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4 ESTUDOS DE CASOS

4.1 ANÁLISE QUANTITATIVA 2014-2016

4.1.3 Complexo do Alemão

Difícil precisar o número de pessoas residentes nas 15 favelas que compõem o Complexo do Alemão. De acordo com o Instituto Pereira Passos (IPP), que utiliza dados do Censo Demográfico do IBGE 2010, são mais de 60 mil (RIO+SOCIAL, 2017)58. Já segundo o Relatório Final do Censo Domiciliar realizado pela Empresa de Obras Públicas (Emop) do Governo do Estado do Rio de Janeiro, também concluído em 2010, cerca de 69 mil moradores habitam aquele complexo de favelas (EMOP, 2010). No entanto, segundo uma pesquisa do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC) do governo federal, que concluiu o Relatório do Plano de Desenvolvimento Sustentável do Complexo do Alemão, são mais de 100 mil moradores.

A região recebeu esse nome em homenagem ao imigrante polonês Leonard Kaczmarkiewicz, também conhecido como Alemão, que viveu no local na década de 1920. Em 1951, Kaczmarkiewicz dividiu a área e vendeu os lotes, dando início à ocupação. Ainda nos tempos do polonês Alemão, instalou-se no local o Curtume Carioca, para onde se mudaram diversas famílias de operários. Na década de 1940, com a abertura da Avenida Brasil, a região tornou-se um importante polo industrial da cidade, atraindo ainda mais trabalhadores. Mas foi na década de 1980 que se deu o boom populacional e se formou grande parte das favelas do Complexo (RIO+SOCIAL, 2017)59.

De acordo com a Secretaria Estadual de Segurança Pública, desde meados da década de 1980, o Alemão passou a ser considerado “um ponto crítico do comércio intensivo de drogas” (UPP ALEMÃO, 2017), por ser um entreposto comercial de entorpecentes do Rio de Janeiro, recebendo grande parte da cocaína trazida da Bolívia para revenda em todo o estado. O movimento do comércio varejista provocou a disputa entre os grupos que controlam a atividade e, consequentemente, a reação da PMERJ e demais forças de segurança pública. Em 2002, o jornalista Tim Lopes foi descoberto por um dos grupos organizados de revenda de drogas,

58 Disponível em: <http://www.riomaissocial.org/territorios/complexo-do-alemao/?secao=inicio>. Acesso em: 12 jan. 2017.

enquanto realizava uma reportagem sobre prostituição infantil em uma das favelas do Complexo. Por ter recebido um prêmio pela autoria da reportagem “Feira das Drogas” e sua imagem ter sido exposta no Jornal Nacional, foi capturado e assassinado com requintes de crueldade. Já no dia 7 de julho de 2007, uma operação da PM na localidade, como preparativo para os Jogos Pan-americanos daquele ano, resultou em 19 mortes, número declarado pela própria polícia60. No relatório das Organizações das Nações Unidas para Execuções Sumárias, Arbitrárias e Extrajudiciais, o relator Philip Alston citou a ação da PMERJ: “os chefes do tráfico não foram presos, a apreensão de armas e drogas foi ínfima, nenhum policial foi assassinado e poucos foram feridos, o que não sustenta a justificativa de que a polícia teria encontrado ‘resistência’”. Ainda de acordo com o relator, as mortes por autos de resistência no Rio – que representaram 18% dos homicídios registrados na cidade – em 2007 são, de fato, “execuções extrajudiciais”, comprovadas pelas autópsias a que Alston teve acesso (OBSERVATÓRIO DE FAVELAS et al., 2007).

Em 2010, foi realizada uma megaoperação militar, envolvendo 2,7 mil agentes das Forças Armadas, da Polícia Militar, da Civil e da Força Nacional, com o objetivo de “retomar o território” (OBSERVATÓRIO DE FAVELAS et al., 2007). Na ocasião, foi preso Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, acusado de ordenar a morte do jornalista Tim Lopes em 2002. O jornal O Globo acompanhou diariamente a movimentação das tropas. A cobertura se assemelhou à de uma guerra, com manchetes como: “PM avança para ocupar o bunker do tráfico na Penha” (2010), “O Dia D da guerra contra o tráfico” (2010), “A senhora liberdade abriu as asas sobre nós” (2010), “Os guerreiros do Alemão” (2010). Um suplemento especial, com o sugestivo nome de “A guerra do Rio”, foi criado nos últimos dias de novembro de 2010 para acompanhar as operações. A narrativa de guerra construiu no imaginário do leitor o cenário de um território que deveria ser “retomado” do poder de perigosos bandidos, por meio da intervenção de forças policiais e militares do Estado e de seus bravos guerreiros. Após o êxito destes, enfim, a paz reinaria naquela comunidade e em toda a cidade, que se tornara refém dos criminosos. No entanto, no dia seguinte à “conquista do território”, surgiram as primeiras denúncias de abuso de autoridade contra os policiais que participaram da operação: o pastor Ronai Braga Júnior acusava policiais de terem roubado R$ 31 mil de sua casa (GOULART, DUTRA & ARAÚJO, 2010). A notícia, contudo, era diluída entre tantas outras sobre a

60 Reportagem do jornal A Nova Democracia fala em 42 mortes e cerca de 80 feridos desde o início da operação, em maio daquele ano. Ver mais em Salles (2007).

ocupação: publicada apenas na décima página da reportagem, de 12, no total61. Ademais, a manchete anuncia prontamente a iniciativa da Secretaria de Segurança Pública sem antes informar sobre o ocorrido: “Denúncias contra policiais serão investigadas”, afirma o título. A legenda informa ainda que o referido pastor, apesar de denunciar o roubo, “elogia a ocupação do morro” (GOULART, DUTRA & ARAÚJO, 2010).

A megaoperação policial e militar resultou na instalação de quatro UPPs no Complexo, inauguradas entre abril e maio de 2012, nas favelas Nova Brasília, Fazendinha, Adeus e Baiana, e Alemão. Na pesquisa 2014-2016, foram identificadas 203 matérias publicadas em O Globo sobre as UPPs no Complexo do Alemão. Foi a UPP com o maior número de notícias analisadas. Destas, 133 foram classificadas no pacote Lei e ordem na favela (65,5%), 48 no Liberdades civis sob ataque (23,5%), 18 no Extensão da cidade formal (9%) e quatro no Pobreza causa crime (2%).

Parte considerável das matérias do pacote Lei e ordem (L&O) relatam confrontos entre policiais e comerciantes varejistas de entorpecentes. Muitos deles resultaram em mortes de moradores e alguns, de policiais. Nestes casos, a notícia ganhava destaque nas páginas e repercussão nos dias subsequentes. Foi o caso da morte da soldada Alda Rafael Castilho, noticiada no dia 3 de fevereiro. A policial havia sido baleada dentro da sede da UPP Parque Proletário, no Complexo da Penha, após uma ação criminosa na Praça São Lucas, no Complexo do Alemão (BANDO, 2014). O caso ganhou repercussão no dia 7 daquele mês em uma reportagem de meia página, apresentando declarações da mãe da vítima e a suposta “falta de indignação da sociedade com o crime” (COSTA, C., 2014): “Se eu fosse mãe de bandido, as ONGs teriam me procurado imediatamente. Parece que eles (os bandidos) têm mais valor. Mas a minha filha era uma cidadã honesta, que saía todo dia às 4h30 para trabalhar, estudava, e sonhava ser psicóloga da PM”, afirma Maria Rosalina, mãe de Alda (COSTA, C., 2014). A morte da policial foi lembrada também em matéria publicada no dia 30 de abril. Após o assassinato do dançarino Douglas Rafael da Silva, o DG62, por policiais da UPP Pavão-Pavãozinho, artistas lançaram nas redes sociais a campanha “Eu não mereço ser assassinado” (SERRA, 2014). Em resposta, policiais publicaram fotos com dizeres semelhantes. “Eu não mereço ser assassinado, pois sou trabalhador e não curto churrasco com traficantes” (SERRA,

61 De acordo com Rabaça e Barbosa (2001, p. 537), a página ímpar “desperta mais atenção e é vista antes da página par, pelo leitor ao folhear qualquer publicação. Por isso é considerada como página nobre, principalmente para fins de publicidade”.

62 O artista foi morto no dia 22 de abril de 2014. As investigações concluíram que o disparo que tirou a vida do dançarino foi disparado pelo policial militar Walter Saldanha Correa Júnior. Ver mais em POLÍCIA CONCLUIU (2015).

2014), dizia o cartaz exibido nas redes sociais por um cabo da PM, de 31 anos. “Sou trabalhador idôneo. Em nosso país, há uma inversão de valores, pois, quando um policial morre, não se dá atenção. Há muitas pessoas boas na polícia. Represento esses bons policiais”, afirmava (SERRA, 2014). No dia 12 de setembro, o jornal publicava a morte do primeiro comandante de UPP assassinado, o capitão Uanderson Manoel da Silva (CAPITÃO, 2014).

Já no pacote Liberdades civis sob ataque (LCSA), o segundo mais encontrado na análise da UPP do Alemão, com 23,5% das ocorrências, tem destaque a morte do menino Eduardo de Jesus, de 10 anos, por policiais militares, com um tiro na cabeça, na favela do Areal, no Complexo do Alemão (GOULART & ARAÚJO, 2015). Esta cobertura foi responsável por vinte das 48 matérias classificadas no pacote LCSA (42%) encontradas na cobertura da UPP do Alemão entre 2014 e 2016. No item 4.8 deste trabalho, faremos uma breve análise qualitativa comparativa entre a cobertura das mortes de Eduardo de Jesus e do capitão Uanderson.

No que se refere às fontes, as matérias sobre as UPPs do Alemão registraram 293 declarações de fontes estatais contra 202 de fontes não estatais. Destas, foram 101 de moradores, trabalhadores, vítimas e familiares de vítimas, 74 de especialistas, 19 de representantes de ONGs, empresários e entidades do “asfalto”, cinco de turistas e duas de jornalistas da mídia empresarial não comunitária. Do total de fontes não estatais, 103 (ou 51,5%) foram críticas às UPPs: 49 (24,5%) denunciam a violação de direitos e liberdades, 46 delas (23%) quanto à ineficiência em impor lei e ordem, oito (4%) falam sobre a ausência de políticas públicas. Em 48,5% das declarações de fontes não estatais não foram registradas críticas às UPPs. Devido à ampla cobertura da morte do menino Eduardo, a mãe da vítima, Therezinha de Jesus, foi uma das três a terem mais declarações publicadas entre as fontes não estatais: sete, atrás apenas dos sociólogos Ignacio Cano e Paulo Storani, com oito declarações cada.

Quanto às clivagens ideológicas, 170 das matérias apresentam as UPPs do Complexo do Alemão como parte de um Estado democrático de direito e apenas 33 – não obstante o caso Eduardo, ou graças a ele – como parte de um Estado policialesco. Em relação ao público ao qual se destinam as ocupações, 170 matérias apresentam as UPPs como benéficas aos moradores das favelas e apenas 23, como favoráveis aos moradores do asfalto. Mais uma vez parece prevalecer a lógica da “sopa de pedra de Pedro Malasartes” (BATISTA, 2003, p. 92), em que é preciso aguentar as mortes e outras violações de direitos humanos e de liberdades civis, pois o melhor ainda está por vir. Por fim, no que diz respeito à continuidade das UPPs,

188 matérias as representam como parte de uma política permanente e consolidada, enquanto que apenas 15 as caracterizam como uma política efêmera.

Quadro 3 – Resumo pesquisa 2014-2016: Complexo do Alemão.

Pacotes interpretativos63

Lei e ordem Extensão da cidade formal Liberdades civis sob ataque Pobreza causa crime Total 133 18 48 4 Percentual 65,5% 9% 23,5% 2% Total de matérias: 203

Fontes: Estatais 294 x 202 Não estatais  Especialistas: 74

 Moradores/líderes comunitários/trabalhadores/vítimas/familiares/profissionais: 101  Turistas: 5

 Terceiro setor/comerciantes/empresários: 19  Meios de comunicação/jornalistas: 2

Críticas de fontes não estatais às UPPs: 103 (51,5% das fontes não estatais ouvidas)64

Ineficiência em impor a lei e a ordem: 46 (23% das fontes não estatais ouvidas) Ausência de políticas públicas: 8 (4% das fontes não estatais ouvidas)

Violação de direitos: 49 (24,5% do total de fontes não estatais ouvidas) Gentrificação/Especulação imobiliária: –

Clivagens ideológicas:

UPP para a favela 180 x 23 UPP para o asfalto

Estado democrático de direito 170 x 33 Estado policialesco Política permanente 188 x 15 Política efêmera