CAPÍTULO I – CONSIDERAÇÕES GERAIS
3. COMPETÊNCIA DO CARTÓRIO NOTARIAL E DO TRIBUNAL
Como se tem vindo a referir, o RJPI teve em vista o descongestionamento dos Tribunais, transferindo a competência destes, relativamente aos processos de inventário, para os Cartórios Notariais. Desta forma, os Notários passaram a ter, não só competência para realizar partilhas quando exista acordo dos interessados, mas também para realizar partilhas em que esse acordo não é possível, neste caso através de processo de inventário.
A competência dos Cartórios Notariais advém do artigo 3.º n.º 1 RJPI, que dispõe que “Compete aos Cartórios Notariais sediados no município do lugar da abertura da sucessão efetuar o processamento dos atos e termos do processo de inventário e da habilitação de uma pessoa como sucessora por morte de outra”. Resulta ainda do n.º 4 do mesmo artigo, que “Ao Notário compete dirigir todas as diligências do processo de inventário e da habilitação de uma pessoa como sucessora por morte de outra, sem prejuízo dos casos em que os interessados são remetidos para os meios judiciais comuns”. Da conjugação destas normas resulta claramente a atribuição de competências ao Notário para decidir as questões surgidas no processo de inventário, apreciando e avaliando as provas que nele vierem a ser produzidas para a realização da partilha, funções que tradicionalmente pertencem ao Juiz.
Tendo em conta a finalidade do processo de inventário objeto do nosso estudo (em consequência de divórcio, separação, declaração de nulidade ou anulação do casamento), é aplicável no que respeita à competência territorial dos Cartórios Notariais o disposto no n.º 6 do artigo 3.º RJPI, não fazendo aqui qualquer sentido o critério do lugar da abertura da sucessão previsto no artigo 3.º n.º 1 RJPI. Ou seja, de acordo com aquela norma, é competente
o Cartório Notarial sediado no município do lugar da casa de morada de família40 (artigo 3.º n.º
6 RJPI) ou, na falta desta, o Cartório Notarial do município da situação dos imóveis ou da maior parte deles, ou, na falta de imóveis, do município onde estiver a maior parte dos móveis (artigo 3.º n.º 5 alínea a) RJPI).
Se o Notário do Cartório competente estiver impedido de tramitar o processo,
nomeadamente quando este seja interessado no processo ou familiar de algum interessado41,
é competente qualquer dos outros Cartórios Notariais sediados no município da casa de morada de família (artigo 3.º n.º 2 RJPI devidamente adaptado). No caso de não existir Cartório Notarial no município do lugar da casa de morada de família (ou da situação dos imóveis ou
40 O artigo 67.º n.º 1 da Constituição da República Portuguesa (CRP) dispõe que “A família, como elemento fundamental da sociedade, tem direito à proteção da sociedade e do Estado e à efetivação de todas as condições que permitam a realização pessoal dos seus membros”. Segundo o artigo 65.º n.º 1 da CRP “Todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar”. Assim, a casa de morada de família é o espaço físico considerado lar/residência onde os seus membros habitam e convivem em plena harmonia.
41 Cfr. artigos 5.º e 6.º CN “Impedimentos Notariais”. Ou seja, Notário não pode realizar atos em que sejam partes ou beneficiários, diretos ou indiretos, quer ele próprio, quer o seu cônjuge ou qualquer parente ou afim na linha reta ou em 2.º grau da linha colateral. O impedimento do notário é extensivo aos adjuntos e oficiais do Cartório a que pertença o notário impedido.
móveis nos termos do artigo 3.º n.º 5 alínea a) RJPI), é competente qualquer Cartório dos municípios confinantes (artigo 3.º n.º 3 RJPI devidamente adaptado).
O RJPI não estabelece as consequências para o caso de o inventário ter sido requerido num Cartório Notarial territorialmente incompetente, apresentando-se esta questão controvertida na doutrina. Alguns autores, em face da remissão contida no artigo 82.º RJPI, entendem que a solução decorre do Código de Processo Civil, nos termos do qual a incompetência territorial não é por regra de conhecimento oficioso, e que o processo de inventário não se enquadra nas situações em que essa competência deve ser conhecida
oficiosamente (artigo 104.º CPC). NETO FERREIRINHA e EDUARDO PAIVA/HELENA CABRITA
defendem esta posição, afirmando que esta exceção dilatória deve ser invocada perante o
Notário (artigo 103.º CPC)42 para que este a conheça. Assim, caso algum interessado invoque
a incompetência territorial do Cartório Notarial (o que pode fazer nos termos do artigo 30.º n.º 1, alínea d) RJPI após a sua citação), o Notário deve conhecer a exceção dilatória, e julgando-a procedente, remete o processo pjulgando-arjulgando-a o Cjulgando-artório Notjulgando-arijulgando-al territorijulgando-almente competente (julgando-artigo
105.º n.º 3 CPC)43. Assim, o Notário não pode, oficiosamente, declarar a incompetência
territorial do seu Cartório, só o podendo fazer, se a questão lhe for suscitada44.
Por sua vez para CARLA CÂMARA/CARLOS CASTELO BRANCO,“A incompetência territorial
do Cartório Notarial deve ser conhecida pelo Notário mesmo que não seja suscitada por qualquer dos interessados, uma vez que a norma do artigo 3.º n.º 1 RJPI é imperativa e deve
ser respeitada sob pena de ser defraudado o comando nela existente45”. Ou seja, para estes
autores, não se trata apenas de uma questão de competência territorial mas também de uma atribuição funcional da competência a um órgão não judicial designando o lugar do município do autor da sucessão (ou no inventário do nosso estudo, do município da casa de morada de família), transcendendo a incompetência verificada a questão da incompetência territorial.
A nossa opinião vai no sentido dos primeiros autores, ou seja, concordamos que a incompetência territorial não é de conhecimento oficioso. O Notário não tem de conhecer oficiosamente a questão da incompetência territorial, pois o processo de inventário não está indicado no artigo 104.º CPC, aplicando-se, assim, o disposto do artigo 102.º CPC, e concluindo-se que esta exceção dilatória tem de ser arguida pelos citados para ser conhecida pelo Notário.
Decidindo o Notário que o seu Cartório Notarial é territorialmente incompetente, a requerimento das partes, este deve remeter o processo para o Cartório Notarial competente (artigo 105.º n.º 3 CPC), não estando previsto qualquer critério para o caso em que existam vários Cartórios Notariais no município do lugar da casa de morada de família (ou da situação dos bens imóveis ou móveis, consoante o caso), o Notário deve notificar o requerente do
inventário para que indique para que Cartório Notarial prefere que o processo seja enviado46.
42 Os interessados podem, no prazo de 20 dias a contar da citação, suscitar exceções dilatórias (artigo 30.º n.º 1 alínea d) RJPI).
43 FERREIRINHA, Fernando Neto, ob. cit. pág. 81; PAIVA, Eduardo Sousa, CABRITA, Helena, ob. cit. pág. 18.
44 PAIVA, Eduardo Sousa, CABRITA, Helena, ob. cit. pág. 19.
45 CÂMARA, Carla; BRANCO, Carlos Castelo; e outros, Regime Jurídico do Processo de Inventário Anotado, 2ª Ed., Coimbra, Almedina, 2013, pág. 42.
3.2 COMPETÊNCIA DO TRIBUNAL
Com a Lei n.º 23/2013 de 5 de março, o Tribunal não deixou de ter competência nos processos de inventário, apenas passou a ter uma competência excecional, competindo-lhe apenas praticar os atos que nos termos do RJPI são da competência do Juiz (artigo 3.º n.º 7 RJPI).
A atribuição aos Cartórios Notariais da competência para tramitar os processos de inventário levou alguma doutrina a questionar sobre uma possível violação do princípio constitucional da reserva do Juiz, que impede qualquer outra entidade de apreciar e decidir os requerimentos das partes em litígio acerca do objeto da decisão; as decisões dos Tribunais são obrigatórias para todas as entidades públicas e privadas e que prevalecem sobre as de
quaisquer outras autoridades (artigo 205.º n.ºs 2 e 3 CRP)47.
Para nós, esta transferência de competência não implica inconstitucionalidade, uma vez que está previsto o expediente da remessa das partes para os meios comuns (artigo 16.º RJPI) e sobretudo porque está salvaguardada a sua intervenção no processo para homologação da decisão de partilha (artigo 66.º RJPI), sendo que dessa homologação depende a validade e força executiva da partilha em relação a terceiros, sendo indispensável para a realização dos
registos48. Além disso, é ao Tribunal que compete avaliar as decisões do Notário,
designadamente quando seja interposto recurso da decisão do Notário que indefira a remessa para os meios judiciais comuns (artigo 16.º n.º 4 RJPI), ou impugnação do despacho determinativo da forma da partilha (artigo 57.º n.º 4 RJPI).
O artigo 3.º n.º 7 RJPI atribui a competência ao Tribunal da comarca do Cartório Notarial onde o processo foi apresentado, e de acordo com o artigo 40.º n.ºs 1 e 2 da Lei de Organização do Sistema Judiciário - Lei n.º 62/2013 de 26 de agosto (LOSJ), os Tribunais judiciais têm competência para as causas que não sejam atribuídas a outra ordem jurisdicional. Esta Lei determina a competência, em razão da matéria, entre os juízos dos Tribunais de comarca, estabelecendo as causas que competem aos juízos de competência especializada e aos Tribunais de competência territorial alargada (artigos 67.º n.ºs 3 e 4 e 81.º n.º 2 alínea g) LOSJ). Tratando-se de inventário em consequência de separação, divórcio, declaração de nulidade ou
anulação de casamento, é competente o juízo de família e menores (artigo 122.º n.º 2 LOSJ)49.
47 CARDOSO, Augusto Lopes, vol. I, pág. 69 “Em suma: parece razoável concluir que, em âmbitos diversos, desde a sobredita violação do princípio da igualdade (artigo 13.º CRP), mas mormente com base no princípio constitucional da plena jurisdição dos Tribunais, também conhecido como da reserva do Juiz (artigo 202.º n.º 1 e 2 CRP), o RJPI pode vir a ser considerado como ferido de inconstitucionalidade material. A fiscalização jurisdicional dum regime desejado como «desjudicializado» não passará de um contrassenso e a intervenção do Juiz uma panaceia ou arremedo”. No mesmo sentido, RAMIÃO, Tomé d’Almeida, O Novo Regime do Processo de Inventário. Notas e Comentários, 2ª Ed., Quid Juris, 2015, págs. 7 e 8: “O Notário assume plenos poderes de controlo do processo, com competência para decidir os vários incidentes que sejam suscitados durante a pendência do inventário, dirige todas as diligências do processo, realiza verdadeiros julgamentos de facto e de direito, apreciando e valorando toda a espécie de prova, preside às conferências preparatória e de interessados, organiza e preside aos sorteios, procede à venda de bens, profere despacho determinativo da forma da partilha e organiza os respetivos mapas, reservando-se ao Juiz apenas uma intervenção residual, embora importante, de proferir a sentença homologatória da partilha”.
48 LEIRAS, Diana, ob. cit. pág. 22.
49 “Estando em causa a impugnação da decisão do notário em incidente de impedimento e suspeição suscitado no âmbito de processo de inventário subsequente ao divórcio para partilha dos bens comuns, é competente para o apreciar o juízo de família e menores territorialmente competente, de acordo com o artigo 122.º n.º 2 da LOSJ”. Cfr. acórdão do TRPorto, processo n.º 9995/17.4T8VNG-A.P1, de 26/04/2018, relator Inês Moura, consultado em 02/02/2019.