedagógica coerente, por que eu não posso dizer para o professor que ele tem que ser democrático, se eu sou completamente autoritária em sala de aula. [...] O conhecimento específico não é o mais importante, ele é um componente dentro desse conjunto [...] (Professora VI).

Nessa colocação, a Professora VI acrescenta que não basta ter o domínio dos saberes específicos da disciplina. Embora sejam indispensáveis, estes fazem parte de um conjunto que engloba outros saberes necessários à atuação docente como, por exemplo, os saberes pedagógicos. Além disso, coadunando com Freire (1996), é preciso que o professor mantenha uma coerência entre aquilo que ele defende e suas ações em sala de aula, pois os alunos também aprendem por meio das experiências que vivem.

Ao discutir como se aprende a ser professor universitário, os professores V e III dão uma ênfase maior aos saberes adquiridos nos cursos de formação em conjunto com os saberes experienciais desenvolvidos durante a atuação profissional, conforme explicitado nestas afirmações:

É como qualquer outra profissão, tem que ter uma formação. A pessoa tem que querer aquela profissão, sabendo que tem os prós e os contras. E ter uma formação sólida e o compromisso, saber que vai formar pessoas, vai lidar com gente o tempo todo. Isso é o fundamental [...] (Professora V).

Você tem o básico, tem conhecimento de todos os conteúdos a serem trabalhados, tem suas ementas, seus programas, suas pesquisas, mas todo dia nós estamos aprendendo alguma coisa no trabalho [...] (Professor III).

Um ponto em comum nesses excertos é a relevância que se dá a experiência profissional como importante momento de formação. Como assinala Tardif (2010), o saber da

experiência, desenvolvido durante o processo de socialização profissional, é importante, visto que é um saber produzido pelos próprios professores ao se depararem com determinadas situações. Ainda de acordo com o autor, é através de suas impressões, reflexões e tentativas que os professores mobilizam, transformam e reconstroem os seus saberes de formação acadêmica e, assim, vão produzindo os seus saberes experienciais.

Enquanto para alguns professores os saberes experienciais é o que lhes proporcionam maior segurança para atuar em sala de aula, tendo em vista que eles aprendem a lidar com determinadas situações imprevisíveis que, sem a experiência, não saberiam como fazer. Para outros, o saber de experiência provoca algumas inquietações, como explicita o Professor I:

Nenhum curso me ensinou como é que eu deveria pensar como professor, eu fui aprendendo e eu acho que esse é o grande erro da Educação, nós vamos aprendendo. Vai lendo, vai se interessando porque gosta, porque lê e vai experimentando. Mas não tem nada experimental que nos garanta que aquilo ali é válido ou não. Esse é o problema [...] (Professor I).

O Professor I destaca que desenvolver os saberes experienciais de maneira individual acarreta em muitas incertezas e angústias, pois não há garantias de que o que se acredita ser correto tenha realmente reflexos positivos no processo de ensino e aprendizagem. Esse conflito apontado pelo Professor I vem sendo discutido por pesquisadores como Gauthier et al. (1998). Para tais pesquisadores, o fato de os saberes experienciais serem elaborados por meio de pressupostos e de argumentos que não são validados cientificamente confere a estes algumas limitações.

Nesse sentido, Gauthier et al. (1998) defende que é preciso desenvolver um quinto tipo de saber, o saber da ação pedagógica. Este diz respeito ao saber experiencial dos professores a partir do momento em que são testados através de pesquisas em sala de aula. Para os autores, os julgamentos dos professores e os motivos que lhe servem de apoio podem ser comparados, avaliados, pesados a fim de estabelecer diretrizes que poderão ser conhecidas e aprendidas por outros professores. Desse modo, os saberes da ação pedagógica legitimados pelas pesquisas poderiam contribuir para o aperfeiçoamento da prática docente e para tornar menos conflituoso o processo de constituição da identidade profissional docente.

Portanto, segundo os entrevistados, o professor universitário constitui-se à medida que possui uma afinidade com a profissão, uma formação acadêmica que proporcione a incorporação de saberes, especialmente os disciplinares, e a experiência profissional que os

auxiliem na elaboração de um repertório de saberes que lhe servirão de base para o exercício profissional.

A atuação profissional é também um importante ambiente de formação, pois é quando surgem os conflitos e negociações identitárias que ajudam a compor a identidade profissional. No entanto, o que confere um bom arcabouço para superar tais conflitos é uma sólida formação inicial. Nesse sentido, Dubar (2005) destaca a formação como um momento importante na constituição da identidade, uma vez que nela se definem o conjunto de saberes que servem como base para guiar os professores em seu modo de ser e estar na profissão.

Diante da discussão exposta neste capítulo, podem-se identificar diversos aspectos da atuação docente. Estes revelaram os modos de definir e viver a profissão docente universitária. Verificou-se que os docentes mobilizam os saberes disciplinares, curriculares, pedagógicos e experienciais em sua prática profissional. Entre esses saberes, os disciplinares são os mais mobilizados e foram identificados como aqueles que conferem segurança e uma identidade para os professores. Os saberes curriculares e pedagógicos são mais mobilizados nos momentos de planejamento das aulas e adaptação dos conteúdos a situações de aprendizagem, sendo que os professores demonstraram sentir uma relativa carência no domínio deste último. Os saberes experienciais, por sua vez, são mobilizados para resolver situações que dizem respeito ao comportamento dos alunos em sala de aula.

Verificou-se também que o “ser pesquisador” em uma área específica do conhecimento é um aspecto marcante nas identidades profissionais dos entrevistados. Isso pode ser constatado ao se analisar as falas dos professores sobre o direcionamento de suas aulas para as turmas de bacharelandos e licenciandos e sobre as contribuições de suas formações em nível de graduação e em nível de pós-graduação stricto sensu. Por fim, foi possível constatar que os professores atribuem à identificação o com a profissão o principal motivo para a busca por qualificação no sentido de se desenvolver profissionalmente.