• Nenhum resultado encontrado

3 ESCASSEZ DE ÓRGÃOS: PROBLEMAS CULTURAIS E ÉTICOS

3.1 Compreensão sobre morte e morte encefálica

Além da inabilidade médica em relação à legislação, foi constatada ainda uma confusão conceitual e certa inquietação emocional da sociedade em geral, sobre a compreensão e distinção entre morte e morte encefálica. As inquietações se referem à questão do gerenciamento médico ao doador e na manutenção dos órgãos. Em abril de 1989, foram publicados no jornal da Associação Médica Americana dois artigos e um editorial sobre o conhecimento de médicos e enfermeiros, conceitos pessoais, atitudes e sentimentos concernentes à morte encefálica e sobre os cuidados prestados por estes profissionais para o paciente nestas condições clínicas. Foram constatados alguns conflitos de papéis e dificuldades emocionais no diagnóstico. (DARBY; STEIN; GRENVIK, 1989, WIKLER;

WEISHARD, 1989, YOUNGNER et al., 1989). Um dos artigos foi baseado no estudo exploratório e descritivo de Stuart J. Youngner e seus associados. Eles entrevistaram 195 médicos e enfermeiros “susceptíveis de serem envolvidos em captação de órgãos” em quatro universidades afiliadas ao Hospital Cleveland com programas de transplantes ativos naquele momento. Foram questionados sobre qual função cerebral deveria ser perdida para que o paciente fosse diagnosticado como portador de morte cerebral. Os pesquisadores apresentaram dois casos e indagaram primeiramente se os pacientes com aquele quadro seriam declarados legalmente mortos e, posteriormente, além da legalidade, se pessoalmente eles consideravam estes pacientes mortos e o porquê. Finalmente, investigaram as atitudes dos médicos e enfermeiros quanto à opinião pessoal sobre a alteração da lei, exigindo que os hospitais pedissem aos familiares dos pacientes com morte cerebral a autorização para a doação de órgãos.

O estudo de Youngner et al. (1989) documentou o que o filósofo Daniel Wikler e o jurista Alan J. Weishard referiram em seu comentário editorial como “a desordem conceitual”

sobre a “definição” de morte, particularmente de “morte encefálica”, que existiu entre os profissionais de saúde. (WIKLER; WEISHARD, 1989). “Somente 35% dos respondentes identificaram corretamente o critério legal e médico para determinar morte”. (YOUNGNER et al., 1989, p. 2205). Dentre os que não foram capazes de identificar corretamente o critério médico de morte encefálica, mais de um terço se diziam responsáveis por diagnosticá-la em pacientes declarado mortos e, aproximadamente, três quartos dos médicos residentes, anestesistas e enfermeiros que trabalhavam em áreas de cuidados intensivos e transplantes (UTIs). (WIKLER; WEISHARD, 1989). Quanto à última questão, “os conceitos pessoais de morte variaram amplamente” e mais da metade dos entrevistados “não usaram o conceito coerente de morte consistentemente”. (YOUNGNER et al., 1989, p. 2205). Wikler e Weishard (1989) afirmaram que os resultados desta pesquisa “incomodaram”, e sugeriram que se tomassem um cuidado maior para que se evitassem equívocos conceituais sobre morte encefálica.

Para Youngner et al. (1989), havia inúmeros fatores para que os médicos estivessem confusos sobre o “critério de morte encefálica”. As confusões sobre esta definição tiveram início com a publicação do Comitê Ad Hoc da Escola Médica de Harvard, em 1968. Este documento definiu a morte encefálica em termos de abolição da função no tronco cerebral.

Foi também usado o termo “coma irreversível” como sinônimo de morte cerebral. (AD HOC COMMITTEE, 1968). Subsequentemente, pessoas, tanto leigas quanto profissionais da área de saúde, apresentam dificuldades na diferenciação de estados como “coma irreversível” e

“estado vegetativo persistente”. E, ainda, se pessoas portadoras de tais quadros clínicos estão

“vivas” ou com “morte encefálica”. Posteriormente, foi definido que elas estão vivas, muito embora não apresentem as funções corticais de apoio, sensibilização e cognição. Iniciaram-se, então, questionamentos éticos e legais sobre quando parar o tratamento. O Comitê Ad Hoc de Harvard lançou um novo critério para determinação de morte encefálica: a pessoa deveria apresentar uma situação em que o coração continuasse batendo, embora o cérebro estivesse irreversivelmente danificado. (AD HOC COMMITTEE apud FOX; SWAZEY, 1992).

Segundo Fox e Swazey (1992), a evolução no conhecimento propiciou uma determinação mais uniforme sobre o conceito de morte encefálica, proposta em 1981 pelo presidente da Comissão de Estudos de Problemas Éticos na Medicina, Biomedicina e Pesquisa Comportamental. (PRESIDENT’S COMMISSION, 2009). A proposta foi aprovada

pela Associação Médica Americana e, posteriormente promulgada pela maioria das legislativas estaduais.

Para as autoras supracitadas, há razões emocionais e conceituais para a dificuldade de aceitação deste tipo de morte. A principal é a aparência do paciente, pois:

Apesar de o doador cadáver estar declarado morto, ele dificilmente se assemelha com pacientes que tenham morrido por retenção cardiopulmonar. De fato, eles recordam-nos em muitas formas pacientes com vida. Eles estão mornos e retém uma cor saudável, qual não é a surpresa porque o coração deles continua batendo, oxigenando completamente o sangue e o seu corpo. Digestão, metabolismo e eliminação continuam. Apesar de ser verdade que o processo vital desses pacientes não poderia continuar sem a intervenção de tecnologia considerável, os mesmos métodos tecnológicos que são comumente usados para manter outros pacientes vivos em unidades de terapia intensiva e centros-cirúrgicos. Atualmente manter os órgãos para transplante necessita de tratamento dos pacientes mortos em muitos aspectos como se eles estivessem vivos. Desse modo, profissionais saudáveis, que entendem e aceitam o novo critério para morte no nível intelectual, podem encontrar dificuldades em ignorar os sinais de vida que constantemente bombardeiam seu senso [...]. (YOUNGNER et al., 1985, p.321).

Os pesquisadores observam, frequentemente, um tom emocional que acompanha a equipe de enfermagem, após a retirada dos órgãos e tecidos necessários ao transplante, deixarem de proporcionar os cuidados intensivos com o corpo do doador, o que caracteriza uma negação emocional da morte, apesar da compreensão intelectual. Youngner et al. (1985) ainda sugerem que há necessidade de se desenvolverem novos rituais de enfermagem que simbolizem cuidado distinto entre o cadáver doador e os outros pacientes com vida, uma vez que os procedimentos técnicos são os mesmos.

Caplan (1988) relata que, na promulgação da nova legislação, foi enfocada a necessidade de ensinar à equipe profissional de saúde a maneira correta de abordar a família e fazer a solicitação dos órgãos. (CAPLAN, 1988, p. 372). Prottas (1988) propôs uma política a ser instituída e que poderia aumentar o acesso ao sistema de captação de órgãos para o potencial doador, independente do comportamento da equipe de cuidados intensivos, segundo ele:

Esta política poderia requerer que os hospitais rotineiramente informassem as agências de admissões em captação de órgãos que são susceptíveis de conduzirem a situação de um potencial doador [...]. A equipe médica poderia ainda ter a palavra final em relação à adequação do doador. Eles poderiam não permitir que a agência de captação de órgãos entrasse em contato direto com a família sem a permissão dos responsáveis pelo cuidado com o paciente. Nem seria este novo sistema capaz de eliminar todas as reservas que os profissionais médicos têm sobre a captação de órgãos. A necessidade de educação profissional poderia ser contínua, mas a demanda colocada nestes profissionais poderia ser marcadamente reduzida [...]. (PROTTAS, 1988, p. 832 -833).

Prottas tinha conhecimento que a captação de órgãos poderia proporcionar algumas alterações às quais ele denominou “problemas sociais” na equipe da terapia intensiva. Como a solicitação de órgãos ocorre, geralmente, em situações de morte, o autor explica que o

requerimento poderia ser emocionalmente exigente. Poderia provocar nos familiares e amigos que estão vivenciando o choque da notícia da morte de seu ente querido, uma sensação de que a comissão de captação de órgãos esteja esperando pela morte como “abutres”. Esta reflexão sobre as dificuldades marca o início da política de captação de órgãos, que foi parte filosófica, acreditando na importância do trabalho a ser realizado, embora implicasse a espera pela tragédia, pois os transplantes de órgãos dependem, na maioria das vezes, da morte.

(PROTTAS, 1988, p. 833).