LISTA DE ABREVIATURAS E SÍMBOLOS
GI 50 Concentração de amostra que fornece 50% de inibição do crescimento celular
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1. Compostos nutricionais
No que diz respeito à análise da composição em macronutrientes e valor energético das 3 perpétuas em estudo: vermelha (Gomphrena haageana K.), branca (Gomphrena globosa var. albiflora) e rosa (Gomphrena sp), apresentam-se os resultados na Tabela 1.
Tabela 1. Macronutrientes (g/100 g de massa seca) e valor energético (kcal/100 g de massa seca) das três variedades de G. globosa estudadas.
Perpétua-vermelha Perpétua-branca Perpétua-rosa Cinzas 5,4 0,2c 6,1 0,3b 7,5 0,4a Proteínas 5,9 0,3a 5,6 0,2a 5,70 0,01a Lípidos 0,48 0,03c 0,83 0,02b 1,19 0,06a Glúcidos 88,2 0,3a 87,5 0,3a 85,6 0,2b Energia 380,8 0,6a 379,8 0,8ª 376 1b Em cada linha, letras diferentes significam diferenças estatisticamente significativas (p<0,05).
Da análise da tabela 1 se conclui que os glúcidos foram os macronutrientes encontrados em maior quantidade sendo os níveis mais elevados verificados na perpétua-vermelha (88,2 g/100 g), seguidos pelas cinzas e proteínas. A perpétua-rosa revelou o maior conteúdo em cinzas (7,5 g/100 g) e lípidos (1,19 g/100 g), ao passo que a perpétua-vermelha e branca apresentaram os maiores valores energéticos (380,8 e 379,8 kcal/100 g, respetivamente).
Relativamente aos açúcares (Tabela 2), a frutose, a glucose e a sacarose foram detetadas em todas as amostras em estudo, das quais as variedades vermelha e rosa revelaram o maior conteúdo total (2,47 e 2,40 g/100 g, respetivamente). A frutose foi maioritariamente encontrada na perpétua-vermelha (0,76 g/100 g), ao passo que a sacarose prevalece, na mesma concentração, nas variedades branca e rosa (0,17 g/100 g). Esta última revelou também a maior quantidade de glucose (1,66 g/100 g). Num estudo levado a cabo por Pereira e seus colaboradores (2015), em infusões preparadas a partir das mesmas amostras de G. globosa, os autores não detetaram a
Capítulo 4 – Resultados e Discussão
38 presença de glúcidos, o que pode ser devido ao facto de, nesse tipo de extração, as quantidades de açúcares serem demasiadamente baixas para serem detetadas, possivelmente devido à resolução do equipamento utilizado na análise.
Tabela 2. Açúcares (g/100 g de matéria seca) das três variedades de G. globosa estudadas.
Em cada linha, letras diferentes significam diferenças estatisticamente significativas (p<0,05).
Os resultados da composição em ácidos gordos, ácidos gordos saturados (SFA), ácidos gordos monoinsaturados (MUFA) e ácidos gordos polinsaturados (PUFA) apresentam-se na Tabela 3.
Tabela 3. Composição em ácidos gordos (percentagem relativa) das três variedades de G. globosa estudadas.
Perpétua-vermelha Perpétua-branca Perpétua-rosa C16:0 (ácido palmítico) 34,6 ± 0,4 25,7 ± 0,4 25,3 ± 0,1 C18:0 (ácido esteárico) 8,1 ± 0,1 5,93 ± 0,09 4,65 ± 0,02 C18:1n9 (ácido oleico) 5,38 ± 0,02 4,91 ± 0,09 7,1 ± 0,3 C18:2n6 (ácido linoleico) 23,6 ± 0,3 31,9 ± 0,3 30,2 ± 0,2 C18:3n3 (ácido α-linoleico) 10,8 ± 0,9 13,7 ± 0,8 15,07 ± 0,05 C22:0 (ácido beénico) 3,94 ± 0,02 5,65 ± 0,02 5,08 ± 0,03 SFA totais 58,5 ± 0,5a 48,9 ± 0,5b 46,3 ± 0,4c MUFA totais 6,04 ± 0,03b 5,24 ± 0,09c 8,2 ± 0,3a PUFA totais 35,5 ± 0,5b 45,9 ± 0,6a 45,6 ± 0,1a nd- não detetado. SFA – ácidos gordos saturados; MUFA – ácidos gordos monoinsaturados; PUFA – ácidos gordos polinsaturados. Apenas os ácidos gordos com uma percentagem maior que 5% estão apresentados na tabela; a diferença para 100% corresponde a 14 ácidos gordos menos abundantes. Em cada linha, letras diferentes significam diferenças estatisticamente significativas (p<0,05).
Perpétua-vermelha Perpétua-branca Perpétua-rosa Frutose 0,76 ± 0,01a 0,53 ± 0,03b 0,57 ± 0,02b Glucose 1,58 ± 0,04ab 1,52 ± 0,07b 1,66 ± 0,09a Sacarose 0,13 ± 0,02b 0,17 ± 0,01a 0,17 ± 0,03a Açúcares totais 2,47 ± 0,06a 2,21 ± 0,04b 2,40 ± 0,04a
Capítulo 4 – Resultados e Discussão
39 Nas variedades em estudo foram identificados 20 ácidos gordos, entre os quais prevalecem os SFA e os PUFA, em contraste com os MUFA. A perpétua-vermelha revelou a maior percentagem de SFAs (58,5%), sendo o ácido palmítico (C16:0; 34,6%) e o ácido esteárico (C18:0; 8,1%) os maiores responsáveis por esta percentagem. Os MUFA predominam na perpétua-rosa (8,2%), apresentando ácido oleico (C18:0; 1n9; 7,1%) e ácido eicosenóico (C20:1; 0,30%), ao passo que os PUFA prevalecem nas variedades branca (45,9%) e rosa (45,6%), devido à importante contribuição do ácido linoleico (C18:2n6; 31,9 e 30,2%, respetivamente) e do ácido α-linoleico (C18:3n3; 13,7 e 15,07%, respetivamente).
Relativamente aos ácidos orgânicos (Tabela 4), a perpétua-branca revelou a maior quantidade (1,32 g/100 g) com uma contribuição bastante significativa do ácido oxálico (1,16 g/100 g), ao passo que a perpétua-vermelha apresenta a maior concentração de ácido málico, possuindo também ácido fumárico, embora em concentrações mais baixas (0,0070 g/100 g).
Tabela 4.Ácidos orgânicos (g/100 g de massa seca) das três variedades de G. globosa estudadas.
Perpétua-vermelha Perpétua-branca Perpétua-rosa Ácido oxálico 0,82 ± 0,01c 1,16 ± 0,01a 0,95 ± 0,02b Ácido málico 0,20 ± 0,01a 0,16 ± 0,03b 0,14 ± 0,01c
Ácido fumárico 0,0070 ± 0,0002 nd nd
Ácidos orgânicos
totais 1,03 ± 0,02c 1,32 ± 0,01a 1,10 ± 0,01b
nd- não detetado; Em cada linha, letras diferentes significam diferenças estatisticamente significativas (p<0,05).
Os ácidos málico, fumárico e oxálico desempenham um papel fundamental no ciclo de Krebs, via central de produção de energia da célula, estando envolvidos no metabolismo dos glúcidos, lípidos e proteínas (Bennet-Clark 1993). O ácido málico participa na respiração e fotossíntese, juntamente com os ácidos cítrico e oxálico, envolvidos no transporte de catiões e em processos que ocorrem na rizosfera, incluindo a aquisição de nutrientes, destoxificação de metais, redução do stresse anaeróbio em raízes, absorção de minerais e atração microbiana (Mucha et al. 2005). O ácido málico, também se comporta como antioxidante, uma vez que tem a
Capítulo 4 – Resultados e Discussão
40 capacidade de quelatar metais. O ácido oxálico é o ácido dicarboxílico mais simples e possui uma forte capacidade quelante de catiões polivalentes (Oliveira et al. 2008).
A presença destes ácidos orgânicos antecipa uma bioatividade antioxidante por parte das perpétuas em estudo.
Os resultados da composição em tocoferóis, para as 3 variedades em estudo apresentam-se na Tabela 5.
Tabela 5. Composição em tocoferóis das três variedades de G. globosa estudadas. Os resultados encontram-se expressos em mg/100 g de massa seca.
Perpétua-vermelha Perpétua-branca Perpétua-rosa α-Tocoferol 0,55 ± 0,03a 0,28 ± 0,02b 0,23 ± 0,01c γ-Tocoferol 0,50 ± 0,04b 1,04 ± 0,06a 1,09 ± 0,05a δ-Tocoferol nd 0,05 ± 0,01 0,06 ± 0,01 Tocoferóis totais 1,04 ± 0,07b 1,37 ± 0,08a 1,38 ± 0,03a nd-não detetado. Em cada linha, letras diferentes significam diferenças estatisticamente significativas
(p<0,05).
Relativamente ao conteúdo em tocoferóis, as variedades branca e rosa revelaram quantidades semelhantes de γ-tocoferol (1,04 e 1,09 mg/100 g) numa quantidade total de tocoferóis de 1,37 e 1,38 mg/100 g, respetivamente. O α-tocoferol foi encontrado em elevadas concentrações na perpétua-vermelha (0,55 mg/100 g), que também apresenta γ-tocoferol, sendo a única variedade na qual não foi detetado δ- tocoferol. Esta última isoforma foi encontrada nas duas restantes variedades em concentrações que variam entre 0,05-0,06 mg/100 g de massa seca.
A vitamina E encontra-se entre os antioxidantes mais importantes no combate ao stresse oxidativo (Fang et al. 2002; Kim et al. 2002) inibindo a produção de radicais peroxilo (LOO•) induzida por espécies reativas de oxigénio (ROS), protegendo assim as células da peroxidação dos ácidos gordos polinsaturados (PUFA) na membrana fosfolipídica, de danos oxidativos das lipoproteínas de baixa densidade (LDL), proteínas celulares, DNA, e da degeneração membranar (Fang et al. 2002). Deste modo, tem sido demonstrado ao longo dos tempos que a atividade antioxidante dos tocoferóis e tocotrienóis ocorre devido à sua função como captadores de radicais peroxilo lipídicos e, em segundo lugar, devido à ação supressora e captadora de singletos de oxigénio.
Capítulo 4 – Resultados e Discussão
41 Trabalhos recentes demonstraram que tocoferóis sem grupos metilo, tais como o γ-tocoferol, podem suprimir RNSs (“Reactive Nitrogen Species”; espécies reativas de azoto) de forma mais eficaz relativamente ao α-tocoferol e assim proporcionar efeitos benéficos peculiares. O γ-tocoferol possui propriedades anti- inflamatórias, antineoplásicas e antidiuréticas. Mais ainda, dados epidemiológicos recentes sugerem que este tocoferol constitui um fator de risco mais negativo para determinados tipos de cancro e enfartes do miocárdio em relação ao α-tocoferol (Hensley et al. 2004). Em alimentos, os tocoferóis podem estabilizar os ácidos gordos prevenindo a rancificação durante o armazenamento (Li et al. 2007).
4.2. Não-nutrientes (compostos fenólicos)
Os resultados (tempo de retenção, λmax na região do visível, ião molecular e iões dos principais fragmentos observados por MS2) obtidos por análise HPLC- DAD-ESI/MS, tendo em vista a identificação e quantificação de compostos fenólicos nas diferentes variedades de perpétuas estão apresentados na Tabela 6. Como exemplo, o perfil de compostos fenólicos da perpétua-rosa é apresentado na Figura
13.
A análise HPLC-DAD permitiu a determinação dos mesmos 20 compostos fenólicos, todos eles glucósidos de flavonóides, em ambas as perpétuas rosa e branca, dos quais 14 já tinham sido previamente identificados pelo nosso grupo em inflorescências de perpétua-roxa (Gomphrena globosa L.) (Roriz et al. 2014). Os 6 compostos restantes (1, 5, 8, 15, 16 e 17) foram designados segundo a suas características de espetrometria de massa. Em contraste com a perpétua-roxa, não foram encontrados derivados de hidroxicinamol nas amostras de perpétuas branca e rosa em estudo.
Capítulo 4 – Resultados e Discussão
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Tabela 6. Tempo de retenção (Rt), comprimentos de onda dos máximos de absorção na região visível (λmax), dados do espetro de massa, identificação e quantificação dos compostos fenólicos das variedades branca e rosa do género Gomphrena (média ± SD).
Pico Rt (min) max (nm) Ião molecular [M-H]- (m/z) Principais fragmentos MS2 (m/z) Identificação tentativa Quantificação (mg/g extrato) Branca Rosa 1 16,7 354 741 609(8),301(40) 3-O-(2-pentosil, 6-ramnosil)-hexósido de quercetina 0,12 ± 0,01 0,12 ± 0,01 2 17,9 354 595 301(100) 3-O-(6-pentosil)- hexósido de quercetina 0,12 ± 0,01 0,15 ± 0,01 3 18,8 354 609 301(100) 3-O-rutinósido de quercetin 5,21 ± 0,01 4,93 ± 0,10 4 19,1 340 725 593(10),285(40) 3-O-(2-pentosil, 6-O-ramnosil)-hexósido de canferol 0,92 ± 0,03 1,22 ± 0,05 5 19,7 356 593 285(100) 3-O-(6-ramnosil)-hexósido de canferol 0,36 ± 0,01 0,44 ± 0,02 6 20,2 356 463 301(100) 3-O-glucósido de quercetina 0,71 ± 0,01 0,73 ± 0,02 7 21,1 352 579 447(10),285(35) 3-O-(2-pentosil)-hexósido de canferol 0,20 ± 0,01 0,22 ± 0,01 8 21,6 358 505 301(100) O-acetil-hexósido de quercetina tr 0,018 ± 0,003 9 22,3 350 593 285(100) 3-O-rutinósido de canferol 3,27 ± 0,03 3,31 ± 0,01 10 23,3 352 623 315(100) 3-O-rutinósido de isoramnetina 0,71 ± 0,02 0,75 ± 0,01 11 23,9 350 447 285(100) 3-O-glucósido de canferol 0,47 ± 0,02 0,52 ± 0,02 12 24,9 358 477 315(100) 3-O-glucósido de isoramnetina 0,31 ± 0,01 0,36 ± 0,03 13 26,0 346 477 315(100) O-hexósido de isoramnetina 0,39 ± 0,01 0,39 ± 0,01 14 26,7 346 489 285(100) O-acetil-hexósido de canferol 0,25 ± 0,01 0,29 ± 0,01 15 28,5 340 563 285(100) O-pentosil-ramnósido de canferol 0,15 ± 0,01 0,19 ± 0,01 16 29,3 276,340 607 313(100) 3-O-(2-pentosil)-hexósido de gonfrenol 0,32 ± 0,01 0,36 ± 0,03 17 30,7 280,334 649 313(100) 3-O-(2-pentosil-6-acetil)-hexósido de gonfrenol 0,21 ± 0,01 0,31 ± 0,03
Capítulo 4 – Resultados e Discussão
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18 31,8 338 639 463(39),301(30) O-glucuronil-O-hexósido de quercetina 0,037 ± 0,001 0,08 ± 0,01
19 32,3 278,342 475 313(100) Gonfrenol 3-O-hexósido 0,39 ± 0,01 0,40 ± 0,01 20 33,9 276,340 517 313(100) Gonfrenol 3-O-(6-acetil)-hexósido 0,84 ± 0,03 0,84 ± 0,01 Compostos Fenólicos Totais 14,99 ± 0,14 15,62 ± 0,20
Tempo (min.) 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 mAU 0 200 400 600 800 1000 1200 1 2 3 4 5 6 78 9 10 11 12 13 14 151617 18 19 20
Capítulo 4 – Resultados e Discussão
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O composto 1 apresenta um ião pseudomolecular [M-H]- a m/z 741 e fragmentos
MS2 a m/z 609 ([M-H-132]-, perda de um grupo pentosilo), e 301 (quercetina; perda
de um resíduo desoxi-hexosil-hexósido; -308 mu). Apesar destes dados não mostrarem a natureza e a posição de substituição dos resíduos de açúcar, o pico 1 foi
tentativamente identificado como 3-O-(2-pentosil,6-ramnosil)-hexósido de
quercetina, devido à identificação prévia destes compostos em inflorescências de G.
globosa por Ferreres et al. (2011).
O composto 5 originou um ião pseudomolecular [M-H]- a m/z 593 e um
fragmento MS2 a m/z 285 (canferol), pela perda de um resíduo desoxi-hexosil- hexósido. Foi descartada a hipótese de ser 3-O-rutinósido de canferol, correspondente ao pico 9, por comparação com um padrão comercial. Buschi e Pomilio (1982), descreveram a presença de flavonol 3-O-robinósidos noutras espécies de Gomphrena (G. martiana), positivamente identificados por RMN, o que nos permite especular que o composto 5 seja um robinósido de canferol. Ferreres et
al. (2011) também detetaram um composto similar em G. globosa, tentativamente
identificado como 3-O-(6-ramnosil)-hexósido de canferol, baseado em
espectrometria de massa, mas sem indicação da natureza da hexose.
O composto 8 foi associado a um O-acetil-hexósido de quercetina, de acordo
com o seu ião pseudomolecular [M-H]- a m/z 505 e fragmento MS2 libertado a m/z
301 ([M-H-42-162]-, perda de grupos acetilo e hexosilo), O composto 15 ([M-H]- a
m/z 563) deve corresponder a um derivado de canferol com grupos pentosilo e ramnosilo, Observou-se apenas um fragmento MS2 resultante da perda de um dissacárido, sugerindo que os açúcares estão localizados na mesma posição da aglícona, Assim, este composto foi tentativamente identificado como O-pentosil- ramnósido de canferol. Nenhum destes compostos foi previamente identificado na variedade roxa (Ferreres et al. 2011; Silva et al. 2012; Roriz et al. 2014).
Os compostos 16 e 17 ([M–H]- a m/z 607 e 649 mu, respetivamente) originaram um pico base com m/z 313 mu, que pode corresponder a uma tri- hidroxilmetilenedioxiflavona, provavelmente um gonfrenol (3,5,4´-tri-hidroxil-6,7- metilenedioxiflavona) já descrito em folhas de G. globosa (Bouillant et al. 1978). Picos com os mesmos iões pseudomoleculares foram detetados em inflorescências de
Capítulo 4 – Resultados e Discussão
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G, globosa por Ferreres et al. (2011) e Silva et al. (2012) que os identificaram como
3-O-(2-pentosil)-hexósido de gonfrenol e 3-O-(2-pentosil-6-acetil)-hexósido de gonfrenol; assim, estas identificações foram também assumidas no nosso trabalho.
Os flavonóides com um grupo metilenedioxi, como o gonfrenol (3,5,4’-tri- hidroxi-6,7-metilenedioxiflavonol), são raros na natureza, predominantemente no género Gomphrena (Ferreira e Dias 2004); mas, a sua presença em folhas de G.
globosa foi anteriormente descrita por Bouillant et al. (1978).
As variedades branca e rosa diferem da variedade roxa pela ausência de formas
cis e trans dos ácidos ferúlico e p-cumárico e de hexósidos do ácido ferúlico.
A variedade vermelha (Gomphrena haageana K.) apresenta um perfil fenólico distinto das restantes variedades em estudo (Tabela 7), podendo esta diferença ser devida ao facto de se tratarem de plantas do mesmo género, mas de espécies diferentes, indicativas de um perfil genético também distinto. Foram detetados 14 compostos fenólicos, dos quais apenas dois foram observados nas restantes variedades de Gomphrena, i.e., quercetina-3-O-rutinósido (pico 4) e quercetina-3-O- glucósido (pico 6). Ambos os flavonóides, tal como o composto 3 (ácido p-cumárico) foram positivamente identificados por comparação com um padrão comercial, tendo sido também previamente descritos noutras variedades de perpétuas (Roriz et al. 2015; Ferreres et al. 2011; Silva et al. 2012).
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Tabela 7. Tempo de retenção (Rt), comprimentos de onda dos máximos de absorção na região visível (λmax), dados do espetro de massa, identificação e quantificação dos compostos fenólicos da variedade vermelha do género Gomphrena (média ± SD).
Pico Rt (min) max (nm)
Ião molecular
[M-H]- (m/z) Principais fragmentos MS
2 (m/z) Identificação tentativa Quantificação
(mg/g extrato) 1 15,1 354 799 315(100) Isoramnetina-O-glucuronil-desoxi-hexosil-hexósido 0,25 ± 0,01 2 16,8 354 653 315(100) Isoramnetina-O-glucuronil-hexósido 0,83 ± 0,01 3 17,2 312 163 119(100) Ácido p-cumárico 1,00 ± 0,04 4 18,9 356 609 301(100) Quercetin-3-O-rutinósido 1,27 ± 0,01 5 19,4 354 639 331(36),316(16) O-desoxi-hexosil-hexósido de patuletina 0,39 ± 0,03 6 20,2 358 463 301(100) Quercetina-3-O-glucósido 0,45 ± 0,03 7 20,6 354 493 331(60),316(22) O-hexósido de patuletina 0,45 ± 0,01 8 22,0 336 829 635(22),513(56),315(100),193(20) Desconhecido 9 25,1 348 681 343(96),328(51) Metoxi-tri-hidroximetilenodioxiflavona O-glucuronil-hexósido 1,07 ± 0,04 10 26,4 346 637 329(100) 3,5,3’,4’-Tetra-hidroxi-6,7-metilenedioxiflavona-3-O-dseoxi- hexosil-hexósido 3,83 ± 0,01
11 27,2 348 767 723(79),343(98),328(48) Derivado malonil de metoxi-tri-hidroximetilenodioxiflavone O- glucuronil-hexósido
0,83 ± 0,01
12 28,1 342 825 681(90),343(36),328(22) Derivado de metoxi-tri-hidroximetilenodioxiflavona 0,40 ± 0,01 13 29,0 338 491 329(56),179(3) 3,5,3’,4’-Tetra-hidroxi-6,7-metilenedioxiflavona-3-O-hexósido 0,65 ± 0,01 14 30,0 346 493 447(60),328(5),315(8) Metilenedioxiflavona desconhecida 3,03 ± 0,02 Compostos Fenólicos Totais 14,46 ± 0,03
49 Os compostos 1 e 2 devem corresponder a derivados de isoramnetina (λmax por volta dos 354 nm e fragmentos MS2 a m/z 315) com diferentes substituintes (açúcares). Não foi possível a identificação dos resíduos de açúcares e a sua
localização relativamente à aglícona. Apesar de apenas um único fragmento MS2 ter
sido libertado em ambos os casos, parece que esses açúcares estão numa única posição na forma de oligossacáridos. Deste modo, de acordo com as suas massas moleculares, os compostos foram identificados como isoramnetin-O-glucuronil- desoxi-hexosil-hexósido e isoramnetin-O-glucuronil-hexósido, respetivamente.
Os compostos 5 ([M-H]- a 639 m/z) e 7 ([M-H]- a 493 m/z) originaram dois fragmentos MS2 a m/z 331 pela perda de resíduos de desoxi-hexosil-hexósido (308 um) e hexósidos (162 mu), respetivamente. O ião a m/z 331 pode corresponder a patuletina, cuja presença foi descrita noutras espécies do género Gomphrena (Ferreira e Dias 2004). Assim, os compostos foram tentativamente identificados como O-desoxi-hexosil-hexósido de patuletina e O-hexósido de patuletina, respetivamente. Este último pode corresponder a 3-O-glucósido de patuletina, descrito em G. claussenii Moq. por Ferreira e Dias (2004).
Os compostos 9-14 foram também tentativamente identificados como derivados de metilenodioxiflavona, já descritos anteriormente na variedade de perpétua roxa
por Ferreres et al. (2011). O composto 13 apresenta um ião pseudomolecular [M-H]-
a m/z 491que libertou um fragmento MS2 a m/z 329 (-162 mu; perda de um resíduo
hexosil), o qual pode corresponder a uma aglícona desprotonada correspondente à estrutura de uma tetra-hidroximetilenedioxiflavona. Foi tentativamente identificada como 3,5,3’,4’-tetra-hidroxi-6,7-metilenedioxiflavona-3-O-hexósido, tal como previamente descrito por Ferreres et al. (2011). Similarmente, o composto 10 ([M- H]- a m/z 637) que libertou um único fragmento MS2 a m/z 329 (-308 mu), pode corresponder a um derivado de desoxi-hexosil-hexósido. O composto 9, com um ião [M-H]- a m/z 681, originou fragmentos a m/z 343 (-338 mu; perda de resíduos glucoronil + hexosil) e 328 (-15 mu; perda de um resíduo metil) pode corresponder a um O-glucuronil-hexósido de metoxi-tri-hidroximetilenedioxiflavona. O composto 11 ([M-H]- a m/z 767) apresenta uma massa molecular de 86 mu, maior que o
composto 9, e os mesmos fragmentos MS2 a m/z 343 e 328, juntamente com outro
Capítulo 4 – Material e Métodos
50 características apontam para um derivado malonil do composto 9. O composto 12, pode também ser relacionado com o composto 9 devido à observação de fragmentos MS2 a m/z 343 e 328, bem como pela existência de um espetro de absorção UV similar; no entanto, não se conseguiu definir a sua estrutura final. Também não se conseguiu identificar o composto 14, apresar da presença de um fragmento a m/z 328, que sugere também uma relação com o composto 9, pertencendo, assim, igualmente, ao grupo das metilenedioxiflavonas. No entanto, que seja do nosso conhecimento, à exceção do composto 13, identificado por Ferreres et al. (2011), nenhum dos outros compostos foi previamente descrito em G. globosa.
Por último, o composto 8 apresentou um padrão de fragmentação MS2 e de espetro UV que não permitiu a identificação da sua estrutura.
O composto 3 foi a flavona encontrada em maior quantidade nas variedades branca e rosa (Tabela 6), seguido do composto 9, que foi previamente descrito pelo nosso grupo como sendo o principal flavonóide presente na variedade roxa. Relativamente à perpétua vermelha, o composto maioritário foi o composto 10. Que seja do nosso conhecimento, este é o primeiro estudo sobre a composição fenólica das variedades branca, rosa e vermelha do género Gomphrena.
Embora os compostos secundários desempenhem uma variedade de funções nas plantas, é altamente provável que a sua função ecológica exerça alguma influência sobre os seus potenciais efeitos terapêuticos para os seres humanos. Por exemplo, os compostos secundários envolvidos na defesa de plantas contra a citotoxicidade de agentes patogénicos microbianos poderia revelar-se útil na utilização destes como medicamentos antimicrobianos nos seres humanos, do mesmo modo que aqueles envolvidos na defesa contra herbívoros, através da atividade da neurotoxina, se revelam eficazes como antidepressivos, sedativos, relaxantes musculares ou anestésicos, através da sua ação sobre o sistema nervoso central (Briskin 2000).
A atividade antioxidante dos compostos fenólicos está relacionada com a sua capacidade de eliminação de radicais livres, doação de átomos de hidrogénio ou eletrões e aptidão para quelatar iões metálicos (Afanas’ev et al. 1989; Amarowicz et
al. 2004), sendo a sua estrutura um fator determinante no exercício dessas
bioatividades. No caso dos ácidos fenólicos, a sua atividade antioxidante depende do número e da posição dos grupos hidroxilo, relativamente ao grupo carboxilo
Capítulo 4 – Material e Métodos
51 funcional (Rice-Evans et al. 1996; Robards et al. 1999), sendo esta atividade potenciada com o aumento do grau de hidroxilação. Contudo, os compostos fenólicos podem interagir sinergicamente com outros antioxidantes, tais como o ácido ascórbico e os tocoferóis, proporcionando efeitos benéficos peculiares (Croft 1998; Liao e Yin 2000; Shi et al. 2001).
Assim, devido ao vasto leque de compostos nutricionais e não-nutricionais encontrados nas variedades de perpétuas em estudo, procedemos à análise de diferentes bioatividades, nomeadamente as atividades antioxidante e anti- inflamatória. Os resultados até aqui obtidos indiciaram boas perspetivas no que diz respeito às bioatividades referidas.