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4 Resultados e Discussão

4.1 Perfil das comunidades rurais de produtores de leite

4.1.1 Comunidade rural da Mata do Paiol – Boa Esperança, MG

Das quinze comunidades rurais existentes na zona rural do município de Boa Esperança, MG, foi escolhida a Comunidade da Mata do Paiol por ter sido a primeira a operacionalizar o tanque de expansão coletivo, além de possuir um conselho comunitário em atividade, apresentar três linhas distintas de coletas de leite na primeira rota, possuir boa localização geográfica e produção predominante de leite. É uma comunidade com número expressivo de representantes na amostra e possui uma associação de produtores que, embora esteja funcionando informalmente, teve o início das atividades coletivas com o tanque em fevereiro de 1999 (Quadro 4).

QUADRO 4. Comunidades rurais de produtores de leite existentes no município de Boa Esperança, MG. Comunidade rural N° de famílias Distância da sede (centro urbano) Associações comunitárias / Conselhos comunitários Águas Verdes 30 20 Existe conselho comunitário

Barreiras 10 15 Existe conselho comunitário Barro Preto 35 18 Existe conselho comunitário Cajuru 30 18 Existe conselho comunitário Cava 30 25 Existe conselho comunitário Caxambu 15 10 Existe conselho comunitário Córrego do Ouro 18 15 Existe conselho comunitário Costas 30 25 Existe conselho comunitário Felícias 30 30 Existe conselho comunitário Lagoinha 20 18 Existe conselho comunitário Mata do Paiol 20 15 Existe conselho comunitário

Mota 15 10 Existe conselho comunitário Pintos e Rio Grande 15 15 Existe conselho comunitário Ribeirão São Pedro 30 15 Existe conselho comunitário Sapezinho 30 18 Existe conselho comunitário Fonte: Dados da realidade municipal (Emater, 2001).

A Comunidade da Mata do Paiol fica localizada a uma distância de 14 km do centro urbano de Boa Esperança e a 15 km da Cooperativa Agropecuária de Boa Esperança Ltda. – Capebe. Na busca pelo fortalecimento e união, os produtores dessa Comunidade tomaram a iniciativa de constituir, em 28 de julho de 1988, o “Conselho Comunitário e Ação Social da Mata do Paiol”, cuja formalização encontra-se lavrada em ata e registrada no cartório local.

A associação dos produtores para a concretização da compra do tanque de expansão comunitário ocorreu a partir do incentivo, assistência e financiamento do investimento por parte da Capebe. A associação opera com um tanque com capacidade para 2.500 litros e capta cerca de 1.500 litros de leite diários, dos 15 produtores filiados, de um total de 20 sediados na comunidade.

Por ocasião da pesquisa, constatou-se que a comunidade de produtores é formada por vinte famílias e dispõe de uma infra-estrutura básica composta de uma escola estadual de ensino fundamental, uma igreja católica, um pequeno comércio, um campo de futebol e uma linha de ônibus com três horários diários até o centro urbano de Boa Esperança.

O município de Boa Esperança fica localizado na mesorregião sul/sudoeste de Minas Gerais, a 280 km de Belo Horizonte, capital do estado, a 480 km de São Paulo e a 530 km do Rio de Janeiro. Possui como limites os municípios de Aguanil, Coqueiral, Santana da Vargem, Campos Gerais, Campo do Meio, Carmo do Rio Claro, Ilicínea e Cristais. Tem uma área territorial total de 854,5 km², dos quais aproximadamente 240 km² estão submersos pelas águas da represa de Furnas. Em todo o município a população é de 37.074 habitantes, dos quais 30.392 (81,98%) concentram-se na zona urbana, enquanto que 6.682 (18,02%) estão fixados na zona rural, conforme censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2000). Embora 81,98% da população estejam concentradas na zona urbana, esta ocupa, aproximadamente, 6% de toda a área territorial do município, enquanto a zona rural representa 94%.

De acordo com os dados do censo da produção pecuária municipal (IBGE, 2000), o principal setor de atividade do município é a agropecuária, com destaque para o café, o milho e a pecuária de leite. Além disso, o comércio representa uma importante atividade econômica. Esses dados foram confirmados pelo estudo realizado pela Emater4 (Emater, 2001), o qual revela que a base econômica está centrada na agropecuária, conforme demonstrado na Tabela 1.

TABELA 1. Ocupação por setor econômico no município de Boa Esperança, MG.

Atividade Nº de produtores Percentagem

Agropecuária 5.354 57,71 Indústria 1.381 14,88 Comercio 826 8,90 Transporte 348 3,75 Outros 1.369 14,76 Total 9.278 100 Fonte: Dados da realidade municipal (Emater, 2001).

Quanto à estrutura fundiária, na região, a maior concentração de propriedades encontra-se numa faixa de área de varia entre 20 e 50 ha. Abaixo desta faixa há uma concentração entre 10 a 20 ha e acima, a parcela que se concentra entre 50 e 100 ha. Com base nesses dados pode-se afirmar que, nessa região, a maior concentração de propriedades encontra-se na faixa que varia entre 2 a menos de 100 ha, representando 77,30% da sua totalidade (Tabela 2).

4 A Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural – Emater/MG, mantém disponível

em suas bases municipais um documento intitulado “Dados de Realidade Municipal”, que é atualizado anualmente, abrangendo as características gerais de cada município do estado de Minas Gerais.

TABELA 2. Estrutura fundiária do município de Boa Esperança, MG. Tamanho da propriedade Nº de propriedades Percentagem de propriedades Área total (ha) Percentagem de áreas Menos de 1 há 30 3,00 28 0,05 1 a menos de 2 há 40 4,00 50 0,08 2 a menos de 5 há 160 16,00 600 0,98 5 a menos de 10 há 150 15,00 1.100 1,80 10 a menos de 20 há 153 15,30 2.234 3,66 20 a menos de 50 há 180 18,00 6.340 10,39 50 a menos de 100 há 130 13,00 8.450 13,85 100 a menos de 200 ha 90 9,00 12.600 20,65 200 a menos de 500 ha 52 5,20 16.120 26,42 500 a menos de 1000 há 7 0,70 4.300 7,04 Acima de 1000 há 8 0,80 9.200 15,08 Total 1.000 100 61.022 100

Fonte: Dados da realidade municipal (Emater, 2001).

De acordo com dados do censo da produção pecuária (IBGE, 2000), a bovinocultura de leite no município é explorada por aproximadamente 349 produtores, representando um volume total in natura estimado em torno de 41.644 litros de leite/dia (Quadro 5). Desse volume de produção, em torno de 5% são industrializados para consumo no próprio município e cerca de 95% são destinados à industrialização no estado de São Paulo.

QUADRO 5. Perfil da bovinocultura de leite no município de Boa Esperança, MG.

Exploração pecuária Produção/quantidade/ano Produção de leite no município 15.200.000 litros Matrizes em lactação/ordenhadas 6.600 cabeças

Vacas em descarte 1.300 cabeças

Plantel 32.200 cabeças

Para o escoamento desse volume de leite, o município conta com a Capebe, que tem uma infra-estrutura para a captação de 75.000 litros de leite diários e que, por ocasião da pesquisa, comercializava com a Cooperativa Paulista/SP cerca de 95% do total captado. A Capebe possui também uma plataforma com capacidade para recebimento de 5.000 litros diários, que são destinados exclusivamente à pasteurização e transformados em leite tipo “C”. Além disso, uma pequena parcela é transformada em derivados, como a manteiga e os queijos dos tipos mussarela e prato, cuja produção atende basicamente à demanda do município.

A Capebe possui ainda uma indústria de preparo, beneficiamento e comercialização de café, já que essa cultura é praticada pela maioria dos produtores. Aproximadamente 90% da produção desse produto são destinados ao comércio nas outras regiões do país.

O processo de granelização do leite no município de Boa Esperança foi introduzido por iniciativa da Capebe, em função de sua gestão de captação de toda a produção de leite local e de alguns municípios vizinhos para fornecimento à indústria Paulista S/A que, por ocasião da pesquisa representava um volume de aproximadamente 95.000 litros diários. Inicialmente, a Capebe procurou esclarecer, intermediar e financiar a aquisição do tanque de resfriamento para os produtores que, individualmente, forneciam o produto em grande escala. A partir de 1998, os tanques coletivos foram implementados, tendo a comunidade da Mata do Paiol sido a pioneira nesse tipo de experiência no município.

Para a adesão ao processo de granelização, a Capebe financiou a compra do tanque de refrigeração para os produtores em quinze parcelas sem juros e ofereceu ainda um percentual de pagamentos diferenciados, como o bônus por qualidade, por entrega a granel e por volume. Os dois últimos bônus foram constatados por meio de extratos de pagamento mensal, indicando um incremento em torno de R$0,05 por litro de leite. Tais bônus têm contribuído

substancialmente com o incremento da renda dos produtores ou para a amortização do financiamento de suas cotas/parte do tanque. Em outubro de 2001, cerca de 96% dos produtores de leite associados da Capebe já participaram do sistema de coleta de leite a granel, conforme se observa na Tabela 3.

TABELA 3. Percentagem de produtores que aderiram à granelização do leite pela Capebe no período de fevereiro de 1999 a outubro de 2001.

Mês/ano Volume/litros Percentagem de produtores

fev/99 1.518.050 27,18 ago/99 1.786.007 51,69 dez/99 1.589.416 65,25 mar/00 1.491.664 70,47 jun/00 1.740.902 86,23 set/00 2.141.624 87,50 dez/00 2.161.981 86,85 mar/01 2.293.654 87,85 jun/01 2.584.091 94,69 set/01 2.955.958 96,75 out/01 2.960.505 96,10

Fonte: Dados fornecidos pela Capebe, 2001.