Capítulo 4 – O sujeito e a dupla face do outro: o processo de constituição psíquica
4.1 Complexo de Nebenmensch: a dupla face do outro
Conforme abordamos no primeiro capítulo, com a teoria do apoio, Freud (1905/1976) estabelece o surgimento da ordem sexual a partir das exigências da autoconservação. Ao exercer a maternagem – a manipulação corporal do bebê que necessariamente a mãe ou substituto há de fazer a fim de atender às suas necessidades –, o outro desperta pela primeira vez a erogeneidade deste corpo, proporcionando sensações prazerosas que ficam registradas no psiquismo nascente, instaurando o desejo, desvinculado da necessidade orgânica. Neste sentido, a criança é, para o adulto que dela se ocupa, “o substituto de um objeto sexual plenamente legitimo” (idem, p. 210).
Compartilhando esta mesma posição teórica, Laplanche (1987) afirma que, neste primeiro encontro com o mundo adulto, as fantasias veiculadas pelo desejo inconsciente do adulto introduzem a criança no campo do sexual, configurando o que ele denomina como situação originária, fundada na sedução da criança pela mãe. Com esta definição, ele enfatiza a dimensão traumática inerente a uma relação que é assimétrica, uma vez que, além de instaurar a pulsão e o campo da representação, nesta confrontação precoce com a sexualidade do adulto, manifesta-se a presença do inconsciente parental, que é mais rico e mais elaborado que o da criança e sofre o retorno do recalcado, veiculando um sentido ignorado tanto por ela como por ele mesmo. O desamparo da criança implica, então, uma condição de abertura passiva e sem possibilidades de defesa ante o desejo do Outro, ou a esse conteúdo sexual que
não pode ser elaborado.
Assim, a relação primária com o Outro deixa restos que não podem ser capturados pela cadeia simbólica: eles permanecem desligados, como enclaves não articulados no psiquismo, que se instauram como os objetos-fonte da pulsão, constituindo os processos inconscientes e pressionando no sentido da ligação e da descarga. Trata-se, aqui, de unidades perceptivas e significantes não ligados que acoçam a criança despreparada, sem capacidade de representar. Em um primeiro nível de simbolização, a rede de significantes que vem do Outro é lançada sobre o universo subjetivo, mas nenhum significado particular pode ser capturado. A mensagem permanece em estado selvagem e os significantes, enigmáticos. “O que se introduz, simplesmente, com esse sistema coextensivo em relação ao vivido é a pura diferença, a escansão, a barra.” (Bleichmar, 1993, p. 36).
Constatamos, dessa forma, a importância fundamental do outro para a existência do eu, pois será sempre em relação à dimensão alteritária enquanto marca da diferença que o sujeito irá se estruturar, uma vez que ela instiga e ao mesmo tempo possibilita o trabalho psíquico. Nesse sentido, há uma dimensão de acolhimento que possibilita a destinação da energia pulsional, mas, neste mesmo movimento, o sujeito depara-se necessariamente com algo mais que está aí imbricado e que não pode ser por ele decodificado, algo que não se submete à ligação e à inscrição no simbólico, da ordem da pura pulsionalidade e diante do qual o sujeito se encontra desamparado. A função de contenção, portanto, não é a única forma de apresentação da figura do outro na cena psíquica do sujeito. Para além dessa função do outro, que dá destino à pulsão e oferece um contorno psíquico ao sujeito, possibilitando sua estruturação psíquica, há uma outra face da alteridade experimentada pelo sujeito como excessiva, irrepresentável, estranha.
No “Projeto” de 1895, Freud aborda a questão da alteridade frente ao estado de desamparo a partir da ideia de complexo de Nebenmensch, aquele que realiza a ação específica para o recém-nascido, que está atento às suas necessidades e se torna seu primeiro objeto de amor. Após a experiência de satisfação, quando novamente a tensão interna aumentar, o bebê poderá reevocar, por alucinação, os traços mnêmicos dessa experiência primeira, bem como os traços desse próximo assegurador. Na medida em que a percepção do outro que surge para lhe atender não coincide exatamente com a imagem mnêmica desejada, o sujeito interessa-se em conhecer essa imagem, no intuito de encontrar proximidades entre elas. Segundo Freud (1895/1976), é em relação a seus semelhantes que o ser humano aprende a conhecer.
possível conexão com o objeto de desejo. A menos que a imagem perceptiva seja absolutamente inédita para o sujeito, ela o fará recordar e reviver a imagem mnêmica com a qual compartilha alguns traços. Devido a esta parcial coincidência, seus complexos são decompostos: um componente conhecido pelo ego através de sua própria experiência (atributos, atividade), que pode ser compreendido por meio de uma atividade da memória, compondo o campo representacional; e um componente não assimilável, que produz uma impressão por uma estrutura constante que não pode ser decomposta, permanecendo unida como das Ding.
O Outro – “a Coisa”, das Ding, ou “o próximo” – constitui a realidade com que o infans tem que lidar. Por um lado, os complexos perceptivos emanados desse semelhante – seus traços, seus movimentos – serão, para ele, novos e incomparáveis. Por outro, no entanto, certas percepções visuais, como o movimento das mãos do outro, por exemplo, serão, para o sujeito, coincidentes com a lembrança de impressões muito parecidas provenientes de seu próprio corpo, de sua própria experiência. Da mesma forma, o grito do outro o remete à lembrança de seu próprio grito e de sua própria experiência de dor. Trata-se de um outro ser humano e, nesse aspecto, se parece com o sujeito. Porém, além de ser sua única força auxiliar e esse objeto semelhante, logo o Nebenmensch torna-se também seu primeiro objeto hostil, na medida em que há uma parte recolhida deste que permanece como coisa (das Ding), portando um aspecto incognoscível e estranho para o sujeito.
Destarte, a parte do complexo de Nebenmensch que se apresenta como das Ding é algo que permanece como inassimilável, estrangeira, resíduo do qual só se pode conhecer seus predicados. A Coisa inassimilável marca um primeiro exterior, um estranho, situando-se fora do aparelho de memória. É um objeto perdido que não pode ser reencontrado, apenas seus traços – é o resto que escapa ao juízo. Lacan define das Ding como termo central, vazio, “éxtimo” (exterior e íntimo) em torno do qual gira a cadeia de representações psíquicas. A perda e o caráter irrecuperável do objeto perdido conformam a própria estrutura do aparelho psíquico, engendrando o sujeito a partir de sua relação com o objeto de desejo, que perde para sempre o caráter de natural com sua inclusão na rede do Nebenmensch. Sob seu outro aspecto, no entanto, o outro pode ser compreendido pela memória, representado pela Vorstellung. Logo, a apreensão da realidade (do próximo) está marcada, desde sua origem, por uma divisão entre o primeiro exterior, estranho, fora da memória, e as qualidades e propriedades que se inscrevem como traços mnêmicos, representações.
O mesmo objeto é, deste modo, semelhante e estranho, possuindo uma dupla face. A partir dos estímulos endógenos, que só podem ser descarregados por meio da ação do outro,
percebe-se essas duas faces que o compõem. Há o “outro elemento”: nossa imagem e semelhança, meu outro com quem há partilha, que posso compreender (tal como suponho que ele me compreende): o bem do outro e o meu bem são uma coisa só. E o “além do semelhante”: o próximo propriamente dito, Outro inominável, estranho e imprevisível, que está ao lado, que não posso circunscrever, uma vez que ele é in-compreensível (Julien, 1996). É a sua própria condição de sujeito marcado pela falta, de sujeito dividido, acoçado pelo sem sentido, que faz do Outro esta entidade de dupla apresentação, em relação a quem o sujeito instaura-se a partir de uma relação de dependência. Nesta abertura ao Outro, que se traduz como uma sujeição aos seus desejos e caprichos, o sujeito está sem proteção. Ou melhor, a proteção de que tanto necessita para sobreviver e subjetivar-se só pode provir do outro, que não necessariamente está disposto ou é capaz de fornecê-la. Assim, devido ao estado de vulnerabilidade da criança, esta fica sujeita a experimentar esse excesso proveniente do outro, do aspecto inassimilável do outro, o que lhe causa uma impressão de estranheza.