4 ANÁLISE DA PESQUISA
4.2 DADOS DA ANÁLISE: ENTREVISTA FOCALIZADA
4.2.1 Eixo 1: O Profissional da Comunicação e Direitos Humanos
4.2.1.3 Comunicadores como agentes de transformação social
Parte-se então, para um entendimento de como, tendo esse papel tão importante para os Direitos Humanos, os comunicadores são agentes de transformação social. Entende-se que, um profissional da área da comunicação, se torna um agente transformador, à medida que baseia o seu trabalho num olhar libertador, educativo e dialógico. Quando atua junto às comunidades, vivenciado suas experiências e tendo uma prática alicerçada na solidariedade, empatia e na democracia, a comunicação passa a ser um elemento de transformação social, que tem a capacidade de modificar realidades e a sociedade.
Com foco no trabalho do jornalismo, Rebeca (2021) traz como exemplo, a sua linha de pesquisa sobre territorialidades, retratando o papel do jornalista na questão do garimpo na Amazônia. Ela afirma que, a transformação social está dentro de um jornalismo alternativo, independente e contra hegemônico. Portanto, o trabalho de um jornalista é ser uma voz de transformação, onde o “papel o do jornalista é fundamental para a gente ter um debate crítico, para a gente, por exemplo, não acreditar em falsos discursos” (REBECA, 2021). E falar de transformação social é falar de Direitos Humanos, uma vez que sabendo dos nossos direitos, temos conhecimento do nosso papel no mundo, não somente como um indivíduo, mas também como um cidadão pertencente a uma sociedade formada por diferentes pessoas e diferentes culturas.
É nesse momento que se nota a importância da Comunicação e dos profissionais dessa área, para não somente ser o agente de transformação, mas também fazer dos demais serem portadores dessa “voz” transformadora. Apesar dessa atuação transformadora enfrentar imensos desafios na sociedade atual, principalmente nas questões dos Direitos Humanos, os profissionais da comunicação não deixam de estarem presentes, atuando diariamente nessa área. “Tem uma boa vontade, tem uma esperança. Esses jornalistas, eles se sentem responsáveis, no sentido de estar trabalhando e lutando por estas questões dos Direitos Humanos” (REBECA, 2021).
Já no quesito das Relações Públicas, o profissional passa a ser um agente de transformação social, quando entende que sua atuação deve ser baseada em princípios libertadores, dialógicos e educativos, assim como é defendido por Freire (1979). Essa atuação transformadora vem a trabalhar em prol das pessoas, e pode ser enriquecida por intermédio de um processo empático e solidário. É somente tendo uma visão da profissão com uma perspectiva social e participativo, em que é possível “desenvolver indivíduos conscientes, críticos, atuantes e transformadores” (SILVA, 2010, p.9), que se tem um relações-públicas (RP) que venha a transformar e modificar as relações sociais e a sociedade.
Juliana (2021) destaca que uma forma de um relações-públicas ter esse conhecimento, é compreendendo a importância do contato pessoal, de realmente conhecer quem são as pessoas com que estou trabalhando, qual a realidade delas, como elas agem, como elas pensam e o que elas desejam fazer. Mesmo que essa ação comece a partir de um RP como um agente passivo, que adquire esse conhecimento por outros meios, no momento em que se entende qual o seu papel enquanto comunicador e o que pode oferecer, colocando-se em relação de igual, um RP passa a ser, então, um agente de transformação social, que deixa de “repetir incessantemente o discurso sistêmico normalmente assimilado a sua formação universitária” (KUNSCH, M., 2007b, p. 176).
Para Carlos (2021), existem diferentes formas de um comunicador agir para realizar uma transformação social na realidade na qual estão inseridos. A primeira forma exposta pelo entrevistado é ter atitude, começando desde a graduação, onde mesmo que muitas disciplinas sejam voltadas para uma perspectiva mercadológica, é crucial ter um olhar também voltado para o social. “Passa a ser uma atitude muito latente e individual, mas que reverbera na nossa prática” (CARLOS, 2021), ou seja, através de incentivos, como pesquisas e iniciação científica, que são ofertadas na graduação que venham a identificar estudantes que demonstram interesse em questões sociais, de resistências e de transformação social, são formas que influenciam os futuros comunicadores a já serem agentes transformadores.
A segunda maneira está no ato de ser irradiadores e modelos a partir de suas ações, para que os demais percebam que há professores, profissionais, educadores, pesquisadores da Comunicação que estão envolvidos com temáticas mais sociais, já que, por um tempo, tais questões estavam distantes da área da comunicação, mas que hoje estão se aproximando cada vez mais. Assim, cabe aos comunicadores se inserirem nessas dimensões e mostrar que o seu trabalho contribui para questões sociais, como, por exemplo, os fluxos migratórios. Mostrando a sua atuação, é que se torna uma referência para demais, que passam a enxergar este trabalho e ir atrás de comunicadores para abordar sobre tais temáticas.
A terceira forma que Carlos (2021) explana é propondo uma reflexão que seja mais unificada, juntando os discursos e as estratégias de ações que os comunicadores estão realizando, de maneira a juntar forças e vozes. Um exemplo é mobilizando instituições para unirem conhecimentos e pesquisadores na área, criando disciplinas e também agindo institucionalmente, abrindo portas para que a minoria esteja inserida no mundo acadêmico. Fomentar este pensamento crítico e não tradicional ainda na graduação é um meio de consolidar e quebrar as barreiras que muitas vezes afastam a área da Comunicação de temáticas mais polêmicas e sociais.
A quarta forma de ser um agente de transformação é que os profissionais de comunicação devem estar em sintonia uns com os outros e também com pessoas de outras áreas que estejam atuando diante de determinadas situações sociais. É estabelecer uma interação entre relações-públicas e jornalistas, de maneira que um complemente o trabalho do outro, até mesmo ajudando o que cada um faz. Conforme Carlos (2021) “a gente precisa ter uma aproximação maior com esses comunicadores, não que a gente vá resolver tudo, mas muitas informações daquilo que a gente está chamando de transformação social, ela passa por uma narrativa”. Observa-se que mais uma vez é destacada a importância de um trabalho em conjunto. Um comunicador, mesmo que possa atuar sozinho, tem seu trabalho enriquecido e fortalecido à medida que entende que ter uma equipe diversa e com outros profissionais torna sua atuação mais efetiva.
Assim, é fundamental que, em todo o agir do comunicador, suas ações sejam construídas com base na sensibilização. Luisa (2021) afirma que esse processo de sensibilização sobre o tema de Direitos Humanos se inicia logo na graduação, em que o olhar dos estudantes e futuros profissionais deve ser voltado para um lado mais social. Assim, a transformação social deve estar intrínseca à atuação dos comunicadores, que independentemente da área e do local de trabalho, eles agem pensando em sua responsabilidade com a sociedade. Luisa (2021) complementa que ter suas ações embasadas em um pensamento de transformação e mudança social, vem a enriquecer os profissionais da comunicação. O ato de transformar possibilita que se pense em uma sociedade mais plural e inclusiva, que respeita os direitos e fomenta a diversidade de opiniões, fugindo das pautas e narrativas repetitivas, que por vez restringe e limita discussões necessárias para que haja a construção da cidadania e da democracia.
Por fim, ser um agente transformador, não diz respeito somente ao lado profissional do comunicador, mas também ao seu lado pessoal. Carlos (2021), reforça essa ideia ao dizer que todo o processo de humanização que está presente na garantia dos Direitos Humanos, transforma todas as pessoas envolvidas nisso. “A gente consegue a transformação social, mas também a transformação nossa, pessoal e individual, porque a partir do momento que a gente age e vê que houve um resultado, a gente também se sente gratificado, a gente sente também que há um propósito de vida que foi suprida e conquistada” (CARLOS, 2021). Ou seja, ao passo que um comunicador exerce seu papel social, ele transforma pessoas, a sociedade e a si mesmo.
Verifica-se, então, que a comunicação voltada o social, torna-se transformadora e faz dos seus profissionais agentes dessa transformação. Este entendimento foi reforçado nas entrevistas, em que todos contribuíram para afirmar que os comunicadores, dentro de suas diversas áreas de atuação, carregam em si, enquanto profissionais e cidadãos, a vontade de
mudar a realidade que muitos grupos vulneráveis estão sujeitos a viver. Essa transformação social é vital para trabalhar com questões de Direitos Humanos e está presente no cerne da Comunicação Comunitária, conceito que embasou a presente pesquisa.