2.2 APRENDIZAGEM ORGANIZACIONAL FORMAL E INFORMAL

2.2.4 Comunidades de Prática

As comunidades de prática são grupos de pessoas que partilham problemas ou interesses relativos a um assunto e que interagem regularmente para aumentar seus conhecimentos sobre esse determinado assunto (WENGER; MCDERMOTT; SNYDER, 2002). A comunidade de prática é ambiente propício para desenvolver competências ao disponibilizar espaço e contexto de interação, trocas, ação e práticas (BROWN, 1999; DUGUID, 2000). A transferência do conhecimento ocorre no processo de socialização e a combinação de competências que se dá nas oportunidades de troca (NAHAPIET; GHOSHAL, 1998). Conforme Stewart (1998), em relação ao capital intelectual, as comunidades de prática cumprem dois importantes papéis para a formação do capital humano: a transferência do conhecimento e a inovação.

Para Wenger (1998), as comunidades de prática são comunidades que reúnem pessoas unidas informalmente, com responsabilidades na condução do processo por interesses na aprendizagem e principalmente, na aplicação prática do aprendizado. As regras estabelecidas para o funcionamento e sua intenção são aspectos elementares para sua perpetuação, caso contrário há o risco de promover longos e improdutivos debates (SENGE, 2004). Cox (2005) explica que nas comunidades de prática não ocorrem relações de poder impostas, ademais, estas surgem de maneira natural e normalmente estão associadas ao domínio sobre as matérias por vários membros.

Segundo Wenger (1998), uma comunidade de prática se desenvolve por meio de relações recíprocas sustentadas, que podem ser harmoniosas ou conflituosas. Seus membros aderem em formas compartilhadas de fazer as coisas juntos, dividem valores, ferramentas, histórias, discurso e perspectivas de mundo. É isso que permite que informações e relações ocorram em uma comunidade. Assim, seus membros compõem identidades definidas no

interior das práticas sociais da respectiva comunidade. No trabalho de Wenger (2009), as comunidades de prática são consideradas como um sistema social de aprendizagem.

As comunidades de prática têm três aspectos principais: i) um compromisso recíproco assumido entre seus membros; ii) uma organização comum e um conjunto comum de rotinas; e iii) conhecimentos e regras tácitas de conduta. Ou seja, as comunidades de prática se constituem a partir de três elementos estruturais: o domínio, a comunidade e a prática. Nas quais o domínio é a capacidade individual e coletiva de experimentação e auxilia a criação de uma base comum para o desenvolvimento de uma identidade, o que legitima a existência da comunidade através da consolidação dos seus propósitos e dos seus partícipes (WENGER, MCDERMOTT; SNYDER, 2002).

Comunidades são arranjos sociais, onde os indivíduos participam por competência e as organizações são definidas pelo mérito, o que constitui o tecido social da aprendizagem que é uma questão de pertencimento e de participação, a comunidade é um grupo de pessoas que interagem, aprendem conjuntamente, constroem relações entre si com engajamento e pertencimento. No entanto, a ideia de comunidade não provoca homogeneidade e há diferenciação entre os membros que assumem papéis distintos e criam as suas diversas especialidades e estilos (WENGER, MCDERMOTT; SNYDER, 2002).

Uma comunidade de prática é mais do que uma rede pessoal, pois sua identidade é definida por uma área de conhecimento que representa um desafio a ser explorado e aperfeiçoado. Comunidade é uma configuração social na qual os empreendimentos são definidos como valor buscado e a participação é reconhecida como competência (WENGER, 1998). A aprendizagem pode ser vista como um processo de realinhamento entre a competência socialmente definida e experiência pessoal. Em ambos os casos, cada momento de aprendizagem é uma reivindicação de competência, que pode ou não pode ser abraçada pela comunidade. Inclusive, o conceito de comunidade de prática é utilizado para fornecer uma base de aprendizado para ancorar a história, na prática (WENGER, 2009)

Segundo Wenger (1998), cada um tem sua própria teoria e modo de entender o mundo e as comunidades de prática são lugares onde estes podem ser desenvolvidos, negociados e compartilhados. Para Cox (2008), uma comunidade de prática não é uma forma de requisitar a existência de um novo agrupamento informal ou de um sistema social dentro da organização, mas sim uma forma de enfatizar que toda prática social depende de processos por meio dos quais ela é sustentada e perpetuada, e que a aprendizagem se dá no envolvimento nessa prática. Inclusive, para Coakes e Clarke (2006), o sucesso de uma comunidade de prática depende da participação de seus membros ativos na geração de conhecimento e de partilha.

Não basta haver a comunicação para que a colaboração exista, além disso é necessário existir espaço comum, espaço de partilha (CARR; LOOPUYT; COX, 2002). Uma visão compartilhada pela comunidade de prática ajuda a construir a confiança e os relacionamentos, o que é particularmente importante para que seus membros compartilhem suas experiências e não receiem admitir que não sabem determinado assunto. Uma visão compartilhada é o passo inicial para garantir que pessoas que não confiam umas nas outras comecem a trabalhar em conjunto. De fato, a noção compartilhada de propósito, visão e valores operacionais da organização estabelece o nível mais básico de compartilhamento (SENGE, 2004).

Para Wenger, McDermott e Snyder (2002) a prática indica um conjunto de formas socialmente definidas de agir em um domínio específico: um conjunto de aproximações comuns e padrões compartilhados que criam uma base para a ação, a comunicação, a solução de problemas, o desempenho e a responsabilidade. Esses recursos incluem uma variedade de tipos de conhecimento como casos e histórias, teorias, regras, frameworks, modelos, princípios, ferramentas, especialistas, artigos, lições aprendidas e melhores práticas. Incluem aspectos tácitos e explícitos do conhecimento da comunidade em questão e um certo modo de se comportar, uma perspectiva em problemas e ideias, um estilo de pensamento, e até mesmo em muitos casos uma posição ética. Desta forma, uma prática é um tipo de mini cultura que conecta a comunidade.

Cook-Craig e Sabah (2009) e Wenger (2001) afirmam que comunidade de prática é um tipo específico de comunidade focado em um domínio do conhecimento e na experiência nesse domínio que cada um acumula ao longo do tempo. Para Saint-Onge e Walace (2003) há tipos de comunidades de prática como: comunidades de interesse, comunidades de aprendizagem ou comunidades de comprometimento e utilizam os critérios determinados por Wenger (1998) que podem ser identificados através de três formas: i) sobre o que tratam: qual empreendimento em comum; ii) como funciona: qual o compromisso mútuo que liga seus membros e iii) que competências produz: o repertório de recursos compartilhado ou comum a todos membros (rotinas, sensibilidades, equipamentos, vocabulário, estilos, etc.) que desenvolvem no decorrer do tempo.

Uma prática efetiva avança com a comunidade como um produto coletivo por ser integrado no trabalho de pessoas. A prática organiza conhecimento, o que é especialmente útil aos profissionais porque reflete sua perspectiva. Cada comunidade tem um modo específico de fazer sua prática visível pelas formas que desenvolve e compartilha conhecimento (WENGER; McDERMOTT; SNYDER, 2002). Uma comunidade de prática é diferente de uma equipe, pois é definida por um interesse em comum, e não por uma determinada tarefa que se tenha de

realizar. É também diferente de uma rede informal, porque tem tópico, tem identidade (LAVE; WENGER, 1991; WENGER; SNYDER, 2001).

Lave e Wenger (1991) recomendam que as comunidades de prática criem ferramentas de diagnóstico para que se possa fazer as distinções entre elas e outros tipos de arranjos coletivos. O que provavelmente contribua para que as comunidades de prática não percam seu caráter e sua identidade. Saint-Onge e Wallace (2003) examinam algumas características de acordo com o nível de complexidade e de comprometimento e a relação desses, com os objetivos e metas das comunidades.

De acordo com Wenger (1998b), há atividades determinadas em cada estágio do desenvolvimento da comunidade de prática. Uma comunidade de prática no estágio inicial está descobrindo suas possibilidades; no estágio seguinte, o crescimento conjunto e as respectivas conexões começam a ser estabelecidas; no terceiro, o que comporta as primeiras atividades, é o ponto alto das comunidades de prática e quanto mais tempo manter-se em atividade, mais incorporada e alinhada à estratégia da organização ela está. Inclusive, pessoas foram envolvidas, pois são estas que as mantém em operação. No estágio de dispersão o envolvimento é menor e os contatos estinguem-se. O último estágio, memorável, é aquele em que as pessoas lembram e preservam os artefatos e resultados conquistados no passado.

De acordo com Gherardi, Nicolini e Odella (1998), a comunidade de prática funciona como uma agregação informal de pessoas, delimitada não apenas pelos indivíduos que são membros do grupo, mas também pelas maneiras compartilhadas com que eles fazem as coisas e interpretam os eventos. Conforme proposto por Lave e Wenger (1991), o currículo de aprendizagem enfatiza a perspectiva da participação do aprendiz no grupo, enfocando as oportunidades de aprendizagem relacionadas a uma ocupação específica enquanto o currículo situado enfatiza o fato de que seu conteúdo está vinculado às características materiais, econômicas, simbólicas e sociais do sistema de práticas. Ademais, os conhecimentos e competências quando adquiridos em ambientes sociais concretos, normalmente ocorrem em comunidades de prática, desta forma, não é possível dissociar as competências do tecido social que as apoia (BROWN, 1999; DUGUID, 2000).

No documento Aprendizagem individual e grupal em serviços empresariais intensivos em conhecimento : um estudo de casos múltiplos (páginas 37-40)