Parte III – Estudo da Competitividade das Exportações da Indústria Farmacêutica
2. Competitividade das exportações – factores competitivos
Na base da internacionalização da indústria farmacêutica portuguesa está a limitação da pequena dimensão do mercado nacional, que obrigou as empresas a irem buscar negócio fora de portas. Se bem que o móbil possa ser comum às várias empresas que se internacionalizaram, a abordagem à internacionalização é bastante distinta, quer a nível das empresas, quer dos mercados considerados. Quando exportam, as empresas
noutros casos restringir-se à celebração de contratos de licenciamento dos seus produtos.
A qualidade dos medicamentos produzidos é vista pelas empresas envolvidas no estudo como uma das suas maiores vantagens competitivas. As instalações e a produção da indústria farmacêutica portuguesa encontram-se certificadas pelo INFARMED, na aplicação de uma exigente regulamentação comunitária.
A cooperação do INFARMED com as empresas exportadoras foi também identificada como benéfica nos países com fortes barreiras à entrada, para ajudar na certificação dos medicamentos, em cooperação com as autoridades oficiais locais, de forma a encurtar o tempo de concessão das licenças e consequentemente abreviar a entrada das empresas nos novos mercados. Sendo as exportações um factor impulsionador fundamental para a economia do país, a influência política junto dos países potenciais clientes, através da sempre elogiada diplomacia económica, daria um contributo bastante importante para aumentar as exportações portuguesas.
De entre os factores de sucesso mais importantes foi sempre sublinhada a inovação e o desenvolvimento para a vantagem dos produtos exportados. Contudo, apesar de ter sido referida, nota-se que a inovação, motor da indústria farmacêutica, é ainda uma realidade um pouco distante para a grande maioria das farmacêuticas portuguesas, que se continuam a dedicar principalmente à produção de produtos com baixo grau de inovação – genéricos, produtos sob licença ou produção subcontratada. Sabe-se que as maiores margens de lucro são geradas por produtos com características distintas, inovadoras, relativamente aos produtos já existentes nos mercados, por o preço praticado estar bastante dependente da característica inovadora do produto. Sendo os nossos medicamentos pouco inovadores, pela baixa investigação, vemo-nos forçados a competir na exportação com base no preço, o que deteriora as margens.
A existência de filiais foi tida como factor de relevo na competitividade das exportações, verificando-se, em regra, que as exportações são mais elevadas para os mercados onde as empresas detêm filiais. Talvez a explicação esteja no facto destas exigirem por parte das empresas um esforço contínuo no mercado onde estão implantadas e aproximarem a empresa da realidade cultural e social onde actuam, desenvolvendo relações com melhores resultados a longo prazo. No entanto verifica-se que a adesão das empresas farmacêuticas portuguesas a este modelo ainda é pequena. A língua portuguesa é uma outra vantagem competitiva para a exportação, embora não aplicável a todos os mercados, mas referida como sendo muito importante para o mercado dos PALOPs, sobretudo Angola, que atingiu um peso significativo nas exportações farmacêuticas.
Os produtores de SAFs referiram ser muito importante a aprovação das instalações fabris pelo FDA, o organismo regulador americano, porque lhes facilitar as exportações dos seus princípios activos farmacêuticos. E não é restrito às exportações para os EUA, principal mercado das duas empresas portuguesas produtoras de SAFs, por tal certificação ser um requisito primário para a exportação, mas por lhes conferir um atestado de qualidade da sua produção, tornando-se um factor de diferenciação em todos os mercados.
O estudo permitiu concluir que o sucesso das exportações para um determinado mercado exige a conjugação de um conjunto de factores positivos, facilitadores das vendas. Ao passo que na maioria dos casos de abandono, suspensão ou diminuição das actividades num mercado, bastou ter-se verificado um único factor relevante negativo, para que a exportação tivesse corrido mal. De entre os factores negativos, aqueles que mais levam à diminuição das exportações pelas farmacêuticas portuguesas são a falta de competitividade pelo preço, por entrada de concorrentes novos no mercado com produtos semelhantes, e as alterações de regulamentação.
A questão da regulamentação tem grande influência na abordagem de um mercado externo, determinando a calendarização das exportações, a carteira de produtos exportados, a selecção do canal de distribuição e os parceiros locais. Em muitos países o processo para a obtenção da autorização de comercialização dos medicamentos é moroso, o que atrasa por alguns anos o início das exportações, geralmente cerca de dois anos, a contar da data em que o processo é iniciado. Se a empresa planeia obter exportações no curto prazo, por decisão própria ou mesmo por necessidade, pode exportar medicamentos para mercados menos regulamentados. Mas, se bem que os países pouco regulamentados, geralmente, tenham a facilidade de concessão das autorizações de comercialização, também são aqueles que apresentam uma maior carência de estruturas de apoio, um nível mais elevado de burocracia, insegurança e maiores riscos, de crédito, tanto político como cambial.
A regulamentação em alguns mercados de destino cria barreiras à exportação, por políticas de protecção industrial, geralmente materializadas na imposição de pautas aduaneiras e na obrigatoriedade da produção local dos medicamentos. É um dos factores mais importantes a ter em conta no estabelecimento da estratégia de abordagem dos mercados.
A investigação realizada também considerou a análise da importância das parcerias no favorecimento das exportações. O estudo centrou-se no PharmaPortugal, consórcio de
exportação de tipo promocional que reúne a grande maioria das empresas portuguesas produtoras de medicamentos.
As empresas destacaram as vantagens do PharmaPortugal, na participação em feiras, campanhas e missões conjuntas, partilha de conhecimentos a nível dos mercados e do comércio internacional, apoio fornecido pelo INFARMED, capacidade de utilização da marca própria do consórcio e acesso aos apoios estatais concedidos pelo AICEP. Através da participação em feiras e missões conjuntas sob a marca PharmaPortugal, as empresas transmitem uma imagem de maior dimensão, demonstram união e oferecem uma capacidade produtiva acrescida. Todos lamentaram que em 2009 o projecto PharmaPortugal tivesse deixado de ter acesso a apoio dos fundos estatais. Como factores negativos, as empresas ressaltaram a rivalidade e concorrência presentes no mercado interno, e a falta a confiança mútua, tanto para um trabalho conjunto, como para a partilha de informação, enfraquecendo o funcionamento da parceria. As empresas participantes referiram ainda a fragilidade da liderança do consórcio, deficiente planeamento e fraca dinâmica na actuação, por falta de uma gestão profissional dedicada ao consórcio e pelo pouco tempo dedicado ao consórcio por parte dos gestores das empresas.