2. SOB A ÓTICA DOS AUTORES

2.3 Comunidade e o espaço de uso comunitário

Diante da palavra “comunidade” vislumbramos uma série de significados, ao mesmo tempo divergentes e semelhantes em certo nível. Podemos, em primeiro momento, associá-la às relações entre pessoas próximas fisicamente ou simbolicamente, ou a grupos virtuais em determinados sites de relacionamento,

ou utilizá-la como sinônimo de favela etc. São sentidos atribuídos automaticamente e que remetem a sua etimologia, a qual tem origem na palavra

“comum”.

A especialista em comunicação social Cecília Peruzzo (2009) avalia que o termo “comunitário” vem sendo utilizado de forma desordenada, principalmente em detrimento da globalização e da aproximação virtual entre pessoas. No entanto, há peculiaridades possíveis de serem identificadas nas mais diversas interpretações. De acordo com a autora:

[...] não há como negar é que a palavra “comunidade” evoca sensações de solidariedade, vida em comum, independentemente de época ou de região. Atualmente, seria o lugar ideal onde se almejaria viver, um esconderijo dos perigos da sociedade moderna. Como nos mostra Bauman (2003:7),

“‘comunidade’ produz uma sensação boa por causa dos significados que a palavra ‘comunidade’ carrega”: é a segurança em meio à hostilidade. (PERUZZO, 2009, p.140).

Conforme a reflexão acima – em que a palavra permite-se compreender como de sentido comum, de adesão e mutualidade – no dicionário de língua

Para Leila de Albuquerque (2009), os conceitos de comunidade e sociedade costumam estar associados e fazem parte da tradição sociológica weberiana, apesar de terem sido sistematizados pelo sociólogo Ferdinand Tönnies. Nesta relação entre os termos, “comunidade” carrega consigo as simbologias positivas associadas ao conceito de sociedade:

No século XIX, a noção de comunidade é resgatada e, como a sua antítese, passa a simbolizar a imagem de uma boa sociedade, pelo menos para os utópicos ou os resistentes ao modelo de solidariedade instaurado pela modernidade. O conceito de comunidade é empregado, nos séculos XIX e XX, para todas as formas de relacionamento caracterizadas por intimidade, profundeza emocional, engajamento moral e continuidade no tempo. (ALBUQUERQUE, 2009, p.50).

Tomando, então, comunidade como conceito teórico relacionado a um otimismo social e à solidariedade, este pode ser compreendido a partir de três gêneros: o de parentesco, de vizinhança e de amizade (TÖNNIES apud PERUZZO, 2009).

Para a área da arquitetura e urbanismo, o gênero vizinhança, elaborado por Tönnies, é o mais aproveitável, pois nele é possível identificar a existência de comunidades na vida urbana. Sendo assim, o espaço urbano vivido pode ser representado pela comunidade de vizinhança, a qual “[...] caracteriza-se pela vida em comum entre pessoas próximas, da qual nasce um sentimento mútuo de confiança, de favores, etc. Dificilmente isso se mantém sem a proximidade física.”

(TÖNNIES apud PERUZZO, 2009, p. 142). Portanto, pode-se dizer que a vida em comunidade está baseada em relações sociais, constituindo-se como uma sociedade, “[...] mas nem toda sociedade é uma comunidade” (PARK, BURGESS apud PERUZZO, 2009, p. 142).

Devemos, assim, ter em mente que o termo comunidade sempre possuirá como característica intrínseca o sentido de comunitário, o qual também remete à vida em comunidade, necessitando de um espaço, urbano ou não, de aproximação das relações entre pessoas. Nesse sentido, o espaço, um dos principais conceitos de interesse da arquitetura e do urbanismo, mostra-se como um elemento primordial para vida em comunidade e o desenvolvimento de laços comunitários.

Segundo Débora Machado (2009), o espaço de uso público acarreta sempre como consequência de existência o uso coletivo. Em contrapartida, um espaço de uso coletivo nem sempre é público, pode ser privado ou comunitário.

A rua, elemento primordial dos estudos urbanos, é capaz de funcionar como um espaço comunitário, conforme o comportamento da população que a usufrui, pois, um espaço originalmente público apenas torna-se comunitário quando moradores e usuários passam a tratá-lo como de sua responsabilidade, zelando pela sua preservação (MACHADO, 2009).

Então, o espaço comunitário representa “[...] o lugar comum de convivência, necessário para a habitação, cultura, serviços, educação e lazer, naquele onde as pessoas vivem experiências em comuns e percebem o mundo.” (MACHADO, 2009, p. 23). Além disto, ele é relativo à comunidade, a qual equivale “[...] ao conjunto de

pessoas com os mesmos interesses e que se organizam respeitando seus próprios costumes e hábitos [...]” (MACHADO, 2009, p. 23).

Por consequência, um espaço só possui o atributo comunitário ao atender às necessidades e expectativas de uma comunidade específica, seja de uma região, do bairro ou do município (MACHADO, 2009). Por isso, em casos onde o espaço de uso comunitário é viabilizado por uma construção arquitetônica é incentivado, por profissionais e estudiosos da área, que se utiliza de metodologias de participação popular na concepção do projeto.

Como mencionado no tópico anterior, um centro de cultura, por exemplo, pode atender às demandas de uma região específica, o que evidencia a arquitetura como possibilitador da ampla variedade de espaços que possam sustentar o uso comunitário, os quais podem oferecer lazer, esporte, cultura ou educação.

A N Á L I S E

3. GUARAPES: DE UM PASSADO ÁUREO PARA UMA REALIDADE CONFLITUOSA

O Guarapes é o segundo bairro mais recente da capital potiguar, tendo sido oficializado como tal em 1993 pela lei 4.328. Fica localizado na região administrativa oeste da cidade, entre os bairros Felipe Camarão e Planalto, na fronteira com Macaíba, margeado pela BR-226 e o rio Jundiaí (Figura 02), sendo na atualidade o bairro menos adensado da capital. Em primeiro momento, suas divisas eram estabelecidas até os limites vigentes do Planalto, porém, em 1998 este último consolidou-se por lei como sendo único. Apesar de terem se constituído oficialmente como bairros distintos, ainda é bastante comum que pessoas confundam ambos.

Figura 02 – Mapa da cidade do Natal, com destaque para o bairro Guarapes, na zona oeste.

Fonte – https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_bairros_de_Natal_(Rio_Grande_do_Norte).

Adaptado pela autora.

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE TECNOLOGIA CURSO DE ARQUITETURA E URBANISMO TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO (páginas 25-31)