5 PARADEIGMA E MANUAIS (TEXTBOOKS) DO CAMPO CIENTÍFICO
5.2 COMUNIDADE CIENTÍFICA VERSUS CAMPO CIENTÍFICO
Como afirmado por Geertz (2001, p. 146), o paradigma rege os praticantes, não os assuntos, logo, para identificar o saber-fazer em suas analogias bipolares (particular- particular) é impreterível observar a coletividade do campo em suas singularidades, isto é, as comunidades científicas, em termos kuhnianos. Kuhn (2007, p. 222-223) sobre a comunidade científica afirma que
[...] uma comunidade científica é formada pelos praticantes de uma especialidade científica. Estes foram submetidos a uma iniciação profissional e a uma educação similares, numa extensão sem paralelos na maioria das outras disciplinas. Neste processo absorveram a mesma literatura técnica e dela retiraram muitas das mesmas lições. Normalmente as fronteiras dessa literatura-padrão marcam os limites de um objeto de estudo científico e em geral cada comunidade possui um objeto próprio de estudo. Há escolas nas ciências, isto é, comunidades que abordam o mesmo objeto científico a partir de pontos de vista incompatíveis.
Seguindo a afirmação de Kuhn, três elementos saltam como características singulares no corpo da comunidade: a educação similar (analógica), a literatura padrão (metrológica) e o objeto de estudo, sendo que este último possui uma particularidade sobreposta na declaração de Kuhn, em que um mesmo objeto de estudo pode possuir pontos de vista distintos nas comunidades científicas; essa, por exemplo, é uma característica do objeto de estudo
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informação, conforme analisa González de Gómez (2001), quando manifesta que a informação nos anos de 1940 era concebida segundo uma abordagem empírico-analítica das ciências (alocucionária), particularmente através da Teoria Matemática da Comunicação. Após 20 anos, uma nova figura do saber informacional surge, a meta-ciência. Nesse processo de ajustamentos de estilos de pensamento, lento e gradual, mas que introduz mudanças significativas na percepção do fenômeno dentro da comunidade (campo), González de Gómez (2001, p. 16) afirma que é nessa direção que “se desenvolvem e desenvolverão as novas versões da Ciência da Informação, nem alocucionária, nem meta-ciência – quiçá, uma trans- ciência.” Logo, a discussão colocada em suspensão por González de Gómez (2001) diz respeito ao caráter multiforme da informação dentro do mesmo campo, a Ciência da Informação, e não especificamente como atribui Kuhn, em comunidades distintas.
A noção de comunidade posta em discussão por Kuhn é de difícil estabelecimento prático, logo onde Kuhn afirma existir uma comunidade, esta dissertação argumenta que há um campo. O conceito de campo científico se coloca em confronto ao conceito de comunidade científica, tendo esse último, para Bourdieu, uma conotação de realização da “imagem oficial da ciência”, pois exerce uma função de ocultamento de uma característica da prática real da atividade científica, a competição. A comunidade científica não possui apenas características comuns. Há nesse espaço fortes lutas pelo monopólio do poder: combates políticos e epistemológicos, de poder-saber, onde a competição entre os agentes induz a uma rivalidade que institui perspectivas distintas no seio do mesmo campo. A comunidade científica “[...] não é uma comunidade, mas um campo com concorrências.” (BOURDIEU, 2004, p. 74) O conceito de comunidade, segundo Zygmunt Bauman (2003, 7-9), pressupõe um lugar “confortável e aconchegante”, onde “podemos contar com a boa vontade dos outros”, mas que, em suma, “[...] é um mundo que não está, lamentavelmente, ao nosso alcance [...]”. Na ideia de comunidade ressoa uma concepção irenista (do grego eiréne: paz), pacificadora, de conciliação entre os sujeitos e seus lugares, inviável num campo “[...] estruturalmente destinado a proporcionar muito mais fracasso do que sucesso” e que se constitui, fundamentalmente, pela busca individualista, não-comunitária, pelo “monopólio da autoridade científica” (BOURDIEU, 2004, p. 67). A luta pelo monopólio entre os agentes, por consequência, gera tendências de ação anticomunitárias, como, por exemplo, cita Bourdieu (1983, p. 144), a “propensão ao segredo e à recusa de cooperação”. Richard Whitley (2000) sustenta que uma característica notável do trabalho científico regido por sistemas
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reputacionais é a tensão essencial46 entre a novidade (incerteza) e a tradição (mecanismos de controle), a cooperação e a competição, contradições próprias de um campo dominado por relações de força. Portanto, é perceptível o encontro dessas lutas em Thomas Kuhn (2007, p. 27, grifo nosso), por exemplo, quando ele afirma: “A competição entre segmentos da comunidade científica é o único processo histórico que realmente resulta na rejeição de uma teoria ou na adoção de outra.” Contudo, Kuhn menciona duas palavras com significações antagônicas ao mesmo contexto: competição no contexto da comunidade. Deste modo, a visão do campo foi privilegiada nesta pesquisa por atender à concepção do espaço científico manifesto na dissertação, de uma ciência implicada nos meios capitalistas de governo.
Pontos positivos da noção de comunidade foram preservados, como a exposição sofrida pelos agentes ao caráter comum de práticas singulares das regionalidades discursivas dos saberes científicos. Pontos negativos, como o enrijecimento da plasticidade da análise dos fenômenos, especialmente os das ciências humanas (ASSIS, 1993), devido à unicidade do comum e a aparente47 separação classificatória dos paradigmas em formas estruturadas - como, por exemplo, período pré-paradigmático, paradigmático, pós-paradigmático ou, ainda, ciência normal, anomalia, crise, revolução - não foram adotadas. Desta maneira, o conceito de campo é mais razoável na concepção desta pesquisa, do que o de comunidade. O campo configura-se a partir do embate entre forças antagônicas que esperam impor o seu ponto de vista e conquistar o monopólio da autoridade científica. Essas forças antagônicas podem vir de microgrupos bem posicionados e possuidores de paradigmas singulares que abordam um mesmo fenômeno de maneira diversa no campo de atuação. Kuhn diria que esse período é pré-paradigmático, pois ainda não houve o consenso geral de qual ponto de vista é hegemônico ou, ainda, como um período pós-paradigmático, onde há um estado de crise em que os pontos de vista concorrentes estão em competição para o estabelecimento de uma nova ordem paradigmática. Contudo, esses microgrupos são possuidores de paradigmas, têm seus exemplos próprios, suas singularidades, suas formas de vida, logo, não são plausíveis as atitudes que negam a condição de um “saber local” legítimo em suas analogias, pois conforme já afirmado por Bourdieu (1989, p. 67), na seção sobre o campo científico, “toda a tradição epistemológica reconhece à analogia”, ou seja, reconhece o paradigma, sem separação de estados, tipos ou status.
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Tensão essencial como já argumentada por Kuhn em sua coletânea de textos “A tensão essencial” (1989), especificamente o capítulo intitulado: “A tensão essencial: tradição e inovação na investigação científica”.
47 Sobre a aparência, Giorgio Agamben cita um poema de Wallace Stevens, “Descrição sem lugar”, como
“melhor definição” do que seja uma “ontologia paradigmática”: “Es posible que parecer - sea ser,/ como el sol es algo aparente y es. / El sol es un ejemplo. Lo que aparenta / es y en tal apariencia todas las cosas son.”
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